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capítulo 5

last update publish date: 2026-03-10 22:31:01

Kamila

Depois de me acalmar, finalmente fui buscar as caixinhas e consegui embrulhar os chocolates, tudo isso antes do meu horário de ir para a sala de aula. Definitivamente, as crianças são uma verdadeira cura para nossas almas; não tem como permanecer triste com tantas crianças puras por perto. Elas alegraram o meu dia por completo. Eu os maquiei carinhosamente como coelhinhos, com narizinhos vermelhos, bigodinhos, e logo colocamos as máscaras com orelhinhas.

Fizemos diversas brincadeiras, inclusive brincamos de pular de toca em toca; para isso, marquei alguns azulejos no chão como se fossem as tocas para saltar de uma para outra. Comprei também um pompom branco e o escondi com cuidado para brincarem de procurar o rabinho do coelho. Imprimi várias cópias de um desenho de coelhinhos com cestinhas de ovinhos de Páscoa, para eles colorirem com giz de cera.

O dia passou muito rápido e, depois que todas as crianças foram embora, fui para casa tomar um banho, comer algo e me preparar para a faculdade. No caminho para a faculdade, conversei rapidamente pelo telefone com minha melhor amiga, Leandra; ela disse que ganhou um sorteio para fazer uma tatuagem e estava muito, muito animada.

Assim que estacionei o carro, me dei de cara com ela, que veio correndo em minha direção, animada como sempre e cheia de empolgação com a novidade. Ela é exatamente daquele tipo de pessoa de quem a própria tristeza foge; é difícil saber quando ela não está em um dia bom, pois, mesmo quando está triste, ela tenta fazer todos os outros a sua volta se sentirem bem. Posso contar nos dedos de uma só mão as raras vezes em que ela demonstrou estar para baixo.

— Oi, Kami! Estava doida para você chegar — ela disse, me abraçando com força.

— Oi, Lê! E aí, que dia você vai fazer sua tatuagem? — perguntei a ela logo em seguida.

— O dia em que a sua agenda me permitir — ela disse com um sorriso travesso. — Porque nem morta eu vou sozinha fazer essa tatuagem. Afinal, tenho uma melhor amiga muito boa que vai comigo, não é?

— E quem seria essa pessoa? — eu disse, debochando. Coloquei a mão como se tampasse a forte claridade do poste à nossa frente e procurei por essa pessoa ao longe.

Ela riu da minha gracinha, mas disse logo:

— Para de palhaçada, Kami! Diz logo que você está doidinha para ir comigo. Inclusive, foi você quem disse que também queria fazer uma tatuagem.

— Estou zoando, amiga! Claro que eu vou com você. Podemos ir amanhã de manhã, se você quiser. Mas acho que só vou te ver sofrer com as agulhadas, pois, apesar de querer fazer uma, ainda não decidi o que tatuar.

— Por mim tudo bem. Você realmente precisa pensar muito bem no que tatuar, pois vai ficar para sempre no seu corpo. E agora, mudando de assunto: você vai na festa amanhã?

— Sinceramente, não estou muito a fim de ir à festa. Sem contar que eu não quero ver a cara do Hugo. Terminei com ele hoje de manhã.

Minha amiga faz uma cara de quem quer saber de cada detalhe, seguido por um gesto de mão como se dissesse "prossiga". Quando demoro alguns segundos para iniciar a história, ela diz impaciente:

— Conta logo! O que aconteceu?

Passo alguns minutos relatando a ela algumas coisas que aconteceram durante a última semana que eu ainda não havia dito, e também contei sobre a nossa conversa de hoje de manhã. Quando terminei de contar, ela me olhou com aquela cara de “eu te avisei”, mas, por sorte, ela não disse a frase.

— Você sabe que não perdeu nada, não é? Quem perdeu foi ele, aquele porco. Agora mesmo é que você deveria ir à festa, ou ele vai dizer por aí que você está em casa lambendo as feridas, pois quem chutou sua bunda foi ele.

— Eu não tinha pensado nisso ainda. Realmente, agora vendo o tipo de caráter que ele tem, com certeza ele deve distorcer a história a favor dele. Então, talvez eu vá e mostre como estou feliz por ter me livrado dele.

Terminamos nossa conversa enquanto caminhávamos para nossa sala. Logo após nos sentarmos, o sinal tocou, dando início à primeira aula. Mal vi o tempo passar depois disso, totalmente entretida com as matérias. Usamos o intervalo para combinar o horário em que iríamos ao tatuador. Marquei de encontrá-la na casa dela e, de lá, iríamos juntas.

No dia seguinte, ao chegar no estúdio de tatuagem, senti uma empolgação enorme ao ver todos aqueles desenhos. Fotos de tatuagens para todos os gostos estavam distribuídas pelas paredes. O barulho da máquina trabalhando, as pastas com amostras de desenhos... Tudo me chamava, como se me dissessem que a tatuagem que eu queria, mesmo sem saber qual forma teria, estava ali, me chamando.

Tínhamos sido atendidas pela assistente do tatuador, que disse que poderíamos aguardar na poltrona vendo os modelos de tatuagem, enquanto eles preparam a sala e os materiais que seriam usados na tatuagem da Lê. Ela ia tatuar os nomes dos pais dela no antebraço, mas pegou uma das revistas mesmo assim, para escolher o formato das letras. Uma das revistas me chamou atenção de forma especial.

Peguei-a e comecei a folhear. Cada desenho era mais lindo que o outro, mas nenhum deles parecia que tinha a ver comigo. Então, o nome da Leandra foi chamado pela assistente; a sala de atendimento era pequena e eu não teria como entrar junto, por isso esperaria ali. Continuei virando as páginas, na expectativa constante de encontrar o que buscava, sem ter a certeza de que alguma se encaixaria comigo. Até que, ao virar a próxima página, vi uma simples, porém linda, Margarida. E minha mente voou para o passado.

De repente, eu não estava mais ali, sentada na sala de espera de um estúdio de tatuagem. Minhas lembranças vieram como um sopro, sem aviso, e me levaram direto para ele. Meu amigo, meu primeiro amor, há anos distante, porém secretamente jamais esquecido. Algo me dizia que, mesmo que um dia eu talvez pudesse amar outro, meu coração jamais se esqueceria dele; sempre haveria uma memória ali, guardada no cantinho. Trancada e intocável, um pedaço do meu coração que sempre guardaria o nome dele.

E então, minha mente me levou até a primeira vez que ele me presenteou com aquela flor. Eu estava sentada em meu balanço, embaixo da árvore no quintal da casa onde morava. Eu ouvi os passos apressados dele vindo até mim, então parei de me balançar e esperei que ele se aproximasse. Pensei que ele queria se sentar e balançar também.

Nós dividíamos o balanço, pois no quintal dele não tinha nenhuma árvore grande o suficiente para pôr um, e na minha só cabia um balanço; mas a gente gostava muito de dividir, era mais uma das coisas que a gente tinha em comum. Mas, ao parar na minha frente, ele disse que tinha um presente para mim.

Com um sorriso que fez as bochechas dele corarem, ele estendeu para frente a mão direita que estava, até então, escondida em suas costas; e nela estava uma margarida branca, solitária, simples e linda. O medo carregou meus olhos quando vi a flor, pois eu sabia, assim como ele, que a Dona Maria não permitia que ele mexesse em seu jardim.

Com a mão ainda estendida entre nós, ele me desejou feliz aniversário e eu o abracei agradecendo, muito alegre por ele ter se lembrado e também pela flor, pois eu amava aquelas flores e ele sabia disso. Ele me entregou a flor; eu não queria amassá-la, nem perdê-la brincando, então a coloquei delicadamente atrás da orelha direita. E um sorriso sincero cobriu o rosto dele. Em seguida, ouvimos a mãe dele chamar por ele. Ela não parecia nem um pouco feliz.

— Te vejo depois, preciso ir agora! — ele disse e saiu correndo para a casa dele.

Depois disso, passei o dia todo sem vê-lo; isso só acontecia quando um de nós dois ficava de castigo, pois geralmente brincávamos juntos sempre. Mais tarde, descobri durante minha festa de aniversário que a mãe dele o tinha colocado de castigo durante todo o dia, dentro de casa, por ter arrancado aquela flor.

Fiquei triste por ele e pedi que ele não fizesse isso de novo, por mais que eu tivesse gostado do presente. Ele sorriu para mim, então, e disse que valeu a pena ter ficado de castigo por ter me dado a flor, pois o meu sorriso alegre quando ganhei o deixou feliz. E completou depois, dizendo que todo ano me daria uma, pois a mãe dele, ao perceber que a flor tinha sido um presente de aniversário para mim, disse que deixaria que ele pegasse uma todo ano, mas apenas no meu aniversário.

Ao longe, ouvi uma voz chamando meu nome; percebi que não era a primeira vez que meu nome era dito. Uma mão tocou meu ombro e, piscando para afastar as lembranças do passado, olhei para minha amiga que estava em pé na minha frente, me chamando.

— Eu já estava ficando preocupada! Chamei seu nome três vezes e você não parava de encarar a página da revista.

— Me desculpe, eu não ouvi. Estava perdida em memórias — eu disse, meio sem graça.

Ela olhou então para a página na revista e a compreensão atingiu seus olhos. Ela sabia de toda a minha história, de tudo o que vivemos, do início da nossa amizade até o nosso namoro. Por isso, ao olhar para a flor na revista, ela soube, sem que eu precisasse explicar, que eu estava pensando nele. E um lampejo de tristeza passou pelos olhos dela; tristeza por mim, por saber que há anos eu não tinha notícias dele.

— Eu entendo, amiga, não precisa se desculpar. Eu só estava te chamando para dizer que terminei de fazer minha tatuagem.

Arregalei os olhos, sem conseguir acreditar que ela já tinha acabado a tatuagem enquanto eu estava ali, sentada e totalmente perdida em memórias. Realmente, parece que o tempo funciona de um jeito diferente quando nós estamos assim, presos no passado. Olhei com atenção para o antebraço dela e vi a tatuagem gravada ali; então, eu disse para ela que havia ficado linda, e ela sorriu satisfeita com o meu elogio e com o belo resultado.

Eu disse para ela, logo em seguida, que havia finalmente decidido o que eu queria e que, se tivesse um horário disponível para mim, eu faria a minha tatuagem hoje mesmo. Por sorte, o tatuador havia reservado o horário seguinte para um cliente que ligou desmarcando há alguns minutos, pois tinha bebido muito ontem e estava com uma forte ressaca. Nos disse a assistente prontamente. Então, eu saí de lá realizada, com a minha margarida tatuada em minha mão direita.

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