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Capítulo 5

Auteur: Clara Jardim
Do centro de distribuição até o condomínio eram apenas dois quilômetros. Em poucos minutos, o Hummer parou na entrada.

Alice tirou dinheiro da bolsa e estendeu ao homem. Era um agradecimento por tê-la salvado e por ter aceitado levá-la, mesmo correndo o risco de levar uma multa de trânsito.

— Não precisa. Já estava no meu caminho. — Ele respondeu com a mesma expressão fria de antes.

Como ele se recusava a aceitar, ela também não insistiu. Antes de descer do carro, apenas o advertiu:

— É possível que o furacão cause falta de água e energia. Ainda dá tempo de fazer um estoque de arroz, farinha, óleo e outros alimentos.

Ela abriu a porta, abraçou a enorme caixa e correu contra o vento em direção ao condomínio.

Grandes gotas de chuva começaram a despencar do céu. Alice, desgrenhada, enxugou o rosto ao sair do elevador e, ao erguer os olhos, encontrou Augusto e Eloísa parados diante da porta de seu apartamento.

Os dois claramente estavam esperando há bastante tempo. Augusto exibia uma expressão impaciente. Já Eloísa, a beldade da universidade, mantinha um sorriso doce e elegante. Com um vestido branco, parecia pura e delicada.

— Por que você demorou tanto? — Augusto reclamou, visivelmente irritado. — Estamos esperando faz um tempão.

Ao vê-los, todas as lembranças da vida passada invadiram a mente de Alice. As humilhações, o sofrimento e a imagem dos dois assistindo friamente enquanto ela era massacrada por aqueles monstros.

Seu humor despencou imediatamente e ela ficou irritada.

Ela não tinha ninguém para culpar, além de si mesma, por sua estupidez na vida passada. Mas, nesta vida, se ainda pretendiam explorá-la e roubar seu maior trunfo... então que esperassem. Ela faria questão de que experimentassem um desespero muito maior do que aquele que ela havia vivido.

— O que foi? — Sua expressão tornou-se completamente fria.

Augusto ficou surpreso. Ela sempre era extremamente calorosa com ele, então nunca imaginou receber aquele tratamento.

— Por que você não veio à minha festa de aniversário? — Ele perguntou instintivamente.

— Não somos próximos. Por que eu iria?

— Você...

Há tempos, ela corria atrás dele e vivia dizendo que lhe daria o presente que ele tanto queria.

Claro, ele não estava ali por causa do presente. Era Eloísa quem tinha interesse em conhecê-la melhor.

— Alice... — Eloísa observou Alice com um leve sorriso.

— Não te conheço. Não aja como se fôssemos próximas. — Alice a interrompeu friamente.

O sorriso de Eloísa vacilou por um instante.

— Hoje é o aniversário do Augusto. Somos todos da mesma universidade, então vamos comemorar juntos. — Mesmo envergonhada, ela continuou falando com sua voz doce.

O aniversário já havia passado ao meio-dia. O verdadeiro motivo de insistirem para que ela fosse ao apartamento do oitavo andar era apenas para conseguir o que queriam.

— Você é surda? Eu já disse que não somos próximos. O aniversário dele não tem absolutamente nada a ver comigo. — Alice sorriu com desprezo.

— Alice, o que você quer dizer com isso? — Augusto, perdendo a compostura, ficou chocado com a grosseria dela.

— Vocês dois estão usando alianças de casal e, mesmo assim, você vive insistindo para que eu vá ao seu apartamento. Quer namorar duas mulheres ao mesmo tempo?

— Não fique fantasiando coisas! Eu nunca tive esse tipo de interesse por você! — Augusto explodiu. Enfurecido, virou-se para Eloísa. — Eloísa, vamos embora.

Mas Eloísa não se moveu, ela não queria ir embora.

— Alice, na verdade, nós viemos comemorar o aniversário do Augusto, mas o furacão começou e agora não consigo voltar para casa. Será que posso passar esta noite aqui?

— Você está louca? Já falei que não somos próximas!

— Alice, cuidado como fala. — A expressão de Augusto se fechou.

— Eu sempre falo assim. Se não gosta, pare de me importunar.

Augusto puxou Eloísa pelo braço, decidido a ir embora. Mas ela permaneceu ali, recusando-se a ir.

— Alice, seu pingente é tão bonito. Onde você comprou? — Forçando um sorriso, perguntou com os dentes cerrados.

— Gostou dele? — Alice tirou o pingente do pescoço.

— Você aceitaria vendê-lo? Eu realmente gostei muito. — Os olhos de Eloísa brilharam.

Alice abriu a mão e o pingente caiu no chão. No instante seguinte, ela ergueu o pé e o pisoteou várias vezes, estilhaçando rapidamente.

Depois que o espaço dimensional se ligou definitivamente a ela, o pingente perdeu completamente o brilho. Agora era apenas um pedaço de pedra sem qualquer utilidade.

Mas ela conhecia muito bem a maldade das pessoas. Se não o destruísse diante de Eloísa, quem sabe o que aquela mulher ainda tentaria fazer?

— Sinto nojo de você gostar tanto dele.

Ao ver o pingente reduzido a fragmentos, Eloísa empalideceu. O choque estampava seu rosto e ela soltou um grito involuntário.

Ao ver a namorada sendo humilhada, Augusto perdeu completamente a paciência e começou a insultar Alice.

— Cai fora. E não apareça mais na minha frente. — Ela respondeu com um olhar feroz.

Com o rosto escuro de raiva, Augusto finalmente puxou Eloísa e foi embora.

Só então Alice abriu a pesada porta de aço inoxidável e entrou em casa.

A primeira coisa que fez foi rasgar a embalagem da encomenda. As roupas para o clima polar eram extremamente grossas. Ao vesti-las, sentiu um calor confortável envolver seu corpo.

O saco de dormir tipo múmia era composto por várias camadas de plumas de alta qualidade. Sem dúvida, seria sua maior salvação durante o frio extremo.

Lá fora, o vento rugia sem parar. O céu permanecia completamente escuro.

Depois de fechar cuidadosamente portas e janelas, Alice pegou vários baldes plásticos brancos e começou a enchê-los de água. Também colocou alguns baldes cheios dentro do banheiro do espaço dimensional.

Assim que o furacão e as chuvas torrenciais se intensificassem, o condomínio logo ficaria sem água e sem eletricidade.

Apesar dos ventos uivantes e da tempestade furiosa do lado de fora, ela permaneceu ocupada na cozinha. Lavou arroz, preparou panelas enormes de comida, cortou legumes, cozinhou carne de porco, frango ensopado com cogumelos, peixe cozido, ensopado de carne bovina com nabo.

Cada panela rendia uma quantidade enorme. Assim que os pratos ficavam prontos, eram colocados em grandes bacias de aço inoxidável e armazenados fumegantes dentro do espaço dimensional.

Enquanto as famílias ainda possuíam alimentos estocados, o cheiro da comida não despertaria tanta atenção. Mais tarde, acender um fogão poderia significar atrair pessoas desesperadas.

Ela ainda preparou diferentes tipos de pães e salgados.

O fogão a gás e os fogões de indução funcionaram ao mesmo tempo até altas horas da madrugada.

Depois de trocar de roupa e tomar um banho quente, Alice caiu na cama e adormeceu imediatamente.

Ainda sonolenta, foi despertada pelo som insistente de uma furadeira.

Ela abriu as cortinas. Lá fora, o furacão e a chuva rugiam sem parar. O céu continuava tão escuro que ela imaginou que ainda fosse madrugada. Quando pegou o celular, viu que já passava das nove da manhã.

O WhatsApp explodia de tantas mensagens. Mais de noventa e nove notificações, tanto no grupo do condomínio quanto no grupo da universidade.

Muita gente comemorava a chegada do furacão Cutelo. Os trabalhadores finalmente escapariam da rotina de trabalho exaustiva. Os estudantes ganharam alguns dias de folga e poderiam ir para casa. Diversas fotos e vídeos circulavam pelos grupos. Árvores arrancadas pela raiz, carros de luxo esmagados, um tornado demolindo um galpão metálico ao meio.

Muitos começaram a perceber que a situação era séria, reclamavam por não terem comprado comida a tempo, que, quando saíram do trabalho e correram ao supermercado, os legumes já haviam acabado.

O som da furadeira continuava incessantemente, parecia vir do apartamento ao lado.

Alice estava um pouco confusa.

Naquele andar havia apenas três apartamentos. Além do seu, os outros dois sempre estiveram vazios.

Na vida passada, quando a enchente alcançou o segundo andar, muitos moradores, abandonados pelos socorristas, começaram a arrombar apartamentos desocupados para morar neles. No início, todos conviviam em paz, mas, à medida que a comida se tornava mais escassa, os olhares se tornavam cada vez mais sombrios e calculistas. Várias vezes tentaram arrombar sua porta durante a madrugada.

Desta vez, era diferente, ela havia comprado um machado de bombeiro. Se alguém ousasse tentar invadir sua casa, ela não hesitaria em usar o machado.

Além da furadeira, também parecia haver a voz de uma criança.

Alice abriu a porta e saiu.

Logo viu que o apartamento 1801 estava completamente aberto. Uma porta de aço inoxidável novinha descansava ao lado da entrada, e um jovem vestido com roupas casuais claras estava perfurando a parede com a furadeira.

Ao ouvir a porta se abrir, ele virou a cabeça.

— É você? — Alice pareceu surpresa.

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