INICIAR SESIÓNHoras depois, de volta ao hotel, o cheiro conhecido dos produtos de limpeza e o som abafado dos carrinhos de serviço pelos corredores não trouxeram o conforto habitual. Tudo parecia deslocado. Quando seu chefe pediu que fosse até a sala administrativa, o coração de Amanda já pressentia que algo estava errado.
O senhor Gusman estava sentado atrás da mesa. A fotografia da família — a esposa sorridente e os filhos alinhados em roupas claras — contrastava com o clima pesado que pairava no ar. Ele ajeitou alguns papéis, demorando mais do que o necessário, evitando encará-la. — Amanda… — começou, respirando fundo. — Eu sinto muito. Recebi ordens para encerrar o seu contrato. As palavras caíram como um golpe seco. O peito dela se apertou, como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. — Por quê? — a voz saiu trêmula. — Eu… eu faço o meu trabalho perfeitamente, senhor. Nunca tive reclamações. — Eu disse exatamente isso — respondeu ele, em tom baixo. — Mas a decisão veio de cima. Não está mais nas minhas mãos. Amanda assentiu, tentando manter a postura. Os olhos marejados ardiam, mas ela se recusava a chorar ali. Assinou os papéis com a mão levemente trêmula, sentindo o peso da injustiça escorrer pela ponta da caneta. Saiu da sala em silêncio e se refugiou no banheiro dos funcionários. Ali, o eco do ambiente vazio amplificava seus pensamentos. O som distante da água pingando parecia marcar o tempo. Tudo se acumulava dentro dela: a dor recente, a humilhação, a perda do trabalho, a sensação de estar sendo esmagada por forças que não podia controlar. Lavou o rosto e encarou o próprio reflexo no espelho grande, tentando se recompor. O rosto pálido, os olhos vermelhos, a expressão de quem havia sido ferida sem aviso. Foi então que Solange entrou apressada. — Amanda… que situação horrível — disse, hesitante. — Eu… encontrei isso na recepção hoje cedo. É pra você. O envelope já estava aberto. Amanda percebeu, mas não comentou. Pegou o bilhete e leu. As palavras eram venenosas. Calculadas para ferir. A injustiça queimava mais do que a demissão. — Ordinária… — murmurou, amassando o papel com raiva contida. Solange se assustou com a mudança repentina no tom e preferiu não insistir. Pouco depois, Amanda foi até o armário, guardou seus pertences e se preparou para ir embora. Cada objeto colocado na bolsa parecia selar um fim que não havia escolhido. No corredor, encontrou Ana Bela correndo em sua direção. — Eu não acredito… ficar sem você aqui — disse, abraçando-a com força, o choro escorrendo sem pudor. — Obrigada — respondeu Amanda, com a voz embargada, segurando-se nela por um instante a mais. Outros funcionários se aproximaram. Alguns em silêncio, outros com palavras tímidas de apoio. Todos queriam saber o motivo. Amanda, reservada, não disse muito. Mas dentro de si, tinha certeza: havia o dedo de Larissa em tudo aquilo. À noite, o telefone tocou, rasgando o silêncio da casa como um sobressalto. Amanda estremeceu antes mesmo de atender. Era Ana Bela. — Vem espairecer um pouco comigo — insistiu a amiga, com a voz animada, mas preocupada. — O Otávio me convidou pra sair. Lembra que te convidei de manhã? O navio vai zarpar daqui a pouco. Amanda caminhou até a janela enquanto ouvia. A rua estava quase vazia, iluminada por poucos postes que lançavam sombras longas no asfalto. O ar noturno entrava frio pelas frestas. Um arrepio lhe percorreu a espinha — não de medo, mas de um incômodo difícil de explicar, como se estivesse deslocada do próprio dia. Olhou em volta, instintivamente, mas não havia ninguém. — Acho que não estou no clima… — respondeu, enrolando distraidamente o fio do telefone no dedo. — É tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo. — Justamente por isso você precisa sair — rebateu Ana Bela, agora mais firme. — Ficar sozinha agora não vai te fazer bem. Confia em mim. Amanda fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, sentindo o peso do dia ainda pressionar o peito. A demissão, o bilhete, a sensação de injustiça… tudo ainda doía. Mas ficar ali, parada, parecia pior. Depois de alguns segundos, cedeu. — Tá bem… eu vou. Desligou e ficou alguns instantes parada, como se estivesse assimilando a própria decisão. Escolheu um vestido azul de alças finas, leve, que acompanhava o movimento do corpo com suavidade, quase como se flutuasse. Prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando alguns fios escaparem de propósito, emoldurando o rosto. Ao se olhar no espelho, percebeu algo diferente — não estava feliz, mas parecia mais inteira, menos esmagada. Enquanto se arrumava, pensou que talvez aquela fosse uma oportunidade rara: entrar em um navio turístico não como funcionária apressada ou invisível, mas como passageira. Como alguém que podia, ao menos por algumas horas, simplesmente existir. Pegou a bolsa, apagou a luz e fechou a porta atrás de si. O som seco da fechadura ecoou pela casa vazia, marcando o início de algo novo — ainda incerto, mas inevitável.Amanda reconheceu Ernani em uma das mesas mais à frente. Assim que seus olhares se encontraram, ele fez um discreto aceno com a cabeça. Gabriel percebeu o gesto e, sob a mesa, pousou a mão sobre a dela. — Ele acenou para você. Foi da época em que você trabalhava no hotel? — perguntou, num tom tranquilo, embora a curiosidade estivesse evidente. Amanda apertou levemente os dedos dele. — Sim. Ana Bela pediu que ele viesse hoje. Depois do almoço, fui com ela conversar com ele. A lembrança daquele encontro ainda estava fresca em sua memória. Pouco depois, Ernani se aproximou. Com elegância, cumprimentou Amanda com um beijo respeitoso na mão. — Obrigado por ter me ouvido naquele momento tão difícil da minha vida — disse ele, com sinceridade. — Não precisa agradecer. Fico feliz que esteja aqui — respondeu Amanda. Ana Bela, ao lado dos dois, logo começou a falar sobre o café servido no evento e sobre as crianças atendidas pela fundação. Explicou que a presença de Ernani po
Na tarde seguinte, Enzo foi até o presídio acompanhado de um advogado. O ambiente era frio e silencioso, interrompido apenas pelo som metálico dos portões se abrindo e fechando e pelo eco dos passos dos agentes no corredor de concreto. Quando Aida entrou na sala de visitas, usando o uniforme da prisão, seus olhos cansados se iluminaram ao vê-lo. — Não acredito... Você voltou... e ainda trouxe um advogado. — disse, aproximando-se rapidamente. Por impulso, ela o abraçou. — Senhora, afaste-se. Sem contato físico. — advertiu um policial, em tom firme. Aida soltou Enzo e deu um passo para trás, abaixando a cabeça. — Eu não podia deixar você passar por isso sozinha. — respondeu Enzo, olhando-a com preocupação. O advogado pediu alguns minutos para conversar apenas com ela. Enzo concordou e saiu da sala. Assim que ficaram a sós, o advogado abriu uma pasta repleta de documentos. — Já analisei o seu caso com base nas informações que o Enzo me passou. Existe uma estratégia de defesa que
Ana Bela foi visitar Amanda naquela tarde de sexta-feira. O céu estava claro, e uma brisa suave entrava pelas janelas do apartamento, espalhando o aroma acolhedor de café recém-passado. Assim que a campainha tocou, Amanda correu para abrir a porta. — Finalmente veio me visitar no meu apartamento! — disse ela com um sorriso radiante, envolvendo a amiga em um abraço caloroso. — É verdade. Estava lhe devendo essa visita. E também queria lhe contar uma coisa antes que você descubra por alguma revista de fofocas. — respondeu Ana Bela, retribuindo o abraço. Amanda arqueou uma sobrancelha, curiosa. — Agora você me deixou intrigada. O que aconteceu? Ao entrar, Ana Bela sentiu o ambiente aconchegante. Sobre a bancada da cozinha havia uma cesta com pães ainda mornos, e o cheiro do café fresco tornava tudo ainda mais convidativo. — Primeiro venha tomar café comigo. Sente-se aqui. — convidou Amanda, puxando uma das cadeiras da bancada. Ana Bela sentou-se enquanto Amanda servia duas xícara
Naquela manhã, Amanda chegou à empresa mais cedo do que o habitual. A luz suave do sol atravessava as janelas de vidro do edifício, iluminando as mesas ainda silenciosas. Em suas mãos estava uma pasta organizada com todo o material que havia reunido nos últimos dias. Ao seu lado, Andrea observava os documentos espalhados sobre a mesa da sala de reuniões. — Como você conseguiu descobrir tudo isso? — perguntou, impressionada. Amanda fechou a pasta e respirou fundo. — Com a ajuda de um antigo amigo da escola. Hoje ela vai responder por tudo o que fez. Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios. Andrea balançou a cabeça em admiração. — Eu sabia que você não deixaria isso passar. Amanda sorriu, mas sua atenção foi desviada para Gabriel, que cruzava o corredor do outro lado do vidro. Por um instante, seu coração apertou. — "A única coisa que ainda me incomoda é o jeito estranho dele nos últimos dias..." — pensou. — "Tentei explicar que Jonas estava me ajudando na investigação, m
Alguns dias depois do casamento, Rubens decidiu visitar Otávio. A tarde estava agradável. O céu azul era cortado por algumas nuvens brancas, e uma brisa suave balançava as copas das árvores da praça próxima ao condomínio. Depois de tomarem um café rápido, os dois resolveram caminhar pelas alamedas arborizadas do bairro. Por alguns minutos, conversaram sobre trabalho e assuntos triviais. Mas Rubens parecia distraído. As mãos estavam nos bolsos e seu olhar permanecia perdido à frente. Otávio percebeu. — Como está a Cristina? — perguntou. — Fiquei assustado quando a vi passando mal na igreja. Rubens soltou um longo suspiro. — É justamente sobre isso que eu queria falar. Otávio arqueou uma sobrancelha. — Hum... — Eu não queria filhos. — Rubens passou a mão pelos cabelos. — Para ser sincero, essa ideia nunca passou pela minha cabeça. E agora a Cristina está grávida. Otávio permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Ah. — "Ah?" É só isso que tem para dizer? Otávio deu um
Tudo estava pronto para a cerimônia. A igreja parecia saída de um sonho. Arranjos de lírios brancos adornavam o corredor central, espalhando um perfume suave pelo ambiente. Centenas de pequenas velas iluminavam discretamente o altar, enquanto a luz colorida dos vitrais desenhava reflexos sobre os bancos ocupados pelos convidados. No altar, Rubens aguardava. Vestido com um elegante terno escuro, mantinha as mãos unidas à frente do corpo, tentando esconder o nervosismo. O coração batia forte dentro do peito. Ao seu lado, o padre organizava os últimos detalhes da cerimônia. Josefa ocupava um dos primeiros lugares. Ao observar a igreja lotada e o altar decorado, uma lágrima silenciosa escorreu por seu rosto. A marcha nupcial começou. Todos se levantaram. Cristina surgiu na entrada da igreja. Por um instante, o mundo pareceu parar. O vestido branco caía com elegância sobre seu corpo, o véu delicado acompanhava seus passos e a coroa brilhava suavemente sob a luz dos lustres. Enqu







