INICIAR SESIÓNSelene
Eu me virei devagar. Darius estava a poucos passos, o rosto fechado, mas os olhos… os olhos estavam vivos demais. Havia culpa ali, sim. E raiva. E algo mais escuro, mais primitivo, quase faminto, que ele tentou enterrar assim que percebeu que eu vi. Talvez a dor me deixasse cruel. Talvez a rejeição tivesse matado a parte de mim que media palavras. — Mas não se preocupe — continuei. — Sobrevivi sem um lobo. Sobreviverei sem você. Ele inspirou. O som foi baixo, áspero. Como se minha frase tivesse passado unhas por dentro dele. — Você não entende. Eu ri. Uma risada pequena, quebrada, feia. — Essa é a sua defesa? Depois de me rejeitar diante de toda a alcateia, depois de escolher minha irmã enquanto eu estava ali, depois de me mandar aceitar como se eu fosse uma criada recebendo ordem? Você vai me dizer que eu não entendo? Darius deu um passo. Eu ergui a mão. Ele parou. Parou. A obediência dele atravessou o salão como um choque mudo. Vi o instante exato em que percebeu. Vi a fúria nascer. Não contra mim. Contra si mesmo. Porque o Alfa da Lua Sangrenta tinha parado quando a Ômega mandou. Os anciãos também viram. Mirella também. E, de algum modo, aquilo me sustentou melhor do que qualquer parede. — Eu entendo perfeitamente, Alfa. Entendo que você escolheu poder. Entendo que escolheu aparência. Entendo que olhou para mim e decidiu que meu destino valia menos que sua coroa. A boca dele endureceu. — Não foi isso. — Então me corrija. O desafio saiu antes do medo. Darius ficou imóvel. Por um segundo, pensei que ele fosse dizer. Que fosse rasgar aquela noite ao meio com alguma verdade grande o bastante para justificar a humilhação. Uma ameaça. Uma profecia. Uma mentira. Qualquer coisa que impedisse meu coração de acreditar na explicação mais simples: ele não me quis. Mas ele não disse nada. E o silêncio dele terminou o serviço que a rejeição começara. Assenti devagar. — Foi o que pensei. Mirella apareceu ao lado dele novamente, segurando o braço que ele não ofereceu. — Chega dessa cena patética — ela disse, já sem tanta doçura. — Selene, você foi rejeitada. Tenha dignidade e saia. Dignidade. A palavra dela quase me fez sorrir. Eu olhei para o vestido branco. Para o colar de rubis. Para a mão delicada pousada sobre o homem que o destino havia marcado para mim. — Cuidado, Mirella. Ela piscou. — Com o quê? A luz prateada brilhou de novo sob minha pele. Não ordenei. Não pensei. Apenas senti. Senti o gosto da humilhação. O cheiro do medo dela escondido sob perfume. A presença de Darius atrás, quente, densa, perturbadora. Senti a alcateia prendendo a respiração, esperando que a Ômega enfim se partisse. Mas uma parte minha não queria mais se partir. Queria partir algo de volta. Inclinei a cabeça. — Com o que você chama de seu. O rosto de Mirella perdeu cor. Darius sussurrou meu nome, advertência e súplica misturadas. Dessa vez, não deixei que me tocasse nem com a voz. As portas do salão se abriram diante de mim, empurradas por dois guardas que não ousaram encarar meus olhos. A noite entrou como uma boca fria. O vento trouxe cheiro de terra molhada, folhas escuras e liberdade cruel. Dei o primeiro passo para fora. A dor quase me derrubou outra vez, mas continuei. Um passo. Depois outro. O salão ficou para trás. As vozes, os olhares, a lua falsa das velas. Atrás de mim, a cerimônia não recomeçou. Ninguém brindou. Ninguém cantou o nome da nova Luna. Bom. Que meu silêncio estragasse a festa deles. No pátio, a noite me recebeu com garras geladas. A lua verdadeira estava alta, enorme, indiferente à minha vergonha. Caminhei até o centro das pedras antigas, onde a neve fina começava a cair, embora ainda não fosse inverno. Minhas mãos brilhavam menos agora. O sangue continuava escorrendo. Abaixei os olhos para ele. Prata. Não vermelho. Meu sangue não era vermelho. Uma risada escapou de mim, mas morreu antes de virar som. Atrás, as portas se abriram. Não precisei olhar para saber quem era. Darius. Sempre ele. Sempre tarde. — Selene — ele chamou. Havia algo diferente na voz agora. Um arranhão. Uma falha. Eu olhei por cima do ombro. Ele estava parado no topo dos degraus, a lua desenhando prata nas linhas duras do rosto. Mirella não estava com ele. Pela primeira vez naquela noite, Darius parecia sozinho. Deveria ter me dado prazer. Só doeu. — Volte para dentro — ele disse. — Para assistir ao resto? — Para ser examinada. — Por medo do que eu sou ou do que você fez? Os olhos dele queimaram. — Por medo de você morrer. Meu peito apertou. Cruel. Tão cruel que ele dissesse a coisa certa depois de ter feito a pior. Por um segundo, só por um segundo miserável, imaginei como teria sido ouvir aquela preocupação antes. Como teria sido ser escolhida por ele sem precisar sangrar luz diante de todos. Como teria sido sentir aquela voz rouca perto do ouvido não como ameaça, mas como abrigo. Então lembrei da frase. Eu rejeito você. A lembrança me endireitou. — Sua preocupação chegou depois da sentença. Darius desceu um degrau. Meu sangue respondeu. A luz pulsou. Ele parou no mesmo instante, como se algo dentro dele tivesse puxado uma corrente invisível. Sua expressão mudou. Não era medo. Era luta. O Alfa contra o próprio lobo. Então eu ouvi. Baixo. Grave. Não com meus ouvidos. Dentro dele. Um rosnado. A fera de Darius rosnou contra o homem. O som atravessou meu corpo como fogo. Minha pele arrepiou. Minha respiração falhou. O desejo, maldito e vivo, se ergueu no meio da dor, quente, vergonhoso, impossível de negar. O lobo dele estava furioso. Não comigo. Com ele. Darius levou a mão ao peito, como se aquilo doesse fisicamente. Seus olhos encontraram os meus. E pela primeira vez desde que o conheci, o Alfa da Lua Sangrenta pareceu não saber se queria me ordenar a ficar… Ou cair de joelhos e pedir que eu não fosse embora. A neve tocou minha pele quente. Eu sorri sem alegria. — Parece que seu lobo discorda da sua escolha. O rosnado dentro dele ficou mais alto. Darius empalideceu. E, antes que ele pudesse responder, a luz prateada no meu sangue se apagou de repente. O mundo escureceu. Meu último pensamento, antes de cair, foi terrível. Não foi sobre Mirella. Não foi sobre a alcateia. Foi sobre os braços de Darius avançando para me pegar. E sobre a parte destruída de mim que ainda quis ser salva por ele.Vaela— Quero.O beijo seguinte foi menos guerra e mais queda. Ezra a virou sobre a cama, abrindo os laços do vestido com mãos impacientes, mas atentas, e quando o tecido escorregou por seus ombros, ele parou para olhar. Não como quem avalia beleza; como quem reconhece retorno. Vaela quase mandou que ele apressasse. Não conseguiu. Havia algo insuportavelmente íntimo em ser vista sem ornamento e não encontrar piedade, apenas desejo, reverência e aquela fome cuidadosamente controlada que o tornava mais perigoso do que qualquer brutalidade. Ele beijou seu pescoço, seus ombros, a curva dos seios, descendo com uma devoção feroz que a fez esquecer palavras de poder. As mãos dela entraram no cabelo dele. O desejo cresceu entre os dois como tempestade presa em quarto de pedra.Ezra sussurrou contra sua pele que não criaria vínculo, não enquanto Morvan pudesse usar aquilo para alcançá-la. Vaela tocou o rosto dele e disse que sabia. Ele insistiu que iria tomá-la, deixá-la tremendo, mas não pren
VaelaA honestidade de Ezra atingiu Vaela com força indecente, porque teria sido mais fácil odiá-lo se ele tivesse mentido, se tivesse vestido o medo de nobreza e chamado a própria fuga de sacrifício. Mas ele disse também, e aquela palavra abriu caminho sob sua pele com a brutalidade íntima de tudo que é verdadeiro demais para ser combatido com postura. Ezra aproximou-se mais um passo, e o ar entre eles mudou, ficando denso, escuro, tomado pelo lobo dele e pela loba dela, dois animais antigos farejando a borda de uma decisão que nenhum Conselho poderia registrar sem se queimar. Ele confessou que, depois de descobrir que Rhonan nunca tomara dela o que ele tomara, depois de entender que ela se guardara viva atrás de um nome morto, quis perder a cabeça; quis marcar sua pele, quis enfiar seu lobo no dela até que esquecesse a palavra solidão.A respiração de Vaela quebrou, e ele percebeu. O olhar dele desceu para sua boca, depois voltou aos olhos, e mesmo assim afirmou que se controlara. E
VaelaVaela entrou no quarto de Ezra sem bater, porque mulheres que já haviam enterrado maridos, títulos e versões inteiras de si mesmas não pediam permissão para enfrentar um homem que havia fugido antes do amanhecer. A porta bateu contra a parede com violência suficiente para inclinar a chama da lareira, espalhando sombras pelas pedras e fazendo o quarto parecer, por um instante, um campo de batalha pequeno demais para duas pessoas que já haviam perdido demais. Ezra estava de costas, lavando sangue seco das mãos numa bacia de bronze. A camisa aberta deixava à mostra a linha firme dos ombros, as cicatrizes antigas, a pele marcada por exílios que nenhum Conselho havia conseguido apagar. Ele não se virou de imediato, e isso a irritou mais do que deveria, porque o silêncio dele ainda tinha o poder indecente de fazê-la sentir que era ela quem estava esperando.— Controle a sua protegida — Vaela disse, e a água parou de se mover.Ezra ergueu a cabeça devagar, como se a frase tivesse tocad
Selene— Selene Aster é avaliada do Conselho, filha de Liora Aster, sobrevivente de uma expulsão adulterada e verdadeira detentora de vínculo que esta alcateia tentou corromper.Meu coração parou. Expulsão adulterada. Ele disse. Em público. Mirella perdeu a cor na varanda. Kaian deixou de sorrir. Morvan ficou imóvel. Eu não consegui respirar enquanto Darius continuava, ordenando que Arven falasse de mim com o respeito devido a uma mulher que voltou viva de uma sentença que homens covardes assinaram escondidos. Vaela percebeu a dimensão da acusação antes de qualquer outro e perguntou, afiada, se aquilo tinha base documental. Darius olhou para mim, dessa vez de verdade, e a culpa ali não era apenas pelo passado. Era por ter andado dentro dele sem me chamar. Disse que tinha.A palavra rasgou algo em mim. Perguntei desde quando. Ele percebeu que a pergunta não era política, era ferida. Quando tentou dizer meu nome, cortei. Desde quando, Darius? O pátio sumiu de novo; a multidão era apenas
Selene— Tentativa de execução.As palavras de Darius bateram no pátio como martelo, e Morvan estreitou os olhos, perguntando se ele tinha prova. Darius ergueu a corrente, a prata envolta no pano fumegando como pecado exposto, e disse que tinha intenção, cheiro, escala adulterada e três homens ajoelhados que, antes da minha Voz, avançavam contra mim com prata. Morvan retrucou que intenção não condenava. Darius respondeu que era curioso ouvir isso de alguém que me condenava por um poder que eu não havia usado até ser atacada. O pátio murmurou mais alto. Meu peito apertou. Ele estava fazendo bem. Muito bem. E isso me feriu de um jeito que eu não esperava.Porque, quando fui rejeitada, ele também falava bem. Sabia escolher palavras, erguer a voz no salão e transformar uma sentença em lei. Naquela noite, usou a autoridade para me quebrar. Agora usava para me proteger. O som era parecido. A intenção, diferente. Meu corpo não sabia o que fazer com isso. Nara olhou para mim; o rosto dela sua
SeleneA placa dos mortos brilhou com o nome de Darius como se a lua tivesse decidido cravá-lo em prata diante de todos: Darius Varek, acusador da terceira prova. O pátio não respirou. Nem eu. O nome dele naquela superfície antiga parecia uma sentença escrita por mãos que já conheciam minha dor antes de mim; o Alfa que me rejeitara, o homem que me tocara com a boca na noite anterior como se cada gesto fosse pedido de perdão, o lobo que me chamava de sua Alfa. Agora convocado para testemunhar contra mim. Morvan sorriu, não abertamente, pois era esperto demais para comemorar antes da queda, mas o canto da boca subiu com a delicadeza de quem ouve ossos estalarem exatamente onde queria.Ele anunciou que a prova havia escolhido seu primeiro testemunho vivo, e que o próprio Alfa deveria confirmar se a Dominante Lunar salvara vidas ou iniciara obediência pública contra a alcateia. Darius olhou para a placa, depois para mim. Não havia surpresa suficiente em seu rosto. Havia raiva, sim, uma fú







