LOGINSelene
A luz saiu do meu sangue como se a lua tivesse decidido nascer dentro das minhas veias. Por um segundo, ninguém gritou. O salão inteiro ficou preso naquele silêncio impossível que vem antes da queda. Antes da guerra. Antes de alguém perceber que o mundo mudou de lugar. Eu estava de pé no centro da alcateia que acabara de me assistir ser rejeitada. O vestido cinza grudava na minha pele fria. Minhas mãos tremiam, abertas ao lado do corpo, os dedos manchados de sangue e prata. A dor do vínculo rompido ainda mordia meu peito, profunda, viva, como uma fera enterrada sob minhas costelas tentando cavar uma saída. Mas eu não caí. Não implorei. E isso pareceu assustá-los mais do que a luz. Mirella foi a primeira a recuar. Um passo pequeno, quase elegante, mas eu vi. Vi o medo riscar o fundo dos olhos dela antes que o orgulho tentasse cobrir. O branco do vestido dela parecia mais pálido sob o brilho prateado que saía de mim. Pela primeira vez naquela noite, minha irmã perfeita pareceu menos intocável. Menos Luna. Menos tudo. — O que é isso? — ela sussurrou. Ninguém respondeu. Nem eu. Porque eu também não sabia. Darius ainda estava diante de mim. Perto demais. O cheiro dele atravessou o ar queimado do salão e chegou à minha pele como uma lembrança cruel: tempestade, couro, pinho escuro, macho Alfa. Meu corpo, traidor miserável, ainda reconheceu. Ainda respondeu. Mesmo com a rejeição aberta entre nós como uma ferida exposta, mesmo com a palavra dele cravada em mim, algo dentro do meu sangue quis inclinar-se para aquele calor. Eu odiei cada centímetro dessa reação. Odîei minha respiração falhando. Odîei a parte de mim que ainda queria que ele tocasse meu rosto e dissesse que aquilo tinha sido um erro. Mas Darius não disse. Ele olhou para minhas mãos como se visse uma arma. Depois para meu rosto, como se não reconhecesse a mulher que acabara de destruir. — Selene — murmurou. Meu nome na boca dele sempre teve poder demais. Antes, eu guardava o som como quem esconde uma joia roubada. Nas raras vezes em que Darius dizia meu nome, algo pequeno e patético dentro de mim florescia. Agora, o som bateu no vazio que ele mesmo abrira. Eu sorri. Não porque achei graça. Porque, se não sorrisse, talvez gritasse. — Não se aproxime, Alfa. A palavra Alfa saiu com veneno. Não era título. Era distância. A mandíbula dele endureceu. O salão pareceu lembrar como respirar. Os sussurros voltaram em ondas. — Feitiçaria. — Ela fez algo com ele. — Uma Ômega não pode… — Viram a mão dele? Ele soltou quando ela mandou. — Silêncio! — A voz do ancião Morvan explodiu entre as colunas. O velho avançou, os olhos arregalados, a pele enrugada ainda mais branca sob a luz que escapava de mim. Ele olhava para minhas mãos como se tivesse visto uma lenda levantar da tumba. — Selene Aster — ele disse, com cuidado demais. — Afaste-se do Alfa. Eu quase ri. Quase. Engraçado. Eu tinha acabado de ser rejeitada diante de todos, mas ainda falavam como se eu fosse a ameaça ao orgulho dele. — Eu tentei — respondi. — Foi ele quem me segurou. Um murmúrio mais forte atravessou o salão. A mão de Darius fechou ao lado do corpo. O gesto foi pequeno, mas eu o conhecia. Já o vira no campo de treino, antes de ele partir ossos sem alterar a expressão. Era controle. Era raiva presa por disciplina. Era um Alfa lembrando a si mesmo que não podia perder o domínio na frente da própria alcateia. Só que, naquele instante, o controle dele não me dava medo. Me dava dor. Porque eu teria aceitado tão pouco dele. Um olhar. Uma palavra. Um gesto de humanidade. E ele me deu uma sentença. Mirella se aproximou de Darius com a delicadeza ensaiada de quem sabe ser observada. — Darius — ela chamou, doce, ferida, perfeita. — Ela está tentando estragar a cerimônia. Antes, essa voz me faria abaixar os olhos. Agora, algo dentro de mim rosnou. Não ouvi com os ouvidos. Senti no sangue. Uma presença. Baixa. Feminina. Antiga. Minha pele arrepiou da nuca até a base da coluna. Mirella tocou o braço de Darius. O corpo dele enrijeceu. Foi rápido demais para a maioria perceber, mas eu vi. A forma como os ombros dele travaram. A forma como a respiração dele mudou, curta, quase agressiva. O lobo dele não queria aquele toque. Não queria o cheiro floral de Mirella, nem seus dedos brancos pousados no couro escuro. Queria… Meu estômago apertou. Não. Eu não pensaria nisso. Não agora. Darius afastou o braço apenas o suficiente para não parecer rejeição. Mirella percebeu mesmo assim. O rosto dela continuou perfeito; os olhos, não. — Diga alguma coisa — ela pediu a ele, mais baixo. — Diga a todos que isso não significa nada. Darius não olhou para ela. Continuava olhando para mim. Aquilo foi a primeira punição de Mirella naquela noite. Pequena. Deliciosa. Insuficiente. Eu dei um passo para trás. A luz em minhas mãos diminuiu, mas não desapareceu. Pulsava sob a pele, acompanhando meu coração. Cada batida doía. Cada respiração raspava. O vínculo rompido deixara em mim um buraco com o formato de Darius, e eu odiava saber que ele ainda cabia ali. — A cerimônia pode continuar — falei, minha voz mais firme do que meu corpo. — Sua Luna está esperando. Os olhos de Darius escureceram. — Você está sangrando. — Você reparou? A frase saiu baixa. Cortou fundo. Vi quando atingiu. Algo se moveu no rosto dele. Não arrependimento inteiro. Não ainda. Mas uma rachadura. O bastante para que meu coração idiota quisesse encostar a mão ali e abrir mais. Não. Eu me virei. O salão abriu caminho como se eu carregasse uma doença. Ou uma coroa. Senti cada olhar na minha nuca. Os mesmos lobos que tinham rido agora recuavam quando eu passava. Alguns abaixaram o rosto. Outros tocaram amuletos lunares. Uma loba mais velha fez o sinal contra maldições. Maldição. Talvez eu fosse mesmo. Talvez toda mulher humilhada virasse maldição quando parava de pedir permissão para respirar. Cheguei perto das portas, mas a dor me atravessou de novo. Dessa vez, foi brutal. Um rasgo quente no peito, tão profundo que minha visão escureceu nas bordas. Minhas pernas falharam. Segurei a coluna de pedra para não cair, as unhas arranhando a superfície fria. Não caia. Não aqui. Não diante deles. Atrás de mim, ouvi passos. Reconheci antes de ver. Darius. O corpo reconhece a ruína com uma fidelidade humilhante. — Selene. A voz dele veio baixa, controlada demais. Eu não olhei. — Não torne isso pior. — Você precisa de um curandeiro. — Eu precisava de um companheiro. O silêncio depois da frase foi tão pesado que até as velas pareceram parar de crepitar. E, pela primeira vez naquela noite, Darius não teve uma ordem para me dar.Vaela Ezra pediu para permanecer como o homem que eu escolhera, e descobri que algumas declarações eram mais perigosas que qualquer beijo. Porque beijos terminavam. Promessas de permanência exigiam coragem na manhã seguinte. A falsa noite envolvia nossos aposentos, tingindo a cama e as paredes de uma luz azulada. Ezra continuava diante de mim, com as mãos pousadas sobre meus joelhos, aguardando uma resposta. Havia desejo nos olhos dele, mas também uma vulnerabilidade que o exílio ensinara a esconder. Eu conhecia aquela expressão. Era a mesma de um guerreiro diante de uma porta que desejava atravessar sem saber se encontraria abrigo ou outra sentença. Toquei seu rosto. — Você quer ficar? — Quero. — Mesmo sabendo que sou difícil, orgulhosa e absolutamente insuportável quando alguém tenta decidir por mim? A boca dele se curvou. — Essas são algumas das suas qualidades mais encantadoras. — Mentiroso. — Apaixonado. A palavra me atingiu com uma força inesperada. Ezra não desvio
Vaela Ezra chegou aos meus aposentos com sangue seco nos punhos, a expressão de um homem que enfrentaria um exército por mim e a indecência de bater à porta como se ainda precisasse de autorização para existir na minha vida. Eu estava diante da janela, observando a falsa noite da mina. Veios de prata azulada atravessavam a pedra, imitando estrelas de um céu que nenhum de nós podia alcançar. Sobre a mesa, repousava o documento de aliança provisória com o Conselho Lycan, ainda marcado pelos sete selos dos conselheiros. — Entre — ordenei. Ezra fechou a porta atrás de si. Não se aproximou imediatamente. Seus olhos percorreram meu vestido escuro, os cabelos soltos e a taça de vinho que eu havia encontrado entre as provisões dos antigos guardiões. Depois voltaram ao meu rosto com aquela intensidade silenciosa que me fazia lembrar, inconvenientemente, de todos os anos desperdiçados. — Você me convocou — disse ele. Ergui uma sobrancelha. — Está reclamando? — Estou tentando descobrir
VaelaO Conselho Lycan exigiu que Ezra se ajoelhasse antes de permitir que eu falasse, e foi nesse instante que compreendi que nenhum daqueles homens havia aprendido alguma coisa com a morte de Rhonan.A reunião acontecia numa galeria circular da mina, onde sete espelhos de prata transmitiam os rostos dos conselheiros reunidos na fortaleza. O selo que nos mantivera presos fora quebrado, mas a pedra azul ainda carregava o cheiro de sangue e ferro queimado. Ezra permanecia ao meu lado, com a camisa escura aberta no pescoço e uma cicatriz recente atravessando a mão. Bastava olhar para ele para recordar a maneira como pronunciara meu nome depois que escolhi viver.Era uma lembrança inconveniente para uma negociação.— Ezra Varlock continua formalmente exilado — declarou o conselheiro Halden. — Sua presença junto à viúva de Rhonan constitui uma afronta à hierarquia.Senti Ezra ficar imóvel.Reconhecia aquela imobilidade. Era a de um homem treinado para suportar ofensas sem oferecer ao ini
NaraA voz de minha mãe atravessou a pedra, e o mundo pareceu se partir exatamente onde Cassian ainda me abraçava.— Nara? Filha, por que Morvan está atrás de você?Não era o murmúrio fragmentado da esfera negra. Não era uma lembrança costurada por magia. Era Maera Vale, com aquela rouquidão familiar que surgia quando acordava cedo demais e a impaciência de quem sempre suspeitava que eu tivesse feito alguma estupidez.Meus olhos arderam.— Mãe?Cassian soltou lentamente minha cintura, mas permaneceu próximo. Seu calor ainda atravessava meu vestido, lembrando-me do beijo que havíamos compartilhado segundos antes. Parecia impossível que a mesma boca capaz de me fazer esquecer a mina tivesse acabado de despertar algo enterrado havia tantos anos.— Não chore perto das paredes — Maera advertiu. — Elas estão ouvindo.Soltei uma risada quebrada.— Você passou anos desaparecida e sua primeira preocupação é minha falta de discrição?— Minha primeira preocupação é que continue viva para recla
NaraCassian prometeu atravessar o quarto se eu o chamasse daquele jeito outra vez, e descobri que minha coragem era muito maior quando ele estava longe.A distância entre nós não chegava a quatro passos. Ainda assim, parecia conter todas as coisas que eu temia: minha loba, a marca de Morvan, a lembrança de minha mãe adormecida sob a mina e aquele homem impossível que conseguia me deixar sem palavras simplesmente aguardando uma resposta.A chama prateada da lamparina tremia sobre as paredes. Cassian permanecia perto da porta, os ombros largos imóveis, os olhos escuros fixos em mim. Não havia ameaça em sua postura. Apenas desejo cuidadosamente contido, o que, em sua versão particular de crueldade, era muito pior.— Você sabe que essa sua paciência está começando a parecer provocação? — perguntei.— Não estou provocando.— Naturalmente. Você nasceu com essa expressão de homem que promete problemas e depois finge inocência.O canto de sua boca se moveu.— Nara.Meu nome saiu grave, rouc
Nara Cassian descobriu que eu não queria esperar tanto quando fechei a porta do quarto e pedi que ele parasse de me olhar como se minha vontade fosse uma coisa frágil. A câmara de repouso ficava num desvio da mina, perto da escadaria que levava à prisão ritual de minha mãe. Havia uma cama estreita, uma bacia de água limpa e uma lamparina cuja chama prateada lançava sombras pelas paredes. Nenhum daqueles detalhes deveria ser romântico. Especialmente a possibilidade de Morvan estar escutando através das pedras. Ainda assim, Cassian conseguia transformar um aposento miserável em algo perigosamente íntimo apenas permanecendo imóvel perto da porta. — Você disse que não queria esperar — ele lembrou. — Impressionante. Além de bonito, possui memória. — Nara. — Esse tom não funciona comigo. Funcionava absurdamente bem. Ele ainda usava a camisa escura manchada pela batalha. A marca deixada pelo anel de Morvan desaparecia sob a manga, mas eu sabia que estava ali. Sabia também qu







