INICIAR SESIÓNContinuação:
Em casa, tomei um banho longo, quase agressivo. A água escorria, mas a sensação não saía. Mesmo assim, fui para a faculdade. Rapazes me encaravam sem disfarçar. Alguns comentavam entre si. Meu peito apertou. — Lis… — uma garota me chamou, com pena no olhar. — Eu… achei que você devia ver isso. O vídeo. Eu entrando no hotel de máscara. Eu saindo sem máscara. O título gritava na tela: “Garota de programa.” Minhas pernas enfraqueceram. Foi então que ouvi a voz que eu mais temia. — Engraçado… — Mariana disse atrás de mim. — Você encontrou a Estela, não foi? Meu corpo gelou. — O que você disse? — perguntei, a voz falhando. Ela sorriu. Um sorriso lento, venenoso. — A Estela. Aquela que adora ajudar meninas desesperadas com propostas boas demais. Você achou mesmo que ela ia fazer aquilo de graça? O mundo começou a girar. — Não… — balancei a cabeça. — Ela não faria isso comigo. Mariana riu. — Você estava desesperada, Lis. Último ano, sem dinheiro, sem saída. Foi tão fácil… — O que você fez? — perguntei, tremendo. — O que você fez com ela? — Eu só dei uma ideia. A bebida, o cliente certo… o resto você fez sozinha. Algo dentro de mim estourou. Avancei. — O QUE EU TE FIZ, MARIANA?! A briga foi feia. Gritos, empurrões, ódio, vergonha, tudo misturado. — Eu quero que você sofra — ela disse, sorrindo. — Eu te odeio. Saí correndo. Fui ao hotel. — Não fornecemos informações sobre clientes. Ali eu entendi. Eu não existia. Voltei para casa. Dona Luiza estava sentada no sofá, chorando. — A Estela foi embora — disse. — Levou tudo. Não restava mais ninguém. Depois daquele dia, eu continuei. Não porque queria. Porque não tinha escolha. Paguei a faculdade com o dinheiro do envelope. Cada boleto quitado parecia um soco no estômago. Mesmo assim, eu ia. Todos os dias. Três meses se passaram assim. Meu corpo começou a mudar. O cansaço não ia embora. Enjoos vinham do nada. Até o dia em que não deu mais. Caí na sala de aula. Hospital. Luz branca. Silêncio. — Você está grávida — disse a médica. Três meses. Sozinha. Marcada. Grávida. Saí do hospital sem rumo. O papel do exame ainda amassado na minha mão, como se aquilo pudesse mudar o que estava escrito ali. Três meses. Eu repetia o número em silêncio, tentando fazer ele caber dentro de mim. Não cabia. Andei. Andei sem perceber o tempo passar. As ruas se misturavam, os rostos não tinham forma. Meu corpo seguia, mas minha cabeça estava parada naquele quarto branco, naquela palavra que a médica tinha dito com tanta facilidade. Não podia ser. Quando me dei conta, estava sentada na areia da praia. O mar avançava e recuava diante de mim, indiferente. Tudo seguia normal demais para um mundo que tinha acabado. Chorei até doer o peito, até faltar ar. — Eu não posso… — murmurei. — Eu não posso ter esse filho… As palavras saíram carregadas de medo, não de certeza. Medo de repetir uma história de dor. Medo de estar sozinha. Medo de ser apontada mais uma vez. Medo de não dar conta. Peguei o celular com as mãos trêmulas. Pesquisei. Clínicas. Endereços. Valores. Cada palavra parecia me empurrar para um lugar do qual eu não sabia se conseguiria voltar. Eu ainda tinha dinheiro. Dinheiro que eu odiava. Dinheiro que parecia resolver tudo, menos a minha consciência. Naquela mesma noite, eu fui. O lugar era silencioso demais. Frio. Impessoal. As paredes claras, as cadeiras alinhadas, o cheiro forte de desinfetante. Paguei sem olhar nos olhos de ninguém e me sentei para esperar. Outras mulheres estavam ali. Algumas choravam baixo. Outras encaravam o nada. Algumas pareciam anestesiadas. Eu me via em todas elas. Sentei com as mãos cruzadas no colo, sentindo o coração bater forte demais. Minha cabeça girava. Isso não está acontecendo comigo. É só um erro. Só um problema que eu vou resolver e seguir em frente. Mas quanto mais eu tentava convencer a mim mesma, mais algo apertava dentro do peito. Fechei os olhos. As imagens vieram sem pedir permissão. Minha infância difícil. E, pela primeira vez, pensei no que estava crescendo dentro de mim. — De que ele tem culpa? — pensei, sentindo as lágrimas escorrerem de novo. Minha mão subiu, quase sem perceber, até a barriga ainda lisa. — Essa criança não pediu pra nascer… — continuei, em silêncio. — Assim como eu também não pedi pra passar por nada do que passei. O corpo começou a tremer. — Por que eu estou descontando nele? — pensei, o desespero virando outra coisa. — Ele é meu filho… A palavra ecoou forte demais. Bebê. O medo não desapareceu. Mas se misturou com culpa. Com um sentimento novo, confuso, quase proibido. — Por que ele tem que pagar pelo erro dos outros? — pensei. — Pelo erro da Estela… pelo erro daquele homem… pelo meu medo… A imagem do que eu estava prestes a fazer me atravessou inteira. Definitiva. Irreversível. Meu estômago embrulhou. A respiração falhou. Ouvi meu nome ser chamado. — Lis Mendonça! Levantei devagar. Dei alguns passos em direção à porta. Cada movimento parecia pesado demais. Respirei fundo. — Sinto muito… — minha voz saiu fraca, mas firme. — Eu não posso fazer isso. Virei as costas. Assim que atravessei a porta, minhas pernas cederam. Me abaixei ali mesmo, no chão frio, sem me importar com quem passava. Chorei como nunca tinha chorado antes. — Desculpa, meu bebê… — sussurrei, abraçando a própria barriga. — Desculpa por quase ter… As palavras morreram na garganta. Ali, quebrada, com medo e sem nenhuma resposta concreta, eu entendi que não sabia como seguir. Mas sabia que não conseguiria carregar mais uma culpa. E isso, naquele momento, era tudo o que eu tinha.Lis Narrando. A volta para a mansão dos Lucchese foi carregada de emoção. Ele estava de volta, e eu sentia, finalmente, que nossa vida seria feliz e sem guerras. Os pais de Saulo o abraçaram com fervor enquanto ele retomava seu posto como líder da família. — Eu sempre soube que você era a pessoa certa — Saulo disse, enquanto eu colocava o bebê para dormir. — Você colocou nossa casa em ordem e ainda me deu dois herdeiros. — Eu sabia que você voltaria! Todas as noites eu me deitava confiando que, um dia, você cruzaria aquela porta. — Eu sei... — Ele me abraçou por trás. — Estou de volta. Três meses se passaram voando. Eu deixara o posto de braço direito dos Mendonça, e Diego assumira meu lugar. Eu sabia que ele era capaz; agora, ele estava à frente dos negócios enquanto Maria e Paulo viajavam em lua de mel. Eu me sentia, enfim, preparada para ver minha mãe. Nervosa, cheguei à mansão dos Mendonça carregando meu bebê no colo e com Matias agarrado à minha saia. Assim que entrei no ja
Continuação. Outro menino, Saulo — Maria disse, com um sorriso fraco em meio ao cansaço. — Outro homenzinho forte como você. Matias agora tem um irmão. Eu olhei para o pequeno Lucchese nos braços da minha irmã. Ele era pequeno, mas o choro era vigoroso. A sensação de ver Maria ali, cuidando da minha esposa e do meu filho enquanto eu estava "morto", me deu um nó na garganta. — Obrigado, minha irmã — murmurei, tocando a mão dela por um segundo antes de olhar para Lis. — Se não fosse por você... — Não me agradeça agora — Maria me cortou, recuperando a postura firme que herdamos do nosso pai. — Lis está apenas exausta. O parto foi brutal, Saulo. Ela lutou como uma leoa. O desmaio é o corpo dela pedindo trégua, nada mais. Ela vai acordar e vai querer ver você. Eu beijei a testa de Lis, que dormia um sono pesado, e depois encostei meu dedo na mãozinha do meu novo filho. Lis Narrando. Eu estava sonhando. Pelo menos foi o que pensei quando abri os olhos lentamente. Tudo parecia
Uma semana se passou. Cada passo que eu dava era acompanhado por uma dor latente e uma claudicação persistente. Minha perna nunca mais seria a mesma; aquela era a marca eterna da minha guerra com Magnus, um lembrete físico de que o inferno tinha deixado cicatrizes. — Silas, não tem nenhum celular por aqui? Alguma forma de comunicação? — perguntei, observando o velho organizar algumas ferramentas. — Aqui no vale não pega nada, meu jovem. Só na cidade, lá no alto, onde o sinal alcança. Eu vou para lá agora buscar alguns suprimentos, se quiser, pode vir comigo. No momento da partida, vi Magnus parado perto do cercado, acenando para nós com aquele olhar vazio e pacífico. O ódio subiu pela minha garganta. Era humilhante vê-lo ali, "esquecido" de suas atrocidades, vivendo uma vida simples enquanto eu carregava o peso de tudo o que ele destruiu. Mas eu tinha uma promessa a cumprir com Elara. Virei o rosto e subi na carroça. Assim que chegamos à pequena cidade, a primeira coisa que fi
O ranger das tábuas da varanda me tirou dos meus devaneios sobre Lis. Eu não estava sozinho. Elara estava ali, envolta em um xale pesado, com os olhos refletindo a luz pálida da lua. Ela não parecia surpresa em me ver de pé, nem com o meu olhar de ódio voltado para o canto onde Magnus dormia. — Você se lembrou, não foi? — a voz dela era um sussurro quebrantado. Eu não respondi de imediato. Apenas apertei o cajado com mais força. — Meu pai... ele é um homem de muita fé, Saulo. Ele acredita na vida acima de tudo — ela continuou, aproximando-se do parapeito. — Mas eu não sou cega. Quando os tiramos do rio, vocês não tinham apenas ossos quebrados. Vocês dois tinham ferimentos de bala. Um no ombro dele, outro perto da sua costela. Parecia que tinham tentado se matar antes mesmo da queda. Ela parou ao meu lado, e vi o brilho das lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Eu sei que vocês eram inimigos. Sei que o que quer que tenha acontecido naquele rio foi o fim de uma guerra sangrent
O cansaço físico finalmente venceu minha guarda alta, e eu apaguei. Mas o sono não trouxe descanso, trouxe fantasmas. No sonho, o cheiro de mofo da cabana deu lugar ao perfume de jasmim que ela sempre usava. Lis estava lá, com aquele sorriso que iluminava até os meus dias mais sombrios. Ela tocava meu rosto, e o calor da sua mão parecia tão real que meu coração disparou. — Saulo... — ela sussurrou, a voz suave como a brisa de um fim de tarde. — Você precisa voltar. Eu tentava alcançá-la, mas minhas pernas pesavam como chumbo. Ela começou a se afastar, envolta em uma névoa fria, e o desespero tomou conta de mim. A saudade apertou meu peito de uma forma tão violenta que eu acordei num sobressalto, com o nome dela preso na garganta. A cabana estava silenciosa, apenas o som da respiração pesada de Magnus no canto oposto e o estalar baixo das brasas na lareira. Olhei para o teto, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Onde ela estaria agora? Será que ela pensava que eu estava mor
Saulo.. Meus olhos estavam pesados, mas fui recobrando a consciência aos poucos. O cheiro de mofo misturava-se a um bafo de ar quente próximo a mim. Tentar abrir as pálpebras parecia um sacrifício cruel; minha cabeça latejava e a garganta estava tão seca que acabei tossindo. Quando finalmente venci a resistência e abri os olhos, senti mãos tocarem as minhas e uma voz exclamar: — Ele acordou! A primeira visão foi a de um teto simples, de madeira. Olhei ao redor e vi um senhor e uma jovem. — Quem são vocês? — perguntei, tentando me levantar no impulso. — Calma, você não pode se mexer assim. Passou muito tempo dormindo — a moça me ajudou com cuidado e logo gritou: — Pai! Ele está bem! Olhei para a porta e, para minha surpresa, Magnus apareceu atrás do velho. Fiquei alerta instantaneamente. — Pensei que você não voltaria. Passou nove meses em coma — explicou o senhor. — Além da perna quebrada, você teve uma fratura no crânio. Esse aqui também estava com você quando os achamos







