LOGINUm contrato assinado no escuro. Um Conde consumido pela dor. Um segredo capaz de matar. Para salvar sua mãe e suas irmãs da miséria absoluta, Lady Anne Montgomery aceita o impensável: casar-se com o homem mais temido e misterioso da aristocracia inglesa. Lorde Edmund Thorne, o soturno Conde de Blackwood, não busca amor. Devastado pela morte trágica de sua noiva e pressionado pelas cláusulas de um testamento cruel, ele precisa apenas de uma esposa no papel para manter seu título. A regra era clara: ela teria sua fortuna, seu sobrenome e o luxo de Blackwood Manor, mas jamais teria seu coração. Porém, ao cruzar os portões da sombria mansão sob uma tempestade, Anne descobre que as paredes de Blackwood escondem mais do que o luto de seu novo marido. A ala oeste continua trancada, o perfume da falecida noiva ainda ronda os corredores e uma conspiração mortal ameaça a vida de qualquer mulher que ouse usar a aliança do Conde. Conforme a tensão entre os dois se transforma em uma atração incontrolável, Anne percebe que o passado de Edmund não está morto — e que o verdadeiro assassino ainda caminha entre eles, pronto para fazer dela sua próxima vítima. Até onde você iria para salvar quem ama quando o próprio amor é uma sentença de morte?
View MoreO aroma de chá de jasmim e feno-grego que costumava trazer paz ao salão de recepção do Chalé Montgomery agora parecia sufocante. Anne segurava a carta de cobrança entre os dedos com tanta força que o papel encorpado ameaçava rasgar. As dívidas deixadas pelo falecido pai não eram apenas numéricas; eram uma sentença que arrastaria sua mãe e suas duas irmãs mais novas para a miséria completa antes da próxima estação em Londres.
— Você não precisa fazer isso, minha querida — sussurrou Lady Clara, a mãe de Anne, com a voz embargada enquanto ajustava com mãos trêmulas o xale de lã sobre os ombros. — Encontraremos outro meio. Posso vender as últimas joias da família...
— As joias não pagam nem um terço dos juros de hipoteca deste mês, mamãe — respondeu Anne, mantendo a voz firme, embora seu peito apertasse. — E não permitirei que minhas irmãs sejam despejadas.
Anne caminhou até a janela que dava para a rua de paralelepípedos. A carruagem negra, ostentando o brasão gravado em prata da Casa Blackwood, acabara de parar em frente à entrada. A portinhola se abriu, e de dentro dela emergiu a figura imponente do Conde.
Lord Edmund Thorne parecia moldado a partir das próprias sombras da noite. Alto, de ombros largos sob o casaco de corte impecável e trajes num luto perpétuo, ele carregava uma aura que afastava qualquer tentativa de aproximação social. A aristocracia comentava em sussurros sobre o homem que se fechara no interior após a morte trágica de sua noiva, Lady Beatrice, consumida por uma febre misteriosa anos atrás. Diziam que seu coração havia morrido junto com ela no túmulo.
Quando os passos pesados de Edmund ecoaram pelo corredor e ele entrou na sala de estar, a temperatura do ambiente pareceu despencar. Seus olhos cinzentos e gélidos varreram o cômodo com escrutínio frio até pousarem em Anne.
— Lady Anne — disse ele. A voz era grave, ressonante e desprovida de qualquer calor. — Acredito que já saiba o motivo da minha visita sem anúncios prévios.
— Sei que o senhor possui as notas promissórias da minha família, Lord Blackwood — Anne deu um passo à frente, recusando-se a abaixar o olhar diante da postura intimidadora do nobre. — E sei que não veio aqui por mera caridade.
Edmund esboçou um meio sorriso sem um pingo de humor, tirando um envelope selado de dentro do sobretudo.
— Caridade é uma virtude para homens fracos, minha senhora. Eu estou aqui para propor um negócio. O testamento de meu pai exige que eu me case antes do meu trigésimo aniversário para manter o controle total das propriedades e do título de Blackwood. Caso contrário, tudo passa para a tutela do meu tio.
Ele deu mais dois passos em direção a ela, diminuindo a distância entre os dois até que Anne pudesse sentir a pressão da sua presença.
— Minha proposta é simples: o seu sobrenome em uma certidão e a sua presença em minha propriedade. Em troca, quito cada centavo das dívidas da sua família, garanto uma pensão vitalícia para sua mãe e o dote completo para suas irmãs.
Anne sustentou o olhar, sentindo o pulso acelerar.
— E quais são as suas exigências em relação a mim?
Edmund inclinou-se ligeiramente, baixando o tom de voz para que apenas ela ouvisse, um aviso cortante velado de civilidade:
— Você terá meu sobrenome, minha fortuna e o conforto da mansão. Mas não haverá demonstrações públicas de afeto, não haverá intromissão nos meus assuntos pessoais e, acima de tudo, Lady Anne... jamais espere encontrar afeição ou amor nesta união. Meu coração pertence ao passado.
A frieza daquelas palavras teria feito qualquer jovem da sociedade recuar, mas Anne apenas ergueu o queixo, assimilando a proposta com pragmatismo.
— Negócio fechado, milorde. Mas fique sabendo: não vendo minha dignidade. Exijo ter total liberdade para gerenciar o lar e acesso irrestrito à biblioteca de Blackwood Manor.
Um brilho fugaz de surpresa passou pelos olhos cinzentos de Edmund — a primeira rachadura em sua máscara de pedra —, mas ele rapidamente recuperou o controle. Ele estendeu o documento sobre a mesa de centro.
— Assine na linha indicada. A cerimônia será privada, em três dias.
Anne pegou a pena, molhou-a na tinta e assinou seu nome com mão firme, selando seu destino com o homem mais temido e enigmático da Inglaterra.
— Excelente — murmurou Edmund, guardando o documento. — Arrume suas malas. Na manhã após o casamento, partimos para o interior. Prepare-se, Lady Anne. A vida em Blackwood Manor não costuma ser gentil com estranhos.
Três dias depois, o som das rodas da carruagem cortava a estrada de terra sob uma chuva torrencial. O céu noturno estava carregado de nuvens escuras quando os portões de ferro fundido de Blackwood Manor se abriram.
Anne olhou pela janela e sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A mansão erguia-se como um gigante de pedra entre as árvores antigas, com pouquíssimas janelas iluminadas.
Edmund, sentado à sua frente em silêncio absoluto durante toda a viagem, finalmente se moveu quando o veículo parou diante da entrada principal.
— Chegamos — disse ele, abrindo a porta e oferecendo a mão envolta em luva de couro para ajudá-la a descer.
Assim que os pés de Anne tocaram o solo encharcado, um trovão ensurdecedor cortou o céu, iluminando a fachada da mansão por um segundo. Naquele relance de luz, Anne olhou para o segundo andar e prendeu a respiração.
Em uma das janelas mais altas do ala oeste — a ala que Edmund declarara estar estritamente proibida —, a silhueta de uma mulher vestida de branco observava a chegada da carruagem.
Antes que Anne pudesse piscar, um novo relâmpago clareou o local, mas a janela agora estava completamente vazia.
Edmund recebeu os documentos selados das mãos do magistrado, rompendo a cera vermelha com um abridor de prata,com uma calma surpreendente ele leu cada documento. O silêncio na sala de estar era quebrado apenas pelo farfalhar dos papéis timbrados que revelavam a vastidão dos esquemas de Thomas.— O que encontramos, Milorde — começou o magistrado, o tom formal, cauteloso e um pouco temeroso —, não se trata apenas de chantagem política. Durante a auditoria nos cofres privados que Lorde Thomas mantinha em um banco sob nome falso, descobrimos contratos de financiamento marítimo altamente questionáveis.Anne aproximou-se, lendo por cima do ombro de Edmund. Os documentos listavam nomes de navios mercantes e rotas comerciais, mas havia um padrão estranho nas mercadorias declaradas e nas somas exorbitantes associadas
A notícia do incêndio e da trágica "desaparição" de Lorde Thomas nas águas revoltas do riacho correu pela alta sociedade de Londres com a velocidade de um rastro de pólvora. Quando a carruagem do Conde de Blackwood parou novamente diante do número 14 da Grosvenor Square, três semanas após o incidente, o ar da capital não era mais impregnado por desconfiança, mas por uma curiosidade respeitosa.Anne desembarcou acompanhada de Edmund. A leve cicratiz que ela trazia no antebraço, coberta pela renda delicada de sua manga, era o único vestígio físico da noite do ataque.Dentro da residência da cidade, papéis e jornais acumulavam-se sobre a mesa de centro da sala de estar. As manchetes da imprensa aristocrática eram categóricas: a Coroa encerrara oficialmente as in
As primeiras luzes da alvorada trouxeram um céu cinzento e lavado, dissipando os resquícios da tempestade que castigara a região durante toda a noite. Homens do magistrado e guardas locais ainda vasculhavam o leito do riacho e a garganta das pedras em busca do corpo de Lorde Thomas, enquanto a fumaça fraca das brasas apagadas na ala oeste de Blackwood Manor subia para o céu.Dentro da mansão, o cenário era de reconstrução. Criados e trabalhadores limpavam a fuligem do salão de entrada, empilhando os restos de móveis destruídos pelo incêndio.No escritório do Conde, que permanecera intacto, o ar era denso. Anne estava sentada perto da janela, vestindo um traje simples de lã, com uma xícara de chá quente entre as mãos. Edmund permanecia de pé ao lado da lareira, a expressão séria enquanto o magistrado de Londres concluía o registro do depoimento.— As buscas continuam ao longo do rio, Milorde — declarou o magistrado, fechando o livro de atas e guardando a pena. — Mas, dada a violência d
A chuva voltou a cair com violência sobre os jardins de Blackwood Manor, transformando o solo em um lamaçal denso e ajudando os guardas a conter o avanço das chamas na ala oeste. No entanto, a escuridão dos bosques que cercavam a propriedade oferecia o esconderijo perfeito para um homem em fuga.Edmund e Anne cruzaram o pátio dos fundos a passos rápidos. O vento uivava entre as árvores antigas, cortando o ar frio da noite.— As pegadas dele seguem para a trilha das velhas minas — observou Edmund, agachando-se por um segundo ao lado da lanterna a óleo que trouxera. A marca profunda das botas de Thomas na lama fresca era inconfundível. — Ele quer alcançar o antigo chalé da caça perto do riacho. Há cavalos de reserva armazenados lá para emergências.— Ele não vai conseguir montar a cavalo na escuridão sob esta tempestade — disse Anne, ajustando a capa escura para se proteger do vento. — Mas se ele se entrincheirar no chalé, terá vantagem de terreno.— Por isso não daremos tempo para ele s
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