Share

O casamento

last update Petsa ng paglalathala: 2025-10-12 08:31:31

Tharok lançou um olhar rápido ao amigo. Em seguida, voltou a atenção para a cena diante de si.

A mulher se debatia com o corpo curvado, como uma fera acuada. Os cabelos longos e loiros, estavam molhados, embolados, dando a impressão de terem sido lavados à força e depois abandonados ao vento.

Alguns fios grudavam na testa; outros escorriam pelos ombros como serpentes venenosas preste a atacar.

O vestido de linho bruto, azul-escuro, de mangas longas e rendadas, varria os degraus de pedra enquanto ela era arrastada escada abaixo. As pernas se chocavam contra os degraus, os pés descalços arranhavam o chão, e ela gritava — não de dor. De terror.

— Me soltem! Eles estão vindo!

O olhar se ergueu de repente, fixando-se no teto, dando a impressão de que algo rastejava por ali. Os olhos estavam dilatados, perdidos em um mundo que só existia para ela.

Poço de ossos. Era pior do que ele imaginara.

— Deviam aproveitar que o padre está aqui e tentar um exorcismo — sussurrou uma voz velha atrás de Tharok, seca, mal disfarçando o desprezo.

— Como se isso adiantasse — respondeu outra, com um riso curto. — Alarë é a vergonha do clã. Logo… nos livraremos dela.

Tharok permaneceu imóvel, observando e ouvindo.

Os gritos. O tumulto. Os olhares desviados, tentando fingir normalidade. E, pela milésima vez, perguntou-se em que abismo o pai o havia lançado.

Broc soltou o ar ao seu lado.

— Tem certeza de que vamos levar isso… para o nosso clã?

Certeza ele não tinha, mas precisava fazê-lo. Virando o rosto na direção do amigo rosnou.

— Essa é sua futura lady. Demonstre o mínimo de respeito.

— Tharok…

Mas ele já se afastava, sem permitir que o outro concluísse.

Raios. Broc tinha razão.

Doía admitir, mas a pergunta era inevitável: o que era pior?

Isso… Ou uma guerra?

Ele podia lidar com uma louca.

Precisava acreditar nisso.

Já enfrentara exércitos famintos.

Feras da floresta no vale do Leste.

Duelo após duelo no Sangue Antigo.

E aquilo?

Uma mulher que gritava e sussurrava para o nada?

Não deveria ser nada.

Aproximou-se de Aven. O homem parecia menor agora, esmagado pelo próprio constrangimento.

— Ainda pode desistir — murmurou ele. — Juntos convenceremos o rei.

O olhar que recebeu de Tharok foi longo. Definitivo.

— E depois? — a voz do rapaz saiu seca. — Meu nome espalhado pelos quatro cantos como veneno ao vento. O jarl que quebrou um juramento. O filho que cuspiu na memória do pai.

Não. Absolutamente não.

Jamais faria isso. Como líder do clã tinha seu orgulho.

— Avise o padre — ordenou, virando-se.

Caminhou até o centro do tumulto.

Alguns se aproximavam, outros se afastavam apressados, cruzando os dedos, murmurando orações, como se a simples presença de Alarë contaminasse o ar.

O jovem jarl abriu caminho.

Ela estava no chão, encolhida. Os cabelos loiros cobriam-lhe o rosto. A cabeça enterrada entre os joelhos. O corpo balançava de um lado para o outro num ritmo instável. O polegar da mão direita subia e descia pela unha, frenético. Os punhos cerrados. A boca murmurava palavras incompreensíveis.

Não era uma mulher.

Era medo em estado bruto.

Tharok abaixou-se com cautela e pousou a mão sobre o ombro dela.

— Levante-se — murmurou, próximo ao ouvido.

Nada.

Apertou um pouco mais firme contra o osso frágil.

Foi o bastante.

Ela se virou como um animal encurralado.

E o mordeu.

Os dentes se cravaram em sua mão. Mandíbulas cerradas. O som veio antes da dor.

Crac.

— Maldita seja!

Tharok afastou-se bruscamente, mas o sangue já escorria pela pele. Olhou para ela, o sangue fervendo nas veias — e ela devolveu o olhar… ou tentou.

Os olhos estavam abertos, porém vazios. Não havia ninguém ali — disso ele tinha certeza.

E, em meio à humilhação pública, ao sangue e ao caos, uma verdade pulsou dentro dele.

A loucura dela condenaria seu clã.

Em um acesso de ira, arrastou Alarë até a mesa baixa, onde o padre aguardava. A moça se debatia, chutava o chão, mas ele não a soltou.

Ninguém se aproximou. Ninguém sustentou o olhar por mais de dois segundos.

O padre lançou-lhe um olhar carregado de pena. O mesmo conhecia a ordem do rei. Todos conheciam. Nada podia ser feito.

Broc surgiu ao lado. Segurou a jovem com força, enquanto Tharok imobilizava o polegar. A resistência dela foi breve. Então, ele afundou o dedo de Alarë na tinta escura e o prensou contra o pergaminho com brutalidade.

Estava feito.

A marca.

A promessa em carne.

Faltava apenas a parte dele.

Entregou-a a Broc, que a segurou firme, arrastando-a para longe da multidão. Ela ainda gritava, olhos selvagens, palavras desconexas lançadas ao ar como maldições, fazendo o ouvido de todos latejar.

Tharok pegou o pergaminho. Assinou.

Nome completo.

Título.

Juramento.

No fim, selou.

Agora era oficial.

Ela era sua.

Largou a pena sobre a mesa e apoiou as mãos na madeira, o peito arfando. Baixou a cabeça e fechou os olhos com força.

Os gritos dela ecoavam do lado de fora. O burburinho ainda preenchia o salão.

E dentro dele… apenas vazio.

Não havia clima para festa.

Ao inferno com aquilo. Tudo o que queria era ir embora.

— Ela dará trabalho — disse Meviria, surgindo atrás dele. — Deveria levar alguém do nosso clã para cuidar dela. Leve Elarim. As duas são como irmãs. Minha filha será útil.

Irmãs?

Outra mentira conveniente.

Tharok não pensou. Não queria pensar. Se pensasse, ruiria.

A situação era pior do que previra. A vergonha era real. Aquilo afundaria seu clã.

E quando perguntassem quem fora o idiota que assinara por ela…

Seu nome estaria no topo.

— Diga a Elarim que prepare as coisas. Partimos agora.

— Já está tudo pronto.

— Ótimo. — Tharok virou-se para o padre. — Informe ao rei que o acordo foi cumprido.

O padre hesitou, respirou fundo, tentou dizer algo.

Tharok já se afastava. Não queria ouvir conselhos, nem piedade, nem palavras bem ensaiadas.

— Você sabe que terá de… cuidar dela — disse o padre, por fim. — O jarl entende o que um casamento exige?

Tharok parou. Virou o rosto lentamente e o encarou.

— Eu sei exatamente o que é um casamento. Guarde seus ensinamentos para quem deseja ouvi-los.

Logo após, saiu do salão com passos firmes.

Do lado de fora, seus homens já montavam os cavalos. O vento ainda cortava a pele. O céu parecia ainda mais cinza e vazio.

Alarë não estava à vista, mas os gritos vinham abafados, presos dentro da carruagem trancada.

E tudo o que conseguiu pensar foi:

Ela vai gritar a viagem inteira?

Malditos sejam os deuses.

Patuloy na basahin ang aklat na ito nang libre
I-scan ang code upang i-download ang App

Pinakabagong kabanata

  • A Prometida do Viking   Contra toda razão

    — O selo real... — Broc observou o broche de ouro repousando sobre a mesa. Seus dedos tocaram a peça apenas por um instante antes de recuar. — Tem certeza de que realmente pretende usá-lo? Tharok acabara de retornar a Dravharn. A viagem da capital havia lhe rendido mais perguntas do que respostas. Agora, debruçado sobre um mapa de Valéris, analisava rios, estradas, aldeias e fortalezas. Antes de tomar qualquer decisão, pretendia descobrir quem realmente estava por trás do envenenamento de Alarë, quem lucrava com sua suposta loucura e quais homens permaneciam leais a Aven. Não pisaria em Valéris apenas como um jarl. Entraria sabendo exatamente onde pisaria. — Só se for preciso. — respondeu, desviando os olhos do mapa. — E Valéris? Unirá as terras ou continuará dividida? Tharok permaneceu alguns segundos em silêncio. — Continuará dividida. Broc franziu a testa. — Tem certeza? — Tenho. Antes de qualquer união, há algo que preciso fazer. — Descobrir quem tentou mat

  • A Prometida do Viking   Vou protegê-la

    O rei apoiou a taça sobre a mesa. — Não precisa defender a moça. Nós a vimos crescer. Lidamos com a situação dela desde a morte de Ivor. — Ela não é louca. — Dessa vez a voz de Tharok saiu mais firme. Mais dura. A rainha sustentou seu olhar sem vacilar. — E por que diz isso? O guerreiro inclinou-se para frente. — Porque conheço minha esposa. O rei arqueou uma sobrancelha. — Em poucos meses? — Mais do que muitos a conheceram em anos. — O comentário arrancou um silêncio desconfortável. — Ela estava sendo envenenada. A rainha empalideceu e o rei permaneceu imóvel. — Cuidado com essa acusação, Tharok. — advertiu o rei. — Não é uma acusação. É um fato. — Tem provas? — Tenho indícios suficientes para não ignorar. A rainha apertou os braços da cadeira. — Explique. — Durante todo o tempo comigo, ela não teve uma única crise. — Isso não significa... — Significa muito. — Tharok a interrompeu. — Ela passou meses longe de Valéris. Meses sem as infusões que lhe

  • A Prometida do Viking   Alarë não louca

    O rei convocar uma conversa particular não surpreendeu Tharok. Após a refeição, ele acompanhou os soberanos até uma pequena sala reservada nos aposentos reais. Antes de sair, deixou Alarë no quarto, prometendo que não demoraria. Assim que entrou, foi convidado a sentar-se. Uma serva serviu-lhe vinho e retirou-se em silêncio, fechando a porta atrás de si. O ambiente ficou estranhamente quieto. Apenas o crepitar da lareira preenchia o espaço. — Bem. — O rei apoiou os braços na cadeira. — Vamos ao que realmente o trouxe aqui. Tharok sustentou seu olhar. — Estou ouvindo. — Você possui duas terras grandiosas. Seu pai lhe deixou Dravharn e Ivor lhe confiou Valéris através de Alarë. Mas unir os dois povos da forma como eles desejavam... é uma ideia ousada demais. E temo que isso possa lhe causar problemas no futuro. O guerreiro permaneceu em silêncio. No fundo, ele compreendia o que o rei queria dizer. Antes de conversar com Alarë, talvez até concordasse. Mas muita coisa ha

  • A Prometida do Viking   Unir os povos

    Uma batida soou na porta. Alarë terminou de ajustar o vestido ao corpo e ergueu o olhar na direção de Tharok. O jovem guerreiro estava sentado próximo à porta, analisando um mapa das terras de Valéris. Mais cedo ou mais tarde teria de lidar com aquele assunto, mas primeiro precisaria descobrir o que o rei desejava deles. A batida repetiu-se. — Jarl, o rei os convida para o jantar. Tharok levantou-se e abriu a porta. Do outro lado encontrava-se William, o capitão da guarda. — Desculpe-me perturbá-los. — Estávamos esperando. William assentiu. — Sua Majestade pediu que os acompanhasse pessoalmente. Tharok apenas concordou com um movimento de cabeça antes de voltar-se para Alarë. Seu olhar demorou-se nela. A moça havia trocado as roupas de viagem por um vestido digno de uma senhora de clã. O vestido principal fora feito à mão por sua mãe. Ele possuía um suave tom rosado, semelhante às primeiras flores que despontavam após o inverno. Sobre ele repousava uma túnica s

  • A Prometida do Viking   Ordens do rei

    Tharok fez um gesto para que seus homens o acompanhassem. Então pousou uma das mãos nas costas de Alarë, guiando-a para frente. Ao seu lado, Alarë observava tudo com atenção, esforçando-se para absorver o máximo possível daquele lugar. O interior do castelo era ainda mais impressionante do que sua aparência externa. As paredes eram cobertas por tapeçarias coloridas que retratavam batalhas antigas, reis do passado e navios enfrentando mares revoltos. Grandes colunas de pedra sustentavam o teto elevado, enquanto tochas presas em suportes de ferro iluminavam os corredores com uma luz dourada e tremulante. Esculturas de animais e guerreiros adornavam nichos ao longo dos corredores, e em vários pontos era possível ver brasões pertencentes à família real. Enquanto subiam as escadarias, nenhum dos empregados cruzava diretamente o olhar com eles. Ainda assim, Alarë percebia os olhares discretos, todos pareciam curiosos. Talvez fosse impossível não ser quando um jarl poderoso e sua r

  • A Prometida do Viking   Castelo real

    Alarë tentou afastar a admiração que sentiu ao vislumbrar o castelo real e o vilarejo da capital. Talvez fosse por achar a propriedade maior que a de Tharok. Não. Para falar a verdade, se juntassem os castelos de Valéris e Dravharn, ainda não chegariam perto da grandiosidade do palácio que se erguia diante de seus olhos. Altas muralhas de pedra cercavam toda a cidade real. Torres elevavam-se em direção ao céu, exibindo os estandartes do rei que balançavam ao vento. Ruas largas fervilhavam de atividade. Mercadores anunciavam suas mercadorias, carroças cruzavam os caminhos e pessoas de diferentes clãs caminhavam de um lado para outro. Alarë ficou impressionada com o que tinha diante dos olhos. O local era completamente diferente dos territórios que conhecia. Os castelos dos clãs costumavam ficar mais afastados, cercados por florestas, montanhas ou fiordes. O castelo real, porém, erguia-se no coração da cidade, dominando tudo ao redor como uma montanha de pedra construída por m

Higit pang Kabanata
Galugarin at basahin ang magagandang nobela
Libreng basahin ang magagandang nobela sa GoodNovel app. I-download ang mga librong gusto mo at basahin kahit saan at anumang oras.
Libreng basahin ang mga aklat sa app
I-scan ang code para mabasa sa App
DMCA.com Protection Status