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Capítulo 2 — O Chefe Que Nunca Sorria

last update publish date: 2026-05-17 23:17:37

Seu olhar encontrou Emma.

— Bom dia, Sr. Blackwood — disse ela, levantando-se.

— Emma.

Era assim que ele a cumprimentava. Sem bom dia. Sem sorriso. Apenas o nome dela, dito naquela voz baixa, controlada, que às vezes parecia tocar mais do que som deveria tocar.

Emma odiava o efeito que uma única palavra podia ter sobre ela.

— O relatório de Boston está na sua mesa. A reunião com o conselho foi antecipada para oito e quinze. A ligação com Londres está confirmada para dez. O senador Whitmore pediu mais quinze minutos no almoço, mas eu recusei conforme sua orientação anterior. E Vanessa Hart entrou em contato novamente.

O último nome fez algo quase imperceptível cruzar o rosto dele.

Quase.

Mas Emma percebeu.

Ela sempre percebia.

— Recuse — disse Alexander.

— Já deixei pendente para sua aprovação.

— Não está pendente. Está recusado.

— Claro.

Ele passou por ela em direção ao escritório, mas parou antes de entrar.

— Alguma coisa sobre Chicago?

Emma olhou rapidamente para a tela.

— O convite continua aberto. Eles querem sua confirmação até hoje. Haverá uma mesa fechada com investidores japoneses depois da conferência principal. Pelo que Ryan comentou, pode ser estratégico.

Alexander virou apenas o rosto na direção dela.

— Ryan comenta demais.

— Ele é seu diretor jurídico. Comentar riscos faz parte do trabalho.

Por um segundo, o olhar dele ficou mais intenso.

Algumas pessoas na empresa tinham medo demais para responder a Alexander Blackwood com qualquer coisa além de “sim, senhor”. Emma havia aprendido, com o tempo, que ele detestava incompetência mais do que discordância. Desde que ela estivesse certa, podia contrariá-lo.

Na maioria das vezes.

— Você acha que devo ir? — perguntou ele.

Emma não esperava a pergunta, embora seu rosto não demonstrasse surpresa.

— Acho que seria uma má decisão não ir.

— Por quê?

— Porque Hargrove estará lá. Se ele se aproximar dos investidores antes do senhor, a aquisição de Boston pode ficar vulnerável. Além disso, sua ausência alimentaria especulação sobre instabilidade depois da queda das ações da semana passada.

Alexander a observou em silêncio.

Emma manteve a postura ereta, mesmo com o coração batendo um pouco mais forte.

— Prepare a viagem — ele disse enfim.

— Para quantas pessoas?

— Nós dois.

A resposta foi curta. Objetiva. Profissional.

Ainda assim, o estômago de Emma se contraiu.

Nós dois.

Duas palavras simples. Duas palavras perigosas.

— Sim, senhor.

Alexander entrou no escritório e fechou a porta atrás de si.

Emma ficou imóvel por um instante, olhando para a madeira escura.

Depois soltou o ar devagar.

— Não faça isso — murmurou para si mesma.

— Fazer o quê?

Emma quase se assustou. Olivia Bennett apareceu do outro lado da mesa segurando dois copos de café e usando o sorriso de quem já sabia demais.

Tecnicamente, Olivia não trabalhava na Blackwood Global. Era enfermeira no hospital St. Mary’s, mas naquela manhã tinha passado ali para deixar alguns documentos médicos que Emma havia esquecido em sua casa no fim de semana. As duas eram amigas desde a adolescência, unidas por uma daquelas amizades que sobreviviam a empregos ruins, términos piores e apartamentos pequenos demais.

— Olivia — Emma sussurrou. — O que você está fazendo aqui em cima?

— A recepcionista me deixou subir. Acho que ela gosta de mim.

— Ninguém simplesmente sobe até o andar executivo da Blackwood Global porque a recepcionista gosta.

— Eu disse que era assunto de vida ou morte.

Emma estreitou os olhos.

Olivia sorriu e colocou uma pasta sobre a mesa.

— Você esqueceu isso lá em casa.

Emma reconheceu a pasta com papéis do seguro médico.

— Obrigada. Mas você não precisava vir até aqui.

— Precisava, sim. Você ia esquecer de novo. E aí ia trabalhar até meia-noite, comer qualquer coisa congelada e fingir que está tudo sob controle.

— Está tudo sob controle.

Olivia olhou para a porta fechada do escritório de Alexander e depois voltou os olhos para Emma.

— Claro. Principalmente essa sua cara depois que o deus do gelo falou com você.

— Não começa.

— Eu nem comecei. Só observei.

— Observe menos.

— Impossível. Você fica com essa expressão de “sou uma profissional impecável” enquanto seus olhos gritam “arruíne minha vida, Alexander Blackwood”.

Emma arregalou os olhos.

— Olivia!

— Falei baixo.

— Você está no meu trabalho.

— E você está apaixonada pelo seu chefe.

Emma olhou rapidamente ao redor. Ninguém parecia ter ouvido, mas mesmo assim sentiu o rosto aquecer.

— Eu não estou apaixonada por ele.

Olivia ergueu uma sobrancelha.

Emma desviou o olhar primeiro.

— Não desse jeito — acrescentou, odiando a própria fraqueza.

— Existe outro jeito?

— Existe o jeito adulto, racional e perfeitamente controlado de admirar uma pessoa de longe sabendo que nada vai acontecer.

— Isso não é paixão. Isso é tortura com crachá.

Emma pegou um dos copos de café que Olivia trouxera apenas para ocupar as mãos.

— Alexander Blackwood não se apaixona por secretárias.

— Talvez não. Mas ele olha para você como se quisesse demitir todos os homens do planeta só para evitar concorrência.

Emma soltou uma risada baixa, sem humor.

— Ele olha assim para contratos mal redigidos.

— Mentira. Contratos mal redigidos recebem menos tensão sexual.

— Você é impossível.

— E você está evitando a verdade.

Emma respirou fundo. Parte dela queria negar. Outra parte estava cansada.

— Eu trabalho para ele, Olivia. Ele confia em mim profissionalmente. Isso é tudo. E mesmo essa confiança tem limites.

— Por quê?

Emma olhou outra vez para a porta fechada.

— Porque Alexander não confia em ninguém de verdade.

A brincadeira desapareceu um pouco do rosto de Olivia.

— E você acha que pode consertar isso?

— Não. Eu não sou tão ingênua.

Mas era uma mentira parcial.

Não achava que podia consertá-lo. Não exatamente. Mas havia dias em que desejava ser a pessoa diante de quem ele finalmente baixaria a guarda. Dias em que imaginava como seria ouvir Alexander dizer algo honesto, algo que não fosse uma ordem, uma crítica ou uma decisão corporativa.

Dias em que queria saber se aquela frieza dele escondia fogo ou apenas ruínas.

Olivia tocou a mão dela.

— Só toma cuidado, Em. Homens como ele não quebram devagar. Eles quebram os outros primeiro.

Emma engoliu em seco.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Antes que Emma pudesse responder, a porta do escritório se abriu.

Alexander apareceu no batente.

Olivia imediatamente endireitou a postura, como se também tivesse sido afetada pela mudança atmosférica que ele causava.

O olhar dele passou por Olivia com educação fria e voltou para Emma.

— Cinco minutos.

— Para a reunião com o conselho?

— Para revisar comigo os pontos de Boston.

— Claro.

Olivia pegou a bolsa rapidamente.

— Eu já estava indo.

Alexander inclinou a cabeça de forma quase imperceptível.

— Srta. Bennett.

Olivia piscou, surpresa.

— O senhor lembra meu nome?

— Você veio buscar Emma duas vezes no último mês. Uma na sexta-feira, às vinte e uma e quarenta, e outra numa quarta, às vinte e duas e dez.

Emma sentiu o rosto queimar.

Olivia abriu um sorriso lento.

— Impressionante.

— Segurança registra entradas no prédio — disse ele, seco.

— Claro. Segurança.

O olhar de Alexander endureceu um grau. Olivia, que tinha amor à própria vida, decidiu não provocá-lo mais.

— Até mais, Em.

Emma acompanhou a amiga até o elevador com os olhos. Antes que as portas se fechassem, Olivia fez um gesto discreto com a mão, como quem dizia: eu avisei.

Emma fingiu não entender.

Quando se virou, Alexander ainda estava parado à porta do escritório.

— Sua amiga é inconveniente — ele disse.

— Ela chama isso de sinceridade.

— Pessoas inconvenientes sempre chamam inconveniência de sinceridade.

Emma pegou o tablet e a pasta de Boston.

— Ela se preocupa comigo.

Alexander não respondeu de imediato.

Por um instante, algo estranho atravessou seu olhar. Uma sombra. Um incômodo. Talvez curiosidade. Talvez nada.

— Você precisa que alguém se preocupe? — perguntou ele.

A pergunta foi tão inesperada que Emma quase tropeçou na própria resposta.

— Todo mundo precisa.

— Não necessariamente.

— Essa é uma resposta muito sua.

A boca dele ficou imóvel, mas os olhos se estreitaram levemente.

— Isso foi uma crítica?

— Uma observação.

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