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Segredos antigos

Autor: Luana
last update Fecha de publicación: 2026-06-14 00:18:34

Quando Gabriel desapareceu pela estrada, continuei parada por alguns segundos.

Observando.

Como se meus olhos ainda conseguissem encontrá-lo entre as árvores.

O que era ridículo.

Eu o conhecia havia menos de uma hora.

Menos de uma hora.

E ainda assim meu coração parecia estranhamente leve.

Talvez porque tivesse sido a primeira conversa realmente agradável que eu tivera em muito tempo.

Talvez porque aqueles olhos azuis fossem difíceis de esquecer.

Ou talvez por outro motivo.

Um motivo que eu ainda não compreendia.

Quando cheguei à casa, a luz da varanda estava acesa.

Augusto estava sentado em sua cadeira de balanço.

Esperando.

Assim que me viu surgindo pelo caminho, levantou-se.

— Graças a Deus.

Franzi a testa.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Então por que essa cara?

— Você demorou.

— Eu estava caminhando.

— Nas montanhas.

— Sim.

— Sozinha.

— Sim.

Augusto suspirou.

Passando a mão pelos cabelos grisalhos.

— Helena, você não conhece bem a região ainda.

— Não sou uma criança.

— Eu sei.

Mas isso não impediu sua mãe de fazer loucuras.

Aquela resposta me arrancou uma risada.

— Então eu puxei a ela.

Augusto não sorriu.

E aquilo me chamou atenção.

Mais uma vez.

Ultimamente ele parecia carregar uma preocupação constante.

Como se estivesse sempre esperando que algo acontecesse.

Entramos.

O jantar já estava pronto.

Uma comida simples.

Caseira.

Daquelas que confortam a alma.

Durante a refeição conversamos sobre assuntos comuns.

A vila.

As plantações.

As pessoas que eu havia conhecido.

E, propositalmente, não mencionei Gabriel.

Não porque estivesse escondendo algo.

Mas porque já tinha percebido que Augusto não gostava dele.

E eu não estava com disposição para ouvir sermões.

Depois do jantar, Augusto saiu para guardar algumas ferramentas.

Enquanto isso, fiquei sozinha na sala.

O relógio antigo marcava lentamente as horas.

A casa estava silenciosa.

Apenas o som dos grilos vinha do lado de fora.

Foi então que meus olhos encontraram uma caixa de madeira embaixo de uma pequena mesa.

Uma caixa antiga.

Coberta por uma fina camada de poeira.

Curiosa, puxei-a para perto.

Abri.

E encontrei dezenas de fotografias.

Algumas muito antigas.

Outras mais recentes.

Retratos de família.

Aniversários.

Festas.

Momentos que pareciam ter sido congelados no tempo.

Sorri ao ver algumas imagens da minha infância.

Depois encontrei fotografias da minha mãe.

Rosa.

Jovem.

Bonita.

Com o mesmo sorriso que eu tanto lembrava.

Meu coração apertou.

Mesmo depois de tantos anos, a saudade continuava ali.

Silenciosa.

Constante.

Continuei folheando as fotos.

Até que uma delas chamou minha atenção.

Imediatamente.

Meu sorriso desapareceu.

Era uma fotografia antiga.

Provavelmente tirada muitos anos antes de eu nascer.

Minha mãe estava nela.

Mais jovem do que eu jamais a vira.

Sorrindo.

Feliz.

Mas não estava sozinha.

Ao seu lado havia um homem.

Alto.

Moreno.

De cabelos negros.

E olhos claros.

Meu coração acelerou.

Porque aquele homem parecia Gabriel.

Não exatamente igual.

Mas parecido demais para ser coincidência.

Os mesmos traços.

O mesmo formato do rosto.

O mesmo olhar.

Fiquei imóvel.

Tentando entender.

— Não pode ser.

Murmurei.

Peguei a fotografia.

Observando cada detalhe.

Quanto mais olhava...

mais estranha a semelhança parecia.

Foi nesse momento que Augusto voltou para a sala.

— O que está fazendo?

Perguntou.

Levantei a fotografia.

— Quem é ele?

Vi o exato instante em que a expressão de Augusto mudou.

A cor desapareceu de seu rosto.

Os olhos se fixaram na imagem.

E, por alguns segundos, ele simplesmente ficou imóvel.

Aquilo respondeu mais do que qualquer palavra.

— Augusto?

Ele se aproximou lentamente.

Pegou a fotografia da minha mão.

— Onde encontrou isso?

— Na caixa.

Quem é ele?

O silêncio voltou.

Longo.

Pesado.

Desconfortável.

— Um velho conhecido.

Respondeu finalmente.

— Um velho conhecido que parece muito com Gabriel Ferraz.

Augusto apertou a fotografia.

— Algumas pessoas se parecem.

— Não tanto.

Ele desviou o olhar.

E aquilo me irritou.

Porque eu já estava cansada de respostas pela metade.

— Você está escondendo alguma coisa.

— Não estou.

— Está sim.

— Helena...

— Quem era ele?

Augusto permaneceu calado.

E naquele momento percebi que não responderia.

Não importa o quanto eu insistisse.

Ele simplesmente não responderia.

Então fez algo ainda pior.

Guardou a fotografia dentro da caixa.

Fechou a tampa.

E mudou de assunto.

Como se nada tivesse acontecido.

Mas tinha acontecido.

E eu sabia disso.

Subi para meu quarto carregando mais perguntas do que respostas.

O vento soprava pela janela.

A lua iluminava parte da escrivaninha.

E, pela primeira vez desde que cheguei a Serra da Lua, senti uma necessidade urgente de escrever.

Sentei diante do notebook.

Abri um documento em branco.

E comecei.

"Existem lugares que escondem segredos.

E existem segredos que sobrevivem por gerações.

Cheguei a Serra da Lua acreditando que estava fugindo do meu passado.

Mas talvez eu estivesse caminhando diretamente para ele."

Parei.

Reli as palavras.

Depois continuei escrevendo.

Sobre os sonhos.

Sobre Gabriel.

Sobre a fotografia.

Sobre minha mãe.

Sobre os olhares estranhos dos moradores.

Sobre Augusto.

Sobre tudo.

As páginas começaram a surgir.

Uma após a outra.

Como se aquela história estivesse esperando por mim.

Como se estivesse viva.

E enquanto eu digitava noite adentro, não fazia ideia de que a resposta para todas aquelas perguntas estava muito mais próxima do que imaginava.

Nem que a fotografia escondida naquela caixa era apenas a primeira peça de um mistério que mudaria minha vida para sempre.

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Último capítulo

  • A profecia da lua    Final

    Se você está lendo estas palavras, então minha história chegou ao fim.Ou talvez não.Talvez histórias como a minha nunca terminem de verdade.Elas apenas continuam através daqueles que vêm depois.Hoje estou sentada na varanda da mesma casa onde escrevi grande parte deste livro.A mesma varanda de onde observei montanhas envoltas pela neblina.A mesma varanda onde chorei.Sorri.Tive medo.E aprendi a amar novamente.Mas muita coisa mudou desde então.Anos se passaram.A guerra ficou para trás.Walter tornou-se apenas uma lembrança distante.Uma sombra perdida nas páginas da história.E a profecia...a profecia era verdadeira.Completamente verdadeira.Após o nascimento do meu filho, algo começou a acontecer.As famílias da linhagem antiga voltaram a prosperar.Crianças começaram a nascer.Muitas crianças.Meninos e meninas fortes.Saudáveis.O sangue antigo, que antes estava desaparecendo, voltou a correr pelas veias de uma nova geração.Pela primeira vez em séculos, existia esperan

  • A profecia da lua    O nascimento

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  • A profecia da lua    O confronto

    O dia da Lua de Sangue chegou silencioso.Silencioso demais.Como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração.Como se o mundo inteiro estivesse esperando alguma coisa.Eu não dormi naquela noite.Nem Gabriel.Nem Dona Alzira.Nem Augusto.Ninguém naquela casa conseguiu descansar.Todos sabiam que aquele seria o dia que decidiria tudo.Vida.Morte.Profecia.Destino.Quando o sol nasceu, as montanhas pareciam diferentes.Mais escuras.Mais ameaçadoras.Passei a manhã sentada na varanda, escrevendo.Talvez pela última vez.Meu caderno já estava quase cheio.As páginas contavam minha chegada à Serra da Lua.Os sonhos.Gabriel.A fotografia da minha mãe.Os lobos.A profecia.E agora eu escrevia sobre o medo.Porque eu estava com medo.Mais do que jamais estivera em toda a minha vida.Minha barriga havia crescido novamente.Não como uma gravidez humana.A criança parecia se desenvolver em dias.Era assustador.Mas ao mesmo tempo...quando colocava a mão sobre o ventre...senti

  • A profecia da lua    O despertar

    Naquela noite, pela primeira vez desde que cheguei a Serra da Lua, consegui esquecer o medo por alguns minutos.As palavras de Gabriel ainda estavam na minha mente."Se eu pudesse escolher tudo de novo... eu escolheria encontrar você outra vez."Eu não sabia o que o futuro reservava para nós.Não sabia se a profecia era verdadeira.Não sabia se sobreviveríamos à Lua de Sangue.Mas sabia de uma coisa.Quando estava perto dele, o mundo parecia um pouco menos assustador.Fui dormir tarde.Muito tarde.Fiquei escrevendo durante algumas horas.Depois fiquei observando a lua pela janela.Pensando na minha mãe.Em Rafael.Em Augusto.Em Gabriel.E no filho que crescia dentro de mim.Filho.Ainda era estranho pensar naquela palavra.Acabei adormecendo sem perceber.Não sei quanto tempo passou.Talvez algumas horas.Talvez menos.Mas acordei assustada.Uma dor atravessou meu corpo.Não era uma dor comum.Era como se algo estivesse despertando dentro de mim.Sentei rapidamente na cama.Minha re

  • A profecia da lua    Capítulo 21

    Se existe uma coisa que aprendi como escritora, é que existem verdades capazes de libertar.E existem verdades capazes de destruir.Eu ainda não sabia em qual das duas categorias a história de Rafael se encaixava.Talvez nas duas.Aquela noite chegou silenciosa.Depois de tudo o que havia acontecido durante o dia, a casa parecia estranhamente calma.Augusto estava recolhido em um dos quartos.Dona Alzira havia ido dormir mais cedo.E pela primeira vez desde a descoberta da gravidez, eu fiquei sozinha.Ou quase.Estava sentada na varanda com meu caderno sobre as pernas.Tentando escrever.Tentando organizar pensamentos.Tentando colocar em palavras uma vida que já não parecia minha.Mas nenhuma frase saía.O vento balançava as árvores.Os grilos cantavam.Ao longe, as montanhas pareciam sombras gigantes observando a noite.Foi quando ouvi passos.Nem precisei olhar.Eu já sabia quem era.Gabriel sentou-se ao meu lado.Por alguns segundos nenhum dos dois falou.Era estranho.Porque ante

  • A profecia da lua    Capítulo 20

    Se você está lendo estas páginas, talvez ache que enlouqueci.Talvez pense que tudo isso não passa da imaginação de uma escritora tentando transformar a dor em fantasia.Durante muito tempo eu mesma pensei isso.Gostaria que fosse.Gostaria que tudo o que aconteceu em Serra da Lua tivesse sido apenas um sonho estranho.Uma história inventada.Um livro.Mas não foi.E uma das pessoas que mais me fez compreender isso foi um homem chamado Walter.Naquele momento, porém, eu ainda não sabia exatamente quem ele era.Nem o quanto sua sombra já rondava minha vida.Depois da conversa com Dona Alzira e Gabriel naquela manhã, tentei me convencer de que estava exagerando.Talvez o espelho tivesse me enganado.Talvez fosse nervosismo.Talvez eu estivesse apenas impressionada.Mas, enquanto escrevo estas palavras, ainda consigo me lembrar da sensação.Aquela estranha certeza de que alguma coisa dentro de mim estava mudando.Algo impossível.Passei boa parte da manhã sentada na varanda.Tentando org

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