Mag-log inMirellaDesapareci atrás da tapeçaria lateral com o coração batendo rápido e a vergonha, agora, cheirando a medo. O corredor estreito levava a uma galeria de observação. Eu o conhecia porque, quando ainda era futura Luna, aprendera todos os caminhos pelos quais mulheres importantes podiam desaparecer sem parecer que fugiam. Entrei sem ruído, puxando a seda do vestido para não rasgar. Não sabia exatamente o que buscava. Sabia apenas que Kaian escondia algo perigoso para mim, e homens nunca escondiam perigo de uma mulher por bondade. Escondiam para que ela entrasse nele sorrindo.A galeria terminava em uma saleta circular, usada por anciãos durante julgamentos antigos. Havia uma mesa de pedra, três velas apagadas e um espelho pequeno coberto por tecido negro. Sobre a mesa, outro pergaminho com o selo da Coroa Partida. Parei. Minha mão tremia quando toquei o selo. Não seja covarde agora, sussurrei para mim mesma. Rasguei. Li. As primeiras linhas não fizeram sentido. Depois fizeram sentid
MirellaOs olhos de Kaian desceram para minha boca. Foi rápido. Não rápido o bastante. O calor entre nós acendeu, indecente diante de tantos homens e leis mortas. Odiei minha própria pele por lembrar do quarto dele, do peso do corpo dele, das mãos que não pediam ternura, da forma como ele me fazia sentir menos descartada exatamente enquanto me usava. Kaian tinha esse talento cruel: tocava minhas feridas como se fossem joias. Disse que eu poderia sair dali com uma coroa. A dele? Nossa, respondeu. Ri baixinho. Não mentisse com palavras bonitas. Não combinava com ele.Algo passou pelo rosto dele. Dor, talvez. Ou vaidade ferida. Ele perguntou, baixo demais para que outros ouvissem, se eu preferia Darius. Senti vontade de feri-lo por me fazer gostar da pergunta. Ciúme em Kaian era feio, sujo, vivo. Com Darius, eu implorara migalhas de reação. Com Kaian, bastava um nome para o homem diante de mim revelar as garras. Disse que preferia ser escolhida sem precisar provar utilidade. Kaian aprox
MirellaDescobri que vergonha também tinha cheiro. Não era como medo, ácido e fácil. Não era como desejo, quente e impossível de esconder. Vergonha cheirava a perfume caro estragando sobre pele fria. A seda vinho do meu vestido ainda estava impecável, o cabelo preso com precisão, a boca pintada de um vermelho que prometia controle. Mas por baixo de tudo, sob a joia no pescoço e a postura treinada diante de espelhos, eu sabia. Todos sabiam. Eu fora escolhida em fraude. Falsa Luna. Falsa promessa. Falsa vitória. E agora, no salão dos juramentos, ao lado de Kaian Varek, sentia cada olhar como se alguém arrancasse uma camada da minha pele com delicadeza pública.Kaian estava a três passos de mim, falando com guerreiros, anciãos e lobos inquietos como se já tivesse nascido com a mão em torno de uma coroa. A marca da Coroa Partida brilhava sob a camisa escura, cicatriz dourada e cruel, viva demais para ser apenas símbolo. Ele parecia belo naquela luz baixa. Perigoso. Feito de sombra, ambiçã
SeleneDarius me olhava como se eu o desfizesse e reconstruísse sem tocar, e o calor que respondeu dentro de mim foi inoportuno o bastante para merecer punição. Kaian bateu palmas uma vez, devagar, chamando meu discurso de belíssimo, sedutor, quase suficiente para fazê-los esquecer que, no campo de batalha, inimigos não esperavam debates sobre consentimento espiritual. Darius virou para ele e disse que, no campo de batalha, Kaian se escondia atrás de rotas falsas e mapas roubados. Kaian avançou um passo. Disse que, no campo de batalha, vira guerreiros morrerem porque Darius estava distraído por sonhos de uma Ômega rejeitada. O salão explodiu em murmúrios.Darius se moveu. Senti antes. Desta vez, não o parei. Ele cruzou a distância até Kaian com a calma de algo letal e parou a um palmo dele. Mandou que dissesse Ômega como insulto outra vez. Kaian sorriu. Ômega. O golpe de Darius não veio com punho. Veio com presença. A autoridade dele caiu sobre a sala como tempestade. Vários guerreiro
SeleneUm gesto meu, apenas um, e o Alfa da Lua Sangrenta interrompera o próprio instinto. Vários guerreiros se moveram, desconfortáveis. Sorri. Frio. Disse que, se os guerreiros de Kaian confundiam autocontrole com fraqueza, isso explicava por que ele precisou de uma mulher em correntes para parecer perigoso. Um murmúrio cortou o salão. Mirella virou o rosto para mim. A frase bateu nela também. Kaian não desviou. Disse que, ainda assim, eu precisara de Darius para entrar viva ali. Darius rosnou. Respondi antes dele que precisei de muitas coisas para chegar até ali: fome, frio, traição, uma lâmina da minha mãe e a burrice persistente de homens que subestimavam mulheres feridas.Nara, em algum lugar à esquerda, sussurrou alto o suficiente para ser inconveniente que mandaria bordar isso. Cassian ficou ao lado dela, rígido, mas a mão pairava perto da dela. O anel rachado havia sido removido de seu dedo e guardado num cofre selado por Vaela, mas uma sombra fina ainda marcava sua pele. Nar
SeleneO salão dos juramentos amanheceu com cheiro de ferro, medo e homens tentando decidir quem ainda merecia obedecer. Percebi antes de ouvir qualquer voz. A alcateia inteira respirava errado. Os guerreiros ocupavam as laterais do grande salão em fileiras rígidas, mas a disciplina tinha rachaduras. Olhos desviavam de Darius para Kaian, de Kaian para a água morta ao centro, da água morta para mim. Ninguém falava alto. Não precisavam. A dúvida tinha cheiro próprio: suor amargo, couro tenso, lobo inquieto sob pele humana. No centro, Darius permanecia de pé. Não no trono. Ao lado dele. A escolha já era escândalo suficiente.O Alfa da Lua Sangrenta não havia sentado no assento de pedra negra, mesmo com a coroa ancestral brilhando atrás, mesmo com anciãos cochichando que um Alfa que não ocupava o próprio trono convidava outro a ocupá-lo. Darius estava com os pulsos ainda marcados pelas correntes da prova, o maxilar fechado, a camisa escura alinhada demais para esconder o cansaço. Mas seus







