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capítulo 3

last update publish date: 2026-03-06 23:16:59

Dias atuais

Abril de 2017

Kamila

Pego as chaves do meu Fiat Uno preto em cima da escrivaninha do quarto e saio apressada. Hoje, preciso chegar mais cedo à creche onde faço estágio; quero embrulhar os chocolates que comprei para as crianças nas caixinhas personalizadas que encomendei, cada uma com a foto deles. Passei o fim de semana passado mergulhada no cuidado de fazer as máscaras de coelhinho que eles usaram para os retratos.

Preciso buscar as caixinhas e finalizar os embrulhos com os ovinhos e pirulitos de chocolate que preparei hoje para eles.

Eu estou amando meu estágio. Me apeguei àquelas crianças instantaneamente, com um carinho que transborda. Cada vez mais, sinto no peito que escolhi a profissão certa. Pensei muito nas opções e em todas as áreas para as quais tenho aptidão, mas, desde a adolescência, essa vontade de ser pedagoga já pulsava em mim.

Levo para o carro a caixinha de isopor com os chocolates; não posso deixar que derretam, pois o sol já castiga logo cedo.

Ligo o som e sintonizo na Jovem Pan — sempre toca músicas boas. De repente, a voz do Chorão invade o carro com "Tudo que ela gosta de escutar". Eu amo essa música! Devo parecer uma louca às nove horas da manhã, com os vidros abaixados, cantando a plenos pulmões sozinha:

"Fim de festa, olho pra ela, ela sorri pra mim / Me secou a noite inteira, ela só pode estar a fim / Ela tem carro importado e telefone celular / Eu só tenho uma magrela e um apê no BNH / Eu falo tudo que ela gosta de escutar / Deve ser por isso que ela vem me procurar..."

Sorrio para mim mesma, ignorando o olhar de uma vizinha que me observa como se eu tivesse enlouquecido. Meu telefone toca em seguida. Paro no acostamento para atender, mas, ao olhar para a tela, sinto um peso no estômago, um desânimo imediato ao ver quem chama. É o Hugo, meu namorado. Ultimamente, ele tem se tornado invasivo e insistente sobre sexo, e eu recuso terminantemente ser pressionada só por estar em um relacionamento.

— Bom dia, Hugo — atendo, nutrindo a esperança vã de que ele tenha esquecido o assunto. Mas a decepção vem rápido; a discussão vai continuar.

— Bom dia, Kamilinha. Você está trazendo suas roupas para passar o fim de semana? — Ele diz, com aquela voz rouca de quem acabou de despertar.

— Não estou. Ontem, quando você perguntou pela terceira vez, eu disse que não iria passar o fim de semana com você.

— Que droga, Kamila! Pra que esperar mais? Nós estamos juntos há um mês e até agora você está me deixando na seca — ele ralha, o tom de voz subindo, agressivo.

— Se o seu problema é secura, então beba água. Não sou feita de líquido — retruco, irritada pelo tom de posse que ele usou comigo.

— Não venha com piadinhas. Você sabe que está me fazendo de trouxa. Os caras na faculdade já estão rindo da minha cara. Eles ficam dizendo que é mais fácil eu voar do que conseguir abrir suas pernas.

Ouço aquilo indignada, sentindo o sangue ferver. Nesse um mês, ele nunca tinha mostrado essa face. Antes, era legal, carinhoso e atencioso, mas o "personagem" caiu diante da insistência sexual. Eu não tenho obrigação de ir para a cama com ninguém por pressão. Não importa se faz um mês ou um ano; eu simplesmente não me senti segura para dar o próximo passo. E agora, depois dessa humilhação, esse passo nunca acontecerá.

— Pois espero que você tenha mais sorte voando, então. Não quero mais nada com você. Aprenda a tratar uma mulher antes de querer que ela se jogue na sua cama. Adeus, Hugo.

Desligo na cara dele, sem dar espaço para réplicas.

Tiro alguns minutos para me acalmar, respirando fundo. Não quero chegar à creche carregando essa energia pesada; as crianças não merecem o meu mau humor. Penso que foi um livramento terminar de uma vez. Ele mostrou um lado sombrio que eu não conhecia, e não estou disposta a pagar para ver o que mais ele esconde sobre o que pensa das mulheres. Ficou claro: para ele, eu era apenas um troféu, um brinquedo para exibir aos amigos.

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