INICIAR SESIÓNNaquela semana, Amanda seguiu estudando, repetindo para si mesma que aquele seria seu último mês na Praia das Conchas.
Entre apostilas abertas, anotações rabiscadas à margem e o som constante do mar entrando pela janela, sentia-se em suspensão — como se estivesse entre o que fora e o que ainda não tinha coragem de se tornar. Havia dias em que a ideia da partida a animava; em outros, pesava como uma despedida antecipada. Estava se permitindo envolver com Rubens, dizia a si mesma. Nos últimos dias, haviam dividido momentos simples: passeios de prancha, caminhadas pelo centro antigo, risadas espontâneas diante de coisas pequenas. Ela lhe mostrara a cidade com olhos de despedida, consciente de que ele partiria na manhã seguinte. No fim de semana, enquanto a tarde se acomodava lentamente e o céu começava a se tingir de dourado e laranja, o telefone tocou. Era Rubens. Haveria uma festa na praia naquela noite. Ele a convidava. — Sim… eu posso — respondeu ele do outro lado da linha, a voz baixa, quase íntima. — Meu co-capitão vai me cobrir. Eu… queria ficar com você mais um pouco. Amanda desligou sentindo o peito aquecer, um calor silencioso, inesperado. Escolheu um vestido rosa, estampado com flores vermelhas, leve o suficiente para dançar com o vento. Prendeu o cabelo de lado com uma presilha dourada e calçou um tamanco alto. Ao se olhar no espelho, não sorriu — mas também não se diminuiu. Estava ali. Inteira. A festa pulsava quando chegou. Música alta, risadas soltas, o cheiro de bebida misturado à maresia e ao sal da pele aquecida pelo dia. Luzes improvisadas refletiam na areia, e o mar, logo ali, parecia observar tudo em silêncio. Rubens a recebeu com um sorriso aberto, ofereceu-lhe um drink e depositou um beijo breve em sua bochecha. — Está linda — disse, com uma sinceridade que não parecia ensaiada. — Você também — respondeu Amanda, notando como ele parecia à vontade, vestindo uma camisa verde clara e calça branca, iluminado pela lua refletida no mar. Sentaram-se em um quiosque de madeira. Rubens pediu peixe e cerveja para os dois. O cheiro do prato quente misturava-se ao vento salgado, criando uma sensação estranhamente acolhedora. — Vejo que consegui te fazer um pouco mais feliz nesses dias — comentou ele, servindo a bebida. — Sim… — Amanda segurou o copo com cuidado. — Vou sentir saudades. Rubens bebeu um gole antes de responder. — É uma pena você ir embora. Com você aqui, eu teria um motivo a mais para voltar sempre. — Fez uma pausa curta. — Mas isso soa egoísta, não é? Amanda inclinou a cabeça, lançando-lhe um olhar que dizia que entendia mais do que ele imaginava. — Sei… — murmurou. — Ei, não me condene — disse ele, rindo baixo, quase cúmplice. Ela provou o peixe, sentindo o sabor simples e reconfortante. — Se precisar de ajuda — continuou Rubens — posso falar com algumas pessoas, tentar te arrumar um emprego. Só se quiser. — Eu aceito — respondeu sem hesitar. — Nunca recusaria ajuda. Sorriu. Algo mudou no olhar dele. Rubens tocou a mão de Amanda com cuidado, como quem pede permissão antes de atravessar uma linha invisível. — Você fica ainda mais bonita quando sorri — disse. — Você tem me ajudado a lembrar como é se sentir assim — respondeu ela, sustentando o olhar. Depois da refeição, ele a convidou para dançar. A música tinha uma batida latina envolvente. Amanda deixou o corpo acompanhar o ritmo, os movimentos soltos, naturais. Rubens a observava, encantado, sentindo a distância entre eles diminuir a cada passo. A tensão cresceu devagar, densa, silenciosa. — Amanda… — ele se aproximou. Ela sentiu o hálito dele próximo ao pescoço, o arrepio percorrendo-lhe a pele. — Quer ir comigo para um lugar mais reservado? — perguntou, em tom baixo. Amanda não se sentia assim havia muito tempo. Olhou-o por um instante, como quem mede o próprio desejo — e assentiu, em silêncio. Rubens a conduziu até o navio. A suíte era ampla, silenciosa, embalada apenas pelo balanço suave do mar. A porta se fechou atrás deles. O mundo lá fora deixou de importar. E naquela noite, Amanda permitiu-se esquecer o peso dos últimos dias — entregando-se ao que o momento lhe oferecia, sem promessas, sem culpa, apenas presença. Rubens chegou em casa já noite fechada. As luzes quentes da sala estavam acesas, projetando sombras suaves pelas paredes, e o cheiro do jantar espalhava-se pelo corredor — alho refogado, ervas, algo reconfortante demais para quem não se sentia em paz. Aquele aroma trazia uma sensação contraditória: acolhimento… e cobrança. Vitória foi a primeira a recebê-lo. Aproximou-se com passos decididos e o envolveu num abraço demorado, apertado demais para ser apenas carinho. — Seja bem-vindo, meu amor. Ela estava impecável como sempre. Os cabelos loiros alinhados sem um fio fora do lugar, os olhos verdes atentos, avaliando-o enquanto fingia naturalidade. Vestia uma blusa branca de tecido leve e uma saia nude que reforçava sua postura elegante, quase austera. Armando surgiu logo atrás e lhe deu um abraço firme, silencioso. Um gesto contido, típico de quem expressava afeto sem excessos. — E o Gabriel? — perguntou Rubens, afrouxando o nó da camisa, como se o tecido o sufocasse. — Ainda está na empresa — respondeu Armando. — Deve chegar a qualquer momento. Vitória suspirou e sentou-se no sofá ao lado do filho, cruzando as pernas com cuidado. — Cristina ligou hoje — comentou, num tom casual demais para ser inocente. — Está ansiosa pela sua volta. Rubens sentiu um incômodo crescer no peito, um aperto que não vinha do cansaço. — Mãe… não é bem assim. Eu não estou noivo da Cristina. Vitória arqueou uma sobrancelha, surpresa e claramente contrariada. — Como não está? — retrucou. — Antes de viajar você disse que ia levar o compromisso mais a sério. Falou até em dar o próximo passo. Rubens abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo som da porta se abrindo. Gabriel entrou ainda de terno preto, a pasta de trabalho pendurada no braço. Tinha os cabelos negros e os olhos castanhos herdados do pai, além daquele sorriso enviesado que misturava ironia e provocação. — Aposto que vai enrolar a Cristina por mais um bom tempo — disse, largando a pasta sobre a mesa. — Se não voltou dessa viagem com alguma história mal resolvida. Rubens fechou a expressão. — Já chegou procurando briga, como sempre. — Só estou sendo sincero — respondeu Gabriel, com leve diversão. — Chega — interveio Armando, a voz firme, cortando o clima. — Gabriel, vá se arrumar. O jantar está quase pronto. Hoje vamos comer em família. Gabriel obedeceu, ainda com um sorriso provocador nos lábios, desaparecendo pelo corredor. Vitória voltou-se novamente para Rubens, agora observando-o com atenção silenciosa, como quem tenta decifrar algo que não foi dito. — E então? — perguntou. — Como foi a viagem? Rubens hesitou. Pensou no mar à noite, no cheiro da maresia, na música distante da festa, no riso contido de Amanda, no jeito como ela o olhava sem exigir promessas. Pensou na leveza que sentira — e no silêncio confortável que compartilhavam. Percebeu, naquele instante, que nada daquilo caberia naquela sala impecável, entre jantares bem servidos e expectativas antigas. — Foi… boa — respondeu por fim, com um meio sorriso contido. Vitória assentiu, embora não parecesse convencida. Rubens desviou o olhar. E, pela primeira vez desde que chegara, sentiu falta da simplicidade de um lugar onde não precisava explicar quem era — apenas sentir.Amanda reconheceu Ernani em uma das mesas mais à frente. Assim que seus olhares se encontraram, ele fez um discreto aceno com a cabeça. Gabriel percebeu o gesto e, sob a mesa, pousou a mão sobre a dela. — Ele acenou para você. Foi da época em que você trabalhava no hotel? — perguntou, num tom tranquilo, embora a curiosidade estivesse evidente. Amanda apertou levemente os dedos dele. — Sim. Ana Bela pediu que ele viesse hoje. Depois do almoço, fui com ela conversar com ele. A lembrança daquele encontro ainda estava fresca em sua memória. Pouco depois, Ernani se aproximou. Com elegância, cumprimentou Amanda com um beijo respeitoso na mão. — Obrigado por ter me ouvido naquele momento tão difícil da minha vida — disse ele, com sinceridade. — Não precisa agradecer. Fico feliz que esteja aqui — respondeu Amanda. Ana Bela, ao lado dos dois, logo começou a falar sobre o café servido no evento e sobre as crianças atendidas pela fundação. Explicou que a presença de Ernani po
Na tarde seguinte, Enzo foi até o presídio acompanhado de um advogado. O ambiente era frio e silencioso, interrompido apenas pelo som metálico dos portões se abrindo e fechando e pelo eco dos passos dos agentes no corredor de concreto. Quando Aida entrou na sala de visitas, usando o uniforme da prisão, seus olhos cansados se iluminaram ao vê-lo. — Não acredito... Você voltou... e ainda trouxe um advogado. — disse, aproximando-se rapidamente. Por impulso, ela o abraçou. — Senhora, afaste-se. Sem contato físico. — advertiu um policial, em tom firme. Aida soltou Enzo e deu um passo para trás, abaixando a cabeça. — Eu não podia deixar você passar por isso sozinha. — respondeu Enzo, olhando-a com preocupação. O advogado pediu alguns minutos para conversar apenas com ela. Enzo concordou e saiu da sala. Assim que ficaram a sós, o advogado abriu uma pasta repleta de documentos. — Já analisei o seu caso com base nas informações que o Enzo me passou. Existe uma estratégia de defesa que
Ana Bela foi visitar Amanda naquela tarde de sexta-feira. O céu estava claro, e uma brisa suave entrava pelas janelas do apartamento, espalhando o aroma acolhedor de café recém-passado. Assim que a campainha tocou, Amanda correu para abrir a porta. — Finalmente veio me visitar no meu apartamento! — disse ela com um sorriso radiante, envolvendo a amiga em um abraço caloroso. — É verdade. Estava lhe devendo essa visita. E também queria lhe contar uma coisa antes que você descubra por alguma revista de fofocas. — respondeu Ana Bela, retribuindo o abraço. Amanda arqueou uma sobrancelha, curiosa. — Agora você me deixou intrigada. O que aconteceu? Ao entrar, Ana Bela sentiu o ambiente aconchegante. Sobre a bancada da cozinha havia uma cesta com pães ainda mornos, e o cheiro do café fresco tornava tudo ainda mais convidativo. — Primeiro venha tomar café comigo. Sente-se aqui. — convidou Amanda, puxando uma das cadeiras da bancada. Ana Bela sentou-se enquanto Amanda servia duas xícara
Naquela manhã, Amanda chegou à empresa mais cedo do que o habitual. A luz suave do sol atravessava as janelas de vidro do edifício, iluminando as mesas ainda silenciosas. Em suas mãos estava uma pasta organizada com todo o material que havia reunido nos últimos dias. Ao seu lado, Andrea observava os documentos espalhados sobre a mesa da sala de reuniões. — Como você conseguiu descobrir tudo isso? — perguntou, impressionada. Amanda fechou a pasta e respirou fundo. — Com a ajuda de um antigo amigo da escola. Hoje ela vai responder por tudo o que fez. Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios. Andrea balançou a cabeça em admiração. — Eu sabia que você não deixaria isso passar. Amanda sorriu, mas sua atenção foi desviada para Gabriel, que cruzava o corredor do outro lado do vidro. Por um instante, seu coração apertou. — "A única coisa que ainda me incomoda é o jeito estranho dele nos últimos dias..." — pensou. — "Tentei explicar que Jonas estava me ajudando na investigação, m
Alguns dias depois do casamento, Rubens decidiu visitar Otávio. A tarde estava agradável. O céu azul era cortado por algumas nuvens brancas, e uma brisa suave balançava as copas das árvores da praça próxima ao condomínio. Depois de tomarem um café rápido, os dois resolveram caminhar pelas alamedas arborizadas do bairro. Por alguns minutos, conversaram sobre trabalho e assuntos triviais. Mas Rubens parecia distraído. As mãos estavam nos bolsos e seu olhar permanecia perdido à frente. Otávio percebeu. — Como está a Cristina? — perguntou. — Fiquei assustado quando a vi passando mal na igreja. Rubens soltou um longo suspiro. — É justamente sobre isso que eu queria falar. Otávio arqueou uma sobrancelha. — Hum... — Eu não queria filhos. — Rubens passou a mão pelos cabelos. — Para ser sincero, essa ideia nunca passou pela minha cabeça. E agora a Cristina está grávida. Otávio permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Ah. — "Ah?" É só isso que tem para dizer? Otávio deu um
Tudo estava pronto para a cerimônia. A igreja parecia saída de um sonho. Arranjos de lírios brancos adornavam o corredor central, espalhando um perfume suave pelo ambiente. Centenas de pequenas velas iluminavam discretamente o altar, enquanto a luz colorida dos vitrais desenhava reflexos sobre os bancos ocupados pelos convidados. No altar, Rubens aguardava. Vestido com um elegante terno escuro, mantinha as mãos unidas à frente do corpo, tentando esconder o nervosismo. O coração batia forte dentro do peito. Ao seu lado, o padre organizava os últimos detalhes da cerimônia. Josefa ocupava um dos primeiros lugares. Ao observar a igreja lotada e o altar decorado, uma lágrima silenciosa escorreu por seu rosto. A marcha nupcial começou. Todos se levantaram. Cristina surgiu na entrada da igreja. Por um instante, o mundo pareceu parar. O vestido branco caía com elegância sobre seu corpo, o véu delicado acompanhava seus passos e a coroa brilhava suavemente sob a luz dos lustres. Enqu







