Partager

Capítulo 4

Auteur: Clara Jardim
Assim que o relógio marcou meia-noite, o contador regressivo do espaço dimensional foi atualizado.

Tempo restante: 130 minutos.

Isso significava que o tempo podia ser acumulado.

Alice ficou radiante.

Não desperdiçaria um único minuto. Em um momento crítico, até um segundo poderia significar a diferença entre a vida e a morte.

Ela decidiu que, dali em diante, não entraria mais no espaço sem necessidade absoluta. Guardaria cada minuto para usar durante o frio extremo ou em um terremoto.

Agora ela tinha comida, tinha um espaço dimensional capaz de salvar sua vida. Pela primeira vez desde que voltou no tempo, sentiu um pouco mais de confiança para enfrentar os desastres que estavam por vir.

Naquela noite, dormiu profundamente, sem sonhos.

Na manhã seguinte, foi acordada pelo telefone. Os instaladores das portas de aço inoxidável haviam chegado.

— Senhorita, sua casa já tem uma porta de segurança. Vai instalar outra?

— Houve alguns furtos recentes no condomínio. Quero uma porta mais resistente.

— Essa fechadura de três travas é realmente muito segura. Mas vamos precisar perfurar o teto e o piso para instalar o sistema de travamento. Não tem medo de danificar o apartamento? — O instalador sorriu, sem saber se ria ou não.

— Não tem problema. Segurança vem em primeiro lugar.

O proprietário daquele imóvel havia se mudado para outra cidade a trabalho e não havia notícias dele até o desabamento da casa com o terremoto, então as reformas não eram um problema.

Pouco depois chegaram os responsáveis pelos vidros blindados.

Enquanto um grupo instalava as portas, o outro cuidava das janelas. O som das furadeiras ecoava sem parar. Como era fim de semana e não queria incomodar os vizinhos, avisou no grupo do condomínio e pediu desculpas antecipadamente pelo barulho.

Assim que terminou, abriu novamente o aplicativo de entregas. Seu único objetivo era gastar todo o dinheiro que ainda restava.

Em menos de duas horas, tudo ficou pronto.

Depois de quitar o restante do pagamento, Alice contemplou seu apartamento, agora protegido como uma verdadeira fortaleza. E finalmente conseguiu respirar aliviada.

Nesse momento, o celular tocou. Ela imaginou que fosse algum restaurante avisando sobre um pedido, mas quem ligava era Augusto.

— Alice, hoje é minha festa de aniversário. Que horas você chega? — Do outro lado da linha, sua voz continuava calorosa e gentil, acompanhada pelas risadas e conversas animadas.

— Claro. Espere por mim. — Alice zombou.

Augusto claramente gostava de Eloísa, mas, mesmo assim, nunca rejeitava Alice de forma direta. Mantinha-a por perto apenas pelos presentes que ela lhe dava e porque queria colocar as mãos naquele misterioso "trunfo".

Mesmo através do telefone, Alice conseguiu ouvir a voz doce e delicada de Eloísa.

Em sua vida passada, ela havia ido até a festa, apenas para ser completamente ignorada por Augusto. Desta vez, era ele quem a procurava.

Os alarmes em sua mente dispararam.

Como Eloísa descobriu que o pingente escondia um espaço dimensional?

Pela atitude de Augusto, ele provavelmente ainda desconhecia esse segredo. Então, essa ligação certamente tinha sido ideia de Eloísa.

Alice pegou as chaves e saiu.

Augusto morava no oitavo andar. Assim que ela passou pelo corredor, ouviu o barulho animado vindo do apartamento dele.

Sem sequer olhar na direção da porta, continuou descendo as escadas. Sem a menor hesitação.

O calor abafado ainda dominava a cidade, mas os ventos que antecediam o furacão já começavam a soprar, assobiando pelas ruas.

A última mensagem de alerta dizia que o furacão chegaria às 21h daquela noite.

Alice empalideceu.

Como assim, seria mais cedo do que o esperado?

Ela dirigiu até a biblioteca da universidade e separou diversos livros de medicina para continuar estudando durante o desastre. Também escolheu livros sobre artes marciais e psicologia.

A enorme biblioteca seria completamente inundada durante as enchentes. Inúmeras obras preciosas desapareceriam para sempre. Só de pensar nisso, seu coração doía, mas ela nada podia fazer.

Depois de evitar cuidadosamente as câmeras de segurança, reuniu os livros que queria em uma única pilha e, aproveitando a confusão, guardou todos no espaço dimensional.

Roubar livros era errado, ela sabia disso, mas, em poucos dias, aquela biblioteca seria engolida pela água. Milhares de livros seriam destruídos.

Livros são patrimônio da humanidade. Ela não podia salvar todos, mas, se um dia os desastres terminassem, devolveria ou doaria aqueles que havia levado.

Augusto voltou a ligar e, desta vez, Alice nem atendeu. Bloqueou o número imediatamente.

Ao sair da universidade, foi a um grande shopping. Pegou o elevador até o estacionamento do último andar e olhou tudo com atenção antes de descer.

Diante das vitrines repletas de produtos, não comprou absolutamente nada. Ficou passeando várias vezes pelo segundo andar e depois foi embora.

Pouco depois, recebeu uma ligação da locadora do caminhão. Com a chegada antecipada do furacão, a empresa encerraria o expediente mais cedo. Ela precisava devolver o veículo até as três da tarde.

Alice concordou, mas só apareceu às quatro.

Os ventos já uivavam violentamente, fazendo tudo estremecer ao redor.

Como o proprietário era uma pessoa gentil, verificou rapidamente que não havia nenhum dano e devolveu o depósito de segurança.

Desastres naturais não aconteciam da noite para o dia, sempre existia um pequeno período de transição. Infelizmente, a humanidade não soube aproveitá-lo.

Ela guardou o dinheiro em espécie para emergências e não fez mais nenhuma compra.

Ao voltar para casa, pegou o notebook, o tablet e o celular. Passou horas baixando todo tipo de material. Livros, filmes, músicas, guias de sobrevivência, receitas culinárias, mapas offline, manuais de primeiros socorros. Tudo o que pudesse ser útil.

De repente, o aplicativo de compras enviou uma notificação sobre uma entrega, trazendo-a de volta à realidade. Ela havia esquecido completamente das roupas especiais para expedições polares que havia pedido. A encomenda deveria ter chegado na tarde do dia anterior, mas o vendedor tinha demorado para despachar o pedido, e a transportadora também tinha sofrido atrasos.

A mercadoria tinha acabado de chegar ao centro de distribuição.

Ela ligou imediatamente, mas a resposta foi desanimadora. O furacão já havia chegado e as entregas estavam suspensas. Só retomariam depois que tudo passasse. Se tivesse muita urgência, poderia buscar pessoalmente até as seis da tarde.

Do lado de fora da janela, o vento rugia cada vez mais forte. As árvores do condomínio balançavam violentamente. Assim que a tempestade e a enchente começassem, aquele centro de distribuição seria inundado. E, sem aquelas roupas, seria impossível sobreviver a temperaturas de sessenta ou setenta graus abaixo de zero.

Ela tentou chamar um carro por aplicativo, mas ninguém aceitava a corrida. Sem outra escolha, desceu correndo, pegou uma bicicleta e pedalou desesperadamente em direção ao centro de distribuição.

Eram apenas dois quilômetros, mas pedalar contra o vento era quase impossível, ela mal conseguia abrir os olhos. Sacolas plásticas, caixas de papelão e todo tipo de lixo eram lançados pelos ares.

Quando finalmente chegou, estava encharcada de suor, com os cabelos completamente desgrenhados.

Por causa do furacão, havia montanhas de encomendas acumuladas. Sem nem recuperar o fôlego, Alice arregaçou as mangas e começou a procurar.

Por sorte, a caixa era enorme. Depois de mais de dez minutos revirando pilhas de pacotes, finalmente a encontrou.

Lá fora, o vento aumentava a cada minuto, o céu estava tão escuro que parecia noite.

Ela cerrou os dentes e saiu carregando a enorme caixa. Mas, assim que atravessou a porta, uma rajada violentíssima a atingiu em cheio.

No mesmo instante, um homem que colocava encomendas dentro de um carro estendeu o braço rapidamente e a segurou. Os pés dele estavam firmes no chão e, com facilidade, puxou Alice de volta.

Ela tentou agradecer apressadamente, mas sua voz foi completamente engolida pelo vento.

— O furacão chegou, não é seguro carregar isso desse jeito. — O homem apenas olhou para ela e disse.

Alice não imaginava que a tempestade chegaria tão depressa. Sem alternativa, voltou para dentro da transportadora e continuou atualizando freneticamente o aplicativo de corridas. Aumentou o valor da gorjeta, ofereceu bônus extras, mas, mesmo assim, nenhum motorista aceitava corridas.

O homem terminou de colocar inúmeras encomendas dentro de um Hummer, enchendo completamente o veículo. Ao notar a expressão ansiosa de Alice, hesitou por um instante.

— Onde você mora? — Perguntou.

Sob a luz do galpão, Alice finalmente conseguiu observá-lo com atenção. Ele vestia uma camiseta preta e jeans. Parecia ter pouco mais de vinte anos, tinha o cabelo raspado, curto e impecavelmente alinhado. O maxilar definido, o rosto, de traços marcantes, parecia esculpido, transmitindo uma frieza quase intimidadora. Era muito alto, pelo menos um metro e oitenta e cinco, e tinha pernas absurdamente longas.

Alice voltou a agradecer.

— Não foi nada. — Ele respondeu com a mesma expressão indiferente.

— Moro no Condomínio Vale Verde. Você poderia me dar uma carona? Eu pago.

O homem apenas assentiu e abriu a porta do carro.

O banco traseiro estava completamente tomado pelas encomendas. Quando Alice abriu a porta da frente, viu uma menininha sentada no banco do passageiro. Ela devia ter quatro ou cinco anos. Tinha a pele muito branca, um rostinho tímido, usava um vestido rosa e a observava com grandes olhos negros, redondos como duas jabuticabas.

— Mimi, deixe a moça te pegar no colo. — O homem falou calmamente.

O apocalipse estava começando. Quem ainda se preocuparia com multas de trânsito?

Alice colocou Mimi em seu colo e acomodou a enorme caixa aos seus pés.

Enquanto o vento rugia do lado de fora, o Hummer avançava com firmeza pelas ruas.

Ao longe, galhos arrancados das árvores voavam pelo céu. Coberturas de metal eram levantadas pelo vendaval, produzindo um estrondo ensurdecedor.

Mais adiante, em uma avenida, uma jovem de vestido agarrava-se desesperadamente a um poste de energia, balbuciando por socorro.

O desastre natural finalmente havia começado.

Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application

Dernier chapitre

  • A Última Chance: A Arte de Sobreviver   Capítulo 30

    Eles continuavam avançando em massa. Alguns queriam roubar os suprimentos, outros queriam roubar o bote inflável.Por mais forte que Sabrina fosse, dois punhos ainda eram incapazes de enfrentar quatro mãos.Parte dos suprimentos foi tomada, sua mão também acabou cortada. E o pior, alguns chegaram a perfurar o bote inflável.— Se o nosso bote não fosse resistente a perfurações, provavelmente nem teríamos conseguido voltar.O mundo havia se tornado estranho demais. Sabrina começou a duvidar da humanidade das pessoas. Exausta, ela se apoiou em Lucas.Alice não sabia como consolá-la. O fim do mundo mal tinha começado.Antes que os dois sequer conseguissem recuperar o fôlego, a porta do andar de baixo começou a ser batida.Que situação.Uma multidão enorme estava ali. À primeira vista, havia pelo menos dezenas de pessoas. Tantas que nem o corredor do 17º andar conseguia comportar todos.Alice franziu a testa.Aquelas pessoas queriam tomar as coisas à força?Lucas e Sabrina haviam conquistad

  • A Última Chance: A Arte de Sobreviver   Capítulo 29

    A natureza humana era assim. As pessoas não suportavam ver os outros em uma situação melhor do que a delas. Todos estavam enfrentando o desastre. Então, por que alguns ainda conseguiam parecer bem enquanto outros estavam condenados a morrer de fome?Em vez de ajudar, alguns até esperavam que os dois se aproximassem para atacar e roubar!Alice carregava duas facas. Na mão esquerda, uma faca de açougueiro. Na direita, uma faca de desossar. Com uma expressão fria, abriu caminho entre a multidão e ficou parada diante da janela, bloqueando a passagem.As duas lâminas afiadas ainda tinham manchas de sangue seco. Ao vê-las, todos recuaram dois passos assustados.Algumas pessoas ficaram insatisfeitas e estavam prestes a começar um discurso moralista. Mas então, Artur também se aproximou e ficou ao lado dela. Os dois pareciam verdadeiros deuses da morte. Um de cada lado, parados simetricamente.Alice observou todos ao redor. Cada expressão, cada olhar, nada escapou aos seus olhos.— Não venham

  • A Última Chance: A Arte de Sobreviver   Capítulo 28

    No entanto, no bote do homem pareciam haver muitos suprimentos.Naquele momento, quem tinha mais recursos era justamente quem corria mais perigo.Aproveitando que a visão ainda estava prejudicada pela chuva, Alice colocou a mão atrás do corpo, tirou duas mochilas de seu espaço e começou a remar em direção a ele.Com aquela altura e aquela postura, não havia mais ninguém além de Artur. Mesmo usando capa de chuva e máscara, era impossível não reconhecê-lo de imediato.Então era por isso que Mimi era tão bem cuidada e sempre parecia tão saudável, ele saía todos os dias para "fazer compras".Não há nada para se envergonhar quando se está no mesmo barco.Artur também reconheceu Alice usando máscara. Debaixo daquela chuva torrencial, apenas acenou com a cabeça para cumprimentá-la.Depois de guardar o bote, estendeu a mão para ajudá-la.Alice também não fez cerimônia. Entregou as duas mochilas impermeáveis para ele, segurou sua mão para que ele a ajudasse a subir e, em seguida, guardou cuidad

  • A Última Chance: A Arte de Sobreviver   Capítulo 27

    Não havia ninguém na cobertura, enquanto o segundo andar já estava mais da metade submerso.Antes de partir, Alice lançou um último olhar para o Hummer que tanto desejava no estacionamento. Era do mesmo modelo do carro de Artur.Além de ter o chassi elevado e um motor potente, sua aparência era extremamente imponente. Era capaz até mesmo de jogar um SUV comum para longe com uma colisão.No fim do mundo, era nada menos que um verdadeiro veículo de combate.Infelizmente, o espaço dela simplesmente não comportava aquele carro. Comparando os dois, ela ainda escolhia o trailer. Era mais confortável e possuía mais funções.Alice passou a mão sobre o capô. Seu coração doeu como se estivesse deixando escapar um pedaço de si.Em pouco tempo, todos aqueles carros seriam completamente submersos e arrastados pela correnteza.Que desperdício.O nível da água subia rapidamente e a corrente ficava cada vez mais forte. O bote inflável poderia ser levado pela força da água com facilidade.Sem outra opç

  • A Última Chance: A Arte de Sobreviver   Capítulo 26

    Se o volume do espaço pudesse aumentar, Alice teria varrido a cidade inteira sem perder um segundo. Em vez de apenas assistir impotente enquanto os suprimentos de sobrevivência afundavam na água, enquanto a humanidade iniciava uma disputa ainda mais cruel pela sobrevivência, chegando ao ponto de lutar com facas por um pedaço de pão mofado.A realidade era cruel. Alice só podia cuidar de si mesma.Ela afastou esses pensamentos e continuou sua corrida contra a enchente.Shampoo, sabonetes líquidos, sabonetes em barra, absorventes, desinfetantes. Leite, iogurte, leite em pó, leite de soja, aveia, sopas instantâneas. Açúcar refinado, açúcar cristal, açúcar mascavo e outros.A água já havia chegado às suas coxas. Ela não tinha tempo para olhar marcas, muito menos para escolher. Suas mãos passavam rapidamente pelas prateleiras. Não importava se gostava ou não daqueles produtos. Era melhor levá-los do que deixá-los ser engolidos pela enchente.Vários tipos de alimentos enlatados, frutas secas

  • A Última Chance: A Arte de Sobreviver   Capítulo 25

    Depois de algum esforço, Alice conseguiu encalhar o bote inflável e deixá-lo parado na pista de acesso. Guardou o bote em seu espaço e seguiu pela garagem até o estacionamento da cobertura.O estacionamento era enorme, havia carros estacionados por todos os lados. Pelos emblemas, a maioria eram carros de luxo: Mercedes-Benz, BMW, Ferrari, Lamborghini...Havia muitos ricos em Nova Fênix. Provavelmente, antes da chegada do furacão, as pessoas ricas da região haviam levado seus carros de luxo até o estacionamento da cobertura para evitar que fossem destruídos pela enchente.Com a lanterna na mão, Alice iluminou uma fileira após a outra. Então seu olhar foi atraído por um enorme trailer.Bastava olhar o símbolo da marca para saber que era um dos modelos mais luxuosos, avaliado em milhões. A carroceria e os vidros eram à prova de balas. Os pneus eram resistentes a explosões e ao desgaste. E, o mais importante, era um modelo híbrido, que funcionava tanto com combustível quanto com eletricida

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status