FAZER LOGINAceitar o emprego de babá do mafioso mais temido da cidade parecia uma péssima ideia. E eu estava certa. Carlo Dalmonte é arrogante, mandão e completamente perdido quando o assunto é a própria filha. Já Beatrice, uma menina autista de quatro anos, só precisava que alguém respeitasse seu tempo. Tudo ia relativamente bem... Até ela olhar para mim e me chamar de mamãe. Agora preciso sobreviver às guerras da máfia, às provocações de um homem que adora testar minha paciência e ao maior desafio de todos: não me apaixonar pela família que eu jamais planejei ter.
Ver maisSe alguém tivesse me dito, há uma semana, que eu pisaria na mansão do mafioso mais temido da Itália para trabalhar como babá, eu teria perguntado se a vaga incluía seguro de vida.
O Uber parou diante de um portão de ferro preto que mais parecia a entrada de uma fortaleza. As câmeras nos pilares se moveram lentamente, como olhos mecânicos me avaliando. Respirei fundo, alisando a saia lápis que eu havia garimpado em um brechó na semana anterior.
— Bom... ou eu consigo esse emprego ou começo a vender miojo gourmet.
O motorista soltou uma risada curta. Eu não.
Meu aluguel vencia em quatro dias, e a minha conta bancária estava mais vazia do que minhas esperanças de uma vida tranquila.
Assim que desci do carro, o vento quente de Roma bagunçou os fios soltos do meu cabelo castanho escuro. Dois homens de terno preto surgiram como sombras do outro lado do portão, grandes, silenciosos e com expressões que não deixavam espaço para questionamentos. Um deles, o mais alto, deu um passo à frente.
— Senhorita Noemi?
Cruzei os braços, tentando esconder o tremor nos dedos.
— Depende. Se for para me contratar, sou eu. Se for para me prender, nunca ouvi falar dessa mulher.
Nenhum dos dois esboçou um sorriso. O silêncio que se seguiu foi tão constrangedor que quase pude ouvir minhas piadas batendo no chão e se estilhaçando.
“Que povo difícil.”
— Precisamos revistar sua bolsa. — O segurança anunciou, estendendo a mão.
Entreguei minha bolsa de couro sintético sem reclamar. Ele abriu o zíper com a delicadeza de quem desarma uma bomba, e foi aí que o espetáculo começou.
Primeiro, ele retirou um pacote de balas de goma. Depois, um caderno espiral repleto de desenhos infantis, girafas desproporcionais, sóis sorridentes e uma infinidade de arco-íris que eu havia rabiscado em noites de insônia. Em seguida veio um estojo de canetinhas coloridas, lenços umedecidos, álcool em gel, uma fita adesiva, massinha de modelar, um livro infantil com as bordas mastigadas e, finalmente, um spray de pimenta.
O segurança ergueu uma sobrancelha, segurando o pequeno cilindro preto como se fosse um artefato suspeito.
— Spray de pimenta?
Dei de ombros, o sorriso mais inocente que consegui colar no rosto.
— Sou mulher.
Ele não respondeu, mas seus dedos continuaram vasculhando até encontrar algo no fundo da bolsa. Quando sua mão emergiu novamente, entre o polegar e o indicador estava um pequeno dinossauro de plástico verde, com um dos braços ligeiramente torto e um olho pintado à mão, obra de alguma criança que eu havia cuidado semanas atrás.
O segurança franziu a testa, virando o brinquedo de um lado para o outro.
— Isso também é equipamento de defesa?
— Não. Esse é o Roberto.
O silêncio voltou a pairar, mais pesado do que antes. O segurança me olhou. Olhou para o dinossauro. Depois me olhou de novo, provavelmente reconsiderando todas as suas escolhas de vida que o levaram àquele momento.
— Pode entrar.
Agradeci com um aceno de cabeça e guardei o Roberto de volta na bolsa, sussurrando para ele:
— Fomos aceitos.
O segurança menor revirou os olhos.
Atravessei os jardins da propriedade tentando parecer corajosa, e falhando miseravelmente. A mansão era uma construção imponente, com colunas de mármore e janelas que se estendiam do chão ao teto, mas o que mais me impressionou foi o silêncio. Um silêncio estranho, artificial, como se até os pássaros tivessem sido avisados para não cantar.
Silêncio demais para um lugar onde mora uma criança.
E então o choro cortou o ar.
Não era um choro de birra, eu conhecia bem a diferença. Era um choro desesperado, daqueles que saem da garganta como se o corpo estivesse pedindo socorro. Meu estômago se contraiu antes mesmo que minha mente processasse o que estava acontecendo. Meus pés se moveram sozinhos, guiados por um instinto mais antigo do que qualquer medo de mafiosos.
Esqueci a entrevista. Esqueci Carlo Dalmonte. Esqueci que eu era apenas uma estranha na propriedade mais perigosa de Roma.
Segui o som pelos corredores, meus saltos baixos ecoando no piso de mármore. A porta de um quarto estava entreaberta, deixando escapar uma faixa de luz amarelada. Lá dentro, uma menininha de cabelos escuros estava encolhida no chão, os joelhos pressionados contra o peito e as mãos pequenas firmemente apertadas sobre as orelhas. Duas funcionárias uniformizadas se agachavam próximas a ela, uma tentando tocá-la, a outra falando palavras que se perdiam no desespero da criança.
Nenhuma delas percebeu minha presença na porta.
Respirei fundo e larguei minha bolsa no corredor, sentindo o peso do medo e da empatia brigando dentro de mim.
— Posso tentar?
As duas se viraram ao mesmo tempo, seus olhos arregalados me avaliando da cabeça aos pés. Não esperei pela resposta. Entrei devagar, meus passos medidos como se eu estivesse caminhando sobre cascas de ovos. Ajoelhei no tapete felpudo, mantendo uma distância segura da menina, sem tocar, sem invadir o pequeno mundo que ela havia construído ao seu redor.
Minha voz saiu quase em um sussurro.
— Oi... eu sou a Noemi.
A menina não levantou os olhos. Suas mãos continuaram pressionadas contra as orelhas, mas seus dedos se contraíram levemente, como se algo no meu tom a tivesse alcançado. Foi um movimento quase imperceptível, mas eu vi.
E foi nesse exato instante que uma voz masculina, grave e afiada, cortou o quarto pelas minhas costas.
— Quem autorizou essa mulher a entrar aqui?
Meu estômago despencou. Nem precisei me virar para saber quem estava atrás de mim. O leve sotaque italiano carregado de autoridade, o tom que não admitia questionamentos, a sensação imediata de perigo que sua presença emanava.
Carlo Dalmonte havia chegado.
E eu ainda nem tinha assinado o contrato.
Acordei com a sensação de estar sendo observado.Não era uma sensação desconfortável, pelo contrário. Era estranhamente acolhedora, como se alguém estivesse ali há tempo suficiente para que a presença se tornasse parte do ambiente. Abri os olhos lentamente, o escuro do quarto me recebendo com suavidade.Noemi estava acordada, deitada ao meu lado, os olhos escuros fixos em mim. Não fazia ideia quando ela havia deitado ali. Ela não disse nada quando percebeu que eu tinha acordado, apenas sustentou meu olhar, os cachos castanhos espalhados sobre o travesseiro, a expressão indecifrável.— Você está me olhando enquanto durmo. — Minha voz saiu rouca, arrastada pelo sono.— Estou verificando se você melhorou. — Ela sorriu de leve, aquele sorriso que não se decidia entre a timidez e a provocação. — Está com cara de quem dormiu.— Dormi. O remédio ajudou.— E a cabeça?— Melhor. A dor passou.— Que bom. — Ela se espreguiçou levemente, os braços se esticando sobre o lençol. — Agora precisa com
Saí do escritório pouco depois das dez da noite.O dia havia sido longo demais, e meu corpo cobrava o preço de cada hora que eu passara fingindo que estava tudo bem. A cabeça latejava desde o meio da tarde, uma dor surda e persistente que começara atrás dos olhos e se espalhara lentamente até ocupar cada centímetro do meu crânio. Eu conhecia aquele tipo de dor. Sabia o que significava: noite mal dormida, estômago vazio, tensão acumulada.A enxaqueca chegou sem avisar, como sempre fazia, e agora estava instalada com uma força que fazia cada passo ecoar dentro da minha cabeça como um martelo.Apaguei a luz do escritório e fechei a porta, meus dedos hesitando na maçaneta por um instante. O corredor estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes baixas de sempre. A casa inteira respirava em paz, mergulhada naquela quietude que só existia depois que Beatrice dormia.Caminhei devagar, uma mão apoiada na parede para manter o equilíbrio. A luz fraca parecia me furar os olhos, e cada pequeno
Passei os dedos pela borda da cadeira, mantendo minha voz calma e controlada. Eu sabia que precisava escolher bem as palavras, Carlo era do tipo que se fechava ao menor sinal de pressão, e eu não queria que aquela conversa terminasse com ele me expulsando do escritório.— Você não precisa fazer nada por mim, se é isso que está pensando. Não estou aqui pra cobrar nada, não espero nada em troca.Os olhos dele voltaram para os meus, atentos, como se tentassem decifrar alguma intenção oculta por trás das minhas palavras.— Eu não estou pensando isso.— Está. Dá para ver no seu rosto. Você tem essa expressão de quem está tentando descobrir qual é o preço de cada gesto.— Não estou. Você está projetando.— Carlo, eu não trouxe esses biscoitos porque quero alguma coisa de você. Não é uma troca, não é uma negociação, não é estratégia.Ele permaneceu imóvel, esperando que eu continuasse. Os olhos claros não se desviaram dos meus, e havia algo neles que eu não soube nomear. Uma expectativa sile
Não consegui esquecer que Carlo não havia almoçado.Tentei. De verdade. Depois de deixar Beatrice com Teresa, voltei para o meu quarto, tomei um banho rápido e passei alguns minutos tentando organizar as roupas que ainda estavam espalhadas pelas caixas abertas. Consegui dobrar exatamente três blusas antes de perceber que estava olhando para a mesma peça havia quase cinco minutos, meus dedos alisando o tecido sem propósito algum, minha mente completamente em outro lugar.Carlo não havia almoçado.Eu não sabia por quê, e aquilo estava me incomodando de uma forma desproporcional. Talvez porque ele tivesse passado os últimos dias agindo de maneira estranha, circulando pela casa como se procurasse algo que não sabia nomear. Talvez porque tivesse dormido mal — eu vi as olheiras escuras sob seus olhos naquela manhã, e a lembrança dele saindo do quarto de Beatrice com a expressão exausta ainda estava gravada na minha memória. Talvez porque eu ainda estivesse preocupada com a suposta febre qu












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