INICIAR SESIÓNQuando Amanda chegou ao cais, o som do mar misturava-se às vozes animadas, ao rangido das cordas e à música que escapava do interior do navio. O cheiro salgado do oceano se misturava ao perfume das pessoas que aguardavam para embarcar. Tudo parecia em movimento — água, luzes, expectativas.
— Que bom que você veio — disse Ana Bela, apertando a mão de Amanda com entusiasmo genuíno. — Esse é Otávio Fernandes. — Prazer — respondeu Amanda, sorrindo com educação, ainda absorvendo o ambiente ao redor. Ao subirem a bordo, a mudança foi imediata. Luzes quentes refletiam no piso polido, criando desenhos dourados. A música suave preenchia o ar, entrelaçando-se ao tilintar de copos e às risadas leves. Pessoas bem-vestidas circulavam pelo salão com a naturalidade de quem estava ali apenas para se divertir. Perfumes caros, tecidos finos, conversas despreocupadas — um mundo distante da realidade que Amanda conhecia. Sentaram-se à mesa, e Otávio pediu os drinks. Foi então que o estômago de Amanda se contraiu. Em outra mesa, Larissa ria ao lado de Renato, amigo de Ernani. O riso era exagerado demais, íntimo demais. Amanda sentiu o corpo enrijecer. Sempre desconfiara de algo entre os dois — e agora, ali, a suspeita ganhava forma. — Que coincidência ruim… — murmurou, quase para si mesma. — Calma — disse Ana Bela, apertando-lhe a mão por baixo da mesa. — Finja que não viu. Eu te trouxe pra relaxar, lembra? — Impossível — sussurrou Amanda, a voz carregada de amargura. — Ela me mandou um bilhete no dia em que fui demitida. Foi por causa dela que perdi o emprego. Ana Bela arregalou os olhos, indignada. — Não acredito… dá vontade de aprontar uma com essa mulher. Antes que Amanda respondesse, uma presença se impôs ao lado da mesa. Bronzeado, cabelos loiros levemente ondulados, olhos azuis de um tom intenso e calmo. Vestia camisa branca de mangas dobradas e calça bege. Havia nele uma segurança tranquila, quase silenciosa — o tipo de homem que não precisava se exibir para ser notado. — Otávio, acompanhado de duas belas damas e não me apresenta? — brincou, com um sorriso fácil. — Essa é Ana Bela — disse Otávio. — Já te falei dela. E essa é a amiga dela, Amanda. — Prazer. Sou Rubens — disse ele, olhando diretamente para Amanda. — Capitão deste navio. O sorriso dele era aberto, quase contagiante, mas havia algo atento em seu olhar, como se observasse além da superfície. — Que tal um tour especial? — sugeriu, num tom casual, como se aquilo fosse algo simples. Eles aceitaram. Rubens os conduziu até uma sala de paredes inteiramente de vidro. Do outro lado, o oceano se revelava vivo e profundo. Peixes cruzavam lentamente o espaço, refletindo as luzes azuladas que ondulavam com o movimento da água. O mundo exterior parecia distante, silencioso, quase suspenso no tempo. Amanda ficou em silêncio. O som abafado do navio, o balanço suave sob os pés, a visão hipnotizante do mar — tudo parecia dissolver, pouco a pouco, a tensão que carregava desde a manhã. — Gostou? — perguntou Rubens, aproximando-se apenas o suficiente para ser notado. — Muito — respondeu ela, com sinceridade. — O oceano é… hipnotizante. Por um instante, desviou o olhar dos peixes e encontrou o azul intenso dos olhos dele. Amanda sabia reconhecer homens como Rubens: seguros, charmosos, acostumados a atrair atenção — homens que geralmente buscavam apenas diversão. Ainda assim, manteve-se discreta e educada. Pela conversa, ficou claro que vinham de mundos diferentes. Aos vinte e oito anos, Rubens era capitão por paixão pelo mar — e também herdeiro de uma fortuna que não precisava ostentar. E talvez fosse exatamente isso que o tornava perigoso. A refeição foi servida. Sabores marítimos, peixe fresco temperado com ervas, vinho leve que descia macio pela garganta. O cheiro salgado do mar misturava-se ao aroma da comida, enquanto o balanço suave do navio embalava o ambiente como uma canção lenta. As conversas seguiam tranquilas, entre risos baixos e comentários casuais. Nada apagava completamente o peso do que acontecera naquele dia, mas havia ali um alívio — breve, necessário. Na manhã seguinte, o telefone tocou cedo, interrompendo o silêncio da casa antes mesmo de Amanda terminar o café. Era Marisa. Queria que ela a ajudasse a vender croquetes na praia. Pouco depois, Amanda vestiu uma canga branca, leve, que ondulava contra as pernas, e colocou um chapéu médio de palha, já gasto pelo sol e pelo tempo. O ar da manhã ainda estava fresco, trazendo consigo o cheiro de maresia misturado a protetor solar. O som distante das ondas se misturava às vozes dos primeiros banhistas, criando um cenário simples e familiar. — O que você pretende fazer agora, minha Amanda? — perguntou Marisa, enquanto organizava a caixa de isopor. — Ana Bela me contou da demissão… quer que eu te ajude a arrumar um emprego? O olhar dela era genuinamente preocupado. Marisa conhecera a mãe de Amanda quando ela ainda era viva. Entre as duas havia se formado um afeto antigo, quase maternal, que o tempo nunca conseguiu desfazer. — Eu ainda tenho minhas economias — respondeu Amanda, ajustando a caixa com gelo e garrafas de suco de acerola. — Penso em ir para a capital. No hotel eu vivia bem, o salário era bom… mas talvez existam oportunidades melhores. Quem sabe trabalhar num escritório. Enquanto falava, estendeu um copo gelado de suco a uma turista de sotaque estrangeiro, que sorriu agradecida. Marisa, ao lado, anunciava os croquetes ainda quentes; o cheiro da massa frita se espalhava pelo ar, atraindo olhares e passos curiosos. Elas seguiram caminhando pela faixa de areia. O sol começava a subir, aquecendo a pele, e o barulho das ondas quebrando se misturava ao riso de crianças, ao chamado dos vendedores e ao som distante de um rádio portátil tocando músicas antigas. — E o romance, filha? — perguntou Marisa, depois de um instante de silêncio. — Na sua idade, sua mãe já tinha você. Amanda demorou a responder. — Sim… — disse, por fim. — Mas desde a morte do Eduardo… eu fiquei mais fechada. Já faz dois anos, eu sei, mas é difícil esquecer. A voz falhou. Eduardo fora seu namorado por quase três anos. Trabalhava na construção civil. O acidente acontecera de forma brusca, injusta — e tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias, a demissão, as acusações, as perdas, parecia reabrir feridas que nunca cicatrizaram por completo. Os olhos de Amanda se encheram de lágrimas. — Não, minha filha… — disse Marisa, parando e segurando-lhe o braço com cuidado. — Não chore. Eu não queria te ver assim. Amanda respirou fundo. O cheiro do mar invadiu-lhe os pulmões, salgado, forte, real. Secou as lágrimas com a ponta dos dedos, sem maquiagem para borrar. — Está tudo bem — disse, mais para si mesma do que para Marisa. — Eu preciso me animar. E seguiram. No fim da manhã, o sol já estava alto, a areia quente sob os pés. Haviam vendido tudo. Marisa contou o dinheiro com calma e colocou uma parte na mão de Amanda. — Pelo trabalho — disse, com um sorriso simples, carregado de carinho. Amanda não recusou. Aquele dinheiro não era apenas pagamento — era cuidado, acolhimento, uma pequena âncora num momento em que tudo em sua vida parecia instável.A manhã na pousada do conde Um tempo depois, Gabriel despertou lentamente ao lado de Amanda. A chuva, que durante a noite havia castigado as janelas da pousada, agora caía com menos intensidade. O som das gotas escorrendo pelo telhado se misturava ao vento suave que soprava do lado de fora. Gabriel se espreguiçou, afundando por alguns instantes a cabeça no travesseiro. — Dormi muito bem aqui — comentou, com a voz ainda rouca de sono. Amanda, deitada ao lado dele, virou o rosto em sua direção. — Que bom! Eu nem tanto. Estou com um pouco de fome. Será que tem alguma coisa para comer? Gabriel sorriu ao perceber a expressão dela. — Você acorda pensando em comida? — Não é culpa minha se meu estômago resolveu acordar antes de mim! Ele soltou uma risada e se inclinou para lhe dar um beijo carinhoso na bochecha. — Vamos descer e descobrir o que esse lugar tem para oferecer. Amanda sorriu, satisfeita com a ideia. Pouco depois, os dois deixaram a cabine e seguiram pelo c
A viagem de Gabriel e Amanda corria tranquilamente até que, no meio do caminho, o céu mudou de repente. Nuvens escuras cobriram o horizonte, escondendo o azul que os acompanhava desde o início da viagem. Pouco depois, os primeiros pingos começaram a bater no para-brisa. Em questão de minutos, a chuva engrossou, transformando a estrada de chão em um caminho enlameado e escorregadio. Amanda olhou pela janela. — Está chovendo muito... Não dizia nada sobre isso na previsão do tempo. Ela pegou o celular, mas a tela continuava sem sinal. Do lado de fora, a paisagem havia desaparecido atrás da cortina de água. Gabriel manteve as duas mãos firmes no volante, diminuindo a velocidade. — Parece que essa chuva resolveu aparecer sem avisar. Os pneus derraparam levemente sobre o barro, fazendo Amanda prender a respiração. — Acho melhor a gente encontrar algum lugar para esperar. Gabriel olhou atentamente para a estrada. Então, uma lembrança lhe veio à mente. "Mais à frente...
Depois de um banho relaxante, Amanda e Gabriel estavam no sofá do apartamento, vestidos confortavelmente, enquanto a luz amarelada dos abajures deixava a sala ainda mais acolhedora. O cheiro suave do sabonete ainda pairava no ar, misturado ao perfume adocicado do ambiente. Amanda segurava o controle remoto, passando pelos filmes disponíveis na televisão. — Escolhi! — anunciou, sorrindo. — Enquanto começa a música de entrada, vou fazer a pipoca com você. Ela se levantou e o acompanhou até a cozinha. Gabriel pegou uma panela própria para pipoca e abriu o pacote de milho. Amanda, enquanto isso, encontrou um sachê de suco de morango no armário. — Que tal um suco? Tenho um de morango aqui. — Boa ideia. — Gabriel sorriu. Em poucos minutos, a cozinha estava preenchida pelo aroma quente da pipoca. O som dos grãos estourando dentro da panela fez Amanda rir, e Gabriel fingiu se assustar quando um deles bateu na tampa. Depois de preparar o suco, os dois voltaram para a sala e c
Amanda reconheceu Ernani em uma das mesas mais à frente. Assim que seus olhares se encontraram, ele fez um discreto aceno com a cabeça. Gabriel percebeu o gesto e, sob a mesa, pousou a mão sobre a dela. — Ele acenou para você. Foi da época em que você trabalhava no hotel? — perguntou, num tom tranquilo, embora a curiosidade estivesse evidente. Amanda apertou levemente os dedos dele. — Sim. Ana Bela pediu que ele viesse hoje. Depois do almoço, fui com ela conversar com ele. A lembrança daquele encontro ainda estava fresca em sua memória. Pouco depois, Ernani se aproximou. Com elegância, cumprimentou Amanda com um beijo respeitoso na mão. — Obrigado por ter me ouvido naquele momento tão difícil da minha vida — disse ele, com sinceridade. — Não precisa agradecer. Fico feliz que esteja aqui — respondeu Amanda. Ana Bela, ao lado dos dois, logo começou a falar sobre o café servido no evento e sobre as crianças atendidas pela fundação. Explicou que a presença de Ernani po
Na tarde seguinte, Enzo foi até o presídio acompanhado de um advogado. O ambiente era frio e silencioso, interrompido apenas pelo som metálico dos portões se abrindo e fechando e pelo eco dos passos dos agentes no corredor de concreto. Quando Aida entrou na sala de visitas, usando o uniforme da prisão, seus olhos cansados se iluminaram ao vê-lo. — Não acredito... Você voltou... e ainda trouxe um advogado. — disse, aproximando-se rapidamente. Por impulso, ela o abraçou. — Senhora, afaste-se. Sem contato físico. — advertiu um policial, em tom firme. Aida soltou Enzo e deu um passo para trás, abaixando a cabeça. — Eu não podia deixar você passar por isso sozinha. — respondeu Enzo, olhando-a com preocupação. O advogado pediu alguns minutos para conversar apenas com ela. Enzo concordou e saiu da sala. Assim que ficaram a sós, o advogado abriu uma pasta repleta de documentos. — Já analisei o seu caso com base nas informações que o Enzo me passou. Existe uma estratégia de defesa que
Ana Bela foi visitar Amanda naquela tarde de sexta-feira. O céu estava claro, e uma brisa suave entrava pelas janelas do apartamento, espalhando o aroma acolhedor de café recém-passado. Assim que a campainha tocou, Amanda correu para abrir a porta. — Finalmente veio me visitar no meu apartamento! — disse ela com um sorriso radiante, envolvendo a amiga em um abraço caloroso. — É verdade. Estava lhe devendo essa visita. E também queria lhe contar uma coisa antes que você descubra por alguma revista de fofocas. — respondeu Ana Bela, retribuindo o abraço. Amanda arqueou uma sobrancelha, curiosa. — Agora você me deixou intrigada. O que aconteceu? Ao entrar, Ana Bela sentiu o ambiente aconchegante. Sobre a bancada da cozinha havia uma cesta com pães ainda mornos, e o cheiro do café fresco tornava tudo ainda mais convidativo. — Primeiro venha tomar café comigo. Sente-se aqui. — convidou Amanda, puxando uma das cadeiras da bancada. Ana Bela sentou-se enquanto Amanda servia duas xícara







