Share

Olhos abertos

Author: Edi Beckert
last update publish date: 2024-01-08 20:55:35

CAPÍTULO 05

Laura Strondda

Me senti humilhada da forma como saí daquele quarto. Por mais que eu não o queira, e não iria ceder a nada que esse homem quisesse, me senti um nada, uma mulher qualquer na vida do homem que pensei que pelo menos gostasse um pouco de mim.

“O que estou pensando?“ Não posso ficar pensando isso, sou uma mulher forte, não a coitada que ele pensa que casou sei lá pra quê, embora coisa boa, com certeza não seja.

Caminhei com a mala toda torta, as roupas bagunçadas, tentando entender qual daqueles seria o meu quarto.

Dei um passo de cada vez, meu orgulho jamais permitiria que eu chorasse ou lamentasse, até porque sempre fui treinada e trabalho para resolver assuntos, e jamais para lamentar... vou resolver isso.

Entrei num quarto que vi a luz apagada, assim que entrei aquela mulher que vi quando cheguei, apareceu do nada, parecia um fantasma, credo!

— Esse quarto a senhora não pode ficar! — a mulher disse e olhei para os lados e não vi nada em especial além de alguns objetos femininos, mas fui direto ao ponto.

— Então, onde posso dormir? — questionei.

— Me acompanhe! — a mulher empinou o nariz e virou as costas, então ajeitei aquela grande mala e outra vez saí pelo corredor. Se a intenção do Siciliano era me humilhar, infelizmente está conseguindo. — Pode ficar aqui! — a mulher entrou em um quartinho pequeno, havia apenas uma cama de solteiro de madeira, um guarda-roupa velho, de cor diferente da cama, e um espaço pequeno para se movimentar, parecia muito com um quarto de funcionário.

— Por que não posso ficar no outro, se está disponível? — perguntei, mas a mulher foi saindo.

— Era da senhora Anita, o patrão ficaria furioso se ficasse lá! Boa noite...

Eu iria perguntar quem era Anita, mas a mulher fechou a porta do quartinho e saiu, eu não me humilharia mais. Até porque, a mãe dele eu sei que não é Anita, então é melhor evitar perguntar até que eu resolva a situação dos meus pais, e caso seja uma amante... mato depois, com certeza.

Por sorte eu havia levado uma roupa mais comportada para dormir, com as outras. Embora sensual, cobria a bunda e a barriga, então já era alguma coisa.

O quarto estava meio empoeirado e não tinha coberta. Joguei uma blusa minha sobre o corpo e deitei naquela cama dura, olhando para o teto e tentando entender onde foi que errei.

Fui fiel ao Alex, ele só não sabe sobre o meu trabalho durante as noites e algumas fugas durante o dia, mas isso é uma coisa que eu só diria com o tempo, quando tivesse confiança, e agora provavelmente ele nunca saberá, ninguém da minha família sabe, porque eu diria, agora?

Apaguei a luz, eu precisava dormir, pois não sabia o que iria me esperar na próxima manhã, precisaria estar de olhos bem atentos.

Senti o meu coração doer, sufocado no peito. Não entendo de sentimentos, e não amo esse homem, mas isso tudo me magoou muito, se imaginasse algo parecido jamais teria me casado... agora é tarde.

Senti o meu corpo mole, já havia passado bastante tempo. Percebi que uma luz acendeu, embora eu não tenha conseguido abrir os olhos, o sono me venceu.

Quando acordei me assustei. Eu estava coberta. Olhei rapidamente para a porta e dei de cara com o Alex parado, me olhando sem dizer nenhuma palavra. Ele teria me coberto? Mas, quando?

Me sentei na cama. — O que faz aqui? — questionei. Ele me olhava intensamente, mas eu tinha dificuldade em entender, pois agora sei que não o conheço, Alexander Caruso é um completo desconhecido pra mim, não sei o que esperar, e nem muito menos o que fazer.

— Te olhando dormir esqueço quem você é... preciso tomar cuidado, porque o único envolvimento que terei com você é sexual. Você sabe que devemos consumar o casamento, não sabe? Ele precisa se tornar válido. — debochei olhando e virando a cabeça para o lado. “Como se eu quisesse tamanha idiotice”, ri comigo mesma.

— E, pra quê? Você não me suporta, eu não te suporto... — balancei a cabeça, ele gesticulou as mãos, veio caminhando devagar, até chegar na beira da cama.

— O nosso casamento foi arranjado há muitos anos! Essas coisas não importam mais, agora você é minha mulher, quero ter filhos! Se você não é mais virgem, não importa, pelo menos posso te pegar como gosto, sem manha. — falou devagar, parecia mais calmo hoje, embora suas palavras estivessem tão afiadas. Não sei qual a sua verdadeira intenção ao dizer isso, ele tem duas faces, ou é só o idiota que não percebi ser a tempo.

— Porque me fez tudo isso? Se queria que funcionasse, por que me tratou como fez ontem? Eu não sou burra, e nem muito menos me entregaria a você, sabendo que tem os meus pais na sua mira, e também por que é um babaca completo.

— Se for boazinha e me obedecer, posso tirar os meus homens de lá, é só eu não ficar olhando as imagens, certamente a raiva passará... — sentou na beira da cama e esticou a palma da mão sobre o lençol, vindo em direção às minhas pernas, mas puxei.

— O que os meus pais te fizeram? — ele bufou.

— Eu estou tentando melhorar alguma coisa, mas você não está ajudando! — virou o rosto olhando para a cortina que estava parcialmente fechada.

— Melhorar o quê? Por acaso é louco? — quando falei isso, Alex saltou o corpo sobre mim, parcialmente me prendendo na cama. Nossos olhos firmaram um no outro, fiquei tensa. Não sou desse tipo que se amedronta, mas o Alex consegue me deixar imóvel algumas vezes, e me faz pensar que não sei o que estou fazendo, e agora ele está tão perto...

Seu olhar é diferente, segurando seus braços, sinto que ele é bem quente, e preciso me conter para não ceder, mas… ele está chegando mais perto... droga! Ele olhou para a minha boca, não pode me beijar, não pode!

Sem que eu terminasse de respirar, ele me roubou um beijo. Eu não quis, tentei evitar, mas ele estava pesado, acabei ficando numa posição ruim.

Alex não foi carinhoso como de costume, no noivado, parecia querer machucar a minha boca e vi que precisava pará-lo. Tentei virar o rosto, senti a sua barba rala no meu pescoço com certa força. Ele passou a língua e por um momento senti algo estranho no meu corpo, a sensação não era ruim, era nova, paralisei.

Ele repetiu o movimento com a língua mais algumas vezes, e deixei que me lambesse, aquilo era bom. Virei o rosto para ele outra vez, então percebi que me beijaria novamente, não fechei os olhos, o deixei me beijar, porém, fiquei o olhando para ver o que pretendia e estranhamente ele não fechou os olhos também, ele estava me beijando de olhos abertos, não tinha emoção nenhuma nele, me senti um objeto.

Do nada senti uma dor nos meus lábios quando ele me viu olhá-lo, e reclamei quando senti um pequeno gosto de sangue.

— Ai, você me mordeu! — arrumei forças, quando ele parou ao me ouvir, e o tirei de cima de mim, puxando a faca maior que deixei de baixo do colchão. — Sai de perto de mim! — ele levantou-se da cama e ficou me olhando enquanto limpava a boca.

— Já estou farto da sua chatice! Nunca posso fazer nada! Já não basta tudo que me fez? — fiquei parada com a faca apontada pra ele, eu não queria que Alex me tocasse mais, porém me surgiu uma dúvida:

— Porque me beijou de olho aberto? — ele me olhou de forma dura.

— Nunca te beijei de olho fechado. Tomo esse cuidado, justamente para não esquecer o rosto de quem estou beijando! Nunca espere nada de mim, pois só terá sexo e desprezo! — saiu do quarto, batendo a porta.

Continue to read this book for free
Scan code to download App
Comments (1)
goodnovel comment avatar
Alinne
Ela- Eu iria perguntar quem era anita, mais caso seja sua amante mato depois! concerteza kkkkkkkkk ela é ótima
VIEW ALL COMMENTS

Latest chapter

  • A prometida do Capo italiano    Especial de Natal 19

    LAURA STRONDDA Um ano depois, o Natal chegou novamente, e nossa casa estava cheia do mesmo espírito caloroso, mas com um toque especial. Júlia, agora com um ano, havia sido o centro de todas as atenções o dia inteiro. Sua energia parecia infinita, mas finalmente consegui colocá-la para dormir, com suas bochechas rosadas e um sorriso sereno. Fechei a porta do quarto com cuidado, respirando fundo.Enquanto caminhava pelo corredor, ouvi um som baixo vindo do quarto que dividia com Alex. Assim que entrei, a cena que encontrei quase me fez explodir de tanto rir.Lá estava ele, meu siciliano maluco, deitado na cama com uma cueca vermelha, uma espécie de gorro natalino na cabeça e uma arma na mão. A luz suave do abajur iluminava seu sorriso descarado. Analisei cada detalhe do seu rosto.— Laura, feche a porta — ele ordenou com uma voz grave.Ergui uma sobrancelha, cruzando os braços enquanto o encarava.— Alex, eu prefiro evitar essa versão do Papai Noel, obrigada. Acho que não estou

  • A prometida do Capo italiano    Especial de Natal 18

    LAURA STRONDDA CARUSOA noite continuava cheia de risos e vozes alegres, mas minha atenção foi capturada quando vi Rebeca atravessando o salão apressada. Ela tinha acabado de deixar os gêmeos com sua mãe, que parecia encantada em ter os netos por perto, mas o que me chamou a atenção foi a expressão no rosto dela. Determinada, quase... predatória.Fiquei curiosa e decidi segui-la. Rebeca cruzou o salão com passos rápidos, ignorando os olhares curiosos de quem tentava interceptá-la para uma conversa casual. Ela estava focada, e eu sabia que isso significava uma coisa: algo ou alguém tinha provocado aquela reação.Quando ela saiu para o jardim, apressei meus passos, mantendo uma distância segura. Ao virar o corredor que levava ao lado externo da fundação, ouvi vozes e me escondi atrás de uma das colunas.Rebeca estava parada diante de Enzo, que conversava animadamente com uma mulher. Ela era bonita, com um vestido elegante e um sorriso que parecia feito para encantar. Rebeca cruzou o

  • A prometida do Capo italiano    Especial de Natal 17

    PETER MARINOO salão da fundação estava cheio de vida. O som de crianças correndo, o riso das mulheres que antes carregavam semblantes pesados e agora esboçavam sorrisos genuínos. Era impossível não sentir um aperto no coração, mas dessa vez, não de tristeza. Era uma mistura de gratidão e alívio.— Você está pensativo, Peter. — Katy apareceu ao meu lado, sorrindo, enquanto ajeitava o cachecol em volta do pescoço.Dei de ombros, ainda com o olhar fixo nas mesas repletas.— Só estou... processando. Acho que nunca imaginei que um dia veria algo assim.Ela me olhou com aquele jeito calmo, sempre tentando entender o que eu não dizia em palavras.— Algo em especial?Respirei fundo, desviando o olhar para Bianca, que estava sentada perto de uma das janelas. Seu filho estava no colo dela, e ela parecia absorta, acariciando o rostinho dele enquanto ria de algo que uma das outras mulheres tinha dito.— Bianca — respondi, apontando sutilmente com a cabeça na direção dela. — Ela me faz pe

  • A prometida do Capo italiano    Especial de Natal 16

    LAURA STRONDDA CARUSOO salão estava vibrante. Cada canto parecia ter sua própria melodia, um riso aqui, uma exclamação de alegria ali, e o barulho suave das taças. O aroma das mesas fartas – perus assados, massas frescas e os doces típicos que Fabiana havia feito questão de incluir – se misturava ao cheiro de canela e chocolate quente ainda no ar. Era como se o lugar tivesse sido abraçado pelo espírito natalino.Alex estava ao meu lado, segurando Júlia em seus braços. Ela parecia analisar as luzes do grande lustre.— Acho que temos uma nova fã de lustres na família — brinquei, cutucando Alex de leve.Ele riu baixinho, olhando para nossa filha.— Não vou negar, ela puxou o bom gosto da mãe.Dei uma risada, balançando a cabeça. — Ou talvez o fascínio do pai por grandiosidades, quem sabe?Enquanto conversávamos, meu olhar se voltou para as mesas cheias. As mulheres da fundação, que haviam enfrentado tanto, agora estavam cercadas por seus filhos, saboreando cada prato com olhos

  • A prometida do Capo italiano    Especial de Natal 15

    LAURA STRONDDA CARUSO A magia daquela noite parecia ter contagiado cada canto do salão. As luzes cintilavam como estrelas, refletindo nos olhos maravilhados das crianças de todos os tamanhos, e seus diferentes sorrisos. O coral entoava músicas natalinas com suavidade, e o cheirinho de canela e chocolate quente preenchia o ar. Júlia, aninhada em meus braços, olhava para tudo com curiosidade, mesmo tão pequenininha. O calor dessa noite me fazia esquecer os desafios que havíamos enfrentado nos últimos dias. Alex tinha realmente superado todas as expectativas. Eu sabia que ele era determinado, mas transformar a fundação em um paraíso natalino em poucas horas era algo que nem mesmo ele fazia com frequência. — Está feliz, amore mio? — Alex sussurrou em meu lado, segurando minha mão. — Mais do que você imagina, siciliano. — Sorri, sentindo os olhos marejarem. — Não sei como conseguiu isso, mas é perfeito. Ele tinha um sorriso cheio de satisfação, o tipo de sorriso que me fazia lembr

  • A prometida do Capo italiano    Especial de Natal 14

    ALEXANDER CARUSO Eu estava sentado no quarto ao lado de Laura, observando enquanto ela cochilava. Júlia dormia no bercinho ao lado, seu pequeno peito subindo e descendo em uma paz que parecia quase mágica. Meu mundo estava ali, completo. Ainda assim, havia algo no ar, algo que eu não conseguia identificar de imediato.Foi quando olhei para o calendário na parede do quarto e percebi: era véspera de Natal.Como eu pude esquecer? O caos dos últimos dias, com Laura e Júlia lutando para superar os desafios do parto, a data havia passado despercebida. Mas agora que sabia, algo dentro de mim acendeu. Este era o primeiro natal da minha filha. Nosso primeiro natal como uma família. E não podia deixar que fosse qualquer coisa.Peguei o celular imediatamente.— Peter? Preciso de você agora. E traga a Katy. Temos que fazer algo grande.Em menos de meia hora, Peter e Katy chegaram no quarto, onde eu os encontrei com o mesmo entusiasmo que sentia ao fechar um grande negócio.— Alex, o que e

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status