Mag-log inAos trinta e cinco anos, Helena Cavalcanti já conquistou tudo o que poderia desejar. Renomada advogada, dona de um dos escritórios mais respeitados da cidade e mãe de um menino de sete anos. Uma vida baseada em independência, disciplina e controle. Cega desde a adolescência, Helena aprendeu a enxergar o mundo de uma maneira diferente. Sua voz é sua maior arma, sua inteligência é sua reputação e sua determinação nunca permitiu que sua deficiência definisse quem ela é. Até Rudá de Andrade entrar em seu escritório. Aos vinte e três anos, recém-formado em Direito e filho de um dos amigos de Helena, Rudá chega determinado a provar que merece trabalhar ao lado dela por seu próprio talento, e não por causa do sobrenome que carrega. Inteligente, confiante e ambicioso, ele deveria ser apenas mais um advogado júnior, mas Rudá começa a perceber coisas em Helena que não deveria perceber, principalmente por ela ser amiga de seu pai e sua chefe. Quanto mais trabalham juntos, mais difícil fica fingir que existe apenas uma relação profissional entre eles. Helena e Rudá começam a descobrir uma atração que nenhum dos dois sabe como controlar. Ele chegou para provar que era um excelente advogado. Não imaginava que acabaria colocando em xeque o coração da mulher que mais admirava. Às vezes, o maior perigo além de se apaixonar pela pessoa errada. É descobrir que ela pode ser exatamente a pessoa que estava faltando.
view moreHelena Cavalcanti
Nasci numa manhã quente de dezembro, na segunda quinzena do mês, quando o verão já começava a se anunciar com toda a força no interior. Eram sete e meia da manhã quando vim ao mundo, e meu nascimento foi complicado. Minha mãe quase me perdeu antes de conseguir me conhecer, e durante muito tempo ouvi a história daquele dia contada como uma espécie de milagre familiar. Talvez tenha sido mesmo. Gosto de pensar que, antes de aprender qualquer coisa sobre a vida, eu já havia decidido lutar por ela. Recebi o nome de Helena. Um nome que minha mãe dizia ter escolhido por achar bonito, forte e delicado ao mesmo tempo. Anos mais tarde, descobri que havia uma ironia naquela escolha. Minha vida seria marcada justamente pela necessidade de encontrar força em momentos em que todos esperavam que eu encontrasse limitações. Durante a infância, fui uma menina como tantas outras do interior. Corria descalça, voltava pra casa com os joelhos ralados, mergulhava no rio, subia em árvores e brigava com meus irmãos por motivos que, na época, pareciam importantes. Éramos quatro filhos: dois homens e duas mulheres. Nossa casa nunca conheceu o que era silêncio. Também conhecemos algumas dificuldades. Havia meses em que o dinheiro acabava antes do calendário. Quando isso acontecia, nossa criatividade para colocar comida na mesa era maior do que a fome. Lembro-me de refeições simples que eram repetidas tantas vezes que eu jurava que nunca mais iria querer olhar para determinado prato depois de crescer. Hoje, adulta, daria qualquer coisa para voltar àquela mesa por alguns minutos. Meus pais eram pessoas humildes, mas possuíam uma riqueza que não cabia em conta bancária alguma. Eles tinham dignidade. Foi com eles que aprendi algumas das coisas que mais tarde se tornaram fundamentais para a mulher que eu sou. Aprendi que ninguém deveria olhar para mim com pena apenas porque meus olhos não enxergavam o mundo da mesma forma que os outros. Meu problema de visão começou cedo, mas durante os primeiros anos não parecia representar uma ameaça tão grande. Eu enxergava, não perfeitamente, mas enxergava o suficiente para correr atrás dos meus irmãos, acompanhar as aulas e apreciar as pequenas coisas que uma criança sequer imagina que um dia poderia perder. Depois dos dez anos, passei a usar óculos. Eu reclamava, naturalmente, mas ainda conseguia enxergar meu próprio reflexo, os rostos da minha família, as cores das tardes no rio e as expressões das pessoas que amava. Na adolescência, eu me considerava uma garota bonita. Morena, cabelos longos, olhos negros, estatura mediana e um sorriso que minha mãe dizia misturar inocência com uma boa dose de malícia. Aos quinze anos, comecei a perceber os olhares dos meninos, e eu gostava deles. Gostava de saber quando alguém estava interessado, gostava das brincadeiras, dos bilhetes escondidos e daquela sensação deliciosa de descobrir que alguém havia reparado em mim. Foi justamente nessa fase que tudo mudou. Durante uma brincadeira boba, uma bola foi lançada com força demais. E isso foi tudo o que bastou. A bola atingiu meu rosto e a dor veio imediatamente. Mas não foi a dor física que ficou comigo. Foi a escuridão. O momento em que percebi que alguma coisa estava errada. Pisquei várias vezes, mas não adiantou. Desesperada, chamei minha mãe, pois eu não conseguia enxergar. O que veio depois foram médicos, exames, tentativas, esperanças que nasciam e morriam. A lesão na córnea, que até então permitia que eu enxergasse parcialmente, havia se agravado de maneira irreversível. Eu tinha dezesseis anos quando precisei aprender a viver sem aquilo que a vida considerava indispensável. A primeira coisa que senti não foi medo de não conseguir estudar ou trabalhar, nem de jamais me casar. O que eu senti foi saudade, saudade do rosto da minha mãe, do sorriso do meu pai, do brilho nos olhos dos meus irmãos quando aprontavam alguma coisa. O rio descendo por entre as pedras, o céu mudando de cor no fim da tarde. As pessoas que eu amava e que, de repente, eu precisava aprender a reconhecer de outras maneiras. Confesso que chorei muito e minha família também, mas ninguém me permitiu ficar no lugar da vítima. Minha mãe foi a primeira a me incentivar. Ela segurava minha mão enquanto eu aprendia a andar pela casa e, quando eu reclamava que precisava de ajuda, respondia: — Você precisa aprender, Helena. Eu quero te ajudar sempre, mas um dia eu não estarei por perto para fazer isso por você. Na época, achei aquela frase cruel. Hoje sei que foi uma das maiores demonstrações de amor que ela poderia ter me dado. Pouco depois, nossa família tomou uma decisão que mudaria nossas vidas. Precisávamos nos mudar para uma cidade maior. Eu precisava de acesso a uma educação adequada, recursos de acessibilidade e oportunidades que simplesmente não existiam onde havíamos nascido. Meus pais abriram mão da tranquilidade que conheciam para me dar uma chance. E eu nunca esqueci disso. Entrei na faculdade de Direito determinada a provar, primeiro para mim mesma e depois para qualquer pessoa que duvidasse, que minha deficiência visual não seria nenhum limite pra mim. Mas foi difícil… Muito difícil. Porém eu sabia que era capaz. Aprendi a estudar com recursos de tecnologia assistiva, como leitores de tela, áudio, a memorizar informações com uma facilidade que desenvolvi por necessidade e a transformar minha capacidade de ouvir em uma ferramenta profissional. Enquanto alguns colegas precisavam reler páginas e páginas para memorizar uma argumentação, eu descobri que conseguia guardar na cabeça uma quantidade impressionante de informações depois de ouvi-las algumas vezes. Na faculdade, também conheci novamente um rosto que fazia parte das minhas lembranças: Rodrigo. Ele estudava Direito e era alguns anos mais velho que eu. Já me conhecia antes da perda da visão e, talvez por isso, nunca teve comigo aquele excesso de cuidado que eu tanto detestava. Ele não perguntava se eu precisava de ajuda a cada cinco minutos, muito menos falava comigo como se eu fosse incapaz de viver sozinha. Quando eu precisava de alguma coisa, ele perguntava. E quando percebia que eu estava prestes a bater em algum obstáculo, às vezes apenas dizia: — Dois passos para a direita, Helena. A nossa amizade cresceu. Não demorou muito para percebermos que havia algo além disso. Rodrigo sempre esteve interessado em mim, eu só demorei a perceber. Ele me ajudou muito durante a faculdade, principalmente nos primeiros anos, quando eu ainda tentava encontrar meu próprio ritmo. Nós nos formamos juntos e, pouco tempo depois, estávamos casados. Eu tinha pouco mais de vinte anos e acreditava que sabia exatamente como seria minha vida, mas a verdade é que eu não poderia nem imaginar o que estava reservado para mim. Voltamos para nossa cidade natal por algum tempo, enquanto Rodrigo conseguiu uma excelente posição como advogado tributário em uma grande empresa. Eu, por minha vez, decidi abrir meu próprio escritório com Márcia, uma amiga que conheci na faculdade e que também estava cansada da vida na capital. Foi uma aposta arriscada, mas que deu muito certo. Nosso pequeno escritório cresceu. Vieram os clientes maiores, os casos mais complexos. Contratamos mais alguns advogados e a responsabilidade começou a aumentar também. Quando percebi, eu já não era apenas a jovem cega que havia conseguido se formar em Direito. Eu era Helena Cavalcanti, uma advogada respeitada. Uma mulher que havia construído o próprio nome. Empresária e referência no meu ramo. Mas, antes de qualquer uma dessas coisas, eu era mãe. Quando Yuri nasceu, eu tinha vinte e oito anos, descobri que existiam sentimentos que nenhuma carreira, nenhum diploma e nenhuma vitória profissional poderiam explicar. Meu filho nasceu pequeno, perfeito e barulhento. Transformou completamente a minha vida. Eu não precisava enxergar o rosto dele para conhecê-lo. Sabia quando estava com sono pelo jeito como respirava. Reconhecia seu choro entre tantos outros. Conhecia seus passos pela casa. Sabia quando estava mentindo pela pausa que sempre fazia antes de responder. Yuri cresceu sabendo que a mãe não enxergava com os olhos, mas nunca aprendeu a me tratar como alguém incapaz. Para ele, eu simplesmente era a sua mãe. Meu filho foi uma das maiores vitórias da minha vida. Meu casamento com Rodrigo também ia bem. Nós éramos parceiros, continuávamos amigos. E juntos conseguimos ser pais maravilhosos. Tínhamos uma casa, uma história e uma vida construída com muito respeito ao longo dos anos. O nascimento de Yuri mudou algumas coisas entre nós, como acontece com quase todos os casais, eu acho. Nossa intimidade ficou menos frequente, nossos dias passaram a girar em torno do trabalho e das responsabilidades. O desejo deixou de ocupar o espaço que tinha no começo, mas eu não me incomodava, ou pelo menos achava que não. Na verdade, acreditava que amor também era isso: companheirismo, lealdade e família. Aos trinta e cinco anos, eu tinha um filho de sete, um marido, uma carreira que jamais imaginei alcançar e um escritório que havia se tornado um dos mais respeitados. Eu tinha tudo aquilo que passei a vida inteira acreditando que precisava ter. Até o dia em que o destino me colocou diante de um jovem que eu conhecia desde menino. E vi Rudá de Andrade pela primeira vez como homem.Rudá de AndradeNo domingo, acordei cedo para correr. Era um hábito antigo, sempre gostei de correr pela manhã, principalmente quando o tempo estava bom, e naquele dia o calor já prometia aparecer cedo. Vesti uma roupa leve, calcei o tênis e saí em direção à trilha que acompanhava o rio.Correr ali era diferente de correr em uma esteira. Eu podia sentir o ar fresco batendo no rosto, ouvir a água correndo ao lado da trilha e perceber o cheiro úmido e verde da vegetação. O silêncio nunca era completo, havia pássaros escondidos entre as árvores, pequenos animais se movimentando pelos arbustos e, vez ou outra, alguém passando pelo mesmo caminho.Eu gostava daquela sensação de liberdade. Era um dos poucos momentos
Helena Cavalcanti— Yuri, querido! Saia da piscina, você vai ficar resfriado desse jeito! Já está na hora de almoçarmos. Venha tomar banho!— Ah, mãe! Deixa mais um pouquinho, vai! Já sei nadar que nem um peixe! Olha só! Sem boia, mãe!Sorri, sentada à sombra, enquanto escutava o barulho da água sendo agitada pela pequena criatura que havia transformado minha casa em seu parque de diversões.— Eu não estou vendo, mas pelo barulho, está parecendo um golfinho! Venha logo, porque sem comida o golfinho afunda!A gargalhada de Yuri veio imediatamente da piscina.— Mãe!— Yuri, saia já dessa piscina! Obedeça à sua mãe! Ela já sabe que você está nadando sem boia.
Helena CavalcantiA viagem até Campo Lindo passou muito mais rápido do que eu esperava. Rudá dirigia com segurança, sem movimentos bruscos, e eu aproveitei as quase duas horas de estrada para conhecê-lo um pouco melhor. Falamos bastante sobre Direito, perguntei sobre a faculdade, os professores que mais admirava, aqueles com quem havia tido mais dificuldade, as disciplinas de que gostava e quais pretendia seguir profissionalmente. Ele tinha opiniões bastante definidas para alguém que acabara de se formar, e gostei de perceber que não respondia apenas o que imaginava que eu gostaria de ouvir.— E você pretende continuar em qual área? — perguntei.— Ainda não decidi completamente. Gosto da área empresarial, mas também gosto de Civil.
Rudá de AndradeEu pigarreei, tentando afastar o desconforto que aquele discurso sobre o amor havia provocado. Não queria discutir meu ceticismo com Helena, com certeza soaria como uma criança querendo provar que sabia mais da vida do que alguém que tinha o dobro da minha experiência. E eu não tinha culpa de nunca ter amado de verdade.Nunca havia sentido por nenhuma das mulheres com quem me envolvera aquilo que os livros, os filmes e as músicas insistiam em chamar de amor. Aquela coisa arrebatadora que fazia as pessoas perderem o sono, mudarem planos e acreditarem que haviam encontrado alguém indispensável à própria existência... isso nunca tinha acontecido comigo.E não me incomodava, pelo menos, até Helena começar a falar sobre aquilo como se o amor fosse um destino que todos nós deveríamos estar preparados para reconhecer. Talvez o problema fosse que eu não conseguia deixar de pensar na mulher que estava diante de mim enquanto ela falava. Era fácil ouvi-la, difí












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