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Capítulo 4 — O Lago

last update Petsa ng paglalathala: 2026-07-24 02:49:46

Alfa Kael,

A casa estava silenciosa demais depois que os últimos da alcateia se dispersaram da praça, e ainda assim eu sentia como se todo aquele silêncio gritasse comigo.

Theo entrou sem bater, como sempre fazia, mas dessa vez sem o sorriso de sempre no rosto. Fechou a porta atrás de si com um cuidado que não era dele — Theo nunca tinha cuidado com nada — e isso, mais do que qualquer palavra, me disse o quanto ele estava com raiva.

— Você tem noção do que acabou de fazer? — perguntou, a voz baixa, quase controlada demais para ser verdade.

Eu estava sentado na beira da cama, os cotovelos nos joelhos, as mãos ainda tremendo do jeito que tremeram diante de toda a alcateia. Não respondi de imediato. Não sabia se conseguiria formar frases inteiras sem que a voz falhasse de novo.

— Eu sei o que eu fiz — disse, por fim.

— Sabe? — Theo deu um passo à frente, e pela primeira vez em muito tempo, meu irmão mais novo parecia mais Beta do que garoto. — Você rejeitou uma escolhida do pergaminho diante de toda a alcateia, Kael. Diante de todos. Você tem ideia do que isso significa pra ela? Do que significa pra nós?

— Eu não podia aceitar. — As palavras saíram mais duras do que eu pretendia, mais defensivas. — Você viu o rosto dela quando o nome foi lido. Ela nem queria isso.

— E você sabe disso como, exatamente? — Theo cruzou os braços. — Porque, pelo que eu vi, o único que claramente não queria aquilo ali era você.

Eu não tinha resposta pra isso. Porque ele estava certo, e nós dois sabíamos.

A porta se abriu de novo, dessa vez sem pressa, e o Ancião entrou, apoiado no cajado que carregava havia mais anos do que eu tinha de vida. Ele não parecia com raiva, como Theo. Parecia cansado, o tipo de cansaço que vem depois de ver a mesma história se repetir vezes demais.

— Kael — disse ele, a voz mais suave do que eu esperava. — Sente-se comigo.

Eu já estava sentado, mas entendi o que ele queria dizer, e fiquei ali, imóvel, deixando que ele se aproximasse devagar, o cajado batendo baixinho contra o chão de madeira a cada passo.

— O vínculo que você rompeu hoje não é apenas dela — disse ele, parando diante de mim. — É seu também. Você vai sentir a ausência disso nos próximos dias, nas próximas semanas. Vai doer de um jeito que você não está preparado para entender ainda, porque nenhum Alfa jamais está.

— Eu não sinto nada além do que já sentia antes — menti, ou tentei acreditar que era mentira.

O Ancião balançou a cabeça devagar, como quem já ouviu aquela mesma frase de outros jovens tolos, em outras noites, muito antes de mim.

— O pergaminho escolheu Eliz por um motivo, Kael. Ele não erra. — Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos meus, como se tentasse enxergar através de mim. — Talvez o erro não esteja no pergaminho.

Levantei antes que ele pudesse terminar aquele pensamento, a cadeira arrastando contra o chão com um som alto demais para o silêncio do quarto.

— Eu preciso de ar.

Theo tentou segurar meu braço quando passei por ele, mas eu me afastei rápido demais, e algo dentro de mim — a mesma coisa que tinha me feito recusar Eliz diante de toda a alcateia — já estava se movendo antes que minha mente decidisse conscientemente para onde ir.

Saí pela porta dos fundos, longe dos olhos que ainda deviam estar espalhados pelas ruas de Vorden, comentando, julgando, tentando entender o que tinham acabado de testemunhar. A pele começou a formigar antes mesmo de eu chegar à linha da floresta, aquele puxão familiar por baixo da carne que eu conhecia desde criança, e deixei que acontecesse — os ossos se reorganizando, a dor rápida e conhecida, o mundo ficando mais alto, mais colorido de cheiros do que de cores, até que eu estava correndo em quatro patas por entre os pinheiros, o vento levando embora, por alguns minutos ao menos, o peso do que eu tinha feito.

Sabia exatamente para onde estava indo. Não precisava pensar nisso — meu corpo já conhecia o caminho até o lago, a clareira escondida atrás da linha de árvores mais altas, onde a água ficava parada o suficiente para refletir a lua quase inteira.

Lucy estava lá, como eu sabia que estaria.

Ela não se transformara ainda, sentada na pedra plana perto da margem, os braços em volta dos joelhos, os cabelos dourados soltos e desarrumados de um jeito que ela nunca deixava ninguém ver em público. Quando me sentiu chegar, não se assustou. Só ergueu os olhos, como se tivesse contado os minutos até aquele exato momento.

Voltei à forma humana devagar, a respiração ainda pesada, e por um instante nenhum dos dois disse nada. Só ficamos ali, a distância entre nós menor do que deveria ser, o som da água batendo de leve contra as pedras preenchendo o silêncio que nem ela nem eu sabíamos como quebrar.

— Você fez isso — disse ela, por fim, a voz baixa, quase incrédula. — Diante de todo mundo.

— Eu fiz.

Ela se levantou devagar, os olhos brilhando com algo que eu não soube, naquele momento, se era gratidão, medo, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

— Kael... o que a gente fez?

Eu não tinha resposta para isso. Só sabia que, enquanto o eco da própria voz ainda ressoava na minha cabeça — *eu rejeito você* — alguma parte de mim, pequena, ainda mal formada, já sentia que talvez tivesse acabado de cometer o maior erro da vida.

Mas não recuei. Não naquela noite.

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