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Descanso merecido...

last update Data de publicação: 2021-01-10 01:45:59

Planejamos sair cedo na manhã do sábado, assim poderíamos aproveitar boa parte do dia, porém, uma série de contratempos fez com que conseguíssemos sair apenas depois do almoço e precisaríamos ficar para dormir, mas não perderíamos aula na segunda-feira. Fiz uma pequena mala com uma muda de roupas para o caso de uma pequena emergência, coloquei medicamentos e alguns produtos de higiene e sai do quarto, encontrando meus pais de pé na sala fitando-me com seriedade.

– No máximo uma cerveja para não cortar o efeito dos remédios! - meu pai começou, sua voz engrossando em alguns tons. – A dona da pousada foi avisada sobre isso...

– Tenham muito cuidado e não esqueçam de colocar protetor solar! - minha mãe completou em um tom um pouco mais sereno. – Se divirtam!

         Concordei com tudo balançando a cabeça e agradeci a confiança enquanto irrompia pela porta, encontrando meus três companheiros de viagem esperando-me em frente a um carro provavelmente dos pais de Mark, que estava sentado como motorista. A despedida dos meus pais foi breve, e logo, estava sentada ao lado de Gabriel que acomodava minha bolsa no porta-malas quase lotado com outras bolsas e caixas de refrigeração, que esperei não estarem cheias de cerveja.

Chegamos ao cais em alguns minutos, sentado na borda de barco mediano e branco, estava o marinheiro que ficara incluso no pequeno pacote que fizemos com a pousada. O senhor Matos morava na ilha de Maju, e seria o responsável por nos levar e trazer de volta em segurança, seus olhos eram extremamente negros e parecia um poucos irritado com nosso atraso, então apenas nos cumprimentou com poucas palavras enquanto nos acomodava e rapidamente ligou o motor.

Karen parecia animada com a ideia de ver novamente o lugar em que passara boa parte de sua infância junto a avó e quando sua vida era um pouco mais tranquila, lhe sorri e sugeri que visitasse a casa da velha senhora já falecida, caso ela quisesse.

– Tenho boas lembranças, e a vista do mar é linda – ela comentou fechando os olhos como se assim, pudesse visualizar melhor as imagens de sua memória. – Mas não é tão diferente de onde estamos saindo.

– Se engana, moça! - o velho senhor que até então, mantinha-se em silêncio, exclamou voltando seus olhos levemente para nós. – Maju pode até ser visualmente parecido com a ilha de Ainu, mas são histórias muito diferentes...

– Como assim? - perguntei ficando interessada, afinal poucas pessoas pareciam dispostas a falar sobre a história daquela ilha. Aproximei-me um pouco mais do homem e me sentei, no convés, sendo seguida pelos outros.

         Quem nos olhasse, poderia achar a cena um tanto curiosa pois, parecíamos crianças em volta de um antigo ancião esperando-o contar sobre os contos antigos do lugar em que morávamos, e era exatamente essa a sensação que eu estava sentindo, de ter retornado a infância.

         O homem sorriu parecendo um pouco mais simpático e fitou o horizonte que se abria à sua frente em meio a vastidão azul do mar, parecia relembrar mais detalhes.

– Os mais velhos dizem que estas ilhas foram uma única no passado... – ele começou explicando algo de que eu já desconfiava, levou a mão ao bolso e pegou algumas balas caseiras feitas da fruta nativa da ilha, jogando algumas para nós e colocando uma na boca. – Esse lugar sempre foi muito próspero, o alimento era abundante e as crianças brincavam sem medo nas ruas das pequenas vilas, mas...

         Matos calou-se por alguns instantes, seu rosto contorcendo-se em uma expressão de desgosto e uma sensação estranha de tensão pesou no ar, fazendo com que olhássemos de um para o outro confusos, mas não fizemos nenhum comentário e encarando nosso silêncio como um incentivo, ele decidiu continuar.

– Mas isso só aconteceu enquanto a ilha era limpa, depois que a sujeira chegou, tudo mudou completamente... os peixes começaram a desaparecer das águas mais rasas, os frutos secaram...

         O fitamos sem entender a que se referia quando falava de sujeira, esperamos que ele continuasse, mas depois daquelas palavras, o silêncio reinou dentro do barco e mais nada foi dito, deixando-nos imersos em curiosidade. Alguns minutos depois, atracamos no cais improvisado que ficava em frente a pousada que se parecia exatamente como Karen havia descrito, e nosso marinheiro simplesmente foi embora sem sequer nos ajudar com as malas.

– Esse homem é esquisito, não? - Gabriel comentou olhando novamente o relógio em seu pulso, provavelmente pensando em quantas horas ainda teríamos de claridade afinal, era proibido entrar no mar à noite.

Suas mãos remexiam nos bolsos procurando algo que conhecendo-o bem, poderia postar que era o maço de cigarros, tive que segurar o riso ao ver sua expressão ao lembrar-se que não havia trazido, sei disso porque dentro do carro enquanto conversávamos, ele havia comentado sobre ter esquecido. Mas minha atenção foi roubada por uma senhora que nos fitava pelas janelas de vidro, seus olhos nos fitavam com seriedade e parecia uma pessoa extremamente rigorosa.

– Ainda estou morrendo de curiosidade pelo fim daquela história – resmunguei com um suspiro consternado, sentindo provavelmente terei que me contentar com isso.

– É apenas uma história, qualquer idoso te conta! - Gabriel exclamou de repente aparecendo ao meu lado, pegou minha mochila não me deixando pegar peso. – O melhor a fazermos é tentar dar uma olhada nos corais mais próximos...

Concordei e passei o braço bom por suas costas, recostando o rosto em seu ombro para descansar um pouco enquanto caminhávamos pela areia branca e arenosa da praia, uma brisa passava por nós, movimentando nossos cabelos e as roupas que usávamos.

– Ah, eu quero descansar um pouco, pegamos muito sol! - Karen reclamou fazendo um beicinho enquanto arrastava uma das grandes caixas de refrigeração pela alcinha azul, seu vestido branco balançado com o esforço. – Por agora, melhor deitarmos numa rede tomando água de coco.

– Por favor! Não podemos perder muito tempo, são apenas dois dias de folga! - Mark se pronunciou pela primeira vez, estivera tão quieto que quase esqueci de sua presença. Ele carregava a outra caixa no ombro, fazendo os músculos trabalhados se destacarem na camiseta cinza.

– Descansar numa rede faz parte do passeio! - exclamei tentando ajudar minha amiga que começava a ficar com a pele avermelhada do sol, quase me sintia culpada por não estar ajudando a carregar nada. – Podemos ver os corais mais tarde quando o sol estiver mais baixo...

Eles pareceram entrar em um consenso, aceitando a minha ideia, então entramos na pousada fitando tudo impressionados. Apesar do lugar ser pequeno e ter apenas um andar, era recém reformada ainda cheirando a pintura, a estrada principal era espaçosa e havia vários tapetes com almofadas que ficavam estrategicamente próximo às grandes janelas, visando a boa circulação do ar fresco.

Dos lados da pequena construção, podíamos ver como a natureza era preservada e o verde se espalhava por metros a frente, entorpecendo meus sentidos com os cheiros das flores nativas, as mesmas que podiam ser encontradas em alguns pontos da ilha de Ainu, pistas do período em que formavam um único local.  Acomodamos nossas bolsas em dois quartos, como éramos menores de idade, não foi permitido que dormíssemos de forma mista, então Karen ficaria em um quarto comigo e os meninos nos outros, não reclamamos, pois, já esperava por isso. E seguimos para a cozinha onde poderíamos guardar as caixas que posteriormente, descobri estar cheias de refrigerante, carne pronta para churrasco e guloseimas incluindo batatas prontas para fritar.

Pelo que entendi, a pousada nos ofereceria o jantar da primeira noite e o café da manhã do dia seguinte, mas teríamos nosso próprio almoço com churrasco no dia seguinte.

Enquanto caminhávamos pela cobertura em madeira cor de ébano a frente da casa, procurando o lugar mais fresco para esticarmos as redes, pude ver algumas poucas casas em forma de quiosque que imagino ser dos outros moradores que ficavam próximo ao mar por serem pescadores e acabei lembrando da história que o dono da lancha vinha nos contando sobre as coisas terem mudado em apenas uma das ilhas, tirando os turistas esporádicos que aproximavam-se de Maju interessados em suas águas cristalinas sobre os corais, sua única forma de subsistência era a pesca.

         Nada fora modificado desde o início do século quando os primeiros habitantes se mudaram para a ilha, pescando e produzindo seus próprios alimentos que quando em abundância, eram vendidos nas feiras livres da cidade próxima como forma de arrecadar algum dinheiro para comprar outros bens de consumo.

         Fui tirada dos meus devaneios quando senti que alguém deitava-se ao meu lado na rede espaçosa, virei-me e notei que Gabriel acomodando-se a minhas costas, recostando o rosto na curva entre o meu pescoço e ombro enquanto depositava um beijo cálido na pele exposta que tinha enquanto sua mão direita deslizava os dedos pelo curativo que foi colocado após a retirada do gesso.

– Quase tive um infarto quando soube que estava hospitalizada... – murmurou tocando no assunto que parecia estar evitando há dias, um suspiro escapou de seus lábios e senti o abraço ficar ainda mais forte. – Tive tanto medo de te perder...

         Virei-me em seus braços para o encarar, nossos olhos se encontraram e pude sentir o quanto ele estava sendo honesto em suas palavras, estiquei-me um pouco e alcancei seus lábios, sugando-os levemente antes de sentir sua língua pedir passagem. Logo, estávamos trocando alguns beijos e afagos escondidos pelo tecido cor de areia da rede, ignorando qualquer outro pensamento que nos assolasse. Aquele era um momento só nosso.

Mas que foi interrompido por um chacoalhar violento da rede, olhei ao redor assustada pensando que estivéssemos em meio a uma tempestade tropical ou algo parecido, mas rapidamente o susto deu lugar à raiva ao ouvir os risos de Karen e Mark.

– Se for do agrado dos pombinhos, poderíamos ir ver os corais? - Karen questionou amarrando os longos fios negros em um rabo de cavalo, estava vestida em um biquíni rosado e uma tanga de crochê branca.

Olhei ao redor, e me surpreendi ao perceber que o sol parecia estar ainda mais baixo no horizonte, puxei o braço de Gabriel e verifiquei o horário em seu relógio sem acreditar que faltava apenas duas horas para anoitecer. Sentei-me na rede tentando me situar e puxei meu pombinho, arrastando-o para a pequena trilha que nos levaria ao melhor lugar para ver os recifes de coral.

Quando chegamos no ponto certo, fiquei boquiaberta, era simplesmente espetacular, havia uma pequena descida de pedras que nos levava a uma discreta gruta por onde a água do mar passava abrindo caminho entre as rochas e um pouco mais a frente, um pequeno recife de coral se expandia delicadamente abrigando pequenas e coloridas espécies de peixes.

A movimentação da água estava relativamente tranquila então, imaginei que não haveria problema em entrar para olhar aquela maravilha mais de perto, tendo o cuidado de manter a água abaixo da minha cintura para não molhar os curativos. Com a mão boa, deslizei os dedos pelos pequenos seres vivos semelhantes a pedras coloridas, assustando os peixinhos que fugiam para esconder-se. Sorri virando-me para mostrar a Gabriel e nesse momento, uma foto minha foi capturada por ele em seu celular.

Depois disso, a ideia se espalhou e tiramos algumas selfs juntos tendo como fundo aquele maravilhoso ecossistema que mais parecia ter sido tirado de um conto de fadas. E, passamos as últimas horas do dia rindo e conversando enquanto tirávamos fotos uns dos outros nas posições mais variadas possíveis em todos os pontos que conseguíamos ficar sobre.

Aos poucos, os poucos raios solares desapareceram no horizonte dando lugar ao brilho natural das estrelas e da lua que estava cheia. Então, decidimos retornar à pousada antes que a maré subisse e ficássemos presos naquele pequeno pedaço do paraíso, o que não seria tão má ideia.

Quando avistamos a praia, notamos que uma grande fogueira terminava de ser montada e aos poucos, as chamas eram incentivadas pelo vento leve do início de noite ganhando proporções rapidamente. A mesma senhora que vi olhando-nos pela janela, dispunha organizava o que parecia ser nosso jantar sobre uma pesada mesa de madeira que acredito ter sido trazida de dentro da pousada para que comêssemos sob a luz das estrelas. E, ao nos avistar, sorriu sugerindo que comêssemos antes que esfriasse.

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Comentários (1)
goodnovel comment avatar
Marli Paschoin
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