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A Última Chance: A Arte de Sobreviver
ผู้แต่ง: Clara Jardim

Capítulo 1

ผู้เขียน: Clara Jardim
— Ah... — Alice abriu os olhos de repente e se sentou na cama. O suor escorria por sua testa, enquanto seus olhos carregavam um misto de confusão e desespero.

Sua consciência ainda estava turva, mas a paisagem diante dela a deixou completamente atônita.

Aquele não era o apartamento onde ela morava antes do apocalipse?

Ding-dong. Ding-dong.

O celular continuava recebendo notificações de mensagens. Ela o pegou na mesa de cabeceira.

14 de setembro de 2029, 9h32.

Havia mais de dez mensagens não lidas, todas alertando sobre o furacão “Cutelo”, que, segundo as previsões, atingiria a costa na madrugada do dia 17. Os ventos poderiam alcançar velocidades entre 200 e 260 km/h, acompanhados por uma tempestade torrencial que duraria vários dias.

Alice ficou paralisada.

Ela não tinha morrido? Não havia morrido naquele apocalipse sombrio, em que as pessoas devoravam umas às outras? Será que seu ressentimento era tão profundo que, nos últimos instantes de vida, sua mente havia criado esse pesadelo?

Ding-dong.

Mais uma mensagem de alerta às 9h37.

Alice apertou o próprio braço com força. E a dor aguda deixou claro que aquilo não era um sonho. Ela realmente havia voltado no tempo. Havia renascido três dias antes da chegada do furacão que daria início ao apocalipse.

Não, para ser mais exata, restavam apenas dois dias e meio.

Ela não sentiu alegria alguma. Em seu peito, apenas uma exaustão sem fim.

Tufões, chuvas torrenciais, enchentes, frio extremo, calor sufocante, terremotos... Cada desastre era um verdadeiro inferno.

O que havia de tão bom em viver tudo aquilo outra vez?

Mas, já que estava de volta, será que iria simplesmente esperar a morte?

Não, jamais!

Ela foi até o banheiro, lavou o rosto com água fria e ergueu os olhos para o espelho. A jovem refletida ali era encantadora, com o rosto viçoso e a pele firme e macia. Ainda não carregava as marcas dos três anos de luta desesperada pela sobrevivência. Tudo parecia tão perfeito...

Seu olhar cansado pousou no pingente de jade pendurado em seu pescoço. Ela o usava desde que tinha sido abandonada no hospital, logo após nascer.

Mais tarde, Augusto Machado insistiu tanto que ela acabou entregando o pingente para que ele o desse de presente à beldade da universidade, Eloísa Vidal.

Durante os três anos do apocalipse, Eloísa permaneceu impecável. As roupas estavam sempre limpas, sem um grão de poeira. A pele continuava clara e rosada, como se ainda vivesse em uma era dourada.

Certa vez, Alice desmaiou de fome. Mas, antes de perder completamente a consciência, viu de relance Eloísa tirar um sorvete de dentro daquele pingente e lambê-lo tranquilamente.

De repente, uma ideia atravessou sua mente. Ela pegou uma lâmina, fez um pequeno corte na ponta do dedo e deixou uma gota de sangue cair sobre o jade.

No instante seguinte, o pingente irradiou uma luz intensa.

Quando tornou a abrir os olhos, ela já não estava mais no banheiro. Encontrava-se dentro de um apartamento sem porta de entrada. O imóvel possuía apenas água e eletricidade funcionando. Não havia móveis.

Eram dois quartos, uma sala e cerca de oitenta metros quadrados de área útil. O pé-direito tinha aproximadamente três metros de altura. Ao lado da varanda havia um pequeno jardim de terra com cerca de dez metros quadrados.

No centro da sala flutuava um contador regressivo luminoso.

01:56:13.

Era o espaço dimensional que permitia Eloísa viver confortavelmente durante o apocalipse? E que havia sido roubado dela por meio daquele pingente?

Ao sair daquele espaço, Alice percebeu que havia algo novo em sua mente. Era como se aquele lugar existisse dentro de sua consciência. Bastava concentrar-se para sentir tudo o que havia lá dentro.

Para entender como o espaço funcionava, ela fez alguns testes usando água fervente. E assim descobriu rapidamente que, exceto pela varanda e pelo jardim, todas as outras áreas possuíam efeito de conservação.

Os objetos podiam ser guardados ou retirados apenas com um pensamento.

Enquanto apenas armazenava ou retirava coisas, o contador regressivo permanecia parado. Mas, assim que uma pessoa entrava no espaço, o tempo começava imediatamente a diminuir.

O tempo era essencial, ela não tinha tempo para investigar todos os seus mistérios. Agora que tinha uma segunda chance e ainda havia recuperado aquele espaço dimensional, precisava aproveitar cada segundo para mudar seu destino.

Em sua vida anterior, sobreviveu por apenas três anos. Ela nem sequer sabia quais outros desastres aconteceriam depois disso. Então, pegou o celular e pesquisou na internet quais tipos de catástrofes naturais poderiam ocorrer.

Quando viu a interminável lista de resultados, quase morreu ali mesmo.

Sobreviver era uma tarefa difícil.

Afastando todas as emoções, ela pegou papel e caneta e começou a fazer uma lista dos suprimentos de que precisaria.

Alice tinha crescido em um orfanato. Embora, por fora, o lugar parecesse tranquilo, por baixo dos panos havia disputas constantes. Foi ali que ela desenvolveu um temperamento egoísta e aprendeu a nunca sair perdendo.

Sempre lhe faltou qualquer sensação de segurança.

Ainda no ensino fundamental, recolhia papelão e recicláveis para vender. No ensino médio, fazia todo tipo de trabalho de meio período. Dava aulas particulares, fazia dever de casa para outras pessoas, limpava banheiros. Desde que pagassem, ela fazia.

Suas notas sempre estiveram entre as melhores, tanto no vestibular quanto no exame nacional.

Mesmo cursando o segundo ano de Medicina, ainda dava aulas para cinco alunos do último ano do ensino médio, cobrando por aula.

Alice tinha uma verdadeira obsessão por ganhar dinheiro, era gananciosa. Vendia seguros, fazia lives como criadora de conteúdo e aceitava qualquer trabalho que não fosse ilegal.

Depois de mais de dez anos economizando, finalmente havia juntado uma boa poupança. Seu plano era dar entrada em um apartamento após se formar.

Agora, tudo se foi.

Naquela tarde, ela teria aulas na universidade e, à noite, daria aulas de reforço. No entanto, nada disso fazia mais sentido.

Ela enviou mensagens aos pais dos alunos dizendo que havia sido hospitalizada e que ficaria impossibilitada de dar aulas por um bom tempo, pedindo que procurassem outro professor e acertassem os pagamentos pendentes.

As mensalidades eram pagas quinzenalmente.

Como todas aquelas famílias eram bastante ricas, duas delas ainda enviaram um bônus desejando melhoras.

Ao todo, mais seis mil reais entraram em sua conta.

Antes de encerrar a conversa, Alice fez questão de avisar que um furacão, como nunca se tinha visto em cem anos, estava prestes a chegar. E que deveriam estocar alimentos e medicamentos de emergência.

Os desastres naturais viriam um após o outro. Só a lista de remédios ocupava três páginas inteiras. Muitos eram caríssimos e sequer podiam ser encontrados em farmácias comuns.

Ela fotografou a lista e a enviou para Tiago Lemes, representante de uma distribuidora farmacêutica e seu amigo de infância.

[Um cliente muito rico está precisando disso com urgência. A entrega tem que ser hoje à noite. Faça-me um preço amigo]

A resposta veio na mesma hora: [Entendido]

Menos de cinco minutos depois, o telefone tocou.

— Alice, essa lista de medicamentos é muito estranha. Tem certeza de que isso não é uma brincadeira?

— O dinheiro já caiu na conta. O cliente só fez uma exigência: ele quer tudo entregue hoje à noite.

Sem perder tempo com explicações, ela desligou e transferiu o pagamento para ele.

Alice: [Se faltar, eu completo. Se sobrar, você devolve]

Ainda havia suprimentos demais para preparar. Alice pegou as chaves para sair de casa.

Ao passar pela sala, seus olhos caíram sobre um par de tênis de edição limitada que repousava sobre a mesa. Quase teve vontade de bater a cabeça na parede.

Ela sempre foi uma pessoa extremamente prática. Mas, quando conheceu Augusto, parecia ter sido enfeitiçada. Para conquistá-lo, saiu do dormitório da universidade e alugou um apartamento caro próximo ao campus. Chegou até a passar a madrugada na fila de uma loja apenas para comprar aqueles tênis.

Ela mesma jamais gastaria tanto em um par de sapatos, mas desembolsou milhares por um modelo de edição limitada para presenteá-lo, sem pensar duas vezes.

E o que recebeu em troca?

Ele aceitou o presente e a convenceu a lhe entregar o pingente, sem nunca aceitar ou rejeitar sua declaração de amor. Quando o furacão chegou, ainda levou Eloísa para sua casa e devorou todos os alimentos que ela havia estocado.

Durante os três anos do apocalipse, não apenas nunca a ajudou, como também assistiu friamente enquanto ela era espancada e massacrada por um bando de demônios.

Se ela soubesse que terminaria assim, teria preferido dar aqueles tênis para um cachorro de rua.

Desta vez, ela queria ver como Augusto e Eloísa conseguiriam continuar vivendo com tanto luxo sem seus suprimentos e sem aquele espaço dimensional.

O superfuracão durou quinze dias. Depois vieram três meses seguidos de chuvas torrenciais, deixando a cidade inteira submersa.

Alice morava no décimo oitavo andar. Embora seu apartamento não tivesse sido inundado, sua situação também era precária.

Ao sair do condomínio, ela tomou café da manhã em uma pequena lanchonete de rua.

Sem perder tempo, foi até uma locadora de veículos e alugou um caminhão.

Sua primeira parada foi justamente a loja de tênis.

Os vendedores ficaram bastante surpresos quando ela pediu para devolver o tênis. Afinal, era uma edição limitada recém-lançada. Havia inúmeros clientes esperando pela oportunidade de comprá-lo. A loja não teria dificuldade para revendê-lo.

Ela recebeu o reembolso. Com esse dinheiro, compraria arroz, farinha, óleo e outros alimentos suficientes para viver por dois ou três anos.

Para que precisaria de um homem?

Em seguida, dirigiu até uma rua especializada em portas e janelas. Encomendou duas portas de aço inoxidável da espessura máxima, equipadas com fechaduras de três travas, resistentes até mesmo a marretadas. Com instalação inclusa, o custo passou de seis mil reais.

Para economizar tempo, Alice já havia medido tudo antes de sair de casa. O comerciante ainda ficou receoso de que as medidas estivessem erradas, mas, ao ouvir o nome do condomínio e do bloco, abriu um sorriso. Ele já tinha experiência no local, então sabia exatamente quais eram as medidas.

— Se for urgente, consigo instalar tudo depois de amanhã.

Do outro lado da rua havia uma vidraçaria.

Alice escolheu o vidro blindado mais espesso disponível e marcou a instalação também para a manhã de depois de amanhã.

Que batessem, que tentassem arrombar. Desta vez, ninguém voltaria a invadir sua casa com uma faca nas mãos para intimidá-la.

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