FAZER LOGINO homem que todos temiam
A chuva piorou perto do meio-dia.
Grossas gotas batiam contra as janelas da mansão Vilaro enquanto Elena permanecia parada diante do espelho rachado do quarto, tentando controlar a tremedeira nas mãos.
O vestido cinza que usava parecia apertado demais no peito, sufocando-a a cada respiração.
Lá embaixo, vozes masculinas ecoavam pela casa.
Homens.
Armas.
Passos pesados.
O cheiro de cigarro e couro subia pela escada junto com a sensação sufocante de perigo.
Isadora andava de um lado para o outro perto da cama.
— Elena…
Sua voz saiu fina, desesperada.
— A gente precisa fugir.
Elena fechou os olhos por um instante.
Fugir.
Pensava nisso havia anos.
Mas para onde duas mulheres sem dinheiro iriam?
Como protegeria Isadora de homens armados?
Como sobreviveriam sem comida, sem abrigo, sem aliados?
Gael fizera questão de destruir qualquer possibilidade de independência.
Elena sabia cozinhar, costurar, limpar sangue do chão e esconder hematomas com maquiagem improvisada.
Mas nunca tivera documentos próprios, dinheiro guardado ou sequer permissão para sair da propriedade desacompanhada.
Gael não criara filhas.
Criara prisioneiras.
— Lena…
Isadora segurou seus braços.
Os dedos dela estavam gelados.
— Eu ouvi um dos homens falando lá embaixo.
Elena ergueu os olhos lentamente.
— O que ele disse?
Isadora engoliu em seco.
— Disse que os Soranzo nunca fazem acordos pequenos.
O coração de Elena apertou.
Ela caminhou até a janela.
Do segundo andar era possível ver parte da estrada enlameada diante da propriedade.
Três carros pretos estavam estacionados perto da entrada principal.
Homens de terno escuro circulavam pela varanda, armados.
Mesmo à distância, eram diferentes dos criminosos que costumavam frequentar a casa Vilaro.
Mais organizados.
Mais silenciosos.
Mais perigosos.
Elena observou um dos homens abrir a porta traseira do carro central.
Então ele apareceu.
Dante Soranzo.
Por um segundo, o mundo pareceu desacelerar.
Ele saiu do veículo devagar, sem pressa, como alguém que sabia que todos esperariam por ele de qualquer maneira.
Era absurdamente alto.
Vestia preto da cabeça aos pés, o sobretudo escuro movendo-se junto ao vento da tempestade.
Mesmo de longe, havia algo assustador nele.
Não era apenas sua aparência.
Era a presença.
O tipo de homem que fazia os outros homens abaixarem os olhos sem perceber.
O tipo de homem que parecia carregar violência na própria respiração.
Elena sentiu o estômago afundar.
As histórias sobre Dante Soranzo percorriam cidades inteiras havia anos.
Diziam que ele controlava fazendas, políticos e rotas ilegais sem jamais levantar a voz.
Diziam que homens desapareciam após traí-lo.
Diziam que sua esposa morrera depois de uma discussão.
E diziam também que o lago próximo à Fazenda Santa Ombra guardava segredos demais.
Elena apertou o tecido do vestido.
Dante tirou as luvas lentamente antes de subir os degraus da varanda. Um homem aproximou-se para abrir a porta para ele, mas Dante entrou sem sequer olhar em sua direção.
Frio.
Controlado.
Perigoso.
— Ele parece um monstro…
Isadora sussurrou atrás dela.
Elena não respondeu.
Porque o pior não era isso.
O pior era que monstros elas conheciam bem.
E quase sempre os monstros mais perigosos eram os que pareciam calmos.
A sala principal da mansão Vilaro cheirava a álcool, madeira velha e tensão.
Gael estava perto da lareira apagada quando Dante entrou.
Os dois homens se encararam em silêncio.
Elena observava escondida no alto da escada, puxando Isadora discretamente para trás dela.
Gael abriu um sorriso falso.
— Dante Soranzo.
Dante retirou lentamente o sobretudo molhado, entregando-o a um de seus homens.
— Gael.
A voz grave percorreu a sala como fumaça.
Sem pressa.
Sem emoção.
Os olhos cinza-escuros de Dante analisaram o ambiente inteiro antes de pararem brevemente na escada.
Elena congelou.
Por um segundo, teve a impressão absurda de que ele conseguia vê-la mesmo escondida entre as sombras.
Mas então ele desviou o olhar.
Gael serviu bebida em dois copos.
— Achei que recusaria o acordo.
— Não costumo recusar negócios vantajosos.
Negócios.
Era isso que ela era.
Elena sentiu vontade de vomitar.
Gael entregou um copo a Dante.
— Elena é obediente.
Mentira.
— Discreta.
Mentira.
— E sabe seu lugar.
A mandíbula de Elena endureceu.
Dante girou o líquido âmbar no copo sem beber.
— Ela sabe?
Gael soltou uma risada curta.
— Minha filha faz o que mando.
O silêncio que veio depois pareceu pesado demais.
Então Dante perguntou:
— Quantos anos ela tem?
— Vinte e quatro.
— E a irmã?
O sangue de Elena gelou.
Gael levantou os ombros.
— Vinte.
Dante ficou imóvel.
Mas Elena percebeu algo mudar sutilmente em sua expressão ao ouvir sobre Isadora.
Uma observação.
Um cálculo.
Nada bom vinha de homens que calculavam.
Isadora segurou a manga de Elena com força.
— Ele sabe de mim…
Sussurrou, assustada.
Elena imediatamente a puxou mais para trás.
Lá embaixo, Gael deu um gole na bebida.
— As meninas sempre foram muito unidas.
Dante continuava observando a sala.
— Onde está Elena?
O coração dela disparou violentamente.
Gael ergueu a voz:
— Elena.
O nome ecoou pela casa.
Isadora balançou a cabeça rapidamente.
— Não vai…
Elena segurou as mãos da irmã.
— Fica aqui.
— Elena…
— Tranca a porta se eu não voltar.
Os olhos de Isadora se encheram de lágrimas.
Elena respirou fundo uma única vez antes de descer a escada.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Os homens de Dante acompanharam sua descida em silêncio absoluto.
Ela sentia os olhares.
Sentia o perigo.
Sentia o medo tentando dominá-la.
Mas não abaixou a cabeça.
Quando chegou ao último degrau, seus olhos encontraram os de Dante pela primeira vez.
E tudo dentro dela parou.
Ele era ainda mais intimidante de perto.
O rosto forte.
A barba escura perfeitamente alinhada.
Os olhos frios e atentos.
A cicatriz discreta perto da sobrancelha.
Não havia crueldade explícita em sua expressão.
O problema era exatamente esse.
Ela não conseguia lê-lo.
Gael colocou a mão em suas costas.
Elena se obrigou a não recuar.
— Minha filha.
Dante observou a mão de Gael nela.
Depois voltou o olhar para Elena.
Silêncio.
Longo.
Desconfortável.
Então ele falou:
— Você sabe por que estou aqui?
A voz dela quase não saiu.
— Sim.
— E ainda assim desceu.
Gael apertou seus ombros discretamente.
Elena sentiu o aviso escondido naquele toque.
Obedeça.
— Meu pai mandou.
Algo mudou nos olhos de Dante.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Gael soltou uma risada forçada.
— Ela é tímida.
Dante ignorou completamente o comentário.
Continuou olhando apenas para Elena.
— Olhe para mim quando responder.
Ela hesitou.
O comando não foi agressivo.
Mesmo assim, seu corpo reagiu automaticamente ao tom masculino firme.
O estômago contraiu. Os músculos tensionaram.
Mas ela ergueu os olhos novamente.
Dante percebeu.
Percebeu o medo.
Percebeu a hesitação.
Percebeu que algo estava errado.
Elena viu isso acontecer diante dela.
E isso a assustou ainda mais.
Porque homens perigosos percebiam fraquezas para usá-las.
— Você quer esse casamento? Dante perguntou.
Gael imediatamente respondeu antes dela:
— Claro que…
— Eu perguntei a ela.
A sala ficou em silêncio.
Elena sentiu Gael endurecer atrás dela.
Seu pai jamais permitia escolhas.
Jamais.
E agora aquele homem desconhecido fazia exatamente a pergunta proibida.
Você quer?
Elena abriu os lábios.
Mas o olhar de Gael queimava em sua nuca.
Ela sabia o que aconteceria se dissesse não.
Sabia muito bem.
Então respondeu:
— Não importa o que eu quero.
Os olhos de Dante permaneceram nela por alguns segundos.
Depois ele deu um passo à frente.
Elena sentiu o cheiro dele.
Whisky.
Chuva.
Madeira.
E algo perigosamente masculino.
Seu corpo entrou em alerta imediato.
Dante parou perto o bastante para vê-la tremer.
Ela odiou isso.
Odiou que ele percebesse.
— Quem fez isso? Ele perguntou de repente.
Elena franziu a testa.
Então entendeu.
O rosto.
O tapa.
A marca.
Ela tentou virar discretamente o rosto, mas Dante segurou seu queixo antes.
Não com brutalidade.
Com firmeza.
Mesmo assim, Elena perdeu o ar.
Seu corpo inteiro endureceu instantaneamente sob o toque masculino.
Dante percebeu tudo.
A respiração presa.
O medo.
O reflexo de defesa.
Os olhos dele escureceram perigosamen
te.
Gael soltou uma risada baixa.
— Ela caiu.
Mentira.
Dante continuou olhando para Elena.
Ela sabia que ele sabia.
Mas não importava.
Homens como ele não salvavam mulheres.
Homens como ele destruíam mulheres de formas diferentes.
A Fazenda Águas Profundas surgiu no horizonte quando o fim da tarde já derramava tons dourados e avermelhados sobre os campos, mas Elena não experimentou o alívio que costumava sentir ao reconhecer as cercas, os pastos extensos e a linha brilhante do lago entre as árvores. Durante toda a viagem de volta, a pequena caixa de Mirela permaneceu sobre suas pernas, protegida por seus braços como se carregasse algo vivo, enquanto a fotografia dos três irmãos estava guardada no bolso interno de sua jaqueta. Dante dirigia em silêncio ao seu lado, respeitando a necessidade que ela demonstrara de organizar pensamentos que pareciam grandes demais para caber dentro de si, e Lorenzo seguia no banco traseiro, igualmente calado. Algumas vezes, Elena ergueu os olhos para o retrovisor e encontrou o olhar dele. Não precisavam dizer nada. Cada vez que isso acontecia, uma nova lembrança parecia se mover dentro dela, ainda incompleta, mas mais próxima. Quando os portões da fazenda se abriram, porém, u
O segundo ruído metálico atravessou o compartimento secreto e interrompeu brutalmente o reencontro que Elena esperara durante uma vida inteira sem sequer saber que ainda esperava. O corpo de Lorenzo reagiu antes de qualquer palavra.Em um único movimento, ele a colocou atrás de si, enquanto Dante avançava pelo outro lado e Salvatore erguia a arma em direção às estantes do fundo. Valentina apagou uma das lanternas, reduzindo a quantidade de luz dentro do cômodo, e os dois homens da segurança assumiram posições próximas à porta. Elena permaneceu imóvel durante alguns segundos, o rosto ainda molhado pelas lágrimas, tentando fazer o coração compreender que acabara de recuperar o irmão e poderia estar prestes a entrar em outra armadilha preparada por Gael. Então percebeu Lorenzo diante dela, os ombros tensos, os braços ligeiramente afastados do corpo, formando uma barreira entre ela e o perigo. Uma lembrança surgiu tão violentamente que quase lhe arrancou o ar. O corredor daquela mesm
CAPÍTULO 12 — O IRMÃO QUE NÃO MORREUParte 1O nome de Lorenzo pareceu atravessar Elena por dentro antes mesmo que ela conseguisse compreender tudo o que significava. Durante alguns segundos, o cômodo secreto desapareceu ao redor dela. As caixas de documentos, os cofres, as fotografias, a luz fria das lanternas e até a presença de Dante deixaram de existir. Restou apenas aquele rosto diante do seu. Um rosto que ela acreditara apagado pelo tempo, mas que agora se reorganizava dentro da memória em fragmentos cada vez mais nítidos. Os olhos verdes. A cicatriz na sobrancelha. A maneira de inclinar a cabeça quando queria tranquilizá-la. O jeito de colocar o próprio corpo entre ela e qualquer ameaça. Tudo começou a voltar com uma violência silenciosa, não como uma única lembrança, mas como dezenas de pequenos estilhaços que encontravam o lugar certo depois de anos perdidos. Elena sentiu o ar desaparecer dos pulmões. Os dedos se fecharam ao redor da fotografia até o papel começar a ama
A porta de ferro permanecia diante deles como uma ferida que o casarão dos Vilaró passara anos tentando esconder. O antigo escritório de Gael parecia menor desde que Salvatore deslocara a enorme estante de madeira e revelara a passagem secreta, e a poeira levantada pelo movimento ainda flutuava sob os fachos de luz que atravessavam as persianas quebradas, misturando-se ao cheiro de mofo, ferrugem e madeira apodrecida. Do lado de fora, o vento atravessava as árvores abandonadas da propriedade e fazia uma veneziana bater em intervalos irregulares, produzindo um som que Elena reconheceu antes mesmo de compreender por quê. Quando criança, ouvira aquele mesmo ruído durante noites inteiras, deitada sem dormir, contando mentalmente os minutos até Gael chegar e tentando adivinhar, pela força com que ele fechava a porta principal, se vinha bêbado, irritado ou apenas procurando alguém sobre quem descarregar a própria brutalidade. Seus dedos se fecharam lentamente ao redor da mão de Dante. N
O Retorno ao InfernoParte 2Durante alguns segundos, ninguém saiu dos veículos.O motor da caminhonete de Dante acabara de ser desligado, mas o calor ainda subia lentamente do capô, formando pequenas ondulações no ar frio da manhã. O silêncio era tão profundo que Elena conseguia ouvir o vento atravessando as árvores secas ao redor da propriedade. Não existiam vozes. Não havia cães latindo. Nem o canto de pássaros.Era como se até a natureza evitasse aquele lugar.O casarão dos Vilaró permanecia imóvel diante deles.A pintura branca desaparecera quase completamente sob o tempo. As janelas, antes protegidas por cortinas bordadas por Mirela, agora exibiam apenas vidros quebrados e tábuas apodrecidas. Parte da varanda principal havia cedido, e trepadeiras cobriam metade da fachada como se tentassem esconder as cicatrizes daquela construção.Elena respirou profundamente.O cheiro atingiu seu peito antes mesmo de dar o segundo passo.Madeira antiga. Terra molhada. Ferrugem.E um perfum
O amanhecer chegou silencioso sobre a Fazenda Águas Profundas.Uma fina camada de neblina cobria os campos, escondendo parcialmente as cercas de madeira e transformando o lago em um espelho branco, imóvel e misterioso. O cheiro de terra molhada permanecia no ar desde a chuva da noite anterior, enquanto os primeiros raios de sol começavam a atravessar lentamente as copas das árvores centenárias que protegiam a entrada principal da propriedade.Na garagem da mansão, três veículos já estavam preparados.Nenhum ostentava o luxo normalmente associado a Dante Soranzo.Eram caminhonetes comuns, cobertas por uma fina camada de barro, exatamente como dezenas de outras que circulavam diariamente pelas estradas rurais da região. A discrição fazia parte da estratégia.Salvatore conferia pela terceira vez os equipamentos de comunicação. Valentina organizava os mapas impressos e os pequenos drones de reconhecimento dentro de uma mochila impermeável. Lorenzo caminhava ao redor dos veículos, veri







