LOGINHelena Cavalcanti
Absorvi as palavras de Rudá com uma atenção que talvez ele nem imaginasse. Conforme ele descrevia o restaurante, eu conseguia construir aquele lugar dentro da minha cabeça com uma facilidade que só acontecia quando alguém realmente sabia me emprestar os próprios olhos.
Não era apenas a informação de que ha
Helena Cavalcanti— Rudá, você ainda está acordado ou desmaiou? Apagou as luzes!Minha pergunta arrancou dele um silêncio tão prolongado que perguntei se já estava dormindo. Eu sabia que ele estava constrangido, e talvez fosse justamente por isso que eu estivesse me divertindo um pouco mais do que deveria.A verdade era que eu também estava constrangida. Apenas tinha encontrado na ironia uma maneira muito mais confortável de esconder aquilo. A maturidade, descobri ao longo dos anos, tinha dessas coisas: aprendíamos a disfarçar certas emoções com tanta habilidade que, às vezes, até nós mesmas conseguíamos fingir que não estavam ali. Permaneci alguns segundos em pé, tateando cuidadosamente o espaço diante
Rudá de AndradeAssim que deixei Helena sentada na cama, virei-me depressa, me convencendo de que o melhor seria simplesmente ir para o banheiro, tomar um banho frio e colocar a cabeça no lugar. Eu já estava dando alguns passos quando percebi, pelo som do tecido e do movimento dela, que Helena começara a tirar a roupa para vestir o roupão.Parei por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para perceber que aquilo era uma péssima ideia. Não deveria olhar. E, principalmente, não tinha o menor direito de destruir a confiança que ela depositava em mim. Então entrei praticamente correndo no banheiro e fechei a porta atrás de mim.— Meu Deus... me ajuda — murmurei, apoiando as duas mãos na pia.
Helena CavalcantiAbsorvi as palavras de Rudá com uma atenção que talvez ele nem imaginasse. Conforme ele descrevia o restaurante, eu conseguia construir aquele lugar dentro da minha cabeça com uma facilidade que só acontecia quando alguém realmente sabia me emprestar os próprios olhos.Não era apenas a informação de que havia uma lareira, quadros ou mesas ocupadas; era a maneira como ele escolhia cada palavra, o cuidado em explicar o tamanho das coisas, as distâncias, os sons e até aquilo que não tinha importância alguma para qualquer outra pessoa.Mais de dez anos de relacionamento com Rodrigo e, ainda assim, havia momentos em que eu sentia que Rudá conseguia me fazer experimentar uma situação nova com muito mais intensi
Rudá de AndradeQuando Helena estava pronta, decidimos ir até o restaurante da pousada. Eu já tinha tomado banho e passado alguns minutos tentando convencer a mim mesmo de que jantar com ela era apenas isso: um jantar, nada além. O problema era que, desde que tínhamos descoberto que havia apenas um quarto e uma cama naquele chalé, meu cérebro parecia ter decidido trabalhar contra mim, transformando qualquer situação banal em algo que poderia ter um contexto diferente.Quando saímos, consegui me concentrar naquilo que importava. Helena caminhava ao meu lado com uma das mãos apoiada no braço que eu lhe oferecia apenas quando necessário, e eu tive aquela sensação estranha de que estávamos vivendo alguma coisa que não deveria estar acontecendo. Talvez fosse simplesmente
Helena CavalcantiEntrei no banheiro, fechei a porta atrás de mim e, assim que percebi o calor agradável da água envolvendo meu corpo, senti todos os músculos relaxarem de uma vez. Rudá havia preparado a banheira com água morna, espuma e sais de banho, e aquela pequena gentileza me arrancou um suspiro satisfeito. Apoiei a cabeça na borda e deixei que o silêncio me envolvesse por alguns instantes.Que delícia de banho.Era exatamente o que eu precisava depois de um dia inteiro dentro de um carro, horas esperando por uma audiência que não aconteceu e uma tarde percorrendo hotéis atrás de uma vaga.Normalmente eu detestava imprevistos. Gostava de planejar meus dias, saber onde estaria, o que precisaria fazer e quanto tempo cada compromisso levaria. Mas aquele contratempo, pela primeira vez em muito tempo, não parecia tão ruim. Eu estava em uma cidade agradável, em um chalé aconchegante, com uma lareira, uma banheira e, para completar, uma companhia que eu vinha des
Rudá de AndradeSuspirei e continuei olhando ao redor, ainda encantado com aquele lugar. O chalé era simples, mas muito bonito. A madeira, os móveis, os tecidos claros, os pequenos objetos espalhados pela decoração e, principalmente, a vista que se abria para as montanhas davam ao lugar uma atmosfera cinematográfica.Eu queria que Helena pudesse experimentar aquilo o mais próximo possível da maneira como eu estava experimentando, então comecei a guiá-la pelo chalé, segurando sua mão e descrevendo cada detalhe. Fiz com que tocasse alguns objetos, expliquei as cores, os formatos e os materiais e, quando chegamos à pequena janela de madeira ao lado da lareira, coloquei seus dedos sobre a cortina delicada.— Aqui tem uma cortina bem leve, quase transparente — expliquei. — É clara, com uns detalhes pequenos que parecem desenhados no tecido. A madeira da janela é mais escura e combina com a lareira. Tem alguma coisa muito aconchegante aqui.Helena passou os dedos pelo







