INICIAR SESIÓNNão demorou muito até que eu colocasse a chave na porta e entrasse. E lá estava ela. Berta. Pronta, arrumada, com um vestido justo e um salto que eu jamais conseguiria usar sem tropeçar.
— Dih! — ela exclamou animada. — Estava tentando falar com você! Vá se arrumar, tenho entradas pra uma nova casa de shows que acabou de abrir. Está todo mundo indo! — Nem pensar. — murmurei, deixando a bolsa cair no sofá. — Preciso descansar. Hoje o dia foi um desastre. — Por isso mesmo! — ela insistiu, empolgada. — Vamos! Prometo que voltamos logo. Você não vai me negar isso, vai? Por favorzinho?? O olhar dela, aquele brilho no rosto... e talvez um pouco da culpa me corroendo ainda por dentro, me fizeram ceder. — É... quem sabe seja bom mesmo. Preciso esquecer esse dia. Ela comemorou como se tivesse ganhado na loteria, e eu fui direto para o banheiro. Precisava de um banho, de água quente, de tentar lavar um pouco da vergonha que ainda grudava na pele. Enquanto a água escorria, a única coisa que vinha à minha mente era a expressão dele. O rugido, o olhar de fúria, o jeito como me expulsou da sala. Merda, Diana. Você precisa ser mais atenta. Mais forte. Menos você. Suspirei fundo, tentando empurrar o pensamento para longe. Minutos depois, estávamos entrando na casa de shows. As luzes, a música, o ambiente todo pareciam girar em torno de uma energia pulsante. Gente bonita, animada, euforia no ar. Mas algo dentro de mim apertou. Um desconforto. Um aviso. Como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda não entendia. — Berta... — tentei dizer. — Acho que não vou ficar... Antes que pudesse recuar de verdade, os seguranças já haviam aberto caminho, e fui praticamente empurrada para dentro com ela. Ficaria alguns minutos. Só até ela se distrair. Depois daria uma desculpa e iria embora. Pelo menos, esse era o plano. O que eu não esperava... era que ele estivesse aqui. Damian. No mesmo lugar que eu. E que, por algum motivo que eu ainda não conseguia entender, seu olhar me encontrasse no meio da multidão. Como se me reconhecesse pelo caos que eu carregava. Como se me enxergasse antes mesmo de querer me ver. E naquele instante, soube que o desastre do café não seria o maior problema da minha noite. — Diana? O som da minha voz me chamando faz meu estômago embrulhar. Congelo. Meu corpo inteiro fica gelado como se tivesse sido mergulhado em água fria. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar grave, firme, com um timbre que carrega autoridade e ameaça em igual medida. Viro devagar. E ali está ele. Damian Stark. Meu chefe. O homem que mais me intimida no mundo. Sinto o rosto perder a cor. O coração dispara tanto que quase me sinto zonza. Não deveria estar aqui. Eu sei disso. Não neste lugar. Não desse jeito. Tudo em mim denuncia o erro. A roupa, o olhar culpado, a respiração curta. — Eu... eu não sabia que o senhor vinha... eu só vim acompanhar uma amiga... não é o que parece... As palavras saem fracas. Não consigo sustentá-lo com o olhar. Me odeio por isso. Odeio parecer sempre essa versão frágil de mim quando ele está por perto. Mas não consigo controlar. E o pior... não é só medo. É vergonha. Vergonha de estar ali, vulnerável, fora do lugar. De ser vista por ele como alguém menor. Como se eu fosse uma criança brincando num mundo de adultos. Ele não responde. Apenas me encara. Aquele olhar dele me fura, me desnuda, me desmonta. E então, a ordem vem: — Venha comigo. A voz é seca. Sem espaço para negociação. Meu corpo reage antes da minha mente. Hesito. — Eu... não posso... minha amiga... — Agora, Diana. Engulo em seco. Não consigo dizer "não" a ele. Nunca consegui. Me sinto como uma sombra quando o sigo por entre a multidão. Meus olhos não focam em ninguém. Quero desaparecer. Ele me leva até um dos camarotes no andar superior, longe de tudo e todos. Assim que entramos, ele fecha a porta atrás de nós. O som do trinco me faz pular por dentro. Me viro devagar. Ele está me encarando de novo. A tensão entre nós é densa, quase visível.— Você tem ideia do que está fazendo? — pergunta, a voz ainda carregada, embora mais baixa. Respiro fundo. Preciso responder. Preciso ser firme. — Eu não vim aqui para isso... e nem sabia que o senhor estaria... eu juro. Não estou mentindo. Me surpreendo com a força da minha própria voz. Ele se aproxima. Um passo. Eu recuo. Outro passo. E meu corpo encontra a parede. Mas, dessa vez, não desvio o olhar. Por dentro, estou tremendo. Por fora, luto pra manter a firmeza. Ele me encara com aquela intensidade que mistura raiva, julgamento e... algo mais. Algo que me assusta tanto quanto me atrai. — Fale a verdade. Você veio aqui por quê? Está envolvida com alguém? Está me espionando? Tentando... subir na empresa?Ele me virou com cuidado, segurando meu rosto. Seus olhos encontraram os meus. E ali… eu me perdi. — Não faz isso com você… — ele disse, firme, mas cheio de carinho. Balancei a cabeça, deixando mais lágrimas caírem. — Eu coloquei ele em risco, Henri… — Não. — ele interrompeu na mesma hora. — Se eu não tivesse voltado— — Para. — a voz dele veio mais firme. Ele segurou meu rosto com mais intensidade. — Olha pra mim. Obedeci. Mesmo com os olhos marejados. — A culpa não é sua. — Mas— tentei falar... — Não é sua! — repetiu, sem deixar espaço para dúvida. O silêncio se instalou por um segundo. Pesado. — O erro é dele… — Henri continuou, com a voz carregada de raiva controlada. — E eu não vou deixar isso passar. Fechei os olhos, encostando minha testa na dele. — Eu fiquei com tanto medo…
O impacto foi direto. Preciso. Ele gemeu, dobrando o corpo. Antes que pudesse reagir, puxei sua cabeça com tudo… fazendo seu rosto encontrar meu joelho. O som seco ecoou. Ele caiu no chão, desorientado. Sangue. Me agachei lentamente, olhando dentro dos olhos dele. — Isso… — falei, fria — é só um aviso. Me aproximei um pouco mais. — E se for esperto… vai ficar bem longe. Ou eu vou atingir exatamente onde dói pra você. Me levantei, sem pressa. Segurei a mão de Henrique e entrei na casa, tentando conter a raiva que ainda fervia dentro de mim. — Henri… — falei, firme — eu quero que você abra um processo contra ele. Olhei diretamente para ele. — Com medida restritiva. Respirei fundo. — E aquilo que conversamos antes da sua viagem… pode iniciar. Minha voz saiu baixa… mas carregada de decisão. — Eu quer
Ficar longe do Henri foi difícil…Por mais que eu soubesse que logo ele estaria de volta, a saudade parecia não respeitar o tempo. Então me agarrei ao que podia: me dediquei de corpo e alma a organizar a nossa casa, a construir, nos detalhes, o início da nossa nova vida.A chegada dele… foi perfeita.Bento estava radiante, transbordando alegria, e eu… eu ainda nem tinha conseguido matar toda a saudade que carregava no peito. Mas só de estarmos juntos novamente… já era o suficiente para aquecer meu coração.Depois da ida à escola… depois do encontro com a Cecília… tudo mudou.O medo veio.Não pela verdade em si… mas pelo risco de expor o meu filho.E isso… eu não permitiria.Henri tentou me acalmar, como sempre faz. E, a cada dia que passa, tenho ainda mais certeza de que tirei a sorte grande por tê-lo na minha vida.O simples fato dele tomar a frente, de assumir o Bento como filho… de lutar por ele… é mais do que eu jamais poderia pedir.O genitor pode ter negado…Mas a vida trouxe um
Depois do café, Bento praticamente saltou da cama.— Pai! Eu preciso te mostrar a casa!Angelina cruzou os braços com um sorriso.— Eu passei dois dias escolhendo tudo, então prepare-se.— Estou curioso.Bento segurou minha mão e começou a puxar pelo corredor.— Primeiro o meu quarto!Quando ele abriu a porta, deu para ver o orgulho no olhar dele.O quarto era claro, espaçoso, com uma cama grande e prateleiras já preparadas para os brinquedos.— Uau… — falei olhando em volta. — Isso ficou incrível.Bento abriu os braços.— E olha o espaço pra brincar!Angelina encostou no batente da porta, me observando.— Eu disse que ele ia gostar.— Gostar? Ele amou.Depois ele nos arrastou para o jardim.— Aqui vai ter minhas brincadeiras!Angelina apontou para a mesa.— E aqui vamos jantar nas noites quentes.Passeamos pela casa inteira.A cozinha, a sala, os quartos de hóspedes… cada detalhe tinha o toque dela.
Bento apareceu correndo pela sala.Nem tive tempo de me abaixar direito. Ele simplesmente pulou em cima de mim.— Ei! — eu ri, segurando ele no ar. — Calma aí, campeão!Ele me abraçou pelo pescoço com força.— Você demorou muito!— Foram só dois dias!— Foi muito!Angelina cruzou os braços, fingindo indignação.— Ah, então para mim não foi nada?Bento olhou para ela e depois para mim, pensativo.— Pra mamãe também foi muito.Nós dois rimos.Abracei ele mais forte por um momento.— Eu senti saudade de vocês dois.— Eu também senti — Bento respondeu, com a sinceridade típica de criança.Angelina se aproximou novamente e passou a mão pelo cabelo dele.— Agora alguém precisa dormir.— Não! — ele protestou. — Eu falei que ia dormir com vocês hoje!Olhei para Angelina, divertido.— Já tem regras nessa casa?Ela deu de ombros.— Eu não mando mais em nada.Bento levantou o dedo, sério.— Hoje é exceç
Quando decidi que faria tudo por Angelina, não foi por impulso. Foi por amor.Um amor que chegou silencioso… e quando percebi, já tinha tomado conta de tudo.Angelina entrou na minha vida de um jeito que nenhuma outra mulher conseguiu.Com ela encontrei algo que nunca tive antes: companheirismo, amizade… e uma paixão que não era apenas fogo, era abrigo.Ela tem esse jeito dela…meigo, atencioso, cuidadoso com todos ao redor.E foi justamente isso que me desarmou.Conquistá-la não foi fácil.Minha pequena levantou muralhas altas ao redor do coração, e eu precisei provar todos os dias que não iria embora.E então havia o Bento.Eu o vi crescer desde muito pequeno.Com aquele olhar curioso, o sorriso fácil… e o mesmo jeito doce da mãe.No começo eu tomei cuidado.Não queria invadir o espaço dele, nem forçar um lugar que talvez não fosse meu.Mas a verdade… é que, dentro de mim, eu já me sentia pai dele há muito tempo.Foi por







