INICIAR SESIÓNContinua..
Eu acordei com o corpo pesado demais para ser só cansaço. A cabeça girava lentamente, como se eu ainda estivesse presa dentro de um sonho ruim. O quarto parecia distante, fora de foco. Pisquei várias vezes, tentando organizar os pensamentos, mas tudo vinha quebrado, desconexo. Minha boca estava seca. O estômago embrulhado. Quando tentei me mexer, uma tontura forte me fez parar. Foi então que senti. O vazio estranho no corpo. A dor surda. A sensação errada. Meu coração disparou. — Não… — murmurei, a voz rouca, quase inexistente. Virei o rosto devagar, com medo do que encontraria. O outro lado da cama estava vazio. O lençol amarrotado. O travesseiro fora do lugar. Um cheiro que não era meu ainda impregnava o ar. A memória veio em flashes curtos, confusos, como cenas mal recortadas. Mãos segurando meu pulso. Um peso sobre mim. Minha própria mão agarrando alguém pela camisa, puxando para perto. — Para… — sussurrei, levando a mão à cabeça. — Isso não pode ter sido assim… As imagens não vinham inteiras. Não havia começo nem fim. Só fragmentos que me faziam tremer. Eu lembrava de tentar pensar. Lembrava de querer reagir. Mas tudo escorria, como se minha mente tivesse sido apagada à força. Sentei na cama de repente, o ar faltando. — Eu não faria isso… — balancei a cabeça, em negação. — Eu não fiz isso… Mas o corpo não mentia. As lágrimas vieram quentes, silenciosas. Vergonha, medo e pânico se misturaram no peito. Com as mãos trêmulas, peguei o celular na mesa de cabeceira e procurei o nome que me queimava por dentro. Estela. Liguei. Chamou uma vez. Duas. Três. Nada. Liguei de novo, os dedos falhando na tela. — Atende… — pedi em um sussurro desesperado. — Por favor… Caixa postal. — O que você colocou naquela bebida? — murmurei para a tela apagada. — O que você fez comigo? O silêncio respondeu. Me levantei cambaleando e comecei a me vestir às pressas. Foi quando meus olhos percorreram o quarto pela última vez que vi. O envelope. Estava sobre a mesa, discreto demais para não ser proposital. Aproximei-me devagar, como se aquilo pudesse desaparecer se eu chegasse perto. Peguei com os dedos trêmulos. Era pesado. Abri. Dinheiro. Muito dinheiro. Meu estômago revirou. — Não… — sussurrei, sentindo o ar faltar. — Não era pra isso… Aquilo não era um acaso. Não era um erro. Não era algo que simplesmente aconteceu. O dinheiro ali gritava uma verdade que eu não queria aceitar. Aquilo tinha sido combinado. Planejado. Comprado. As lágrimas caíram sem controle. — Eu não podia… — levei a mão ao peito. — Eu não podia ter perdido assim… Minha inocência não era algo que eu tivesse decidido entregar. Não daquele jeito. Não para alguém cujo rosto eu sequer lembrava. Para alguém que, talvez, tivesse visto o meu. O pânico me atingiu de vez. Eu não lembrava do rosto dele. Mas e se ele lembrasse do meu? Saí do quarto em desespero. Descalça. Com a roupa amassada. Sem máscara. Só quando senti o vento frio bater no rosto foi que percebi. O sangue sumiu do rosto. Coloquei a máscara às pressas, sentindo o rosto queimar de vergonha. Eu precisava encontrar a Estela. Corri pelas ruas sem pensar, a cabeça girando, o corpo no limite. Quando cheguei à casa de Dona Luiza, o portão estava entreaberto. — Estela? — chamei, a voz falha. Nada. A casa estava revirada. Bolsas abertas. Gavetas mexidas. Roupas espalhadas. Um cenário de fuga. Meu peito apertou. Peguei o celular de novo. Estela. Chamou. Chamou. Nada. — O que você colocou na bebida? — sussurrei. — Por que você fez isso comigo? Ali eu entendi. Tinha sido uma armadilha. Saí dali sem rumo.Lis Narrando. A volta para a mansão dos Lucchese foi carregada de emoção. Ele estava de volta, e eu sentia, finalmente, que nossa vida seria feliz e sem guerras. Os pais de Saulo o abraçaram com fervor enquanto ele retomava seu posto como líder da família. — Eu sempre soube que você era a pessoa certa — Saulo disse, enquanto eu colocava o bebê para dormir. — Você colocou nossa casa em ordem e ainda me deu dois herdeiros. — Eu sabia que você voltaria! Todas as noites eu me deitava confiando que, um dia, você cruzaria aquela porta. — Eu sei... — Ele me abraçou por trás. — Estou de volta. Três meses se passaram voando. Eu deixara o posto de braço direito dos Mendonça, e Diego assumira meu lugar. Eu sabia que ele era capaz; agora, ele estava à frente dos negócios enquanto Maria e Paulo viajavam em lua de mel. Eu me sentia, enfim, preparada para ver minha mãe. Nervosa, cheguei à mansão dos Mendonça carregando meu bebê no colo e com Matias agarrado à minha saia. Assim que entrei no ja
Continuação. Outro menino, Saulo — Maria disse, com um sorriso fraco em meio ao cansaço. — Outro homenzinho forte como você. Matias agora tem um irmão. Eu olhei para o pequeno Lucchese nos braços da minha irmã. Ele era pequeno, mas o choro era vigoroso. A sensação de ver Maria ali, cuidando da minha esposa e do meu filho enquanto eu estava "morto", me deu um nó na garganta. — Obrigado, minha irmã — murmurei, tocando a mão dela por um segundo antes de olhar para Lis. — Se não fosse por você... — Não me agradeça agora — Maria me cortou, recuperando a postura firme que herdamos do nosso pai. — Lis está apenas exausta. O parto foi brutal, Saulo. Ela lutou como uma leoa. O desmaio é o corpo dela pedindo trégua, nada mais. Ela vai acordar e vai querer ver você. Eu beijei a testa de Lis, que dormia um sono pesado, e depois encostei meu dedo na mãozinha do meu novo filho. Lis Narrando. Eu estava sonhando. Pelo menos foi o que pensei quando abri os olhos lentamente. Tudo parecia
Uma semana se passou. Cada passo que eu dava era acompanhado por uma dor latente e uma claudicação persistente. Minha perna nunca mais seria a mesma; aquela era a marca eterna da minha guerra com Magnus, um lembrete físico de que o inferno tinha deixado cicatrizes. — Silas, não tem nenhum celular por aqui? Alguma forma de comunicação? — perguntei, observando o velho organizar algumas ferramentas. — Aqui no vale não pega nada, meu jovem. Só na cidade, lá no alto, onde o sinal alcança. Eu vou para lá agora buscar alguns suprimentos, se quiser, pode vir comigo. No momento da partida, vi Magnus parado perto do cercado, acenando para nós com aquele olhar vazio e pacífico. O ódio subiu pela minha garganta. Era humilhante vê-lo ali, "esquecido" de suas atrocidades, vivendo uma vida simples enquanto eu carregava o peso de tudo o que ele destruiu. Mas eu tinha uma promessa a cumprir com Elara. Virei o rosto e subi na carroça. Assim que chegamos à pequena cidade, a primeira coisa que fi
O ranger das tábuas da varanda me tirou dos meus devaneios sobre Lis. Eu não estava sozinho. Elara estava ali, envolta em um xale pesado, com os olhos refletindo a luz pálida da lua. Ela não parecia surpresa em me ver de pé, nem com o meu olhar de ódio voltado para o canto onde Magnus dormia. — Você se lembrou, não foi? — a voz dela era um sussurro quebrantado. Eu não respondi de imediato. Apenas apertei o cajado com mais força. — Meu pai... ele é um homem de muita fé, Saulo. Ele acredita na vida acima de tudo — ela continuou, aproximando-se do parapeito. — Mas eu não sou cega. Quando os tiramos do rio, vocês não tinham apenas ossos quebrados. Vocês dois tinham ferimentos de bala. Um no ombro dele, outro perto da sua costela. Parecia que tinham tentado se matar antes mesmo da queda. Ela parou ao meu lado, e vi o brilho das lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Eu sei que vocês eram inimigos. Sei que o que quer que tenha acontecido naquele rio foi o fim de uma guerra sangrent
O cansaço físico finalmente venceu minha guarda alta, e eu apaguei. Mas o sono não trouxe descanso, trouxe fantasmas. No sonho, o cheiro de mofo da cabana deu lugar ao perfume de jasmim que ela sempre usava. Lis estava lá, com aquele sorriso que iluminava até os meus dias mais sombrios. Ela tocava meu rosto, e o calor da sua mão parecia tão real que meu coração disparou. — Saulo... — ela sussurrou, a voz suave como a brisa de um fim de tarde. — Você precisa voltar. Eu tentava alcançá-la, mas minhas pernas pesavam como chumbo. Ela começou a se afastar, envolta em uma névoa fria, e o desespero tomou conta de mim. A saudade apertou meu peito de uma forma tão violenta que eu acordei num sobressalto, com o nome dela preso na garganta. A cabana estava silenciosa, apenas o som da respiração pesada de Magnus no canto oposto e o estalar baixo das brasas na lareira. Olhei para o teto, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Onde ela estaria agora? Será que ela pensava que eu estava mor
Saulo.. Meus olhos estavam pesados, mas fui recobrando a consciência aos poucos. O cheiro de mofo misturava-se a um bafo de ar quente próximo a mim. Tentar abrir as pálpebras parecia um sacrifício cruel; minha cabeça latejava e a garganta estava tão seca que acabei tossindo. Quando finalmente venci a resistência e abri os olhos, senti mãos tocarem as minhas e uma voz exclamar: — Ele acordou! A primeira visão foi a de um teto simples, de madeira. Olhei ao redor e vi um senhor e uma jovem. — Quem são vocês? — perguntei, tentando me levantar no impulso. — Calma, você não pode se mexer assim. Passou muito tempo dormindo — a moça me ajudou com cuidado e logo gritou: — Pai! Ele está bem! Olhei para a porta e, para minha surpresa, Magnus apareceu atrás do velho. Fiquei alerta instantaneamente. — Pensei que você não voltaria. Passou nove meses em coma — explicou o senhor. — Além da perna quebrada, você teve uma fratura no crânio. Esse aqui também estava com você quando os achamos







