Mag-log inREENCONTRO
CONSTANZA O dia começa antes mesmo de o sol romper completamente as nuvens pesadas que cobrem o Hudson Valley. — O frio da manhã atravessa o tecido grosso do uniforme enquanto caminho da área reservada aos funcionários até a entrada lateral do hotel. Aperto o casaco contra o corpo e apresso o passo, tentando afastar o cansaço acumulado de mais uma madrugada mal dormida. Chiara teve uma crise de tosse abafada durante a madrugada. Nada grave, graças a Deus, mas o suficiente para me manter alerta, vigiando cada respiração miúda, temendo que o chiado no peito se transformasse em algo pior. Desde a primeira reação alérgica que minha filha sofreu, quando ainda era uma recém-nascida indefesa, qualquer ruído fora do comum vindo do berço faz meu coração disparar em um desespero cego. Mesmo exausta, preciso trabalhar. Minha família me ajuda como pode na vinícola, mas recuso-me a sobrecarregar meus pais com a responsabilidade financeira de sustentar a mim e a minha menina. O que colhemos e vendemos garante o básico da nossa casa, mas não sobra quase nada. É o salário fixo deste resort que paga as consultas médicas de Chiara, os remédios controlados e as poucas coisas que consigo comprar para ela sem precisar estender a mão a ninguém. Cumprimento os funcionários que cruzam o meu caminho nos corredores de serviço, guardo o casaco pesado no armário e ajeito o uniforme diante do pequeno espelho do vestiário. Prendo os cabelos em um coque firme e rigoroso, confiro se o crachá está perfeitamente alinhado e respiro fundo antes de encarar a jornada. O Bellavista Hudson Resort está mais movimentado e caótico do que de costume. Há funcionários apressados atravessando os saguões com arranjos florais, caixas de bebidas finas e pastas de documentos executivos. Desde a semana anterior, o ar nos corredores vibra com os boatos sobre a venda definitiva do hotel. O senhor e a senhora Bellini, já idosos, desejam retornar para a Itália e, como não tiveram filhos, decidiram passar o comando para alguém capaz de preservar a identidade e o padrão que construíram ao longo de décadas. Eu não conheço o comprador. Sei apenas por cima do que comentam: trata-se de um empresário implacável, dono de uma rede internacional de hotéis de luxo, que chegou na noite passada e está hospedado na suíte presidencial enquanto os advogados finalizam as últimas cláusulas contratuais. Para mim, em termos práticos, isso não muda absolutamente nada. Independentemente de quem seja o homem bilionário que assina os papéis lá em cima, os cômodos precisam ser limpos, as camas esticadas com perfeição cirúrgica e os banheiros impecáveis antes que o sol atinja o pino do meio-dia. Encontro a senhora Mitchell, a gerente da governança, próxima ao elevador de serviço. Ela segura a prancheta de couro contra o peito, distribuindo ordens rápidas para duas camareiras. Assim que me avista, faz um gesto firme para que eu me aproxime. — Bom dia, Constanza. — Bom dia, senhora Mitchell. Ela passa os olhos rapidamente pela lista de tarefas antes de disparar as instruções: — Quero que você comece direto pela suíte presidencial. O hóspede desceu há pouco para tomar o café da manhã na área reservada. Faça a limpeza completa e o mais rápido possível antes que ele retorne, e depois siga para a ala leste do quarto andar. Estendo a mão para pegar a chave eletrônica magnética que ela me entrega. — Sim, senhora. — Tenha cuidado redobrado com aquele quarto, Constanza — a gerente adverte, baixando o tom de voz. — O senhor hospedado ali é o novo dono de tudo isto. Não podemos cometer nenhuma falha. — Pode deixar. Faço o meu trabalho de sempre — respondo com firmeza, mantendo a postura neutra. Empurro o carrinho de metal carregado de produtos de limpeza, panos e toalhas limpas para dentro do elevador de serviço. Organizo mentalmente a sequência das minhas obrigações. Se eu trabalhar com agilidade e foco absoluto, conseguirei terminar a suíte e os quartos designados antes do encerramento do expediente. Quero voltar correndo para casa. Chiara tem estado carente nos últimos dias, choramingando e esticando os bracinhos sempre que me vê vestir o uniforme de camareira. O elevador freia suavemente no último andar, abrindo as portas para o silêncio absoluto da cobertura. O corredor é espaçoso, revestido por tapetes grossos que abafam o som dos passos, decorado com quadros clássicos e aparadores de madeira escura. Pelas grandes janelas de vidro ao fundo, é possível avistar o campo de golfe coberto por uma névoa fina de outono. Mais adiante, as trilhas para caminhada somem entre as árvores, e o rio Hudson espelha o cinza melancólico do céu. Paro diante da porta pesada da suíte presidencial. Bato três vezes com nós dos dedos, mantendo o tom profissional. — Serviço de quarto. Aguardo alguns segundos. Nenhuma resposta do outro lado. Bato novamente, um pouco mais forte, ponderando que o hóspede talvez esteja no banheiro privativo ou com os fones de ouvido. — Serviço de quarto. Posso entrar? O silêncio continua denso. Aproximo o cartão magnético do leitor eletrônico. A luz verde pisca, a fechadura estala e a porta se abre pesadamente. Empurro o carrinho para o hall de entrada, anunciando minha presença mais uma vez para o caso de haver algum equívoco. A sala de estar está completamente vazia. Sobre a mesa de mogno há pastas de contratos abertas, um notebook de última geração e uma xícara de café pela metade, esfriando. Pensei que ele já tivesse descido, mas talvez tenha saído pelos fundos ou se recolhido ao quarto. Fecho a porta com cuidado e começo a separar os produtos de limpeza na bandeja. Dou apenas dois passos em direção ao corredor interno quando um som estranho corta o ar. Não é uma palavra. Não é um chamado. É um ruído abafado, um esforço violento e desesperado de alguém tentando puxar o ar e falhando miseravelmente. Fico totalmente estática no meio do carpete, prendendo a respiração para confirmar se o que ouvi é real. O som se repete. Um engasgo seco, seguido por um gemido sufocado que rasga o silêncio da suíte.BÔNUS — CATARINAO dia em que aquela desgraçada da Patrícia decidiu que o meu destino seria este convento isolado, em vez de exigir a minha execução imediata no porão, eu jamais imaginei que passaria dez longos anos da minha vida trancada aqui dentro. — No começo de tudo, tomado pelo desespero e pela indignação, eu pensei sinceramente que seria apenas uma questão de poucas semanas até que o meu pai interferisse e exigisse a minha liberdade de volta.— Depois imaginei que meus filhos, algum parente distante de consideração ou qualquer uma das pessoas influentes que um dia me cercaram na alta sociedade acabariam fazendo alguma coisa real por mim. Ninguém mexeu um único dedo para me resgatar. Ninguém veio me visitar.Foi assim, da forma mais dolorosa e fria possível, que eu compreendi que, se eu quisesse sair daquele inferno, minha libertação dependeria única e exclusivamente de mim mesma.Nos primeiros anos de clausura, qualquer tentativa de fuga ou rebelião seria absolutamente imposs
PATRÍCIADez anos depoisDez anos se passaram voando desde o dia em que me casei com Elia e, algumas vezes, ainda me surpreendo profundamente quando me pego pensando em tudo o que construímos juntos nesse tempo. — Nossa casa mudou radicalmente, nossa família cresceu com a chegada de mais bênçãos e nossos filhos trouxeram uma agitação viva e maravilhosa que nenhum de nós dois poderia ter previsto anos atrás.— A antiga mansão silenciosa, que durante décadas serviu como centro de decisões rígidas e perigosas da máfia, agora está quase sempre cheia de vozes infantis, discussões calorosas entre irmãos, risadas gostosas e passos apressados correndo sem parar pelos corredores de pedra. Foi exatamente essa a vida abençoada e alegre que nós dois escolhemos construir longe do medo e da violência.Elia chega do trabalho mais cedo hoje, o que imediatamente chama a minha atenção e desperta a minha curiosidade. — Eu conheço perfeitamente a rotina de negócios do meu marido e sei muito bem que e
Observo os dois caminhando juntos e sinto o toque suave de Patrícia no meu braço:— O seu pai está completamente apaixonado e rendido por esse menino, ela comenta com voz doce.— Meu filho descobriu o único segredo no mundo para dar ordens ao antigo Don Cesare sem sofrer nenhuma consequência, respondo, sorrindo.— Acho que a pequena Chiara também consegue dobrar o avô do mesmo jeito ela lembra.— É a mais pura verdade, concordo.Todos os convidados se aproximam da mesa principal decorada.— Patrícia fica posicionada ao meu lado, e eu mantenho uma das minhas mãos repousada na sua cintura enquanto todos cantamos parabéns para o nosso filho. — Cesare acompanha tudo animado, batendo palmas e olhando para as velas acesas como se estivesse diante da tarefa mais importante dos seus três anos de vida.Quando chega o momento solene de apagar as velas do bolo, ele se prepara com fôlego, mas de repente para e olha diretamente para o avô:— Nonno! — ele chama.— O que foi, meu filho? — meu pai
ELIATRÊS ANOS DEPOIS Foi exatamente o tempo necessário para cumprir a promessa que fiz a Patrícia e ao meu filho antes mesmo de ele nascer nesta casa. — Durante esses três anos inteiros, não abandonei minhas responsabilidades de uma hora para outra, porque sabia perfeitamente que uma decisão impensada poderia colocar minha família em um risco ainda maior, fiz o contrário em cada detalhe. — Organizei cada empresa, regularizei tudo o que precisava ser regularizado e separei definitivamente os negócios legítimos de qualquer atividade ligada à máfia. Preparei minha saída definitiva com a mesma determinação com que, um dia, aceitei assumir uma posição de comando que nunca desejei para mim.Também preparei Tommaso com extrema paciência e rigor para assumir meu lugar no comando da organização. — Não por amizade, favor ou dívida antiga, e muito menos porque pretendo continuar comandando alguma coisa através dele, escolhi Tommaso porque acredito de verdade que, entre os homens capazes de
ELIAVoltamos para a nossa mansão em Palermo alguns dias depois do nascimento do pequeno Cesare, e entrar na nossa casa carregando o meu filho nos braços provoca uma sensação indescritível que eu não consigo comparar a absolutamente nada do que já vivi nesta terra. — Eu conheço perfeitamente cada centímetro quadrado daquela propriedade, caminhei por aqueles corredores de pedra milhares de vezes durante a minha vida e sempre soube exatamente o valor de autoridade e de perigo que eles representavam para a minha família. — Naquele dia abençoado, entretanto, tudo ao meu redor parece profundamente diferente e renovado.— Pela primeira vez na minha história, eu não olho para a mansão como a residência oficial do Don ou como parte do patrimônio da máfia. Eu olho para aquela casa como o lar abençoado onde o meu filho Cesare dará os seus primeiros passos na vida ao nosso lado.Patrícia ainda precisa de repouso para se recuperar do parto e da cirurgia no ombro, e eu faço questão absoluta de
Ali dentro daquele ambiente hospitalar não existe o homem imponente diante do qual tantos abaixam a cabeça com medo na cidade.— O homem carinhoso que prepara o meu banho quando chego cansada, que cuida do meu ombro com curativos quando ainda sinto alguma dor da cicatriz, que conversa com a minha barriga todas as noites antes de dormir e que passou os últimos meses prometendo ao nosso filho uma infância em paz, completamente diferente daquela que ele conheceu na juventude.E é exatamente esse homem sensível e amoroso que segura a minha mão com força quando Cesare finalmente vem ao mundo.— Às quinze horas e trinta minutos em ponto, o choro alto e forte do nosso filho toma conta de toda a sala de parto.Por um instante abençoado, todo o resto do universo simplesmente desaparece ao meu redor.Meu coração dispara no peito e as lágrimas invadem meus olhos ao ouvir aquele som maravilhoso. — Depois de tudo o que nós vivemos juntos, depois do atentado terrível na rua, do medo constante e do







