LOGINLargando o pano de microfibra sobre o carrinho, sigo a passos largos pelo corredor que conduz à suíte master.
O espetáculo que encontro paralisa o meu sangue. Amadeu está sentado na beirada da cama king-size, curvado profundamente para a frente, com os cotovelos fincados nas coxas, tentando em vão inflar os pulmões. Ele veste apenas uma calça social cinza e a camisa branca de botões semiaberta, preparando-se para descer. Mas o seu rosto... o rosto dele está completamente irreconhecível. A pele encontra-se grotescamente inchada, escarlate em alguns pontos e arroxeada em outros. Os lábios estão tomados por um roxo alarmante e os olhos, esbugalhados pelo pânico absoluto da sufocação, buscam oxigênio onde ele simplesmente não existe. Com uma das mãos, ele arranha o próprio peito com força; com a outra, tateia desorientado o criado-mudo ao lado. — Senhor! — grito, rompendo a paralisia. Corro desabalada até a beira da cama, ajoelhando-me diante dele. — O que aconteceu? Consegue me ouvir? Ele tenta mover os lábios, mas nenhum som coerente consegue transpor a garganta fechada pelo inchaço alérgico. Os olhos azuis — aqueles mesmos olhos que eu conheço tão bem — fixam-se nos meus com uma súplica desesperada, enquanto sua mão trêmula aponta freneticamente para a gaveta aberta do criado-mudo. Não penso duas vezes. Mergulho a mão na gaveta e encontro o que ele tenta indicar: uma pequena bolsa térmica preta e, dentro dela, frascos e uma caneta de auto-injeção de adrenalina. — É isto? — pergunto, levantando o objeto. Ele confirma com um aceno violento e desatinado da cabeça. Retiro a tampa de segurança da caneta com os dentes trêmulos, posiciono o dispositivo na parte externa da coxa dele, por cima do tecido fino da calça, e pressiono com firmeza até ouvir o clique seco do mecanismo disparando a dose de emergência. — Fique comigo! — ordeno, segurando seus ombros largos para firmá-lo. — O remédio já vai fazer efeito! A respiração dele continua falhando, um chiado medonho escapando de sua traqueia estrangulada. O corpo inteiro treme com a falta de oxigênio. — Respire devagar. Olha para mim, Amadeu! — grito, abandonando por um segundo a formalidade profissional, tomada pelo pânico puro. — Não feche os olhos! Fique comigo! As mãos grandes dele agarram o meu braço com uma força descomunal, cravando os dedos na minha pele através da manga do uniforme. Sinto o desespero cru emanando daquele aperto, o terror primitivo de quem sente a vida escapar pelas pontas dos dedos. Com a mão livre, estico-me para trás, tateando o aparelho telefônico sobre a mesa de cabeceira. Pego o fone e disco os números da recepção com pressa cega. — Aqui é a suíte presidencial! — falo com a voz esganiçada e trêmula. — O hóspede está tendo um choque anafilático severo! Acabei de aplicar a injeção de adrenalina, mas ele está sufocando! Mandem o médico do resort imediatamente e chamem uma ambulância de plantão! Rápido! A recepcionista balbucia algo assustada na outra linha, mas eu já bato o gancho antes de ouvir a resposta, voltando toda a minha atenção para o homem que definha na minha frente. Pouco a pouco, segundo após segundo que parecem durar horas inteiras, a rigidez do corpo dele começa a ceder. O chiado estridente na garganta vai dando lugar a lufadas de ar mais profundas, ainda irregulares e ruidosas, mas que finalmente voltam a oxigenar o seu cérebro. O inchaço extremo ainda deforma seus traços, mas o tom arroxeado dos lábios vai recuando para um tom mais natural. A força sobre-humana com que ele apertava o meu braço vai se desfazendo lentamente até que sua mão escorrega, frouxa, sobre os lençóis. — Isso... — sussurro, com a testa banhada em suor frio, sentindo as minhas próprias pernas fraquejarem. — Continue respirando. O pior já passou. Os olhos dele, vermelhos e marejados pelo esforço extremo, voltam a se fixar nos meus. Sob a camada espessa do inchaço, há um lampejo profundo de reconhecimento que tenta emergir, mas a exaustão o puxa para baixo com violência. Segundos depois, a porta da suíte se abre com estrondo. O senhor Bellini irrompe no quarto acompanhado por sua esposa, dois funcionários e o médico residente do hotel carregando a maleta de urgência. — Meu Deus do céu! — grita o senhor Bellini, estacando na porta. O médico avança rapidamente, assumindo o controle da situação, afastando-me com cuidado para verificar os sinais vitais, auscultar o peito de Amadeu e preparar novos medicamentos intravenosos de suporte. Somente nesse instante, com o quarto tomado por pessoas e a emergência sob controle, permito que o meu corpo reaja. As minhas mãos começam a tremer descontroladamente, balançando ao lado do corpo. A senhora Bellini se aproxima, tocando o meu ombro com a palma da mão trêmula. — Minha filha... você está bem? Viu o que aconteceu? — Estou, senhora Bellini — respondo com a voz oca, engolindo em seco a secura da garganta. — Ele teve uma reação alérgica muito forte. Encontrei a caneta de adrenalina na gaveta e apliquei a tempo. Agora o médico já está cuidando dele. — Você salvou a vida dele, Constanza... — ela murmura, com os olhos arregalados de espanto. Olho mais uma vez para a cama. Amadeu está deitado, pálido, com os olhos fechados e a respiração finalmente estabilizada sob a supervisão do médico. Não há mais nada que eu possa fazer ali. — Com licença, senhora — digo, recuando em silêncio.Amadeo concorda lentamente com a cabeça, demonstrando apoio total:— Mesmo assim, muita gente conservadora da família não vai aceitar facilmente a sua decisão de entregar o comando do império a Tommaso, pontua.— O nosso pai não tem irmãos vivos e nem sobrinhos próximos, pois foi filho único, explico a lógica. — Entre entregar o comando da organização a alguém incompetente apenas porque possui algum parentesco distante comigo e escolher o homem em quem eu realmente confio a minha vida, eu fico sem hesitar com o Tommaso.— E quem será o segundo no comando dele para manter a ordem? — Amadeo pergunta.— Giorgio respondo prontamente. — Ele é o meu homem de confiança mais leal. Já está tudo devidamente alinhado e definido com eles.— Então você realmente planejou cada passo dessa transição nos mínimos detalhes, meu irmão elogia.— Eu nunca prometi para a Patrícia uma mudança de vida sem saber exatamente como começar a cumpri-la na prática — afirmo.Amadeo olha para o relógio de ouro em
ELIA O dia do meu casamento finalmente chega e, apesar de sempre ter me considerado um homem racional, difícil de surpreender ou de perder o controle das minhas emoções, descubro que esperar pela mulher que escolhi para dividir a minha vida consegue fazer o tempo passar com uma lentidão desesperadora. — Estou terminando de me arrumar em um dos apartamentos reservados da propriedade, totalmente separado da mansão principal por determinação expressa e irrestrita das mulheres da família. — Segundo as regras rigorosas e antigas impostas por elas, o noivo não pode ver a noiva vestida para a cerimônia sob hipótese alguma antes da entrada triunfal. Essas mulheres e suas tradições inegociáveis.— Ajeito os punhos de abotoaduras da camisa de seda e confiro o caimento do meu paletó escuro diante do grande espelho do quarto. — Eu já estou completamente pronto há muitos minutos, mas continuo encontrando qualquer detalhe mínimo para arrumar no terno enquanto espero a hora exata de descer.
Os mês seguinte parecem voar muito mais depressa do que eu consigo acompanhar no calendário. — Entre as sessões diárias de fisioterapia para a recuperação do meu ombro, as consultas de acompanhamento do pré-natal, os detalhes finais do enxoval e os preparativos para o grande dia, a figura de Catarina vai se transformando apenas em uma lembrança distante e sem força. — A cicatriz no meu ombro permanece visível na pele, mas eu aprendo a olhar para ela no espelho sem permitir que a memória me devolva à dor daquele atentado.— A minha barriga também começa a crescer devagar, denunciando o segredo abençoado que durante algum tempo nós dois conseguimos guardar das pessoas. Quando faltam exatamente dois dias para a cerimônia do nosso casamento em Palermo, Constanza e Amadeo desembarcam novamente na Itália. — Eu corro animada para abraçar a minha melhor amiga assim que a vejo entrar pela porta da mansão, mas ela mal termina de me dar um abraço saudoso e já abaixa os olhos surpresos diret
PATRÍCIA Os dias passam devagar no hospital e, finalmente, recebo a tão esperada alta médica. — Voltar para a nossa casa deveria significar o retorno gradual à normalidade dos nossos dias, mas Elia parece ter uma interpretação completamente diferente da palavra recuperação. — Desde o exato momento em que atravesso a porta de entrada da mansão, ele passa a me tratar como se fosse uma escultura extremamente frágil feita de cristal. — Ele observa com atenção cada passo que dou pelos cômodos, pergunta a todo instante se estou sentindo dor no ombro, não permite que carregue absolutamente nada, por mais leve que seja, e chega ao ponto ridículo de acompanhar com os olhos atentos qualquer pequeno movimento que faço dentro do quarto. No começo de tudo, até acho graça daquele zelo exagerado dele. — Depois de algumas horas de convivência, entretanto, percebo que, se não colocar um limite bem claro agora mesmo, meu noivo será capaz de me carregar no colo pela casa inteira apenas para evi
PATRÍCIAEscuto a voz profunda e quente de Elia ecoando à distância, embora eu não consiga compreender de imediato tudo o que ele está dizendo ao meu lado.— A consciência retorna devagar, acompanhada por uma sensação extremamente pesada espalhada por todo o meu corpo e uma dor insistente e aguda no ombro direito. — Tento abrir os olhos imediatamente, mas minhas pálpebras parecem pesadas demais para obedecer aos meus comandos. — Percebo então uma mão grande e firme envolvendo a minha com delicadeza e reconheço aquele toque acolhedor antes mesmo de conseguir enxergar o seu rosto. Reúno um pouco de força que me resta e aperto seus dedos devagar.— Você está acordando finalmente, meu amor, estou bem aqui ao seu lado, você está viva — a voz de Elia ressoa carregada de alívio.A voz dele se torna cada vez mais nítida e consegui finalmente abrir meus olhos devagar.— A claridade do quarto me incomoda no primeiro momento, por isso pisco algumas vezes até minha visão se ajustar por comple
Ele lamenta profundamente o que aconteceu, disse que não concorda em nada com o crime e afirmou que acatará sem questionar qualquer decisão que o senhor tomar sobre o destino dela.— Excelente, concluo. — Mantenham Catarina trancada na última cela. Ninguém conversa com aquela ordinária sem a minha autorização direta.— Entendido, Don Elia, homem finaliza.Eu encerro a ligação e entro no carro blindado com o meu motorista. Durante todo o percurso até a mansão, eu fico encarando as manchas de sangue seco na minha camisa. —'Algumas horas atrás, Patrícia estava sorrindo ao meu lado no carro e falando entusiasmada sobre trabalhar comigo na empresa. —'Agora ela permanece sedada em um leito de hospital porque uma mulher louca, que sequer procurou conhecer a verdade do passado, decidiu transformar na culpada por um casamento que já estava falido.Assim que eu chego em casa, eu encontro a governanta esperando no hall de entrada. — A Fran arregala os olhos ao ver o meu terno sujo de sangu







