INICIAR SESIÓNTrevis permaneceu imóvel.
— Quando contei para ele... Ela enxugou uma lágrima. — Eu esperava alegria. Esperava emoção. Esperava qualquer coisa. Sua respiração ficou pesada. — Mas ele parecia incomodado. As palavras saíram quase como um sussurro. — Como se aquele bebê fosse um problema. Trevis sentiu algo apertar dentro de si. Mas permaneceu em silêncio. Susan continuou. Falou das consultas médicas. Das ultrassonografias. Dos exames. Das vezes em que foi sozinha. Das cadeiras vazias ao seu lado. Das desculpas repetidas. Das promessas quebradas. E então chegou àquela noite. Ao hospital. À mulher. À mentira. À traição. Com mãos trêmulas, ela pegou o celular. Abriu a conversa com Paula. E entregou o aparelho a Trevis. Ele assistiu ao vídeo. Uma vez. Depois outra. Seu maxilar se contraiu. Mas não comentou nada. Devolveu o celular cuidadosamente. Susan já chorava abertamente. Lágrimas escorriam sem parar. Mas ela continuou falando. Contando coisas que nunca havia contado. Nem para os pais. Nem para Paula. Nem para ninguém. Era como se anos de mágoas estivessem finalmente encontrando uma saída. Quando terminou, sentia-se exausta. Mas estranhamente mais leve. Como alguém que carregava uma pedra enorme no peito e finalmente a deixara cair. O escritório mergulhou em silêncio. Susan abaixou a cabeça. As lágrimas continuavam escorrendo. Trevis permaneceu imóvel. O olhar fixo nela. Um nó apertava sua garganta. Uma sensação amarga crescia dentro dele. Porque, enquanto ela falava, ele não conseguia parar de pensar em uma única coisa. Como alguém podia ter recebido um amor tão leal... E ainda assim tratado aquela mulher daquela maneira? Pela primeira vez desde que ouvira falar de Durval, Trevis sentiu algo muito próximo do desprezo. E teve absoluta certeza de uma coisa. Susan merecia muito mais do que havia recebido até agora. Do lado de fora do escritório. A senhora Margareth estava parada junto à parede. Ou pelo menos tentava parecer que estava apenas passando por ali. O problema era que, nos últimos quinze minutos, ela havia passado pelo mesmo corredor pelo menos seis vezes. E nenhuma das empregadas acreditava mais naquela encenação. Com as duas mãos apoiadas na bengala, a senhora mantinha os ouvidos atentos. Muito atentos. Atentos até demais. E, conforme a voz de Susan chegava até ela através da porta entreaberta, seu semblante mudava. Primeiro surgiu surpresa. Depois indignação. Depois revolta. E então uma vontade enorme de entrar naquele escritório e puxar as orelhas de um certo comandante de aeronaves. — Canalha... murmurou baixinho. Uma das empregadas arregalou os olhos. — Senhora? — Nada. A senhora ergueu o queixo. — Continue trabalhando. Mas a verdade era que Margareth estava cada vez mais revoltada. Quanto mais ouvia. Mais revoltada ficava. Quando Susan começou a chorar, a senhora sentiu um aperto tão forte no peito que precisou fechar os olhos por alguns segundos. Então ouviu passos se aproximando pelo corredor. Assustada, afastou-se rapidamente da porta. Ou pelo menos tentou. Porque uma senhora de oitenta e dois anos não consegue exatamente desaparecer de um corredor. Principalmente carregando uma bengala. — Senhora Margareth? — Eu estava indo para o jardim! — Mas o jardim fica do outro lado da casa. — disse a acompanhante dela. — Pois então devo ter errado o caminho. A acompanhante segurou uma risada. — Claro, senhora. — Não me olhe desse jeito. — Sim, senhora. A mulher saiu rapidamente antes de começar a rir. A senhora Margareth ajeitou a postura. E seguiu corredor afora com a maior dignidade possível. Mesmo sabendo que havia sido flagrada. Dentro do escritório. O silêncio ainda permanecia. Susan enxugava discretamente as lágrimas. Trevis levantou-se da poltrona. Sem dizer nada, caminhou até o frigobar. Retirou uma garrafa de água. Pegou um copo. E o encheu. Depois voltou. Entregou-o a ela. — Beba. Susan aceitou. — Obrigada. — Você precisa se acalmar. Ela assentiu. — Eu sei. — Não pode ficar nervosa. O olhar dele deslizou para Malcollys. — Agora não é só você. Susan acompanhou seu olhar. E sorriu para o filho. Tomou alguns goles de água. Sentindo-se um pouco melhor. Trevis observou por alguns segundos. Então se levantou novamente. — Preciso fazer um telefonema. Susan assentiu. — Claro. Ele caminhou até a porta. Mas, quando já estava com a mão na maçaneta, parou. Algo lhe ocorreu. Virou-se. — Susan. — Sim! — Qual é o nome completo do seu marido? Ela piscou surpresa. — Durval Rios. — Completo. — Durval Moura Rios. Ele assentiu. — E para qual empresa ele trabalha? Susan informou. Trevis guardou a informação. — Obrigado. Ela franziu levemente a testa. — Por quê? Mas ele apenas sorriu. — Já volto. E saiu. Alguns minutos depois. Trevis caminhava lentamente pelo jardin da propriedade. As mãos dentro dos bolsos. O rosto sério. Quando chegou a uma área mais afastada da casa, retirou o celular. Olhou ao redor. Certificou-se de que não havia ninguém por perto. Então fez a ligação. A chamada foi atendida rapidamente. — Senhor Kinly. Trevis não perdeu tempo. — Quero tudo sobre um homem. — Nome…! Durval Moura Rios. Do outro lado, houve silêncio. A pessoa claramente aguardava mais informações. — Comandante de aeronaves. Trevis continuou. — Trabalha para uma companhia aérea com operações no Santos Dumont. Sua voz tornou-se ainda mais firme. — Ontem à noite foi visto acompanhando uma mulher em um hospital. — Entendido. — Quero saber tudo. Absolutamente tudo. — Certo. — Desde o dia em que nasceu. Uma breve pausa. — E quero isso com urgência. — Certo, começaremos imediatamente senhor. Trevis encerrou a ligação. Guardou o aparelho. E permaneceu parado. O olhar perdido ao longe. Pensativo. Muito pensativo. Até que ouviu passos. Passos lentos. Ritmados. Familiares. Virou-se. E encontrou a avó caminhando em sua direção. Apoiando-se na bengala. O rosto fechado. Mais fechado do que ele via há muito tempo. Quando finalmente chegou perto, ela não perdeu tempo. — Espero que você acabe com esse homem. Trevis suspirou. — Vovó... — Estou falando sério. — Eu percebi. Ela apontou a bengala para ele. — Não podemos permitir que ele continue fazendo aquela menina sofrer. Seu tom suavizou ao lembrar de Susan. — E ainda mais agora. A senhora olhou para a casa. — Com aquele bebê lindo. Trevis cruzou os braços. — A senhora ouviu nossa conversa? A avó desviou o olhar. — Foi sem querer. — Claro. — Foi, mesmo. — Vovó. — Eu só estava passando pelo corredor. — Sim, eu acredito — disse ele com sarcasmo, pois já a conhecia. Ela disfarçou Trevis balançou a cabeça e mesmo irritado, quase sorriu. Então a senhora suspirou. Desta vez sem qualquer humor. — Eu fui ver se ela precisava de alguma coisa. Sua voz enfraqueceu. — Mas ouvi o choro dela. O sorriso desapareceu completamente do rosto de Trevis. A avó baixou os olhos antes de continuar. — E aquilo me trouxe lembranças. Ele já sabia quais. Nem precisou perguntar. — Sua mãe. A senhora assentiu. Silenciosamente. — Os últimos anos dela. Sua voz estava carregada de emoção. — As ausências daquele desgraçado. As desculpas. A solidão dela. Trevis fechou os olhos por um instante. Porque também se lembrava. De tudo. Das noites em que encontrava a mãe chorando escondida. Das viagens que o pai fazia com frequência sem ao menos explicar nada. Das promessas que nunca cumpria. Das decepções. E da tristeza que ela tentava esconder. — Ela saiu naquela viagem porque queria clarear a mente. A voz de Margareth tremia. — Queria descobrir se ainda era importante para ele. O aperto no peito de Trevis aumentou. — Quinze dias. A senhora engoliu em seco. — Ela ficou quinze dias fora. Trevis abaixou a cabeça. Já conhecia aquela história. Mas ouvi-la ainda doía. — E ele não ligou uma única vez. O silêncio caiu entre os dois. Pesado. Doloroso. Então Trevis aproximou-se. E abraçou a avó. Margareth fechou os olhos imediatamente. Porque sabia exatamente o que o neto estava sentindo. E ele sabia exatamente o que ela estava sentindo. A mesma revolta. A mesma tristeza. A mesma impotência. Trevis apoiou o queixo sobre os cabelos prateados dela. E olhou em direção à mansão. Para a direção onde Susan estava. Pensou no bebê que havia chegado ao mundo na noite anterior. E uma certeza silenciosa surgiu dentro dele. Desde muito jovem, ele aprendera a desprezar homens que traíam, abandonavam e destruíam as pessoas que diziam amar. E naquele momento… Durval Moura Rios começava a entrar nessa lista.Trevis mal havia conseguido atravessar o saguão quando chegou à entrada do hotel.Ainda estava atordoado.A imagem que acabara de ver continuava diante de seus olhos, repetindo-se de maneira cruel em sua mente.Ele precisava sair.Precisava respirar.Precisava ficar longe daquele lugar.Mas, antes que pudesse alcançar a porta, alguém entrou apressadamente no saguão.Trevis parou.O coração, que ainda estava acelerado pela dor, pareceu falhar outra vez.Susan.Ela vinha depressa, segurando uma grande bolsa de papel.Os olhos dos dois se encontraram.Trevis ficou imóvel.Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.Susan foi a primeira a perceber a expressão estranha no rosto dele.— Trevis?!Ele piscou, como se precisasse ter certeza de que ela realmente estava ali.— O que você está fazendo aqui?A pergunta saiu baixa.Trêmula.Embaraçada.Susan franziu a testa.— Aqui?— Sim, neste hotel... a essa hora?— Eu vim trazer uma coisa para a Paula.Trevis continuou olhando para ela, sem con
O primeiro drink havia sido apenas o começo.Depois de algum tempo conversando à mesa, entre provocações, risadas e algumas tentativas descaradas de Matias de impressionar Paula com seus famosos — e questionáveis — xavecos, a música mudou.O ritmo ficou mais envolvente.Matias olhou para a pista.Depois para Paula.— Dança comigo?Ela ergueu as sobrancelhas.— Você dança?! — perguntou ela surpresa. — Sei fazer algumas coisas.— Essa resposta não me tranquilizou — zombou ela estreitando os olhos e rindo levemente.— Você pode descobrir.Paula riu.— Convencido.— Interessado.Ele estendeu a mão.Ela olhou para aquela mão por alguns segundos antes de aceitá-la.— Só uma música.— Claro.Matias a conduziu até a pista.A princípio, os dois mantiveram uma distância razoável.Mas a música parecia pedir outra coisa.Aos poucos, Matias aproximou-se.Uma mão pousou delicadamente na cintura dela, enquanto a outra segurava sua mão.Paula sentiu o corpo reagir antes mesmo de conseguir pensar.—
Alguns dias haviam se passado desde o sábado na mansão Kinly.A rotina de todos havia retomado seu ritmo habitual.Susan estava novamente envolvida com o trabalho, Malcollys seguia ocupando boa parte de seus dias e, de alguma maneira, ela ainda se pegava lembrando de pequenos momentos daquela tarde.O sorriso de Trevis.A maneira como ele havia brincado com o filho.A despedida na porta da mansão.Nada grandioso.Nada que pudesse ser chamado de declaração.Mas havia ficado algo.E, vez ou outra, surgia em seus pensamentos sem que ela sequer percebesse.Paula, por outro lado, parecia ter encontrado uma distração própria.Certa tarde, seu telefone tocou.Ela olhou para a tela e franziu a testa ao reconhecer o número.Matias.Demorou um tempinho para atender.Mordeu o canto do lábios inferior.Então…— Alô?— Finalmente.Paula arqueou uma sobrancelha.— Finalmente o quê?— Finalmente atendeu. Eu já estava começando a pensar que você estava evitando falar comigo.Ela sorriu.— Talvez eu e
O sábado seguia tranquilo na mansão Kinly.Depois do almoço, a movimentação ao redor da piscina havia diminuído um pouco. À mesa sob a sombra de uma grande árvore, a senhora Margareth e Isabel conversavam tranquilamente. Os outros permaneciam próximos aproveitando o ar fresco do espaço aberto.Susan estava sentada em uma das espreguiçadeiras próximas à piscina, observando Malcollys.Trevis permanecia ao lado dela, com o menino no colo.Augusto havia lhe entregado o pequeno momentos antes, depois de uma brincadeira que arrancara risadas gostosas do pequeno.Malcollys parecia completamente à vontade nos braços de Trevis.Susan observava os dois com um sorriso discreto.Era uma cena simples.Quase familiar. E talvez por isso ela não tenha percebido imediatamente o celular vibrando sobre a mesa.Foi somente na segunda chamada que Susan estendeu a mão.Ao olhar para a tela, seu sorriso desapareceu por um instante.Durval. Ela respirou fundo. Desde a ida dele para o outro país, a
O fim de semana chegou trazendo uma espécie de expectativa silenciosa para Susan.Desde que havia combinado com os pais e Paula de se encontrarem na mansão Kinly, ela vinha pensando naquele sábado mais do que gostaria de admitir.Não havia nada de extraordinário no programa.Um churrasco.Família.Amigos.Uma tarde tranquila. Ainda assim, havia alguma coisa naquela visita que fazia Susan se sentir ligeiramente diferente.Talvez porque, depois de um tempinho, voltaria àquela casa sem estar fugindo de alguma coisa que acertasse seu peito.Na manhã de sábado, ela acordou cedo.Malcollys também não demorou a despertar, obrigando a mãe a abandonar qualquer tentativa de permanecer mais alguns minutos na cama.Depois de levantar-se, fazer sua higiene, seguiu pelo corredor ouvindo o burburinho do filho em seu quarto.— Bom dia, meu amor — disse ao entrar. Malcollys estava de pé tentando escalar a grade. Ela se aproximou do berço, sorrindo com as travessuras dele.— Além de acordar cedo, j
Três dias haviam se passado.A rotina de Paula continuava puxada.Plantões longos, poucas horas de sono e uma quantidade cada vez maior de material para estudar.Naquela noite, depois de mais um plantão no hospital, tudo o que ela queria era chegar em casa, tomar um banho demorado e dormir.Só isso.Sem conversa.Sem telefone.Sem ninguém buzinando nada em seu ouvido.Apenas sua cama e ela.Paula dirigia pela estrada enquanto bocejava, mantendo os olhos atentos à pista.Foi então que ouviu um barulho seco.— Não acredito nisso.Mais que droga!O carro puxou levemente para o lado.Ela segurou o volante com firmeza e reduziu a velocidade até conseguir parar em um trecho seguro do acostamento.Olhou para frente.Depois para o painel.— Não… — socou o volante em fúria.Desligou o motor, pegou o celular e desceu.Bastou caminhar até a dianteira do carro para confirmar o problema.O pneu dianteiro direito estava completamente vazio.Paula fechou os olhos.— Perfeito. Era tudo o que faltava







