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Capítulo 3

Auteur: Clara Jardim
Alice levou um susto e imediatamente verificou o espaço dimensional com a mente.

O espaço continuava lá, os suprimentos também.

Ela tentou retirar um objeto apenas com um pensamento e, no instante seguinte, um briquete de carvão apareceu em sua mão.

Expandindo sua percepção por todo o espaço, notou que o contador regressivo luminoso estava zerado.

Só então entendeu que o espaço permitia que ela permanecesse lá por apenas duas horas.

Duas horas era melhor do que nada.

Depois de tomar banho, já passava da meia-noite.

Ela deu outra olhada no espaço e viu que um novo período de duas horas havia sido restaurado. Só então conseguiu respirar um pouco mais aliviada.

Mesmo deitada, demorou muito para pegar no sono. No fim, precisou recorrer ao comprimido para dormir.

Ainda assim, dormiu inquieta. Sonhou novamente que estava sendo perseguida por aquele grupo de pessoas. Facões cobertos de ferrugem e sangue desciam impiedosamente sobre seu corpo...

Ela despertou assustada, encharcada de suor frio.

Eram cinco da manhã, lá fora, o céu ainda estava completamente escuro.

Entrou no espaço dimensional apenas para olhar os suprimentos que havia acumulado. Ver tudo aquilo diante de si finalmente acalmou seu coração.

Alice desistiu de voltar a dormir. Pegou as chaves do caminhão e dirigiu até o maior mercado atacadista de produtos agrícolas da cidade. O dia mal havia amanhecido, mas o lugar já fervilhava de caminhões e comerciantes.

Ela foi primeiro ao setor de hortaliças. Comprou legumes e verduras recém-colhidos, ainda cobertos pelo orvalho da manhã. Abóboras, abóboras-moranga, rabanetes brancos e vermelhos, berinjelas, vagens, abobrinha, salsão, tomates, batatas, batatas-doces...

Também comprou gengibre e alho. Além de servirem como tempero, podiam ser cultivados.

Ela sabia muito bem que, durante o frio extremo, uma simples tigela de chá de gengibre poderia salvar uma vida.

Enquanto caminhava pelo mercado, ia comprando tudo o que chamava sua atenção. Com exceção das verduras em folhas, que estragavam rápido, não deixou praticamente nada de fora.

Quando parou para tomar café da manhã, já eram quase nove horas.

O movimento no mercado havia diminuído bastante.

Depois de comparar preços em várias lojas, começou a estocar os alimentos básicos. Sacos de arroz, farinha de trigo, farinha refinada, diferentes tipos de macarrão, soja, feijão-fradinho, feijão-carioca, feijão-preto e amendoim. Galões de óleo de soja, óleo de girassol e azeite.

Depois de muita pechincha, a dona da loja ainda lhe deu três sacos de arroz de brinde. Só aqueles alimentos já seriam suficientes para sustentá-la por trinta anos.

Enquanto os funcionários preparavam a mercadoria, Alice foi até a seção de temperos. Comprou galões de molho de soja, de vinagre e de vinho branco. Anis-estrelado, erva-doce, canela em pau, pimenta-do-reino, açúcar mascavo, açúcar refinado, açúcar cristal e sal.

No apocalipse, comida era importante, mas o sal era ainda mais. Sem reposição de sódio, o corpo simplesmente não resistia.

No terceiro ano do apocalipse, Alice viu com os próprios olhos alguém trocar um único pacote de sal por quilos de comida.

Tudo aquilo não ocupava tanto espaço. Quando os recursos se tornassem escassos, serviria como uma excelente moeda de troca. Se houvesse espaço suficiente, ela teria estocado toneladas de sal.

Depois que a carga ficou pronta, dirigiu até um canto isolado, sem câmeras de segurança, e guardou tudo no espaço dimensional.

Em seguida, voltou ao mercado, desta vez para a área de congelados.

Comprou caixas enormes de pães, croissants, pães recheados e pães doces. Todos congelados. Quanto aos salgados congelados recheados com carne, ela desconfiava da qualidade dos recheios. Por isso, preferiu comprar massa pronta. Assim, durante as enchentes, teria tempo de sobra para preparar o recheio e montar os salgados.

Depois foi à seção de produtos secos. Comprou diferentes tipos de cogumelos desidratados, tâmaras e outros frutos secos, verduras desidratadas, sementes de girassol...

Simples assim, mais dinheiro desapareceu de sua conta.

Ao chegar ao setor de carnes, foi diretamente ao açougue que fornecia alimentos para o restaurante universitário.

— Alicinha! O que vai levar hoje? — O dono abriu um grande sorriso ao vê-la.

Por causa do calor abafado antes da chegada do furacão, restava pouca carne nas bancas.

Àquela hora, os produtos já não estavam tão frescos. Em compensação, os preços eram excelentes.

Alice encomendou barriga de porco, carne de primeira, carne magra, costelas, carne bovina e carne de cordeiro. Também pediu frangos, patos e gansos.

— Alicinha, você está falando sério? — O açougueiro arregalou os olhos.

A esposa dele trabalhava em um frigorífico, e Alice frequentemente lhe indicava clientes em troca de comissão.

— Um parente vai fazer um grande banquete. Quanto mais barato, melhor. — Ela sorriu.

— Entre nós não precisa falar de dinheiro! Nessa venda eu não vou lucrar nada. Faço tudo com trinta por cento de desconto. — O homem bateu no peito.

Comprar carne consumia muito dinheiro. O preço da carne suína havia caído apenas nos últimos dois anos, mas carne bovina e de cordeiro continuavam caras. Então, comprar de conhecidos era, sem dúvida, o melhor negócio.

A conta chegou e Alice não tentou pechinchar. Em vez disso, fez outro pedido: dois cutelos para ossos e uma faca de açougueiro.

Armas eram indispensáveis para se proteger, mas ela não tinha tempo nem contatos para conseguir algo melhor. Restava improvisar.

— Para que você quer isso? — O açougueiro ficou alarmado.

— Fica tranquilo. Não vou sair matando ninguém. — Ela deu um sorriso.

Pensando no lucro e na amizade entre os dois, ele acabou concordando.

Em seguida, Alice passou na peixaria e encomendou peixes, pediu apenas que fossem limpos e eviscerados, sem serem cortados em pedaços.

Comprou ainda ovos de galinha e ovos de pato.

Pensando que talvez um dia o apocalipse terminasse, levou também duas bandejas de ovos férteis de galinha, pato, ganso e codorna, além de uma pequena incubadora doméstica.

Ao lembrar do jardim dentro do espaço dimensional, foi a uma loja de sementes.

Escolheu apenas variedades de crescimento rápido. Alface, acelga, espinafre, couve e dezenas de outras hortaliças.

As sementes eram incrivelmente baratas. Então, comprou o suficiente para plantar durante décadas.

O jardim possuía apenas dez metros quadrados de terra, mas ela ainda poderia aproveitar as duas varandas. Seu instinto de cultivar alimentos despertou completamente. Comprou vasos, enxadas, pás e terra para plantio.

Cheia de esperança em relação ao futuro, foi até a área de mudas de árvores frutíferas e comprou mudas adultas de macieiras, videiras, parreiras de uvas, laranjeiras, tangerineiras e dezenas de outras espécies.

Como carne era um recurso que apenas diminuía com o tempo, ela sabia que, conforme os desastres se prolongassem, nem mesmo os mais poderosos conseguiriam encontrar carne fresca. Por isso, comprou um casal de coelhos reprodutores.

Eles se alimentavam apenas de verduras, reproduziam-se rapidamente e seriam uma fonte constante de proteína.

O dinheiro desaparecia como água, seu coração doía a cada compra. Mas, ao imaginar todos aqueles suprimentos se acumulando dentro do espaço dimensional, uma sensação indescritível de segurança e satisfação tomava conta dela.

Passou o dia inteiro no mercado atacadista. Quando finalmente saiu, a cidade estava completamente iluminada. As ruas fervilhavam de gente. A vida noturna apenas começava.

Alice entrou em um restaurante. Pediu costelas de porco ao molho e almôndegas. Fez questão de comer uma refeição caprichada.

O que sobrou foi cuidadosamente embalado para viagem.

Ainda era cedo quando voltou para casa. Ela entrou no espaço dimensional e passou um bom tempo organizando tudo.

O quarto maior ficou completamente abarrotado. As verduras e as mudas de árvores frutíferas foram colocadas na sala. O casal de coelhos ficou na varanda.

Desta vez, Alice resolveu fazer um teste e saiu do espaço quando ainda restavam dez minutos no contador regressivo. Assim que voltou ao apartamento, os dois coelhos foram literalmente expulsos do espaço. Caíram no chão com um baque, quase morrendo do susto.

Alice ficou sem palavras.

Primeiro veio a decepção, logo depois uma alegria imensa. Então era assim. Além do limite de tempo, nenhum ser vivo podia permanecer no espaço se ela não estivesse lá dentro. Isso significava que ninguém jamais conseguiria roubar seu espaço dimensional.

De ótimo humor, ela se sentou e começou a revisar sua lista de compras. Praticamente tudo o que tinha conseguido lembrar já havia sido adquirido.

Ainda lhe restava algum dinheiro. No espaço dimensional, sobravam livres apenas a sala de estar e o banheiro. Se quisesse sobreviver aos desastres extremos, ainda precisaria preparar muitas outras coisas, mas decidiu que não continuaria comprando itens grandes que ocupassem muito espaço.

Abriu um aplicativo de delivery. Escolheu os restaurantes mais bem avaliados da cidade, aqueles onde sempre quis comer, mas nunca teve coragem de gastar dinheiro.

Pediu mais de vinte pratos diferentes.

Também encomendou dezenas de especialidades.

Após pagar, para garantir que tudo estivesse fresco, escolheu a opção de retirar pessoalmente cada pedido no horário combinado.

Apesar do cansaço, ela ainda queria contemplar, pela última vez, a prosperidade daquela cidade.

Na parte da tarde, a universidade enviou um comunicado. Devido à aproximação do superfuracão, as aulas estavam suspensas por três dias. A data de retorno seria informada posteriormente.

Os estudantes comemoraram em êxtase. Chamaram amigos, marcaram encontros e saíram para aproveitar a noite antes da chegada do furacão.

No litoral, tempestades e alertas de ciclone eram comuns. Todos os anos havia vários alertas, e os estudantes sempre torciam para que as aulas fossem suspensas.

Alice também costumava pensar assim, mas eles não faziam ideia de que, desta vez, era para valer. Nunca mais precisariam voltar às salas de aula.

Enquanto comia espetinho, sentindo uma mistura de nostalgia e melancolia, ela continuou percorrendo a cidade para retirar todos os pedidos que havia feito.

Ao voltar para casa, porém, percebeu que uma estranha sensação persistia. Ela tinha certeza de que havia esquecido algo muito importante. Mas, por mais que tentasse, não conseguia se lembrar do quê.

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