Mag-log inElena Moretti cresceu aprendendo que mulheres da sua família não tinham escolhas, apenas obrigações. Silenciosa, obediente e presa dentro de uma casa onde o medo falava mais alto que o amor, ela passou a vida sendo manipulada pelo próprio pai, um homem disposto a usar a própria filha para fortalecer alianças perigosas. Virgem e inocente, Elena é entregue em um casamento por contrato para Dante Castellani, herdeiro de uma das famílias mais temidas da máfia italiana. Frio, calculista e marcado pela violência do mundo em que nasceu, Dante nunca precisou de amor para conquistar poder. Mas, ao conhecer a mulher frágil que lhe foi dada como parte de um acordo, algo dentro dele começa a sair do controle. O que deveria ser apenas um contrato logo se transforma em uma relação intensa, obsessiva e perigosa. Enquanto Elena tenta sobreviver em meio a mentiras, disputas familiares e traições cruéis, inimigos começam a surgir de todos os lados, inclusive dentro da própria casa. Cercada por pessoas que desejam destruí-la, ela descobrirá que sua sobrevivência custará muito mais do que imaginava. Porque naquele mundo, amor e poder caminham lado a lado. E confiar na pessoa errada pode ser fatal. Entre dor, desejo, perdas e redenção, Elena precisará deixar de ser apenas uma vítima para se tornar algo muito mais forte: Uma sobrevivente.
view morePrólogo — Parte I
A noite em que Elena aprendeu a temer.
A chuva caía pesada sobre a propriedade Vilaro, como se o céu inteiro estivesse tentando fugir daquela casa.
O vento atravessava os campos escuros ao redor da mansão, fazendo as árvores antigas rangerem como criaturas vivas.
Os relâmpagos iluminavam as janelas altas por segundos rápidos, revelando a fachada elegante da propriedade antes de devolvê-la à escuridão.
Durante o dia, a mansão parecia respeitável.
Rica.
Intocável.
À noite, porém, ela se transformava.
Virava um lugar onde o silêncio tinha peso.
Onde os corredores pareciam longos demais.
Onde cada porta fechada escondia alguma coisa que ninguém ousava mencionar.
Elena Vilaro aprendeu isso cedo demais.
Naquela noite, aos nove anos, ela estava escondida atrás do corrimão da escada principal, abraçada aos próprios joelhos.
A camisola branca grudava em sua pele por causa do suor frio.
Ela tentava respirar devagar, quase sem fazer barulho.
No quarto do andar superior, Isadora dormia profundamente.
Pequena demais para entender.
Pequena demais para saber que monstros podiam usar terno, falar baixo e ser chamados de pai.
Lá embaixo, na sala principal, vozes atravessavam a casa.
A de Gael Vilaro veio primeiro.
Fria.
Afiada.
— Você pensou que eu não descobriria?
Elena sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Depois veio a voz da mãe.
Mirela.
Baixa.
Trêmula.
Desesperada.
— Gael por favor…
—As meninas…
O estalo ecoou pela casa.
Seco.
Violento.
Elena fechou os olhos imediatamente.
Ela conhecia aquele som.
Conhecia bem demais.
Era o som da mão do pai encontrando pele.
O som que fazia sua mãe esconder os braços sob mangas longas mesmo no verão.
O som que transformava o jantar em silêncio absoluto.
O som que ensinava duas meninas pequenas a nunca derrubarem copos, nunca fazerem perguntas, nunca chorarem alto.
Mas naquela noite havia algo diferente.
Algo pior.
O ar parecia pesado demais.
Como se a própria casa soubesse que alguma coisa irreversível estava acontecendo.
— Você me envergonhou! Gael rosnou.
Mirela começou a chorar.
— Eu nunca traí você…
—Nunca…
Elena apertou os dedos contra a madeira do corrimão até sentir dor.
Queria correr.
Queria abraçar a mãe.
Queria puxá-la pela mão e fugir dali com a Isadora.
Mas o medo era maior que seu corpo.
Era como se mãos invisíveis apertassem sua
garganta, prendendo-a naquele lugar.
Então ouviu a mãe dizer:
— Eu só queria salvar minhas filhas.
O silêncio que veio depois foi pior que qualquer grito.
Lentamente, Elena abriu os olhos.
Pela fresta entre as grades da escada, conseguiu enxergar parte da sala principal.
Mirela estava descalça.
Os cabelos escuros caíam sobre os ombros em ondas bagunçadas. O rosto estava molhado de lágrimas.
Havia uma marca vermelha surgindo em sua bochecha.
Mesmo assim, ela permanecia de pé.
Tremendo.
Mas de pé.
E, pela primeira vez, Elena percebeu algo estranho na mãe.
Coragem.
Uma coragem triste.
Desesperada.
Como se Mirela soubesse que perderia, mas ainda assim se recusasse a abaixar a cabeça.
Gael estava diante dela, enorme dentro da camisa social escura. Seus olhos pareciam vazios.
Desumanos.
— Minhas filhas? Ele repetiu com desprezo.
— Elas pertencem a mim.
Mirela balançou a cabeça devagar.
— Não. Elas não são propriedade sua.
Elena prenderia aquela frase na memória para sempre.
Porque foi a última vez que ouviu a mãe falar com firmeza.
Gael avançou.
Tudo aconteceu rápido demais.
Elena levou as mãos à boca antes que o grito escapasse.
Viu o pai agarrar Mirela pelos braços.
Viu a mãe tentar se soltar.
Viu os dois desaparecerem parcialmente atrás de uma coluna da sala.
Então veio o barulho.
Um corpo atingindo o chão.
Um som pesado.
Errado.
O mundo pareceu parar.
Por alguns segundos, Elena não conseguiu respirar.
O relógio da sala continuava fazendo tic-tac.
A chuva continuava batendo nas janelas.
Mas alguma coisa havia acabado.
Ela desceu um degrau involuntariamente.
E viu.
Mirela caída no tapete claro.
Imóvel.
O sangue começou a se espalhar lentamente sob sua cabeça, manchando o tecido bege como tinta escura.
Elena sentiu o estômago embrulhar.
Seu corpo inteiro começou a tremer.
Gael permaneceu parado diante do corpo da esposa, respirando pesadamente.
Não parecia assustado.
Não parecia arrependido.
Parecia irritado.
Como se tivesse apenas corrigido algo que o incomodava.
Naquele instante, Elena deixou de ser criança.
Ela queria correr até a mãe.
Queria acordá-la.
Queria acreditar que aquilo não era real.
Mas então Gael virou o rosto.
E olhou diretamente para a escada.
Diretamente para ela.
O coração de Elena quase parou.
Por um segundo interminável, pai e filha ficaram imóveis.
Separados apenas pela sombra.
Ele sabia que ela estava ali.
E Elena soube, naquele mesmo instante, que o homem olhando para ela seria capaz de qualquer coisa.
Gael começou a subir os degraus lentamente.
Um.
Dois.
Três.
Elena acordou do choque.
Virou-se rapidamente e correu pelo corredor escuro.
Seus pés descalços batiam contra o piso gelado enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto.
Ela entrou no quarto de Isadora e fechou a porta com cuidado.
A irmã dormia agarrada a uma boneca velha.
Tão pequena.
Tão inocente.
Elena correu até a cama e a abraçou com força.
Isadora resmungou sonolenta.
— Lena…?
— Shhh…
Elena sussurrou, tremendo.
— Não fala nada.
Então ouviu os passos.
Pesados.
Lentos.
Parando diante da porta.
A maçaneta girou devagar.
Elena sentiu o sangue gelar.
A porta se abriu lentamente.
Gael apareceu no vão, iluminado pelos relâmpagos que atravessavam a janela.
Havia uma mancha escura em sua manga.
Seu rosto estava assustadoramente calmo.
Ele olhou primeiro para Isadora.
Depois para Elena.
E sorri de forma quase gentil.
Foi isso que mais a assustou.
Porque monstros deveriam parecer monstros.
Mas Gael parecia apenas um pai cansado.
— Sua mãe caiu da escada. Disse ele calmamente.
Elena não respondeu.
Sentia Isadora respirando contra seu peito.
Sentia o coração batendo tão forte que parecia machucar.
Gael entrou no quarto.
O cheiro dele invadiu o ar.
Álcool.
Chuva.
E sangue.
Ele se abaixou diante da cama, ficando na altura dela.
— Você entendeu o que aconteceu?
Elena sentiu as lágrimas queimarem seus olhos.
Mas não chorou.
Alg
uma coisa dentro dela compreendeu que sobreviver dependia da resposta seguinte.
E, pela primeira vez na vida, ela mentiu.
— Sim, papai.
Gael segurou seu rosto com os dedos frios.
— Boa menina.
Naquele momento, Elena aprendeu que o medo podia manter alguém vivo.
E, naquela casa, sobreviver seria a única coisa que importava.
A Fazenda Águas Profundas surgiu no horizonte quando o fim da tarde já derramava tons dourados e avermelhados sobre os campos, mas Elena não experimentou o alívio que costumava sentir ao reconhecer as cercas, os pastos extensos e a linha brilhante do lago entre as árvores. Durante toda a viagem de volta, a pequena caixa de Mirela permaneceu sobre suas pernas, protegida por seus braços como se carregasse algo vivo, enquanto a fotografia dos três irmãos estava guardada no bolso interno de sua jaqueta. Dante dirigia em silêncio ao seu lado, respeitando a necessidade que ela demonstrara de organizar pensamentos que pareciam grandes demais para caber dentro de si, e Lorenzo seguia no banco traseiro, igualmente calado. Algumas vezes, Elena ergueu os olhos para o retrovisor e encontrou o olhar dele. Não precisavam dizer nada. Cada vez que isso acontecia, uma nova lembrança parecia se mover dentro dela, ainda incompleta, mas mais próxima. Quando os portões da fazenda se abriram, porém, u
O segundo ruído metálico atravessou o compartimento secreto e interrompeu brutalmente o reencontro que Elena esperara durante uma vida inteira sem sequer saber que ainda esperava. O corpo de Lorenzo reagiu antes de qualquer palavra.Em um único movimento, ele a colocou atrás de si, enquanto Dante avançava pelo outro lado e Salvatore erguia a arma em direção às estantes do fundo. Valentina apagou uma das lanternas, reduzindo a quantidade de luz dentro do cômodo, e os dois homens da segurança assumiram posições próximas à porta. Elena permaneceu imóvel durante alguns segundos, o rosto ainda molhado pelas lágrimas, tentando fazer o coração compreender que acabara de recuperar o irmão e poderia estar prestes a entrar em outra armadilha preparada por Gael. Então percebeu Lorenzo diante dela, os ombros tensos, os braços ligeiramente afastados do corpo, formando uma barreira entre ela e o perigo. Uma lembrança surgiu tão violentamente que quase lhe arrancou o ar. O corredor daquela mesm
CAPÍTULO 12 — O IRMÃO QUE NÃO MORREUParte 1O nome de Lorenzo pareceu atravessar Elena por dentro antes mesmo que ela conseguisse compreender tudo o que significava. Durante alguns segundos, o cômodo secreto desapareceu ao redor dela. As caixas de documentos, os cofres, as fotografias, a luz fria das lanternas e até a presença de Dante deixaram de existir. Restou apenas aquele rosto diante do seu. Um rosto que ela acreditara apagado pelo tempo, mas que agora se reorganizava dentro da memória em fragmentos cada vez mais nítidos. Os olhos verdes. A cicatriz na sobrancelha. A maneira de inclinar a cabeça quando queria tranquilizá-la. O jeito de colocar o próprio corpo entre ela e qualquer ameaça. Tudo começou a voltar com uma violência silenciosa, não como uma única lembrança, mas como dezenas de pequenos estilhaços que encontravam o lugar certo depois de anos perdidos. Elena sentiu o ar desaparecer dos pulmões. Os dedos se fecharam ao redor da fotografia até o papel começar a ama
A porta de ferro permanecia diante deles como uma ferida que o casarão dos Vilaró passara anos tentando esconder. O antigo escritório de Gael parecia menor desde que Salvatore deslocara a enorme estante de madeira e revelara a passagem secreta, e a poeira levantada pelo movimento ainda flutuava sob os fachos de luz que atravessavam as persianas quebradas, misturando-se ao cheiro de mofo, ferrugem e madeira apodrecida. Do lado de fora, o vento atravessava as árvores abandonadas da propriedade e fazia uma veneziana bater em intervalos irregulares, produzindo um som que Elena reconheceu antes mesmo de compreender por quê. Quando criança, ouvira aquele mesmo ruído durante noites inteiras, deitada sem dormir, contando mentalmente os minutos até Gael chegar e tentando adivinhar, pela força com que ele fechava a porta principal, se vinha bêbado, irritado ou apenas procurando alguém sobre quem descarregar a própria brutalidade. Seus dedos se fecharam lentamente ao redor da mão de Dante. N
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