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Entre o Medo e o Desafio

Author: Nu.Ferreira
last update publish date: 2026-04-27 01:05:30

​A chegada em casa foi silenciosa, envolta na escuridão úmida da periferia. Para Luna, o luxo da mansão Medici parecia um delírio febril agora que estava de volta à sua realidade. Ao entrar no quarto, ela e Mila não precisaram trocar palavras. O ritual era o mesmo todas as noites: Luna trancava a fechadura frágil e, com esforço, encaixava uma barra de ferro pesada atrás da porta, travando-a contra o batente.

​— Ele tentou alguma coisa hoje? — sussurrou Luna, deitando-se ao lado da irmã.

​— Ficou rondando a porta, mas a Tia Maria ficou na sala até tarde — Mila respondeu, a voz carregada de cansaço.

​Luna suspirou, sentindo o peso do corpo relaxar minimamente. O rosto gélido de Vincenzo e o toque possessivo em seu queixo ainda queimavam em sua memória, mas ali, naquele quarto, o único monstro que importava era o que roncava no cômodo ao lado. Ela adormeceu segurando a mão da irmã, sentindo que o novo emprego era a única chave para aquela cela.

​

​A manhã seguinte trouxe um alívio raro. José ainda estava em um sono pesado, provavelmente devido ao álcool da noite anterior. Na mesa da cozinha, Luna compartilhou a notícia com a Tia Maria e Mila.

​— Eu consegui, tia! Julia falou com o primo dela. Vou trabalhar na mansão Medici como assistente pessoal — Luna disse, os olhos brilhando.

​— Oh, minha querida! — Tia Maria chorou de alegria, abraçando as duas sobrinhas. — Um lugar seguro, com gente poderosa... Deus finalmente ouviu minhas preces.

​As três saíram de casa juntas, caminhando sob o sol matinal de Roma. Riam e faziam planos para o futuro, uma cena de felicidade que parecia blindar Luna contra o que a esperava no quartel-general da máfia italiana.

​

​Ao cruzar os portões da mansão, o clima mudou. A beleza dos jardins não escondia a tensão dos homens armados. Assim que Luna pisou no hall de entrada, deu de cara com a figura imponente de Vincenzo. Ele estava acompanhado de Giovanni e Luca, que lhe entregou um sorriso cúmplice, mas Vincenzo permanecia uma estátua de gelo.

​— Você está dois minutos atrasada — disse ele, a voz cortante como uma lâmina. — Já que quer tanto trabalhar aqui, vamos ver do que é capaz.

​Ele jogou uma pilha de pastas sobre uma mesa lateral.

— Quero a conferência de todos os inventários das vinícolas da Toscana, a lista de exportação para os Estados Unidos e o relatório de danos da carga interceptada no Adriático. Quero tudo pronto, traduzido e revisado em duas horas.

​— Mas... eu sou assistente da Julia — Luna começou, sentindo o peso daquelas ordens impossíveis. — Esses são documentos da máfia, eu nem deveria ter acesso a...

​— Na minha casa, você é o que eu mandar você ser — Vincenzo deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, a postura possessiva e intimidadora. — Se não consegue lidar com a pressão, pode voltar para a sua casa agora mesmo. Ou será que você prefere o "espetáculo privado" de ontem?

​Luna sentiu o sangue ferver. Ela abriu a boca para responder à altura, mas uma voz firme interrompeu o confronto.

​— Já chega, Vincenzo! — Julia apareceu no topo da escada, descendo apressada. — Luna é minha assistente. Nós temos um dia cheio com a organização do leilão beneficente e as visitas aos orfanatos. Pare de tentar assustar a garota com seus problemas de negócios.

​Vincenzo estreitou os olhos para a prima, a mandíbula travada. Ele claramente estava testando os limites de Luna, querendo ver até onde ela se quebraria sob o seu comando.

​— Ela está sob meu teto, Julia. Precisa saber como as coisas funcionam aqui — Vincenzo retrucou, mas recuou um passo, sem tirar os olhos de Luna.

​— Ela sabe muito bem, Primo. Agora, venha, Luna. Temos muito o que fazer longe do mau humor do Don — Julia puxou Luna pelo braço.

​Antes de subir, Luna olhou para trás. Vincenzo ainda a observava, um olhar escuro e indecifrável que prometia que aquele "teste" estava longe de terminar. Ele não queria apenas uma funcionária; ele queria dominar a vontade daquela jovem que se atrevia a desafiá-lo.

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