Compartilhar

Capítulo 8

Autor: Luana
last update Data de publicação: 2026-04-26 16:29:16

Eu fiquei ali por mais alguns minutos depois que ele foi embora.

Meu coração ainda batia rápido… como se não tivesse entendido que tudo já tinha acabado. Meus dedos tocaram a pulseira no meu pulso… devagar… como se eu precisasse confirmar que aquilo era real.

Era.

O vento da noite era leve… o céu cheio de estrelas…

Mas a paz já não era a mesma.

Eu senti antes de ouvir.

Passos.

Pesados.

Lentos.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Quando me virei… ele estava lá.

O feitor.

Encostado na sombra… me olhando.

O mesmo olhar.

Mas agora… sem disfarce.

Mais direto.

Mais perigoso.

— Sozinha essa hora? — ele disse, dando um passo à frente.

Eu recuei automaticamente.

— Eu… já estava voltando.

— Calma… — ele respondeu, com um sorriso que me deu mais medo do que qualquer grito. — Não precisa fugir de mim.

Mas eu já estava com medo.

Muito.

Ele continuou se aproximando… devagar… como se tivesse certeza de que eu não tinha para onde ir.

— Eu venho te olhando faz tempo… — a voz dele ficou mais baixa. — Só que agora…

O olhar dele passou por mim… devagar.

— Agora você não é mais uma menina.

Meu coração disparou.

— Me deixe ir — eu disse.

Tentei manter a voz firme.

Mas o medo já estava ali.

Ele riu.

Baixo.

— Ir?… Depois de tudo que eu esperei?

Mais um passo.

Eu recuei.

— Ninguém vai aparecer… ninguém vai te ouvir… — ele disse. — E eu posso te tratar bem…

— Não!

Eu falei mais alto.

Mais firme.

Mas ele foi mais rápido.

Segurou meu braço com força.

Eu senti dor.

E foi ali… que o medo virou desespero.

— Me solta!

Eu me debati.

Com tudo que eu tinha.

— Para de lutar — ele rosnou. — Você devia agradecer!

Não.

Não.

Eu puxei meu braço com força… com tudo que eu tinha dentro de mim…

E consegui me soltar.

Eu não pensei.

Só corri.

Corri como nunca tinha corrido antes.

O chão batia forte sob meus pés… meu coração parecia explodir no peito…

Eu não olhei pra trás.

Não podia.

Só corri.

Até ver a senzala.

Entrei quase sem ar… tremendo… assustada…

— O que foi?! — alguém perguntou.

Mas foi Chinara que chegou primeiro.

Sempre era ela.

— Jamila?

Eu tentei falar… mas a voz não saía.

— Ele… — consegui dizer — o feitor…

Ela entendeu.

Na hora.

Eu vi nos olhos dela.

Ela me puxou pra perto.

Me abraçou forte.

— Calma… você tá aqui… você tá segura agora…

Mas eu sabia.

Não estava.

Não de verdade.

Ela me levou pra sentar, afastada dos outros.

— Respira… — ela dizia, passando a mão no meu cabelo.

Eu tentei.

Mas o corpo ainda tremia.

— Ele tentou… — minha voz falhou.

Ela fechou os olhos.

Por um segundo.

Quando abriu… estava diferente.

Mais séria.

— Eu sei.

Eu levantei o olhar.

— Você precisa ter cuidado agora — ela disse. — Você cresceu… e aqui… isso vira perigo.

Eu abaixei o olhar… segurando minha mão.

A pulseira ainda estava ali.

— Eu tive medo… achei que…

— Escuta.

Ela se aproximou mais.

E o tom dela mudou.

— Tem coisas que eu nunca quis te contar…

O silêncio ao redor ficou mais fundo.

Ela respirou.

— Quando eu era mais nova… eu trabalhava em outra fazenda.

A voz dela… ficou distante.

Como se estivesse voltando no tempo.

— Lá… não existia limite.

Eu senti meu coração apertar.

— Um feitor começou a me olhar… como esse olha pra você.

Eu prendi a respiração.

— Eu tentei evitar… fugir…

Ela parou.

Os olhos dela encheram de lágrimas.

— Mas teve um dia… que eu não consegui.

Meu peito doeu.

— Ele me forçou…

O mundo ficou em silêncio.

Eu levei a mão à boca.

Sem acreditar.

— Depois disso… eu tive um filho.

Ela sorriu.

Um sorriso que doía.

— Ele era tudo pra mim…

As lágrimas caíram.

— Mas venderam ele.

Eu senti as minhas caírem também.

— Você nunca mais viu?…

Ela negou.

— Nunca.

Silêncio.

Pesado.

— Depois… me venderam também.

Ela olhou ao redor.

— Foi assim que eu vim parar aqui.

Eu não sabia o que dizer.

— Aqui… é menos pior — ela continuou. — Mas isso não quer dizer que você está segura.

Ela segurou meu rosto.

— Homem como aquele… não precisa de ordem pra fazer mal.

Eu assenti.

Devagar.

— Então… o que eu faço?

Ela pensou.

— Não fica sozinha. Principalmente à noite.

Eu lembrei na hora.

Do que tinha acabado de acontecer.

— E toma cuidado com quem te olha demais.

Eu entendi.

Mais do que ela disse.

Mas não falei nada.

— Eu não pude me proteger… — ela disse — mas você ainda pode.

Eu segurei a mão dela.

Forte.

— Eu não vou deixar isso acontecer comigo.

Ela me olhou.

E, pela primeira vez…

Eu vi orgulho ali.

— É assim que começa…

Ela disse.

— A força.

Lá fora… a noite continuava silenciosa.

Mas dentro de mim…

Nada estava igual.

O medo ainda estava ali.

Forte.

Mas agora…

Eu sabia.

E junto com o medo…

Nascia algo novo.

Consciência.

E uma força…

Que eu ainda estava aprendendo a usar.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Apaixonado pela escrava    Final

    Às vezes eu ainda acordava cedo.Muito cedo.Antes mesmo do sol nascer.Era um costume que a vida havia deixado em mim.Durante anos, acordar cedo significava trabalho.Significava medo.Significava obedecer ordens.Significava sobreviver.Mas agora era diferente.Agora eu gostava de sentar na varanda da minha casa e assistir o amanhecer.Gostava de ver os primeiros raios de sol iluminando os campos.Gostava de ouvir os pássaros.Gostava de sentir o vento no rosto.Porque cada amanhecer me lembrava uma coisa muito importante.Eu estava livre.Livre.Ainda parecia estranho pensar nisso.Mesmo depois de tantos anos.Porque quem nasce sem liberdade demora para acreditar quando finalmente a conquista.Eu segurava uma xícara de café quando ouvi passos vindo pela estrada.Sorri imediatamente.Eu sabia quem era.Gabriel.Meu filho já não era mais uma criança.O tempo tinha passado depressa.Depressa demais.Agora era um rapaz alto.Os cabelos claros continuavam iguais.Os olhos também.Cada

  • Apaixonado pela escrava    A grande vitoria

    A praça estava lotada.Homens, mulheres, crianças, idosos.Negros livres.Negros escravizados.Brancos favoráveis à causa.Advogados.Padres.Jornalistas.Todos reunidos naquele mesmo lugar.O ar parecia diferente.Carregado de expectativa.De esperança.De medo também.Eu nunca tinha visto tanta gente reunida por um mesmo motivo.Durante anos eu participei de reuniões.Escrevi cartas.Conversei com mães.Lutei para que nossos filhos tivessem o direito de aprender.Lutei para que fossem vistos como seres humanos.Mas agora a luta tinha crescido.Já não era apenas sobre escolas.Era sobre liberdade.Liberdade para todos nós.Naquele dia, eu estava na frente de uma multidão.Algo que jamais imaginei quando ainda era uma menina assustada dentro da senzala.Quando eu abaixava a cabeça diante dos feitores.Quando acreditava que minha vida inteira seria apenas sobreviver.Agora não.Agora eu estava ali.Falando.Representando centenas de mulheres.Representando mães.Representando famílias

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 106

    Os dias que se seguiram foram os mais felizes que eu conseguia lembrar ter vivido.Durante muitos anos, eu havia acreditado que felicidade era conquistar um diploma, construir uma carreira, ser respeitado como médico ou formar uma família ao lado de uma boa mulher.Mas agora eu entendia que felicidade podia ser algo muito mais simples.Às vezes era apenas acordar pela manhã e ouvir uma criança correndo pelo quintal.Era escutar uma gargalhada.Era sentir uma mão pequena segurando a sua.Era olhar para um menino e reconhecer nele um pedaço de si mesmo.Todas as manhãs eu acordava cedo.Mesmo sem precisar.Mesmo sem compromisso algum.O hábito dos estudos e do trabalho ainda existia.Mas agora havia outro motivo.Gabriel.Eu gostava de vê-lo acordar.Gostava de observá-lo saindo da cama com os cabelos bagunçados.Gostava de ouvir as perguntas que ele fazia sobre tudo.Porque Gabriel tinha curiosidade para o mundo inteiro.Queria saber como funcionavam os remédios.Como os cavalos entend

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 105

    Eu não consegui dormir naquela noite.Mesmo depois de sair da casa de Jamila.Mesmo depois de abraçar Gabriel.Mesmo depois de ouvir da boca dela toda a verdade que me foi roubada durante tantos anos.Nada dentro de mim conseguia encontrar paz.Eu caminhava de um lado para o outro no quarto da casa-grande enquanto a madrugada avançava lá fora.Toda vez que fechava os olhos via Gabriel.Via seu rosto.Seu sorriso.Seus cabelos claros.Via seus olhos tão parecidos com os meus.E então vinha a pergunta que não me deixava respirar.Como?Como alguém pôde fazer isso?Como uma mãe pôde olhar para o próprio filho sofrendo e ainda assim esconder uma verdade daquela dimensão?Durante anos eu acreditei que Jamila tinha me abandonado.Durante anos tentei convencê-la de que aquilo havia sido uma escolha dela.Durante anos carreguei uma dor que não precisava existir.E Gabriel...Meu Deus.Gabriel cresceu sem pai.Sem saber quem eu era.Sem saber que eu pensava nele sem sequer conhecer seu rosto.

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 104

    O sol já começava a descer no horizonte quando Afonso permanecia sentado à beira da lagoa.O cavalo pastava alguns metros atrás dele, livre.Mas Afonso não conseguia sentir liberdade alguma.Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se completamente perdido.As águas tranquilas refletiam o céu dourado, mas dentro dele existia apenas tempestade.Gabriel.Meu filho.Aquelas palavras não saíam de sua cabeça.Meu filho.Sete anos.Sete anos de vida.Sete anos de sorrisos.De tombos.De aprendizados.De aniversários.E eu não estava lá.Afonso levou as mãos ao rosto.Sentia lágrimas escorrerem novamente.Pensou em Cristiano.No homem que havia criado Gabriel.No homem que estivera presente em todos aqueles momentos que deveriam ter sido dele.Sentiu culpa.Muita culpa.Mas ao mesmo tempo sabia que não fora escolha sua.Jamila também não tinha escolhido aquilo.Os dois haviam sido vítimas da mesma armadilha.Da mesma crueldade.Da mesma mentira.Então pensou em Helena.Sua noiva.A mulher qu

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 103

    A tarde já começava a cair sobre a fazenda quando Helena percebeu que alguma coisa estava muito errada.Desde que Afonso saíra do escritório do pai, montado em seu cavalo e desaparecendo estrada afora sem dizer uma única palavra, o ambiente da casa-grande havia mudado completamente.O silêncio parecia pesado.Difícil.Quase sufocante.Helena estava sentada na varanda observando os empregados passarem de um lado para outro quando viu Sol atravessar o corredor.A jovem também parecia abalada.Os olhos vermelhos denunciavam que ela havia chorado.Helena respirou fundo.Não podia mais fingir que não percebia.Levantou-se devagar e caminhou até ela.— Sol...Sol parou.— Sim?— O que está acontecendo?A pergunta saiu direta.Sem rodeios.Sol abaixou os olhos.— Nada.Helena balançou a cabeça.— Não faça isso comigo.Sol ficou em silêncio.— Eu vi o jeito que Afonso olhou aquela mulher.— Jamila.— Sim.Helena assentiu.— Eu vi o jeito que ela olhou para ele também.Sol continuava quieta.—

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status