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Capítulo 2

last update Fecha de publicación: 2026-03-03 20:55:17

2 de Janeiro 2009

Felipe

​Hoje é o dia mais importante da minha vida, até agora. O aniversário de 13 anos da Kamila. Há anos, o meu presente tem sido apenas uma margarida. Lembro-me da primeira vez que colhi uma; eu tinha sete anos e minha mãe as vigiava como tesouros. Ela me deixou de castigo o dia todo por ter mexido no canteiro, mas, mais tarde, ela viu a Kamila com a flor no cabelo e tudo mudou.

​Minha mãe me perguntou se eu tinha arrancado para ela e eu confessei que sim. Como era aniversário dela e eu não tinha moedas no bolso, queria dar algo que fosse bonito como ela. Pedi desculpas por bagunçar o jardim, e o olhar da minha mãe amoleceu. Ela decretou: a única exceção para colher uma flor era o aniversário da Mila.

​Este ano, porém, uma flor não é suficiente. Quero algo que ela possa guardar, um símbolo tangível do que sinto. Eu sempre a amei, mas o sentimento amadureceu, ganhou corpo e me assusta às vezes. A amizade e a admiração que sinto por ela só crescem. Sinto uma vontade inabalável de protegê-la, de ser o arquiteto dos seus sorrisos e o lenço para as suas lágrimas.

​Para isso, trabalhei duro. Peguei um carrinho de picolé para vender na praça durante as férias, sob o sol quente. Tenho juntado cada centavo há dias. Duas semanas atrás, fui à joalheria e encomendei um anel de prata, simples, mas com um pingente de coração e nossas iniciais gravadas. Não sei qual será a reação dela, mas meu peito transborda a esperança de que ela sinta o mesmo. Hoje vou buscar o anel para pedir que ela seja, oficialmente, minha namorada.

​Minhas mãos estão suando tanto que mal consigo segurar as coisas. A ansiedade é um peso no estômago e o medo da rejeição é uma sombra que insiste em me seguir. E se ela não quiser? E se eu estragar a amizade mais preciosa que tenho? Perder a Mila seria como perder o chão; ela é o meu elo, a garota que faz tudo parecer certo no mundo.

​Coloquei a camisa que ela mais gosta: preta, do Charlie Brown Jr. É a nossa banda favorita e ela sempre diz que preto combina comigo. Passo as mãos nervosamente pelos bolsos, conferindo pela décima vez se a caixinha de veludo ainda está lá. Respiro aliviado ao sentir o volume. Ao chegar na casa dela, sou recebido pela Dona Joana, que me sorri com cumplicidade.

​Os pais dela já sabem de tudo. Pedi permissão antes, como manda o respeito que tenho por eles. Eles disseram que, desde que o carinho fosse sincero e a amizade continuasse a base de tudo, nos apoiavam. No fundo, eles já esperavam que esse dia chegaria.

​Quando ela aparece, meu ar foge por um segundo. Kamila caminha em minha direção com um sorriso radiante, usando um vestido cor-de-rosa. Sei que ela prefere roupas mais leves, mas usa o vestido para agradar a mãe; esse sacrifício silencioso é só mais uma das coisas que me fazem amá-la.

​Como em todos os anos, a margarida que dei de manhã está presa em seu cabelo. Olho para o lado e vejo meus pais chegando; o olhar do meu pai é um incentivo silencioso de "vai lá, garoto", enquanto o da minha mãe transmite a paz de que tudo dará certo.

​Me aproximo dela e, de repente, as palavras parecem ter fugido da minha mente. O discurso ensaiado entala na garganta. O medo de parecer um idiota é grande, mas a vontade de tê-la ao meu lado é maior. Pigarreio, respiro fundo e deixo o coração falar antes que a coragem me abandone.

​— Mila, você sabe que eu sempre te admirei. Meu dia começa e termina com você nos meus pensamentos. Quando não te vejo, parece que o sol esqueceu de nascer. O amor que sinto por você hoje é mais forte, ele cresceu junto com a gente. Às vezes, eu sinto que você também percebe isso... Por isso, eu gostaria de perguntar: você aceita namorar comigo?

​Coloquei tudo para fora, mas o silêncio que se segue parece eterno. A ansiedade me consome. Lembro-me do anel. Com as mãos trêmulas, retiro a caixinha do bolso, abro-a e a estendo em sua direção. O brilho da prata reflete a luz da tarde.

​— Sim, eu quero ser sua namorada! — ela responde, com a voz embargada e um sorriso que apaga todos os meus medos. Ela estende a mão delicadamente.

​Ainda tremendo, deslizo o anel em seu dedo. Levo sua mão direita aos meus lábios e deposito um beijo suave ali, selando a promessa. Sinto no fundo da alma que este é o início da nossa história real. Mas, por um breve segundo, um arrepio estranho percorre minha espinha, como um pressentimento de que o destino pode testar esse laço. Espanto o pensamento. Hoje, o mundo é só nosso.

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