INICIAR SESIÓNNa manhã seguinte, Rubens ainda dormia quando ouviu a porta do quarto se abrir com cuidado. Antes mesmo de sentir o toque, o perfume cítrico anunciou a presença dela — fresco, marcante, impossível de ignorar.
Cristina aproximou-se da cama e o acordou com beijos leves na bochecha, quase carinhos ensaiados. — O que é isso, Cristina? — murmurou ele, abrindo os olhos com esforço, a voz ainda rouca de sono. — Precisava me acordar tão cedo? Ela riu, sentando-se na beira da cama, confortável demais para quem se sentia dona daquele espaço. — São oito e meia — respondeu, sorridente. — Eu não aguentava mais de saudade de você. A luz da manhã entrava filtrada pelas cortinas claras, iluminando Cristina. Os cabelos longos caíam em cachos pequenos e definidos sobre os ombros, os olhos verdes expressivos acompanhavam cada reação dele, e as sobrancelhas grossas marcavam seu rosto bonito. Vestia um macacão azul-marinho que realçava sua elegância natural — o tipo de presença que se impunha sem esforço. Rubens inclinou-se e lhe deu um beijo rápido na bochecha. Cristina era linda, disso ele nunca duvidara. Havia atração, sim — talvez fosse justamente isso que o mantinha ali, mesmo sabendo que aquele relacionamento vinha carregado de expectativas que ele não sabia se podia cumprir. Cristina, por sua vez, conhecia bem o espírito inquieto de Rubens. Sabia das ausências, das outras mulheres, dos silêncios. Ainda assim, sustentava a convicção firme de que ocupava o lugar oficial — e que, cedo ou tarde, aquilo se transformaria em casamento. Era nisso que acreditava. Era nisso que insistia. — Vou descer enquanto você se arruma — disse ela, inclinando-se perto do ouvido dele, a voz doce, quase íntima demais. — A gente se encontra lá embaixo. Na sala de jantar, a manhã se impunha clara e viva. A luz entrava ampla pelas janelas, refletindo nas porcelanas claras e nos copos de vidro reluzentes. O cheiro de café fresco, pães quentes e frutas cortadas preenchia o ambiente com uma sensação de rotina bem estabelecida. Josefa estava sentada à mesa, os cabelos curtos tingidos de vermelho contrastando com o vestido branco rendado e os sapatos bege. Ao lado dela, Vitória — impecável como sempre — tomava seu suco de laranja com postura elegante. As duas conversavam animadas, trocando olhares cúmplices. — Então… como foi o reencontro? — perguntou Vitória, com um sorriso carregado de expectativa. — Maravilhoso, tia — respondeu Cristina, sentando-se à mesa. — Rubens só reclamou do horário… estava um pouco rabugento. Pouco depois, Rubens se juntou a elas. Cumprimentou as duas, serviu-se do café e tentou acompanhar a conversa, ainda que sua mente insistisse em escapar para outros lugares. Josefa foi a primeira a sugerir: — Que tal o parque botânico? O dia está lindo. Vitória se animou na hora. As duas senhoras pareciam satisfeitas, como se cada gesto daquele passeio empurrasse discretamente o relacionamento na direção que desejavam. No caminho, porém, Rubens e Cristina se afastaram do grupo, prometendo reencontrá-las mais tarde. O parque era amplo, verde, com árvores altas formando sombras frescas. O canto distante dos pássaros e o som suave da água criavam uma atmosfera quase romântica. Cristina segurava a mão dele enquanto caminhavam, mas não deixou de notar: em alguns momentos, Rubens parecia distante — o olhar perdido, a atenção dispersa, como se estivesse em outro lugar. Ela parou de repente, puxando-o suavemente para debaixo de uma árvore frondosa, e o beijou demoradamente. Um beijo que misturava desejo e afirmação. — Às vezes parece que sua cabeça está longe — disse depois, sorrindo, mas com algo de alerta na voz. — Quero que ela fique aqui… comigo. Rubens apenas assentiu, sem responder de imediato. Naquela mesma noite, Amanda estava na casa de Ana Bela. Ficaria ali até o dia seguinte. As duas estavam sentadas na sala, pernas esticadas no sofá, fazendo as unhas uma da outra. O cheiro forte do esmalte se misturava ao som baixo da televisão ligada ao fundo. O ambiente era simples, íntimo, confortável — um contraste absoluto com os espaços onde Amanda estivera nos últimos dias. Ana Bela parecia mais quieta do que o habitual. — Otávio voltou para a capital — comentou, enquanto Amanda passava o esmalte vermelho com cuidado. — Disse que em breve vai me buscar para apresentar à família… mas estou com medo, sabe? Havia entusiasmo em sua voz, mas também uma insegurança difícil de esconder. — Ele já ligou hoje? — perguntou Amanda, concentrada na precisão do pincel. — Sim. Conversamos por um bom tempo — respondeu Ana Bela, sorrindo de lado, com um brilho tímido no olhar. Depois de alguns segundos de silêncio, ela perguntou: — E o Rubens? Ele ligou? Amanda balançou a cabeça. — Não… — respondeu. — Mas espero que ele se lembre da ajuda que me prometeu, sobre o emprego. Ana Bela arqueou a sobrancelha, desconfiada. — É só isso mesmo que você espera? Amanda suspirou, aplicando a última camada de esmalte com cuidado. — É sim. Não invente coisas. O que tive com ele foi bom… mas Rubens não me prometeu compromisso algum. Então, não temos nada. Ainda assim, enquanto observava o esmalte secar lentamente, a lembrança da última noite juntos insistia em permanecer — silenciosa, quente, difícil de ignorar. E Amanda percebeu que algumas histórias continuam ecoando mesmo quando a gente tenta convencê-las de que já acabaram.Amanda reconheceu Ernani em uma das mesas mais à frente. Assim que seus olhares se encontraram, ele fez um discreto aceno com a cabeça. Gabriel percebeu o gesto e, sob a mesa, pousou a mão sobre a dela. — Ele acenou para você. Foi da época em que você trabalhava no hotel? — perguntou, num tom tranquilo, embora a curiosidade estivesse evidente. Amanda apertou levemente os dedos dele. — Sim. Ana Bela pediu que ele viesse hoje. Depois do almoço, fui com ela conversar com ele. A lembrança daquele encontro ainda estava fresca em sua memória. Pouco depois, Ernani se aproximou. Com elegância, cumprimentou Amanda com um beijo respeitoso na mão. — Obrigado por ter me ouvido naquele momento tão difícil da minha vida — disse ele, com sinceridade. — Não precisa agradecer. Fico feliz que esteja aqui — respondeu Amanda. Ana Bela, ao lado dos dois, logo começou a falar sobre o café servido no evento e sobre as crianças atendidas pela fundação. Explicou que a presença de Ernani po
Na tarde seguinte, Enzo foi até o presídio acompanhado de um advogado. O ambiente era frio e silencioso, interrompido apenas pelo som metálico dos portões se abrindo e fechando e pelo eco dos passos dos agentes no corredor de concreto. Quando Aida entrou na sala de visitas, usando o uniforme da prisão, seus olhos cansados se iluminaram ao vê-lo. — Não acredito... Você voltou... e ainda trouxe um advogado. — disse, aproximando-se rapidamente. Por impulso, ela o abraçou. — Senhora, afaste-se. Sem contato físico. — advertiu um policial, em tom firme. Aida soltou Enzo e deu um passo para trás, abaixando a cabeça. — Eu não podia deixar você passar por isso sozinha. — respondeu Enzo, olhando-a com preocupação. O advogado pediu alguns minutos para conversar apenas com ela. Enzo concordou e saiu da sala. Assim que ficaram a sós, o advogado abriu uma pasta repleta de documentos. — Já analisei o seu caso com base nas informações que o Enzo me passou. Existe uma estratégia de defesa que
Ana Bela foi visitar Amanda naquela tarde de sexta-feira. O céu estava claro, e uma brisa suave entrava pelas janelas do apartamento, espalhando o aroma acolhedor de café recém-passado. Assim que a campainha tocou, Amanda correu para abrir a porta. — Finalmente veio me visitar no meu apartamento! — disse ela com um sorriso radiante, envolvendo a amiga em um abraço caloroso. — É verdade. Estava lhe devendo essa visita. E também queria lhe contar uma coisa antes que você descubra por alguma revista de fofocas. — respondeu Ana Bela, retribuindo o abraço. Amanda arqueou uma sobrancelha, curiosa. — Agora você me deixou intrigada. O que aconteceu? Ao entrar, Ana Bela sentiu o ambiente aconchegante. Sobre a bancada da cozinha havia uma cesta com pães ainda mornos, e o cheiro do café fresco tornava tudo ainda mais convidativo. — Primeiro venha tomar café comigo. Sente-se aqui. — convidou Amanda, puxando uma das cadeiras da bancada. Ana Bela sentou-se enquanto Amanda servia duas xícara
Naquela manhã, Amanda chegou à empresa mais cedo do que o habitual. A luz suave do sol atravessava as janelas de vidro do edifício, iluminando as mesas ainda silenciosas. Em suas mãos estava uma pasta organizada com todo o material que havia reunido nos últimos dias. Ao seu lado, Andrea observava os documentos espalhados sobre a mesa da sala de reuniões. — Como você conseguiu descobrir tudo isso? — perguntou, impressionada. Amanda fechou a pasta e respirou fundo. — Com a ajuda de um antigo amigo da escola. Hoje ela vai responder por tudo o que fez. Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios. Andrea balançou a cabeça em admiração. — Eu sabia que você não deixaria isso passar. Amanda sorriu, mas sua atenção foi desviada para Gabriel, que cruzava o corredor do outro lado do vidro. Por um instante, seu coração apertou. — "A única coisa que ainda me incomoda é o jeito estranho dele nos últimos dias..." — pensou. — "Tentei explicar que Jonas estava me ajudando na investigação, m
Alguns dias depois do casamento, Rubens decidiu visitar Otávio. A tarde estava agradável. O céu azul era cortado por algumas nuvens brancas, e uma brisa suave balançava as copas das árvores da praça próxima ao condomínio. Depois de tomarem um café rápido, os dois resolveram caminhar pelas alamedas arborizadas do bairro. Por alguns minutos, conversaram sobre trabalho e assuntos triviais. Mas Rubens parecia distraído. As mãos estavam nos bolsos e seu olhar permanecia perdido à frente. Otávio percebeu. — Como está a Cristina? — perguntou. — Fiquei assustado quando a vi passando mal na igreja. Rubens soltou um longo suspiro. — É justamente sobre isso que eu queria falar. Otávio arqueou uma sobrancelha. — Hum... — Eu não queria filhos. — Rubens passou a mão pelos cabelos. — Para ser sincero, essa ideia nunca passou pela minha cabeça. E agora a Cristina está grávida. Otávio permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Ah. — "Ah?" É só isso que tem para dizer? Otávio deu um
Tudo estava pronto para a cerimônia. A igreja parecia saída de um sonho. Arranjos de lírios brancos adornavam o corredor central, espalhando um perfume suave pelo ambiente. Centenas de pequenas velas iluminavam discretamente o altar, enquanto a luz colorida dos vitrais desenhava reflexos sobre os bancos ocupados pelos convidados. No altar, Rubens aguardava. Vestido com um elegante terno escuro, mantinha as mãos unidas à frente do corpo, tentando esconder o nervosismo. O coração batia forte dentro do peito. Ao seu lado, o padre organizava os últimos detalhes da cerimônia. Josefa ocupava um dos primeiros lugares. Ao observar a igreja lotada e o altar decorado, uma lágrima silenciosa escorreu por seu rosto. A marcha nupcial começou. Todos se levantaram. Cristina surgiu na entrada da igreja. Por um instante, o mundo pareceu parar. O vestido branco caía com elegância sobre seu corpo, o véu delicado acompanhava seus passos e a coroa brilhava suavemente sob a luz dos lustres. Enqu







