登入༺ Joseph Aslan ༻Minha perna queimar como se estivesse em carne viva. O sangue quente escorre pela minha calça jeans desbotada, sujando o chão de madeira do alpendre onde governei este lugar por mais de trinta anos.A espingarda pesa nos meus braços, inútil agora, enquanto o cheiro amargo de pólvora se espalha pelo pátio destruído.Observo o capitão da polícia caminhar até a varanda. Ele traz o papel da ordem judicial amassado na mão e guarda o revólver no coldre com um movimento lento, sem coragem de me encarar.— Joseph, acabou — ele declara, com a voz gasta, tentando manter uma postura neutra diante dos homens armados que cercam a propriedade. — Foi inútil a sua resistência. A ordem de desapropriação e o mandado de prisão por porte ilegal e tentativa de homicídio vão ser cumpridos agora.Tranco os dentes com tanta força que o maxilar estala. Cuspo o sangue que acumulou na minha boca direto na madeira da varanda, dando um passo para a frente.— Você prometeu me ajudar! — brado, rasg
༺ Dafne Aslan ༻A fumaça da pólvora ainda paira pesada sobre o pátio da fazenda quando vejo o rastro de passos acelerados da minha mãe.Mary corta o caminho entre os mourões derrubados e avança como uma doida no meio do caos, ignorando o perigo e marchando direto para os degraus da varanda, onde o Joseph tenta se arrastar para dentro de casa.— Mãe! Espera! — grito.Corro atrás dela, pisando fundo com as botas no cascalho para tentar alcançá-la antes que aquele velho engatilhe a espingarda de novo. Santiago e Alejandro vêm logo atrás de mim, mantendo as armas em riste para cobrir qualquer imprevisto, mas Mary não diminui o passo um segundo sequer.Quando finalmente chego perto da varanda, encontro minha mãe parada no topo dos degraus, com a espingarda firme entre as mãos e a feição tomada por uma fúria que sufocou anos de covardia.Joseph está encostado na amurada de madeira, limpando o sangue do rosto com o dorso do braço, arrastando a perna ferida.— Aonde você vai, Joseph? — Mary
༺ Mateo de La Vega ༻Ajustei meu óculos no rosto, sentindo o suor frio escorrer de leve perto da fonte. O portão de madeira recém-derrubado jaz estraçalhado na terra batida, e a poeira baixa devagar, revelando a linha de frente dos pistoleiros do Joseph.Eles estão posicionados atrás dos mourões da cerca e das pilhas de lenha espalhadas pelo pátio. O velho continua firme no centro, segurando aquela espingarda pesada com as mãos trêmulas, mas tomadas por uma loucura cega.Fico ao lado do Dante, mantendo a minha arma em riste, o dedo repousado com cuidado junto ao gatilho. O ar da manhã cheira a poeira, mato seco e perigo iminente.— Ele não vai recuar — digo para o Dante, sem tirar o olho do movimento dos capangas do velho. — Se viemos pelo bom senso, perdemos viagem. Ele quer bala, então que venha bala.— Se é isso o que ele quer, é isso o que terá — Dante reafirma, ajeitando a empunhadura da pistola com precisão calculada. — Ninguém sai desta fazenda sem resolver essa pendência hoje
༺ Dafne Aslan ༻O capitão da polícia me encara rígido, ajeitando o quepe na cabeça enquanto tenta manter uma autoridade que claramente já não tem.Ele olha para mim, depois para Alejandro e Santiago parados bem ao meu lado, e solta um suspiro pesado que quase se perde no barulho dos motores.— Não é tão fácil assim, garota — o policial responde, balançando a cabeça devagar. — A lei tem seus trâmites, os horários e as burocracias. Não podemos simplesmente derrubar um portão dessa propriedade sem garantia de segurança.— Não é tão fácil? — pergunto, dando meio passo à frente e soltando uma risada irônica que faz o capitão dar um sobressalto. — E o que tem de difícil aqui, seu capitão? O Joseph está morando em algo que não é dele! Ele é um invasor num terreno que pertence ao nome da minha mãe. O mandado de desapropriação está assinado pelo juiz, a papelada tá na mão do oficial e vocês estão aqui parados na entrada feito estátuas!O homem limpa a garganta, desconfortável. Ele corre os olh
༺ Dafne Aslan ༻Subo no banco do carona da caminhonete preta, batendo a porta com força para terminar naquela bagunça no meio da sala. Alejandro assume o volante ao meu lado, enquanto Dante se acomoda no banco traseiro, checando o pente da pistola antes de guardá-la no coldre. Na outra caminhonete, logo atrás da nossa, vão Santiago, Mateo e Diego, acompanhados por parte dos homens armados da fazenda.Alejandro dá a partida e o motor ronca pesado. As rodas cantam no cascalho do pátio antes de pegarmos a estrada de terra.Encosto a cabeça contra o vidro da janela, observando as árvores passarem rápido pela paisagem envoada do início da manhã. A poeira sobe em densas nuvens amarelas. Sei perfeitamente que o confronto com o meu pai não será simples. Aquele homem transformou a propriedade da minha mãe num verdadeiro campo minado, cercado de pistoleiros e corrupção. Ele vai tentar utilizar tudo o que tem para me ver destruída, para garantir que eu nunca ponha as mãos no que me pertence
༺ Santiago de La Vega ༻Aperto os dentes com tanta força que sinto o osso do meu maxilar estalar. Movo o corpo de um lado para o outro perto da janela, sem conseguir parar quieto um segundo. O dia mal começou a dar as caras lá fora e o meu sangue já fervilha nas veias, como se estivesse prestes a explodir.Minha bochecha esquerda ainda queima ao lembrar. Aquele estalo ressoa na minha cabeça toda vez que fecho os olhos. Puta que pariu. A garota me meteu a mão na cara sem pensar duas vezes, com uma fúria que quase me fez perder a cabeça no corredor.Passei a mão no rosto devagar, sentindo a pele um pouco inchada. Por dentro, um sentimento incômodo se misturava com uma pontada de fascínio que odeio admitir. A audácia dessa loira dos infernos me irrita, mas me atrai de um jeito totalmente descontrolado. Ela não se encolhe. Não baixa a cabeça para nenhum de nós. Quanto mais tento prensar a passarinha contra a parede, mais ela me mostra as garras.— O que aconteceu com a sua cara? — Die







