LOGINO jantar seguia seu curso com a tranquilidade forçada das ocasiões importantes. O salão estava bem iluminado, decorado com arranjos florais sóbrios e elegantes, e a mesa longa reunia convidados de ambos os lados da família. Sorrisos, brindes, comentários amenos. Por fora, tudo parecia perfeito.
Mas James mal conseguia prestar atenção em qualquer conversa que não fosse a que acontecia entre seus próprios pensamentos. Sentado a dois lugares de Sophie, cada palavra dita por ela parecia vibrar no ar de maneira diferente. Seus risos — que ele aprendera a distinguir dos falsos — agora pareciam ensaiados. Os olhares que trocavam eram curtos, mas intensos, como se um súbito contato visual fosse suficiente para acender tudo o que tentavam apagar. James tentava manter a compostura. Mastigava mecanicamente, sorria quando esperavam que sorrisse, brindava quando todos levantavam as taças. Mas sua mente vagava. E seu peito doía. Havia um aperto instalado no centro de seu estômago que não dava trégua. Ele queria entender. Precisava. Como aquilo era possível? Como Sophie — a mulher que o tocara tão profundamente em tão pouco tempo — era justamente quem estava noiva de seu irmão? Quando não aguentou mais, levantou-se da mesa com uma desculpa vaga, dizendo que precisava atender o telefone. Ninguém questionou. Sabiam que James sempre fora um homem ocupado e reservado. Ninguém imaginava, porém, a tempestade que carregava por dentro. No jardim, a noite estava fresca. As luzes suaves dos postes baixos iluminavam o caminho de pedras entre as roseiras. James caminhou até um canto mais afastado e parou, apoiando as mãos na borda de uma mureta. Respirou fundo, várias vezes, como se isso bastasse para acalmar a fúria que sentia. Mas o ar parecia insuficiente. “Que droga, James...”, pensou, apertando os punhos. Sentia vontade de socar alguma coisa. Uma parede, o chão, qualquer superfície que doesse menos que o que carregava no peito. Pensou, por um segundo, em socar o próprio rosto. Talvez merecesse. Como pôde se envolver com a noiva do próprio irmão? Mesmo sem saber, mesmo sem querer. Ainda assim… envolveu-se. Foi então que ouviu passos leves atrás de si. Virou-se com um sobressalto, o coração disparando — e a viu. Sophie. Ela usava um vestido discreto, mas havia algo nela que o desarmava por completo. Talvez fosse o modo como segurava os braços junto ao corpo, como se estivesse tentando se proteger do mundo. Ou os olhos, úmidos e assustados, como se a qualquer momento pudesse desabar. Eles se encararam por segundos longos e surreais. Como se o tempo, ali, tivesse parado. James tentou dizer alguma coisa, qualquer coisa. As palavras estavam todas ali, formando um nó na garganta. Mas nenhuma parecia certa, nenhuma parecia suficiente. Então ele apenas a olhou. Com dor. Com desejo. Com a confusão cravada no olhar. Sophie quebrou o silêncio primeiro, em voz baixa: — Oi. Parecia pouco, mas foi o que ela conseguiu dizer. Como se fosse a única palavra que não machucasse naquele momento. James a observou com atenção, e então entendeu. Viu o medo nos olhos dela. A culpa. A fragilidade. Sophie estava em pedaços. Assim como ele. Ele deu um passo à frente. Depois recuou. E então, sem encará-la diretamente, disse apenas: — Não vou contar nada a Liam. Não se preocupe comigo enquanto a isso. Sua voz era baixa, firme, mas cheia de amargura. Não havia ameaça ali. Só resignação. Uma promessa dolorida. — James... — Não diga nada. Não piore as coisas. E antes que ela pudesse responder, James se virou e foi embora, caminhando de volta para dentro da casa. O peito apertado. A alma em pedaços. Sophie ficou no jardim, imóvel, com os olhos marejados. E soube, naquele instante, que perder James seria uma dor silenciosa e duradoura. Mas tê-lo… era impossível. Dentro da casa, James reassumiu seu lugar na mesa como um ator voltando ao palco. Ninguém notou sua ausência prolongada. Liam falava com entusiasmo sobre a lua de mel planejada para Santorini, seus pais comentavam sobre viagens passadas. Depois de alguns minutos, Sophie retornou à mesa. — Desculpe. — disse ela, se sentando de volta ao seu lugar na mesa, guardando o celular na pequena bolsa prateada. — Sua mãe está bem? — questionou Liam, com o olhar atencioso. — Sim, está. E... — Sophie hesitou por alguns segundos — Ela lamenta não poder estar aqui, e pede desculpas a todos. — Ela mente, quando na verdade, estava com James no jardim. Não falando com a mãe ao telefone. — Tudo bem, querida. — Disse Cora, mãe de James e Liam — Logo estaremos todos reunidos no casamento de vocês. Sempre haverá uma oportunidade para eventos como estes. James fingia ouvir. Fingir, ali, era tudo que podia fazer. Sophie apenas assentiu e voltou sua atenção a Liam, que beijava a mão dela com delicadeza. Assim que o jantar foi oficialmente encerrado, James não conseguiu suportar ficar por mais nenhum minuto. Os últimos brindes, os últimos sorrisos e felicitações pareciam uma espécie de tortura sofisticada. Liam, animado, passou um braço pelos ombros de Sophie e a puxou para um beijo rápido — um gesto simples, quase automático, mas que reverberou dentro de James como uma lâmina cortando fundo. A imagem ficou presa em sua mente como uma cena que ele desejava apagar, mas que se repetia em loop cruel. Ele se levantou da cadeira com uma pressa mal disfarçada. — Já vai, querido? — perguntou a mãe, com um sorriso cansado. — Fica mais um pouco. Está tudo tão agradável hoje... James forçou um sorriso que não alcançou os olhos. — Eu adoraria, mas tenho relatórios para revisar. Reunião cedo amanhã. Preciso estar com a cabeça no lugar. Ela assentiu, embora com um olhar levemente decepcionado. Ele beijou a testa dela rapidamente e apenas acenou para o pai. Quando passou por Liam, disse um "Parabéns" vago, quase inaudível. O irmão o olhou de esguelha, franzindo a testa. — Vai fugir de novo? — disse Liam, em tom de brincadeira, mas com uma ponta de estranheza. James não respondeu. Apenas foi. Saiu da mansão da família mais rápido que pôde. Entrou no carro, ligou o motor, mas não foi para casa. Não conseguia. Sabia que se ficasse entre quatro paredes silenciosas, com o rosto de Sophie na memória e o gosto de tudo o que não viveu ainda preso no peito, enlouqueceria. Dirigiu sem rumo por ruas que conhecia tão bem. Passou por avenidas iluminadas, cruzou sinais vermelhos que o destino parecia ignorar, e foi parar em algum canto isolado de Manhattan, com vista para o Rio Hudson. Parou o carro e ficou ali, em silêncio, observando as luzes refletidas na água, o movimento suave das ondas, os barcos ancorados ao longe. O coração batia pesado. A cabeça, girando. A única coisa que sabia com clareza era o nome dela. Sophie. A mulher que seu irmão estava prestes a se casar. A mulher que o deixara completamente desorientado. Que o tocara com gestos sutis e com verdades não ditas. A mulher que ele beijara na chuva, como se o mundo não estivesse à volta deles. A mulher que agora não podia ser sua. James fechou os olhos e apoiou a testa no volante, como se aquele gesto pudesse espantar a dor que sentia. Pegou o celular. Desbloqueou a tela. Abriu o contato dela. Ficou longos minutos olhando para aquele número. Pensou em escrever algo. "Posso te ver?" ou "Precisamos conversar" ou mesmo apenas "Oi". Mas nenhuma das opções parecia certa. Nada parecia certo. A sensatez — ou o que ainda restava dela — falou mais alto. Não era o momento. Não era justo com ela, nem com ele, e, de certo modo, nem com Liam. Por mais que seu irmão fosse um idiota em muitas áreas da vida, ainda era seu irmão. E Sophie… merecia mais do que uma mensagem digitada às pressas num momento de fraqueza. Guardou o celular de volta no bolso e ficou ali por um tempo, apenas ouvindo o som leve das águas, o zumbido da cidade ao longe. Estava completamente arrasado, dilacerado de um jeito que nunca experimentara antes. Nenhuma mulher o desestruturara assim. Nenhuma tinha entrado tão fundo, tão rápido, e deixado nele esse vazio devastador.Cinco anos. Parece pouco quando dito em voz alta, mas dentro da pele... é uma eternidade. A Grécia me deu mais do que eu vim buscar. Me acolheu com seu silêncio, com o som das cigarras nas tardes quentes, com o mar de um azul que nunca se repete. Com o tempo, aprendi a andar no compasso daqui, onde ninguém olha para o relógio com medo, onde a pressa parece ofensa. E era exatamente isso que eu precisava: desacelerar de tudo que me corroía por dentro. Nunca mais voltei para Manhattan. A decisão não foi drástica, não houve um rompimento dramático. Apenas fui ficando, mês após mês, até que não fazia mais sentido ir embora. Deixei meu cargo na empresa — um lugar onde, sinceramente, nunca me senti completamente em casa. Meu pai, contrariando sua aposentadoria, voltou ao comando. Assumiu como presidente, acumulando também o posto de CEO, como fazia nos velhos tempos. Eu sabia que ele gostava da rotina, da liderança. Aquele era o mundo dele, não o meu. Ainda assim, acompanhei tudo de
Liam continuava fechado num mundo só dele. Um mundo de negação, revolta e dor. James o visitava quase todos os dias, sempre com a esperança tola de que algo tivesse mudado. Que um “bom dia” ganhasse resposta. Que uma pergunta qualquer fosse recebida com mais do que um silêncio carregado ou um olhar cheio de desprezo. Mas dia após dia, o que ele encontrava era um irmão cada vez mais amargo — com o mundo, com os médicos, com os pais, consigo mesmo. E com ele. A cadeira de rodas estava ali, ao lado da cama, como uma sentença. Os médicos haviam sido claros: Liam enfrentaria um processo longo de recuperação. Havia comprometimentos musculares e neurológicos causados pelas fraturas múltiplas e, ainda que tivessem conseguido reduzir o edema cerebral nas primeiras 48 horas, o prognóstico exigia tempo, fisioterapia e força de vontade. Mas Liam não queria ouvir. Nem dos médicos. Nem dos pais. Muito menos de Dominique. Ela o visitou duas vezes nas últimas semanas. James soube por Cora e d
O restaurante escolhido por Sophie ficava discretamente posicionado entre os edifícios elegantes do Soho — o Lure Fishbar, com sua iluminação baixa, interior aconchegante e um clima que misturava sofisticação com acolhimento. Quando James entrou, sentiu o contraste imediato entre o mundo silencioso do hospital e o ambiente cheio de vozes suaves, taças tilintando e a música ambiente que preenchia o ar como um sopro leve. Ela já o esperava, sentada a uma mesa no canto, próxima da janela. Estava com um vestido simples, azul-escuro, e o cabelo preso de forma displicente, mas elegante. Quando o viu, sorriu de leve, um sorriso pequeno, como se aquele gesto contivesse uma memória inteira. — Obrigada por ter vindo — disse ela, quando ele se aproximou. James sentou-se devagar, como se ainda estivesse digerindo o que haviam vivido no hospital algumas horas antes. — Pensei que não seria uma má ideia jantar… já que mal comi o dia todo — respondeu, forçando um sorriso breve. O coração ai
O ar ainda carregava um frescor leve da madrugada quando James começou a correr pelas ruas quase vazias do bairro. O céu acima tingido por tons suaves de dourado e cinza, e o som dos próprios passos no asfalto era seu único companheiro. Não corria para manter a forma. Corria para silenciar a mente. Depois de mais de um ano afastado, voltar para Manhattan era como voltar para uma guerra que fora abandonada, decisões adiadas e realidades que ele preferia evitar. Mas fugir não parecia mais suficiente. Ele precisava estar ali. Pelo menos por enquanto. Quando voltou ao apartamento, já suado e com o corpo aquecido, tomou uma ducha rápida, vestiu-se de forma casual e saiu para um brunch — e naquela cidade, era quase uma tradição de sobrevivência para quem não tomava café cedo e almoçava tarde demais. Sentou-se numa cafeteria discreta, pediu ovos com torradas e café preto, e comeu em silêncio, ouvindo uma conversa vaga na mesa ao lado e deixando os pensamentos vagarem entre a vida n
Os dias passaram como folhas levadas por um vento indeciso — nem rápidos o suficiente para que ele sentisse alívio, nem lentos o bastante para que houvesse paz Liam, aos poucos, deixava para trás a UTI. As visitas do médico vinham acompanhadas de notícias progressivamente melhores: a sedação havia sido suspensa, o edema cerebral regredira, e os exames indicavam recuperação. Agora, ele estava em um quarto privativo, ainda frágil, mas consciente e lúcido o suficiente para escolher com quem falava — e com quem preferia não falar. James fazia visitas pontuais, quase sempre junto aos pais. Sentava-se em silêncio em um dos cantos do quarto, observando as máquinas, o ritmo calmo da respiração do irmão, o olhar perdido de Cora que parecia, desde o acidente, nunca sair dali de verdade. Às vezes, Sophie aparecia com Chloe e Martha, caminhando pelos corredores do hospital como quem já conhecia os cheiros e as luzes daquele lugar. As interações entre eles eram delicadas, contidas, como se
A sala de espera estava mais silenciosa do que de costume naquela manhã. James se recostou na poltrona, o olhar fixo na televisão desligada à sua frente. As atualizações sobre Liam vinham devagar, em boletins médicos espaçados, como se cada detalhe fosse medido para não trazer nem pânico, nem esperança precipitada. Ele já havia se acostumado com o ritmo gelado dos corredores do hospital, com o tilintar de carrinhos metálicos, com os passos apressados de enfermeiros e os olhares vagos de quem também esperava. Ouviu os passos leves antes de vê-la. Sophie se aproximou com dois copos de café de tampa branca. Estendeu um a ele com um leve sorriso. — É só café comum. Nada grego dessa vez. James aceitou, os dedos roçando os dela por um segundo. — Obrigado. — disse, sem conseguir disfarçar o cansaço na voz. Ela o observou por um instante antes de se sentar ao seu lado. — Você está diferente. — comentou, após um gole. — O cabelo mais comprido… a barba… Ele sorriu de leve, os ol







