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Capítulo 5 — O Custo

last update Date de publication: 2026-07-24 06:28:19

Não dormi. Passei a noite inteira sentado na varanda dos fundos, olhando pra escuridão da floresta, esperando por algo que eu não sabia nomear — talvez um alívio que nunca chegou, talvez a certeza de ter feito a coisa certa, que também não veio.

Quando o sol nasceu sobre Vorden, trouxe consigo o primeiro sinal real do que eu tinha desencadeado.

Ouvi antes de ver — vozes baixas demais pra serem inocentes, vindas da rua principal, cessando abruptamente sempre que alguém passava perto o bastante da minha casa. Fofoca tem esse jeito de se mover por um vilarejo pequeno: rápida, silenciosa, e impossível de conter uma vez solta.

Desci até o centro pouco depois, tentando parecer normal, tentando parecer o Alfa que tinha sido até ontem à noite. Não funcionou. Cada olhar que cruzava o meu desviava rápido demais, cada conversa parava um segundo antes de eu chegar perto o suficiente pra ouvir o que diziam. Os que não desviavam olhavam de um jeito diferente — não mais o respeito de sempre, mas algo mais parecido com julgamento, ou pior, com pena.

Encontrei o velho Bram perto do poço, um dos anciãos do conselho, homem que tinha lutado ao lado do meu pai décadas atrás. Ele não desviou o olhar quando me aproximei, o que já dizia algo — Bram nunca teve papas na língua.

— Ouvi dizer que você rejeitou o pergaminho — disse ele, sem preâmbulo, a voz áspera como sempre.

— Eu rejeitei a escolhida. Não o pergaminho.

— É a mesma coisa, garoto. — Ele cuspiu no chão, um gesto de desprezo que eu já tinha visto ele fazer poucas vezes na vida, sempre reservado pra coisas que ele considerava graves de verdade. — Seu pai nunca teria feito isso. Nem que a lua caísse do céu.

— Meu pai não está mais aqui pra fazer nada — respondi, mais duro do que pretendia, e me afastei antes que a conversa fosse além.

Sabia que Bram tinha razão, e isso doía mais do que eu queria admitir. Meu pai tinha liderado Vorden por décadas com uma certeza que eu nunca tinha certeza de possuir de verdade — e agora, na primeira decisão realmente minha, a primeira que carregava peso o bastante pra definir o tipo de Alfa que eu seria, eu tinha escolhido errado diante de todos.

O resto da manhã não foi diferente. Em cada esquina, o mesmo padrão: sussurros que cessavam, olhares que fugiam, uma distância nova entre mim e a alcateia que eu nunca tinha sentido antes, nem nos primeiros meses inseguros depois de assumir a liderança. Antes, quando eu duvidava de mim mesmo, ao menos sabia que tinha o respeito deles enquanto aprendia. Agora sentia que tinha perdido as duas coisas de uma vez.

Fui até a casa de Lucy no meio da tarde, precisando de algo — não sei exatamente o quê. Talvez só precisasse ouvir de alguém que tinha valido a pena.

Ela não me deixou entrar.

— Não é uma boa hora, Kael — disse, parada na porta, os braços cruzados, o corpo inteiro fechado de um jeito que eu não reconhecia nela.

— Eu só queria falar com você. Depois de ontem...

— Depois de ontem o quê? — A voz dela saiu mais afiada do que eu esperava, cortando minha frase pela metade. — Você acha que ontem foi sobre nós?

— Eu fiz aquilo por você — falei, e mesmo enquanto as palavras saíam, algo nelas soava errado, como se eu estivesse tentando convencer a mim mesmo tanto quanto a ela.

Lucy balançou a cabeça devagar, os olhos verde-claros brilhando com algo que eu não soube ler de imediato — não gratidão, com certeza. Mais parecido com exasperação.

— Você fez aquilo por você, Kael. — Ela deu um passo pra trás, começando a fechar a porta. — Humilhou uma garota inocente diante da alcateia inteira porque não teve coragem de simplesmente conversar comigo antes da cerimônia, em particular, como um homem de verdade faria. E agora espera o quê? Que eu te receba de braços abertos, como se você tivesse feito algo romântico?

— Eu pensei que você...

— Você nunca perguntou o que eu queria. — A porta parou a meio caminho de fechar, e por um instante ela me encarou com uma clareza que doeu mais do que qualquer grito. — Você decidiu por mim, decidiu por Eliz, decidiu por toda a alcateia, e nem uma vez parou pra pensar se alguém além de você queria aquilo.

A porta se fechou antes que eu conseguisse responder. Fiquei ali, parado no meio da rua vazia, sentindo pela primeira vez o peso completo do que tinha feito — não apenas a Eliz, mas a mim mesmo, ao acreditar que aquele gesto público, aquela humilhação diante de todos, seria lido como prova de amor em vez do que realmente era.

Um erro. Um erro enorme, irreversível, que não tinha me dado nada em troca além de uma alcateia que já não confiava em mim e uma mulher que sequer queria ser salva daquele jeito.

Voltei pra casa devagar, o caminho que antes parecia curto agora se esticando sob o peso dos próprios pensamentos. Theo estava sentado na varanda quando cheguei, os braços apoiados nos joelhos, o rosto sério.

— E então? — perguntou, sem precisar especificar o quê.

— Ela nem me deixou entrar.

Meu irmão suspirou, longo, cansado, o tipo de suspiro que eu já devia ter escutado antes de fazer o que tinha feito.

— Você sabe o que isso significa, não sabe? — disse ele, baixo. — Você perdeu as duas.

Eu não respondi. Não havia nada a dizer que pudesse desfazer aquela verdade simples, cruel, que agora se instalava no peito com o mesmo peso da rejeição que eu tinha causado na noite anterior.

Tinha perdido Eliz, sem nunca tê-la de verdade. E agora, olhando pra porta fechada de Lucy, começava a entender que talvez nunca tivesse tido nada real com ela também — só a ideia de algo que eu tinha construído sozinho, na minha cabeça, longe o bastante da realidade pra não perceber o próprio erro até ser tarde demais.

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