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Cristina Cap 5

Author: Vanessa Kely
last update publish date: 2026-01-14 08:14:24

Na manhã seguinte, Rubens ainda dormia quando ouviu a porta do quarto se abrir com cuidado. Antes mesmo de sentir o toque, o perfume cítrico anunciou a presença dela — fresco, marcante, impossível de ignorar.

Cristina aproximou-se da cama e o acordou com beijos leves na bochecha, quase carinhos ensaiados.

— O que é isso, Cristina? — murmurou ele, abrindo os olhos com esforço, a voz ainda rouca de sono. — Precisava me acordar tão cedo?

Ela riu, sentando-se na beira da cama, confortável demais para quem se sentia dona daquele espaço.

— São oito e meia — respondeu, sorridente. — Eu não aguentava mais de saudade de você.

A luz da manhã entrava filtrada pelas cortinas claras, iluminando Cristina. Os cabelos longos caíam em cachos pequenos e definidos sobre os ombros, os olhos verdes expressivos acompanhavam cada reação dele, e as sobrancelhas grossas marcavam seu rosto bonito. Vestia um macacão azul-marinho que realçava sua elegância natural — o tipo de presença que se impunha sem esforço.

Rubens inclinou-se e lhe deu um beijo rápido na bochecha. Cristina era linda, disso ele nunca duvidara. Havia atração, sim — talvez fosse justamente isso que o mantinha ali, mesmo sabendo que aquele relacionamento vinha carregado de expectativas que ele não sabia se podia cumprir.

Cristina, por sua vez, conhecia bem o espírito inquieto de Rubens. Sabia das ausências, das outras mulheres, dos silêncios. Ainda assim, sustentava a convicção firme de que ocupava o lugar oficial — e que, cedo ou tarde, aquilo se transformaria em casamento. Era nisso que acreditava. Era nisso que insistia.

— Vou descer enquanto você se arruma — disse ela, inclinando-se perto do ouvido dele, a voz doce, quase íntima demais. — A gente se encontra lá embaixo.

Na sala de jantar, a manhã se impunha clara e viva. A luz entrava ampla pelas janelas, refletindo nas porcelanas claras e nos copos de vidro reluzentes. O cheiro de café fresco, pães quentes e frutas cortadas preenchia o ambiente com uma sensação de rotina bem estabelecida.

Josefa estava sentada à mesa, os cabelos curtos tingidos de vermelho contrastando com o vestido branco rendado e os sapatos bege. Ao lado dela, Vitória — impecável como sempre — tomava seu suco de laranja com postura elegante. As duas conversavam animadas, trocando olhares cúmplices.

— Então… como foi o reencontro? — perguntou Vitória, com um sorriso carregado de expectativa.

— Maravilhoso, tia — respondeu Cristina, sentando-se à mesa. — Rubens só reclamou do horário… estava um pouco rabugento.

Pouco depois, Rubens se juntou a elas. Cumprimentou as duas, serviu-se do café e tentou acompanhar a conversa, ainda que sua mente insistisse em escapar para outros lugares.

Josefa foi a primeira a sugerir:

— Que tal o parque botânico? O dia está lindo.

Vitória se animou na hora. As duas senhoras pareciam satisfeitas, como se cada gesto daquele passeio empurrasse discretamente o relacionamento na direção que desejavam.

No caminho, porém, Rubens e Cristina se afastaram do grupo, prometendo reencontrá-las mais tarde.

O parque era amplo, verde, com árvores altas formando sombras frescas. O canto distante dos pássaros e o som suave da água criavam uma atmosfera quase romântica. Cristina segurava a mão dele enquanto caminhavam, mas não deixou de notar: em alguns momentos, Rubens parecia distante — o olhar perdido, a atenção dispersa, como se estivesse em outro lugar.

Ela parou de repente, puxando-o suavemente para debaixo de uma árvore frondosa, e o beijou demoradamente. Um beijo que misturava desejo e afirmação.

— Às vezes parece que sua cabeça está longe — disse depois, sorrindo, mas com algo de alerta na voz. — Quero que ela fique aqui… comigo.

Rubens apenas assentiu, sem responder de imediato.

Naquela mesma noite, Amanda estava na casa de Ana Bela. Ficaria ali até o dia seguinte.

As duas estavam sentadas na sala, pernas esticadas no sofá, fazendo as unhas uma da outra. O cheiro forte do esmalte se misturava ao som baixo da televisão ligada ao fundo. O ambiente era simples, íntimo, confortável — um contraste absoluto com os espaços onde Amanda estivera nos últimos dias.

Ana Bela parecia mais quieta do que o habitual.

— Otávio voltou para a capital — comentou, enquanto Amanda passava o esmalte vermelho com cuidado. — Disse que em breve vai me buscar para apresentar à família… mas estou com medo, sabe?

Havia entusiasmo em sua voz, mas também uma insegurança difícil de esconder.

— Ele já ligou hoje? — perguntou Amanda, concentrada na precisão do pincel.

— Sim. Conversamos por um bom tempo — respondeu Ana Bela, sorrindo de lado, com um brilho tímido no olhar.

Depois de alguns segundos de silêncio, ela perguntou:

— E o Rubens? Ele ligou?

Amanda balançou a cabeça.

— Não… — respondeu. — Mas espero que ele se lembre da ajuda que me prometeu, sobre o emprego.

Ana Bela arqueou a sobrancelha, desconfiada.

— É só isso mesmo que você espera?

Amanda suspirou, aplicando a última camada de esmalte com cuidado.

— É sim. Não invente coisas. O que tive com ele foi bom… mas Rubens não me prometeu compromisso algum. Então, não temos nada.

Ainda assim, enquanto observava o esmalte secar lentamente, a lembrança da última noite juntos insistia em permanecer — silenciosa, quente, difícil de ignorar.

E Amanda percebeu que algumas histórias continuam ecoando mesmo quando a gente tenta convencê-las de que já acabaram.

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