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Perca do emprego Cap 2

last update Fecha de publicación: 2026-01-14 08:14:07

Horas depois, de volta ao hotel, o cheiro conhecido dos produtos de limpeza e o som abafado dos carrinhos de serviço pelos corredores não trouxeram o conforto habitual. Tudo parecia deslocado. Quando seu chefe pediu que fosse até a sala administrativa, o coração de Amanda já pressentia que algo estava errado.

O senhor Gusman estava sentado atrás da mesa. A fotografia da família — a esposa sorridente e os filhos alinhados em roupas claras — contrastava com o clima pesado que pairava no ar.

Ele ajeitou alguns papéis, demorando mais do que o necessário, evitando encará-la.

— Amanda… — começou, respirando fundo. — Eu sinto muito. Recebi ordens para encerrar o seu contrato.

As palavras caíram como um golpe seco.

O peito dela se apertou, como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões.

— Por quê? — a voz saiu trêmula. — Eu… eu faço o meu trabalho perfeitamente, senhor. Nunca tive reclamações.

— Eu disse exatamente isso — respondeu ele, em tom baixo. — Mas a decisão veio de cima. Não está mais nas minhas mãos.

Amanda assentiu, tentando manter a postura. Os olhos marejados ardiam, mas ela se recusava a chorar ali.

Assinou os papéis com a mão levemente trêmula, sentindo o peso da injustiça escorrer pela ponta da caneta. Saiu da sala em silêncio e se refugiou no banheiro dos funcionários.

Ali, o eco do ambiente vazio amplificava seus pensamentos. O som distante da água pingando parecia marcar o tempo. Tudo se acumulava dentro dela: a dor recente, a humilhação, a perda do trabalho, a sensação de estar sendo esmagada por forças que não podia controlar.

Lavou o rosto e encarou o próprio reflexo no espelho grande, tentando se recompor. O rosto pálido, os olhos vermelhos, a expressão de quem havia sido ferida sem aviso.

Foi então que Solange entrou apressada.

— Amanda… que situação horrível — disse, hesitante. — Eu… encontrei isso na recepção hoje cedo. É pra você.

O envelope já estava aberto. Amanda percebeu, mas não comentou. Pegou o bilhete e leu.

As palavras eram venenosas. Calculadas para ferir.

A injustiça queimava mais do que a demissão.

— Ordinária… — murmurou, amassando o papel com raiva contida.

Solange se assustou com a mudança repentina no tom e preferiu não insistir.

Pouco depois, Amanda foi até o armário, guardou seus pertences e se preparou para ir embora. Cada objeto colocado na bolsa parecia selar um fim que não havia escolhido.

No corredor, encontrou Ana Bela correndo em sua direção.

— Eu não acredito… ficar sem você aqui — disse, abraçando-a com força, o choro escorrendo sem pudor.

— Obrigada — respondeu Amanda, com a voz embargada, segurando-se nela por um instante a mais.

Outros funcionários se aproximaram. Alguns em silêncio, outros com palavras tímidas de apoio. Todos queriam saber o motivo.

Amanda, reservada, não disse muito. Mas dentro de si, tinha certeza: havia o dedo de Larissa em tudo aquilo.

À noite, o telefone tocou, rasgando o silêncio da casa como um sobressalto.

Amanda estremeceu antes mesmo de atender.

Era Ana Bela.

— Vem espairecer um pouco comigo — insistiu a amiga, com a voz animada, mas preocupada. — O Otávio me convidou pra sair. Lembra que te convidei de manhã? O navio vai zarpar daqui a pouco.

Amanda caminhou até a janela enquanto ouvia. A rua estava quase vazia, iluminada por poucos postes que lançavam sombras longas no asfalto. O ar noturno entrava frio pelas frestas. Um arrepio lhe percorreu a espinha — não de medo, mas de um incômodo difícil de explicar, como se estivesse deslocada do próprio dia.

Olhou em volta, instintivamente, mas não havia ninguém.

— Acho que não estou no clima… — respondeu, enrolando distraidamente o fio do telefone no dedo. — É tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo.

— Justamente por isso você precisa sair — rebateu Ana Bela, agora mais firme. — Ficar sozinha agora não vai te fazer bem. Confia em mim.

Amanda fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, sentindo o peso do dia ainda pressionar o peito. A demissão, o bilhete, a sensação de injustiça… tudo ainda doía. Mas ficar ali, parada, parecia pior.

Depois de alguns segundos, cedeu.

— Tá bem… eu vou.

Desligou e ficou alguns instantes parada, como se estivesse assimilando a própria decisão.

Escolheu um vestido azul de alças finas, leve, que acompanhava o movimento do corpo com suavidade, quase como se flutuasse. Prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando alguns fios escaparem de propósito, emoldurando o rosto. Ao se olhar no espelho, percebeu algo diferente — não estava feliz, mas parecia mais inteira, menos esmagada.

Enquanto se arrumava, pensou que talvez aquela fosse uma oportunidade rara: entrar em um navio turístico não como funcionária apressada ou invisível, mas como passageira. Como alguém que podia, ao menos por algumas horas, simplesmente existir.

Pegou a bolsa, apagou a luz e fechou a porta atrás de si.

O som seco da fechadura ecoou pela casa vazia, marcando o início de algo novo — ainda incerto, mas inevitável.

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