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Limites Invisíveis

Author: Leila
last update publish date: 2026-01-22 18:49:42

Natália descobriu rapidamente que Nicolas Vartem não era um homem acostumado a ser contrariado.

Ele não levantou a voz.

Não fez escândalo.

Não ameaçou.

O que era pior.

— Helena — disse ele, sem tirar os olhos de Natália —, leve o Arthur para o quarto.

— Não quero — o menino protestou, apertando mais forte a mão dela.

Natália sentiu o aperto pequeno e quente dos dedos infantis, e algo dentro dela se retesou. Aquilo não era parte do contrato. Mas também não era algo que ela conseguiria ignorar.

Nicolas se agachou à frente do filho, a postura rígida suavizada apenas o suficiente para não parecer assustador.

— Arthur, obedeça — pediu, num tom firme. — Vamos conversar depois.

O menino hesitou, olhou para Natália como se pedisse permissão.

Ela sorriu de leve.

— A gente se vê já, Thor e eu — disse, piscando.

Arthur assentiu e seguiu Helena, ainda olhando para trás.

Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a dominar o escritório.

Nicolas respirou fundo.

— Aquilo não pode se repetir — disse, direto. — Meu filho não cria vínculos com funcionários.

Natália cruzou os braços.

— Então talvez o problema não seja o vínculo… mas a falta dele.

O maxilar dele se contraiu.

— Você não sabe nada sobre minha família.

— Sei o suficiente para perceber quando uma criança está sozinha — rebateu ela, sem agressividade. — E não se preocupe, senhor Vartem. Eu sei exatamente onde estou pisando.

— Duvido.

Ele caminhou até a mesa, pegou uma pasta preta e jogou sobre o tampo.

— Regras — disse. — Leia. Decore. Siga.

Natália abriu a pasta.

Havia horários, limites, protocolos. Regras sobre alimentação, rotina, brincadeiras, silêncio. Até sobre afeto.

Evitar apego emocional excessivo.

Ela ergueu os olhos lentamente.

— O senhor já tentou abraçar seu filho?

A pergunta caiu como uma lâmina.

— Isso não é da sua conta.

— Tudo bem — ela fechou a pasta. — Então vamos esclarecer as coisas.

Nicolas arqueou uma sobrancelha.

— Estou ouvindo.

— Eu não sou robô. Não sou fria. Não sou uma extensão do seu controle — disse, mantendo a voz calma. — Sou uma babá. E cuidar de uma criança envolve afeto. Se isso for um problema, talvez eu não seja a pessoa certa.

Ele a encarou por longos segundos.

Ninguém falava assim com ele.

Ninguém ficava.

— Você foi contratada porque precisava do emprego — respondeu. — E porque meu filho precisa de estabilidade. Se não consegue separar emoção de função…

— Eu consigo — interrompeu. — O senhor é que não consegue separar medo de controle.

O silêncio se alongou de novo.

Nicolas sentiu algo desconfortável crescer dentro do peito. Aquela mulher enxergava demais. Falava demais. E, ainda assim, ele não a mandou embora.

— Seu quarto fica no corredor leste — disse, mudando de assunto. — Nada de visitas. Nada de sair com Arthur sem autorização. Nada de intimidade comigo.

Natália sorriu de canto.

— Fique tranquilo. Eu não misturo trabalho com homens emocionalmente indisponíveis.

Aquilo doeu mais do que deveria.

Ela virou para sair, mas parou na porta.

— Só mais uma coisa, senhor Vartem.

— O quê?

— Controle funciona com empresas. Com crianças… e com sentimentos… ele só cria rachaduras.

Ela saiu antes que ele respondesse.

Nicolas permaneceu parado, encarando a porta fechada, com uma sensação estranha — algo entre irritação e curiosidade.

Horas depois, do alto da escada, ele observava escondido.

Arthur ria.

Ria alto.

Natália estava sentada no tapete da sala, cercada de dinossauros, fazendo vozes ridículas, enquanto o menino gargalhava como Nicolas nunca tinha visto.

Aquilo não deveria acontecer.

E, ainda assim, aconteceu.

Quando Arthur correu para abraçá-la, Nicolas sentiu o peito apertar.

Perigo.

— Natália — chamou, a voz mais dura do que pretendia.

Ela se virou.

— Sim?

— Arthur vai dormir agora.

— Ainda faltam dez minutos — respondeu ela. — Prometi terminar a história.

O menino olhou para o pai, apreensivo.

Nicolas hesitou.

O mundo não acabou.

— Dez minutos — cedeu, por fim.

Natália sorriu, surpresa.

— Viu só? O senhor também sabe negociar regras.

Os olhos deles se encontraram.

E, naquele instante, Nicolas percebeu algo alarmante:

Ele não queria que ela fosse embora.

E Natália percebeu algo ainda mais perigoso:

Ela estava começando a gostar de provocar aquele homem.

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