FAZER LOGINMatteo Giordano
Recebi alta do hospital, mas o Doutor Ortega deixou claro os cuidados que vou precisar em casa e assim que sai, segui direto para o Hospital San Gerónimo onde o Javier havia marcado a consulta com a doutora González.
— O senhor tem certeza do que vai fazer, patrão? — meu motorista metido, pergunta me olhando pelo retrovisor.
— E qual o problema em contratar uma médica exclusiva? Você mesmo a ouviu dizer que precisa de um outro trabalho. Vou oferecer esse trabalho e bem remunerado.
O trânsito em Madri nesse horário da tarde é intenso. O barulho das buzinas e motores dos veículos tem me causado um certo desconforto após a explosão no aeroporto.
— O senhor pode contratar apenas uma equipe de enfermeiros e auxiliares.
— Há muito tempo não me sentia tão bem perto de outra pessoa, de uma mulher. Depois do que passei com a Elena não quis arriscar viver outra dor como aquela.
Aquela mulher brincou com meus sentimentos como se eles não existissem. E agora quer fazer parte da minha vida novamente como esposa do meu irmão.
— A doutora González não é bem o tipo de mulher que já vi o senhor sair.
— Por que diz isso?
— O senhor saberá quando a vir.
Chegamos diante do hospital e eu já sinto uma coisa estranha no estomago. Uma ansiedade esquisita. E eu não consigo entender de onde isso saiu.
Me senti tão exposto naquele chão cheio de fuligens e cheiro de fumaça do aeroporto. Mas era minha alma que estava mais ferida. O corpo ferido doía tanto quanto a alma
— Vai ficar aí sentado olhando a entrada do hospital?
— Você está cada dia mais folgado, Javier. Acho bom manter essa boca fechada.
Entramos na recepção e me identifico. Sou levado para a parte do hospital onde estão os consultórios médicos. Logo vejo o nome de identificação na porta.
Doutora Carmem Gonzalez.
Uma moça, acredito ser sua assistente vem em nossa direção. O Javier me ajuda a caminhar. Ainda tenho dificuldades de andar. Muitos pontos no abdômen e no braço. Tenho 1,90cm e um corpo definido por músculos, mas perdi peso durante esse tempo no hospital
Assim que a porta se abre meu coração erra uma... duas... várias batidas.
Doutora Gonzalez de fato é muito diferente das mulheres com quem me envolvi — mesmo que superficialmente — nos últimos anos. O Javier tinha toda razão em dizer isso.
— Olá, bem-vindo. — Ela sorriu e eu continuo parado na porta, congelado. A voz dela já me tirava o sono e agora esse sorriso me desarmou inteiro.
— Por favor, podem entrar — ela se levanta da cadeira de trás da sua mesa e eu consigo vê-la por inteiro.
Cabelos longos e ruivos. Uma pele alva e olhos verde esmeralda. Seu corpo é exuberante. Seios grandes, mas não exagerados. Quadris largos e cintura fina. Ela está usando um jaleco, porém mesmo usando algo tão formal, não esconde uma beleza que só pertence a ela.
— Boa tarde — consigo falar. Voz firme e a encarando como se quisesse entrar em sua mente e saber se ela me reconheceu.
— Senhor Matteo Giordano, sim? Sou a doutora Gonzalez, Carmen González — pergunta e se identifica, estendendo a mão para me cumprimentar.
Estendo a mãe esquerda já que na direita uso um suporte de braço cirúrgico.
— Me desculpe... sim, sou Matteo Giordano
— Ora, não se preocupe. Estou vendo que passou por cirurgias recentes. Em que posso ajudá-lo? Venha, sente-se aqui.
Ela me mostra as poltronas diante da sua mesa. Javier me ajuda a sentar e avisa que irá me aguardar lá fora.
— Senhor Giordano...
— Matteo... pode me chamar de Matteo.
Ela parece um pouco desconcertada quando falo isso. Nem eu sei por que quero que ela — que ainda é uma estranha — me trate pelo nome.
— Tudo bem. Me diga, em que eu posso ajudá-lo.
— Bem... — Ao iniciar a conversa, senti um turbilhão de emoções me atingir.
Olhar para ela, a mulher que tem assombrado meus pensamentos e habitado meus sonhos desde o acidente, trazia um misto de vulnerabilidade e um desejo avassalador.
— Acabei de passar por duas cirurgias. No abdômen e no braço direito.
— O que o levou a necessidade das cirurgias?
— Eu estava entre os feridos no atentado ao aeroporto de Madri — “e você me salvou” pensei.
Ela paralisa quando me ouve dizer isso. Será que lembrou de mim?
— Precisei retirar vários estilhaços do corpo. Os mais graves estavam no meu abdômen e no ombro e quase causou a perda definitiva dos movimentos do braço.
Ela continua me olhando. Há uma profundidade em seu olhar e me sinto totalmente desarmado diante dessa mulher.
— Mas se já passou por cirurgias, por que me procurar agora? — ela fala, mas seu celular vibra sobre a mesa. Ela olha rapidamente e ignora a chamada.
— Posso dar uma olhada nos procedimentos que fez? — confirmei com um gesto de cabeça.
— Preciso que se acomode aqui — ela vai até uma maca disposta ali, ajeita e vem me ajudar a levantar.
Tão perto assim, sinto o cheiro do seu perfume. Doce e embriagante. A reação do meu corpo é instantânea. Ela segura meu braço com firmeza e com gestos tão delicados ao mesmo tempo. Essas mãos que segurei com tanto medo se que me soltasse.
— Vou precisar abrir sua camisa, tudo bem?
— Sim... — só não sei como vou reagir com as mãos dela em mim. — Isso tem me incomodado muito.
— Imagino que sim. Ainda é muito recente e o senhor nem deveria estar assim andando de um lado para o outro. Deveria estar em casa descansando.
Ela abre os botões da minha camisa deixando meu ombro exposto. A cirurgia do abdômen é bem extensa e ela logo vê os curativos.
— Nossa, senhor Giordano...
— Pode me chamar de Matteo, por favor.
Ela sorri e tenho vontade de pegá-la pelo pescoço e beijá-la, sentir o gosto daqueles lábios carnudos e rosados. Difícil me conter assim tão perto, ouvindo essa voz de anjo, sentindo esse cheiro de embriagante e vendo esse sorriso que me enfeitiçou.
— Matteo, não deveria estar se mexendo tanto. Seus pontos podem abrir e terá mais tempo para se recuperar.
— Eu estive lá do dia da explosão. O lugar estava um caos — por fim ela falou sobre aquele dia.
— Eu sei... — falei baixinho. — O celular dela vibra novamente sobre a mesa.
Ela vai até ele dá uma olhada rápida e o coloca emborcado na mesa. Parece ser alguém com quem não quer falar. Será que tem namorado.
— Como sabe que eu estive lá? — perguntou sem graça olhando nos meus olhos.
— Porque foi você que me salvou... — eu disse por fim.
Ela estacou por um instante. Ainda me olhando como se quisesse confirmar algo.
— É... você? — ela lembra? Ela lembra de mim? — Você é o homem ferido que não queria soltar minha mão?
— Acho que sim. Tenho certeza de que ajudou muitos outros por lá. Mas estava por perto e salvou minha vida.
— Não fiz mais que minha obrigação, senhor... Matteo. Esse é o meu trabalho e gosto muito do que faço.
Ela analisa de perto cada detalhe das cirurgias e eu acompanho seus movimentos, contendo esse desejo animal de tomá-la me meus braços.
— Não foi coincidência. Você tinha que estar lá... — agarro sua mão como fiz lá no aeroporto.
— Eu precisava vir aqui te agradecer e te fazer uma proposta...
Nesse momento a porta do consultório é aberta abruptamente e um homem entra parecendo bem aborrecido. Atrás dele Javier, já com a mão sob o paletó prestes a puxar a arma que costuma carregar.
— Pablo! O que faz aqui? Não pode entrar aqui assim, estou...
— Me ignorando. Não atende minhas ligações e nem as mensagens — ele praticamente berra na sala.
Olha para minha mão segurando a dela, eu ainda de camisa aberta. Vejo algo semelhante a ciúmes ali. Seria ela o namorado? Nem mesmo parei para cogitar se ela era casada. Que tolo eu sou!
— Pablo, eu estou trabalhando e não tenho nada para conversar com você. Saia ou vou chamar os seguranças.
— Como não tem nada pra falar comigo? Você está magoando a minha noiva, a futura mãe do meu filho e ainda mais é sua prima. Quase uma irmã. Não tem vergonha disso?
— Esse é um problema de família, não deve ser tratado aqui. Vá embora e cuide da sua noiva.
— Você precisa aceitar que eu não te quero mais e que vou me casar com a Martina.
Percebo que ao ouvir isso a Carmen fica tensa e sua face fica ruborizada. Ela sente vergonha e está constrangida. Dessa vez é ela quem segura minha mão com força como se me pedisse para não a deixar cair.
— Acho melhor o senhor sair. Está ofendendo a minha noiva — falei calmo, mas a voz mostrava toda a firmeza que o momento precisava.
Carmen me olha com os olhos marejados. Ela parece prestes a chorar e espantada com o que falei.
— Parece que seu ex ainda não aceitou que te trocou por outra e você não está nem aí, amor.
— O que significa isso? — o cara se aproxima dela com fúria e o Javier já aposto puxa a arma.
Eu faço um sinal com a cabeça para que se contenha. Ele guarda a arma, mas continua na sala.
— Não se aproxime dela. Aceite que perdeu. Vá tomar conta da sua mulher que eu tomarei conta da minha.
Ele parece confuso. Contrariado por ver que não conseguiu intimidá-la como imaginava antes de chegar. Ele alisa os cabelos nervoso, parecendo não saber onde enfiar a cara. Talvez imaginasse que ela não tivesse ninguém. E talvez não tenha mesmo.
Ou não tinha, porque agora encontrei a brecha pra ficar na vida dela, sendo mais que minha médica particular.
Carmen Gonzalez Eu estava trancada em um quarto escuro, com as mãos e os pés firmemente amarrados. O frio do chão de cimento penetrava minha pele, aumentando meu desespero a cada segundo. Não consigo me perdoar por ter sido tão irresponsável. Eu devia ter esperado por Javier ou por alguém que ele designasse para me acompanhar. Ele sempre fez isso desde que as ameaças e os conflitos com a minha família começaram. Acreditei ingenuamente que o curto percurso entre a cobertura onde moro com o Matteo e o Hospital San Gerônimo não ofereceria perigo. Pensei que ficaria segura no apartamento da Clara assim que saíssemos de lá. Seria apenas uma noite de garotas para conversarmos, mas acabei transformando tudo em um verdadeiro martírio. Ninguém perceberia minha ausência até o amanhecer. Hoje é o dia mais importante para o Matteo, o dia em que ele finalmente assinará o contrato de fusão pelo qual tanto trabalhou. Eu deveria estar ao seu lado, celebrando sua vitória, e, no entanto, estou aq
Matteo Giordano Após o ápice de tensão na sala de reuniões, os contratos foram finalmente assinados e a fusão histórica foi sacramentada. O grande dia chegou... Consegui consagrar a Albatroz entre as maiores potências da aviação mundial, honrando o homem que me inspirou por toda a vida: Vittorio Giordano. Superadas as formalidades e as saudações entre os executivos, seguimos a passos firmes em direção ao auditório para a coletiva de imprensa oficial. Caminho com postura ereta e imponência, ajustando o abotoamento do paletó enquanto o espocar contínuo dos flashes ilumina a minha entrada. Subo ao púlpito, apoio as mãos espalmadas sobre a bancada e varro o recinto com um olhar firme e dominador, silenciando os jornalistas instantaneamente. — Senhoras e senhores... Hoje não marcamos apenas a assinatura de um contrato bilionário entre a Albatroz e a Sky — inicio, a voz firme ecoando potente pelos alto-falantes. — Hoje, nós redefinimos os rumos da aviação comercial global, cravando o
Matteo Giordano A sala de reuniões caiu em um silêncio sepulcral, tão denso que era possível ouvir a respiração descompassada dos presentes. O rosto do meu tio perdeu a cor instantaneamente, empalidecendo como um cadáver pego no flagra. Alguns conselheiros trocavam olhares perplexos e inquietos, mas ninguém ousava abrir a boca para contestar a postura impagável de Ettore Valentini. Um alívio indescritível inundou o meu peito ao perceber que a exigência não se tratava do cancelamento da fusão, mas sim da ruína do homem que tentou me destruir. Ainda assim, o conselho da Albatroz precisava formalizar e aprovar o afastamento, e eu sabia que alguns daqueles velhos ratos jogavam no time de Miguel. — Pois bem... Expus claramente as minhas exigências para selarmos esta negociação bilionária — Ettore insiste, a voz afiada como lâmina, cutucando a ferida aberta. — No entanto, vejo que os senhores parecem hesitantes em se manifestar — ele completa, apoiando os punhos sobre a mesa e varren
Carmen Gonzalez Percebi o quanto Matteo saiu apreensivo para o trabalho hoje cedo. Enquanto não resolvêssemos todas essas pendências que sufocam nossas famílias, não teríamos paz. Resolvi organizar algumas pendências do meu consultório e passei a manhã e boa parte da tarde imersa nesses compromissos. Lembrei-me de que precisava ligar para minha mãe e saber como ela e Maísa estavam... Esperava do fundo do coração que tivessem dormido bem e acordado mais calmas. — Olá, madre! Como vocês estão? — cumprimento-a assim que a chamada é atendida. — Carmen, minha filha! Eu já estava prestes a te ligar... Acordamos bem e tivemos um dia agradável, mas a Martina esteve aqui e fez um escândalo pavoroso lá fora. — A Maísa está inconsolável e tem um rapaz, que disse ser irmão do Matteo, aqui tentando acalmá-la — minha mãe relata, a voz trêmula. — E o que a Martina queria criando confusão aí no hotel?! — questiono, sentindo uma pontada de raiva ao tentar entender as atitudes da minha outra mei
Matteo Giordano Enquanto aguardávamos a chegada do Leandro, minha assistente serviu um café quente e alguns aperitivos para que os investigadores degustassem na sala. Minha mente girava em um turbilhão desenfreado diante das informações estarrecedoras trazidas pela polícia. Se as peças se encaixarem como estou imaginando, meu tio Miguel e o Giuseppe foram infinitamente mais longe na ganância do que eu supunha. Agora finalmente compreendo o verdadeiro propósito da visita suspeita de Giuseppe outro dia à sede da Albatroz... O miserável veio pessoalmente para sondar até onde eu tinha descoberto sobre o seu conluio com meu tio ou se desconfiava da sua autoria no atentado. Após minutos agoniantes que pareceram uma eternidade, a porta se abre e Leandro entra na sala, franzindo o cenho ao notar a presença dos dois oficiais. — Senhores, este é o doutor Leandro Rossi, meu advogado e homem de confiança — apresento-o com voz firme. — Leandro, estes são o Capitão Esteban Molina e o Inspet
Matteo Giordano Saí do hotel em direção à sede da Albatroz, ciente de que teria mais um leão a domar antes de selar a fusão com a Sky. Miguel Giordano nem desconfia do caminhão desgovernado que vai atropelá-lo sem piedade após a reunião de amanhã. Estamos finalmente cruzando a reta final dessa caçada por justiça. Só não imaginava que, no mesmo caminho de vingança, encontraria o amor avassalador da minha vida. E que esse sentimento nasceria de forma tão inusitada, rasgando o contexto sombrio em que sempre me afundei. Não me enxergo mais sem Carmen, sem o seu temperamento determinado, seu perfume embriagador e o toque do seu corpo viciante do qual me tornei refém. Ela se tornou o meu ar, a minha obsessão mais pura... Somos duas almas quebradas que se encontraram nos cacos para se tornarem inteiras e indestrutíveis. — Bom dia, Bianca — cumprimento minha assistente ao passar pela recepção, a postura impecável e a voz firme. — Tudo em ordem por aqui? Ligue para o jurídico e peça a p







