INICIAR SESIÓNNarrado por Helena Ferraz
O amanhecer parecia hesitante, sem coragem para se revelar. O céu apresentava um tom cinza, indeciso, e o ar estava pesado, tornando aquela manhã qualquer em algo extraordinário. Acordei com o coração palpitando de maneira errada não era ansiedade, tampouco medo. Era algo indefinido, um presságio silencioso e gelado que sussurrava em meu interior: algo não está certo. Virei-me na cama e estendi a mão para tocar o lençol ao lado. Ele estava vazio. O travesseiro ainda mantinha a forma do corpo de Dante, e o seu perfume parecia flutuar ao meu redor, como uma lembrança teimosa que se recusava a ir embora. Levantei-me devagar, e o silêncio da casa soava diferente denso, como se cada parede estivesse segurando a atmosfera, evitando que qualquer som se propagasse. Caminhei pelo corredor lentamente, sentindo meu coração apertar a cada passo que dava. Ao chegar à porta do quarto de Matteo, percebi que estava entreaberta. Empurrei-a com cuidado. Meu pequeno dormia tranquilamente, seu corpinho estendido sobre a cama, com o ursinho marrom abraçado aos braços e a boca entreaberta, soltando um sopro leve. Acariciei seus cabelos desgrenhados, bagunçando-os gentilmente, e beijei sua testa. Ele suspirou, um som inocente que, por um breve momento, trouxe um sorriso ao meu rosto. Mas era um sorriso frágil, efêmero, carregado de um medo disfarçado. Retornei para o quarto e peguei o celular que estava em cima do criado-mudo. A tela iluminou o escuro ao meu redor. Não havia mensagens. Nenhuma chamada. A última mensagem era dele, enviada algumas horas antes do embarque: “Já com saudade. Te amo. Dá um beijo no Matteo por mim.” E a minha resposta ainda estava ali, como uma ironia cruel: “Também te amamos. Vai com Deus. Daqui a pouco você tá de volta.” Mas o “daqui a pouco” já havia ultrapassado seu tempo. A ausência dele estava começando a cheirar diferente um cheiro de vazio, de espera, de um medo que se acumulava no estômago. Tentei me distrair. Fui até a cozinha, liguei o fogo e coloquei água para ferver. O som do gás ao se acender me pareceu exageradamente alto. Peguei a caneca, mas minha mão tremia. Foi nesse momento que o telefone fixo tocou. Um toque. Dois. Três. O som cortou o silêncio da casa como uma lâmina afiada. Atendi, prendendo a respiração. — “Alô?” — “É a senhora Helena Ferraz, esposa do senhor Dante Ferraz?” A voz do outro lado soava profissional, gelada. Senti um arrepio percorrer meu corpo. — “Sim… sou eu. Por quê?” Houve uma pausa inquietante, seguida de um suspiro. — “Estamos ligando da companhia aérea. Infelizmente, precisamos informar que o voo 374, com destino a São Paulo, sofreu um acidente. As equipes de resgate já estão no local, mas ainda não temos informações completas sobre os sobreviventes.” Foi como se o mundo tivesse simplesmente... desligado. Os sons do vento, do fogo no fogão, o tic-tac distante do relógio tudo desapareceu. O chão parecia me engolir. Minhas pernas fraquejaram, e o telefone escorregou de minha mão, pendurado pelo fio, balançando como um corpo sem vida. Sentei-me no chão. Minhas mãos cobriram meu rosto. E então, o grito veio. Um grito mudo. A dor não se manifestou em som mas em tremor, em respiração acelerada, em desespero. Os passos a ecoar pelo corredor trouxeram Caio, descalço, com o cabelo bagunçado e o rosto pálido. — “Helena! O que foi? O que aconteceu?!” Tentei articular palavras, mas minha voz não respondia. O ar parecia escasso. Consegui apenas sussurrar, trêmula: — “O avião... o avião caiu...” Ele me segurou pelos ombros, firme, tentando me trazer de volta à realidade. — “Como assim, caiu?! O Dante... o Dante estava nesse voo?” Assenti. Uma lágrima escapuliu, pesada e quente, antes mesmo que eu conseguisse responder. — “Eles não sabem se há sobreviventes...” — murmurei. Caio ficou imóvel por alguns segundos, seu olhar perdido e distante. Então se ajoelhou diante de mim, puxando-me para um abraço. Poder sentir seu peito tremular junto ao meu trouxe uma conexão inesperada. — “Ele vai voltar, Helena. Eles vão encontrá-lo, você vai ver. O Dante é forte.” — dizia ele, como se tentasse acreditar em suas próprias palavras. Mas o vai voltar soava frágil, como papel molhado. O tempo parecia ter parado naquele ambiente. O sol começou a surgir, tingindo as janelas com uma luz amarelada, quase cruel. Matteo, do quarto, começou a chorar. Seu choro era baixo e arrastado, e eu sabia que era apenas o início de uma tempestade. — “Eu vou.” — disse Caio, levantando-se rapidamente e correndo até o quarto. Fiquei ali, sentada no chão frio da cozinha, ouvindo os sons da acolhida de meu filho por outro homem. Um som que partia meu coração, mas que, de alguma forma, também me mantinha viva. Caio retornou com Matteo nos braços, balançando-o suavemente na tentativa de fazê-lo parar de chorar. O menino olhou para mim, os olhinhos ainda inchados de sono. — “Mamãe… papai?” Engoli em seco. A pergunta penetrou em mim como uma lâmina cortante. Caio trocou um olhar comigo. Estávamos os dois em silêncio, presos na mesma impotência. Ele se abaixou, aproximando Matteo de mim. — “Aqui, ele quer você.” Recebi meu filho em meu colo, e no instante em que o abracei, pareceu que minha alma retornava ao meu corpo. Senti seu cheirinho, quente e doce, e meu coração se despedaçou novamente. — “Ele vai voltar, meu amor…” — menti, sussurrando contra o cabelo do meu filho. — “Papai sempre volta.” Caio permaneceu de pé, inquieto, o celular na mão. — “Vou ligar para a companhia, para o hospital, para quem for preciso. Eles precisam nos dar alguma informação.” Assenti, incapaz de encontrar palavras. O tempo parecia se arrastar, cada segundo se estendendo como uma eternidade. Matteo adormecia em meus braços, sua respiração tranquila era um lembrete constante de que eu precisava ser forte. Eu precisava continuar por ele. Então, o telefone tocou novamente. O mesmo toque insistente. O mesmo impacto. Caio, empolgado, correu para atender. — Alô? Do outro lado, um silêncio breve, quase insuportável. Em seguida, a voz começou, baixa e arrastada, como se cada palavra carregasse um peso imenso. — Sim... sou eu. — Ele está vivo? Senti meu corpo inteiro paralisar. Caio permaneceu em silêncio, os segundos se arrastando até que os olhos dele se enchessem com algo que eu nunca conseguirei esquecer: pena. — Entendo. — ele respondeu, a voz vacilando. — Obrigado por avisar. Desligou. Virou-se em minha direção, com o rosto pálido e as mãos tremendo. — Era o hospital. Naquele momento, meu coração pareceu parar por um instante. — Caio... Ele inhalou profundamente, como se se preparasse para o que viria a seguir. — Eles confirmaram. O Dante... ele não resistiu. O chão sob meus pés desmoronou. Tudo desabou. Meu corpo, minha mente, a crença que ainda guardava. Eu desabei de joelhos, segurando Matteo em meus braços. O choro irrompeu de mim, rasgando a malsinada tranquilidade, até que minha voz se extinguisse em meio aos soluços. Caio me envolveu por trás, seus braços me seguravam firmemente, tentando evitar minha queda total. Mas, mesmo assim, o colapso inevitável aconteceu. Só conseguia repetir entre os gemidos: — Não... não ele... ele prometeu... Caio não disse nada. Apenas me apertou mais contra ele, o rosto escondido em meu ombro, compartilhando minha dor silenciosa. E ali, naquele chão gelado, com o corpo do meu filho entre nós e meu coração despedaçado, compreendi a parte mais dolorosa de perder alguém que se ama: Não é o silêncio que vem após a perda. Não é o processo de luto. É continuar a viver, a respirar, quando tudo dentro de você grita para que você pare. E assim nasceu o sol naquele dia uma testemunha muda de um amor que foi levado ao céu antes de seu tempo.NARRADO POR DANTE O papel parou de tremer quando eu assinei. Fim. Os flashes vieram. A sala aplaudiu. Mãos nas minhas costas. — Hoje é teu dia, Dante. Mas eu só pensava em sair dali. Puxei o celular do bolso. > “Chegou bem? Já tá voltando?” Não enviei. A TV da sala, no canto, ligou sozinha. Sem ninguém tocar. Volume subindo. — “Urgente: atropelamento grave no Jardim Botânico.” Meu corpo travou. — “A vítima é a médica Lorena Mello…” A caneta caiu da minha mão. E o som dela batendo na mesa ficou alto demais pro silêncio que veio depois. — “Segundo testemunhas, ela empurrou uma criança antes de ser atingida.” O mundo inclinou. Não pensei. Só repeti baixo: — Não… Renan já tava do meu lado. — Dante… Mas eu não ouvia. Na tela, imagens tremidas. Luz vermelha. Sirene. Uma ambulância. — “Encaminhada em estado crítico… suspeita de traumatismo craniano.” Meu estômago virou. — Não… não, não… A mesa virou minhas costas. Eu sentei antes de cair. — Eu mandei ela —
NARRADO POR LORENA “Vai tranquila. Cuida do meu guri… mas, principalmente… volta pra mim. Eu só respiro com tu perto, vida. Só tu.” Sorri de canto. — Sempre volto, Dante. Sempre. Ele me olhou… aquele olhar bruto, intenso, protetor. — E volta bonita assim. Só pra eu te despir de novo. E saiu. Eu encostei na parede. Mas o coração… não tava leve. Algo pesava. Estranho. Apertado. Sufocando. ** No carro, o Mateo cantava baixinho no banco de trás. — Tia Lorena, a mamãe já tá lá? — Tá, meu amor. Tá te esperando. Estacionei. Vi a Helena na calçada. Braços cruzados. Olhar frio. — Vamos, campeão. — soltei o cinto. — Dá a mão. Ele segurou. Aquela mãozinha quente. Confiante. Pequena. Atravessamos. E aí… O SOM. O GRITO DO MOTOR. O RUGIDO FEROZ. A cabeça virou sozinha. O CARRO. VINDO. RÁPIDO. SEM FREIAR. O tempo… parou. Tudo ficou lento. O rosto da Helena mudando. O grito dela saindo mudo. O Mateo puxando minha mão. — Tia Lô…? O olhar dele assustado. E no fundo d
NARRADO POR LORENA SEGUNDA-FEIRA NARRADO POR LORENA Acordei com o cheiro do café vindo da cozinha. Estiquei a mão na cama. Toquei o lado dele. Ainda quente. Mas vazio. Me virei devagar, o lençol caindo da cintura. A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina. Suspirei. Levantei. Só com a camisa dele no corpo. Grande, cheirando a ele. As pernas nuas. Desci as escadas devagar, os pés descalços no piso frio. E ali estava ele. Em pé, em frente ao espelho da sala. Camisa branca aberta nos botões de cima. Gravata pendurada no pescoço. Calça preta justa, o cinto meio solto. Relógio brilhando no pulso. O cabelo molhado, penteado pra trás. Ele ajustava os punhos da camisa, concentrado. Mas quando viu meu reflexo… parou. Virou devagar. O olhar dele… escuro. Firme. Aquele olhar que só ele tinha. Aquele olhar que queimava a alma. — Porra, vida… tu quer me matar? — ele falou baixo, rouco. Fingi inocência. — Nem fiz nada. Ele largou a gravata. Veio andando.
NARRADO POR DANTE Eu encostei na porta, calado. Fiquei olhando. A Lorena tava sentada no tapete da sala, as pernas cruzadas, os cabelos soltos caindo no rosto. O Mateo gargalhava, tentando pegar os blocos de montar que ela escondia atrás das costas. — Achei! — ele gritou. Ela riu alto, iluminada. — Não vale! Você é muito bom nisso, campeão! Aquela risada… Aquele brilho no olhar dela… Eu nunca tinha visto a Lorena tão leve. Tão… inteira. Mas eu sabia. Sabia que por dentro ainda tinha um eco. Uma dor escondida. Aquela frase da Helena não tinha sumido. Ela me olhou por cima do ombro, sorrindo. — Amor, vem brincar com a gente! Sorri pequeno. — Já vou, vida. Só vou pegar uma coisa no quarto. Ela voltou a brincar com o Mateo, distraída. Eu fui até o quarto. Peguei a chave do carro. Fechei a porta devagar. Porque eu precisava ir. Precisava resolver. Precisava encarar. Precisava tirar a voz da Helena da cabeça da minha mulher. Desci.
NARRADO POR LORENA O carro parou. A casa dela parecia maior ao vivo. Mais fria. Mais distante. O Dante desligou o motor. Olhou pra mim, sem dizer nada. Só aquele olhar que dizia “tô aqui.” Ele saiu, deu a volta, abriu a porta pra mim. A mão dele pegou a minha. E não soltou. Nem um segundo. Subimos os degraus. Ele tocou a campainha. A porta abriu. Ela estava ali. A Helena. Linda. Serena. Mas com um olhar que já pesava antes mesmo de falar. Os olhos dela caíram na nossa mão entrelaçada. Subiram pro rosto dele. O sorriso veio, pequeno. Educado. Mas nada gentil. — Oi. — ela disse. — Oi. — ele respondeu. O braço dele passou pela minha cintura. Me puxou mais perto. Firme. Sem deixar espaço. — Essa é a Lorena. Minha mulher. Meu coração bateu alto. Mas eu mantive o sorriso discreto. Seguro. A Helena me olhou devagar. De cima a baixo. Pesando. Avaliando. Classificando. — Prazer. — ela disse, com um sorriso que não chegava nos olhos. — O prazer é meu. — res
NARRADO POR DANTE Acordei antes. Fiquei olhando ela dormir, enrolada no lençol, os cabelos espalhados no travesseiro, a respiração leve. Desci. Preparei café. Subi com a bandeja. Sentei na beira da cama. Passei a mão no rosto dela devagar. — Vida… acorda. Preciso falar uma coisa. Ela abriu os olhos, sonolenta, preguiçosa. — O que foi? Sorri leve. — Hoje eu vou buscar o Mateo. Vai passar o final de semana comigo. Ela sorriu pequeno. — Que bom, amor. Que delícia. Respirei fundo. Aproximei mais. — Mas eu vou buscar ele na casa da Helena. Ela parou. O sorriso sumiu. — E eu quero que tu vá comigo. — falei, firme. Ela me olhou surpresa. — Na casa da… da Helena? Assenti. — É. Quero você comigo. Quero entrar lá contigo. Quero que ela veja que você tá comigo. Quero ela sabendo que quem tá na minha vida agora é você. Ela respirou fundo. Baixou o olhar. — Dante… eu nem conheço ela. A gente nunca nem se viu… eu não sei se é uma boa ideia… ela pode interpretar mal… o Ma







