Share

capítulo 5

Author: Ell Marioti
last update publish date: 2026-07-23 01:11:01

O terceiro uivo fez as paredes da sala do conselho estremecerem.

Meu lobo despertou dentro de mim com um rosnado baixo.

Nunca tinha sentido aquilo.

Era medo.

Mas não apenas medo.

Era como se uma força invisível obrigasse meu corpo inteiro a prestar atenção.

Os anciãos se levantaram quase ao mesmo tempo.

Damian segurou a mesa para não perder o equilíbrio.

— Não...

sussurrou.

— Isso não deveria estar acontecendo.

Outro uivo ecoou.

Mais próximo.

Mais forte.

Os vidros das janelas vibraram.

A porta foi aberta de repente.

Um dos guardas entrou quase sem fôlego.

— Alfa...

Ele olhou para Ethan.

— Eles chegaram.

O silêncio tomou conta da sala.

Ethan caminhou até a janela.

Não consegui enxergar o que ele via, mas a tensão em seus ombros dizia tudo.

— Abram os portões.

Helena arregalou os olhos.

— Você enlouqueceu?

— Se eles vieram até aqui sem atacar, não serão os portões que vão detê-los.

Damian assentiu.

— Abram.

Assim que saímos para o pátio, encontrei praticamente toda a alcateia reunida.

Ninguém falava.

Nem as crianças.

Todos olhavam para os enormes portões de madeira.

O ranger das correntes rompeu o silêncio.

Os portões começaram a se abrir lentamente.

Do outro lado...

A floresta.

Escura.

Silenciosa.

Por um instante, achei que não havia ninguém.

Então ouvi passos.

Pesados.

Lentos.

Algo enorme saiu entre as árvores.

Meu coração disparou.

Não era um lobo.

Também não era um homem.

Era uma criatura gigantesca, andando sobre duas pernas.

Seu corpo era coberto por pelos negros que refletiam a luz da lua.

Os olhos dourados brilhavam como ouro derretido.

Garras enormes riscavam a terra a cada passo.

Atrás dele, outras figuras semelhantes surgiram da escuridão.

Uma.

Cinco.

Dez.

Mais de vinte guerreiros.

Nenhum fazia barulho.

Apenas caminhavam.

A alcateia inteira recuou instintivamente.

Alguns lobos chegaram a baixar a cabeça.

Meu próprio lobo se encolheu dentro de mim.

Não por covardia.

Por respeito.

Ou talvez por reconhecer um predador muito acima de qualquer Alfa.

O Lycan que liderava o grupo parou a poucos metros dos portões.

Seus olhos percorreram toda a alcateia.

Calmos.

Calculistas.

Então seu corpo começou a mudar.

Os pelos desapareceram lentamente.

Os ossos estalaram.

Em poucos segundos, um homem ocupava o lugar da criatura.

Alto.

Muito alto.

Os cabelos negros caíam até os ombros.

Os olhos dourados continuavam exatamente iguais.

A expressão era impossível de decifrar.

Nenhuma emoção.

Nenhuma pressa.

Nenhum medo.

Atrás dele, os outros guerreiros também assumiram a forma humana.

Todos permaneceram em silêncio.

Foi Damian quem deu um passo à frente.

Curvou levemente a cabeça.

— Seja bem-vindo... Majestade.

Nunca tinha visto o ancião demonstrar respeito daquela maneira.

Nem mesmo ao antigo Alfa.

Ethan permaneceu imóvel ao lado dele.

Os dois se encararam durante alguns segundos.

Nenhum parecia disposto a desviar os olhos.

Então o desconhecido falou.

Sua voz era grave.

Profunda.

— Sou Kael Draven.

Rei dos Lycans.

Não havia arrogância em seu tom.

Ele apenas declarou um fato.

Damian respirou fundo.

— A que devemos sua visita?

Kael permaneceu em silêncio.

Seu olhar percorreu lentamente a multidão.

Quando passou por mim...

Meu peito apertou.

O mesmo perfume.

Madeira molhada.

Chuva.

Hortelã.

Minha cabeça latejou.

Por um segundo...

Vi dedos entrelaçados aos meus.

Uma respiração quente perto do meu rosto.

Uma voz rouca dizendo:

"Você está segura."

Levei a mão à cabeça.

A lembrança desapareceu antes que eu pudesse alcançá-la.

Kael franziu a testa por um instante.

Foi quase imperceptível.

Como se também tivesse sentido alguma coisa.

Mas continuou andando.

Passou por Ethan.

Passou pelos guardas.

Passou pelos anciãos.

Sem pedir licença.

Sem esperar autorização.

A alcateia inteira abriu caminho naturalmente.

Quando chegou ao centro do pátio, ele finalmente voltou a falar.

— Há algo nesta alcateia que pertence ao meu reino.

Um murmúrio atravessou a multidão.

Damian endureceu a expressão.

— O que exatamente veio procurar?

Kael ergueu os olhos para a lua avermelhada antes de responder.

— Ainda não tenho essa resposta.

Mas vou encontrá-la.

E, pela primeira vez desde que tudo começou, tive a estranha sensação de que a chegada do Rei Lycan não tinha nada a ver com guerra.

Ela tinha a ver comigo... embora nem ele parecesse entender o motivo.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A loba rejeitada e o Rei lycan    capítulo 43

    A palavra Serena permaneceu na minha cabeça durante toda a noite.Eu queria acreditar que aquilo era apenas uma coincidência.Queria pensar que existia outra explicação.Mas cada vez que fechava os olhos, lembrava do que havia acontecido.A bebida.A tontura.A floresta.Kael.E depois o vazio.Alguém havia tirado aquela noite de nós.E agora tínhamos uma pista.A poção.Na manhã seguinte, encontrei Kael na biblioteca.Ele estava diante de uma mesa coberta de livros.— Você dormiu? — perguntei.— Algumas horas.— Mentira.Ele ergueu uma sobrancelha.— Você está começando a me conhecer bem demais.— Talvez.Aproximei-me.— Descobriu alguma coisa?Kael virou um dos livros para mim.— A poção não cria sentimentos.Olhei para ele.— Então o que ela faz?— Faz o usuário perder temporariamente o controle dos próprios instintos.Meu coração apertou.— Então...— O que aconteceu entre nós naquela noite não foi causado pela poção.Ele segurou meu olhar.— Ela apenas tirou nossas defesas.Fique

  • A loba rejeitada e o Rei lycan    Capítulo 42

    Não consegui voltar a dormir depois que Kael me contou sobre a profecia. Havia coisas demais acontecendo ao mesmo tempo. Meus pais. A marca. A Lua. Os gêmeos. E aquela noite. A noite que minha mente havia apagado. Fiquei olhando para o teto enquanto Kael dormia sentado na poltrona ao lado da cama. Ele insistira em ficar ali. Dissera que não queria me deixar sozinha depois do parto. Mas eu sabia que havia outro motivo. Ele também estava tentando juntar as peças. Virei o rosto para o berço. Aren dormia tranquilamente. Liora estava ao lado dele, com uma pequena mão fechada perto do rosto. Meus filhos. A profecia dizia que eles poderiam colocar fim à guerra. Mas também dizia que poderiam ser a razão para ela começar. Eu não queria que nenhum dos dois carregasse esse peso. Nem que soubessem dele. --- Quando o sol começou a entrar pela janela, Kael abriu os olhos. — Você não dormiu. — Você também não. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu dormi

  • A loba rejeitada e o Rei lycan    Capítulo 41 Kael

    Não consegui dormir. Ayla finalmente havia adormecido. Os gêmeos também. Fiquei sentado próximo à janela, observando os três. Minha família. A palavra ainda parecia estranha. Bonita. Perigosa. Meu olhar foi até Aren. Os pequenos olhos dourados haviam sido a primeira coisa que me fez compreender. Não havia dúvida. Ele carregava meu sangue. Mas Liora... Era ela quem me preocupava. A pequena lua crescente nas costas. E a estrela. A marca que eu conhecia desde criança. A marca que minha mãe me mostrou quando eu ainda era um garoto, explicando que aquele símbolo pertencia apenas aos descendentes diretos do nosso sangue. Nunca havia visto aquela marca em outra pessoa. Até aquela noite. — Não pode ser... Darius havia dito aquilo várias vezes. Eu também havia pensado. Mas agora, olhando para minha filha, já não conseguia fingir que era impossível. Alguma coisa havia unido nossas duas linhagens. E alguém sabia disso. --- Saí do quarto sem fa

  • A loba rejeitada e o Rei lycan    Capítulo 40

    A porta se fechou depois que Darius saiu.Mas as palavras dele permaneceram no quarto.Três alcateias haviam rompido a aliança.E tudo por causa dos meus filhos.Olhei para Kael.Ele continuava parado perto da janela, de costas para mim.Seu corpo estava rígido.Conhecia aquela postura.Era a mesma que ele assumia quando tentava controlar alguma coisa dentro de si.— Kael.Ele não respondeu.— Venha aqui.Dessa vez, ele se virou.A expressão dele ainda carregava a frieza do Rei, mas seus olhos procuraram imediatamente os bebês.— Eles acabaram de nascer — falei. — Não podem começar uma guerra por causa deles.— Não será por causa deles.Ele caminhou até a cama.— Será por causa do que eles representam.Franzi a testa.— O que isso significa?Kael se sentou ao meu lado.— Significa que algumas alcateias estavam apenas esperando uma oportunidade para desafiar minha autoridade.— E nossos filhos deram essa oportunidade.Ele ficou em silêncio.A palavra nossos ainda parecia estranha e bon

  • A loba rejeitada e o Rei lycan    capítulo 39

    A primeira coisa que senti ao acordar foi o peso. Meu corpo inteiro parecia pesado. As pernas doíam, minhas costas estavam cansadas e até respirar profundamente parecia exigir esforço. Mas havia outra coisa. Um silêncio diferente. Abri os olhos devagar. Por alguns segundos, não reconheci o quarto. Então ouvi um pequeno som. Um resmungo. Virei o rosto. Kael estava sentado em uma poltrona ao lado da cama. E tinha um bebê em cada braço. Fiquei olhando. Ele parecia completamente concentrado. O menino estava enrolado em uma manta clara, dormindo tranquilamente contra seu peito. A menina estava no outro braço, com uma das mãozinhas fechadas ao redor do dedo dele. Kael olhava para os dois como se estivesse diante de algo que não conseguia compreender. Sorri. — Você está acordado há quanto tempo? Ele levantou os olhos. — Não sei. Minha voz saiu rouca. — Você dormiu? — Um pouco. — Mentira. Um sorriso apareceu no canto de sua boca. — Talvez. Observei os dois bebês. —

  • A loba rejeitada e o Rei lycan    capítulo 38

    Eu ainda não conseguia entender. Meu corpo estava exausto. Meus braços tremiam depois de horas de dor. Mas nada se comparava ao que acontecia dentro da minha cabeça. Olhei para o pequeno menino nos braços de Kael. Os olhos dourados. Depois para a menina, tão pequena, com a lua crescente nas costas. Minha marca. Meu coração disparou. E então aconteceu. Uma dor atravessou minha cabeça. Levei a mão à testa. — Ayla? — Kael chamou. Fechei os olhos. E a lembrança veio. Não como antes. Não fragmentada. Não como um sonho. Inteira. A floresta. A chuva. A noite. Eu correndo entre as árvores. Rindo. Minha mão presa à de um homem. Kael. Era ele. Eu sabia. Eu me virei enquanto corria. Vi seu rosto. Seus olhos dourados. O sorriso que eu não conseguia esquecer. — Você está demorando! Minha própria voz ecoou na lembrança. Kael riu. — Você não sabe nem para onde está indo. — Não preciso saber. Continuei correndo. Ele me puxou de volta. Caí contra seu peito. E e

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status