Compartir

Capítulo 7

Autor: Luana
last update Fecha de publicación: 2026-04-25 13:02:54

O tempo passou… e eu nem percebi quando deixei de ser aquela menina assustada.

Os dias continuaram duros, um atrás do outro… mas eu mudei.

Agora, perto de completar 18 anos… eu sentia isso.

No meu corpo.

No meu olhar.

As pessoas olhavam pra mim de um jeito diferente. Eu percebia. Mas não era só isso.

Tinha algo dentro de mim também.

Algo que cresceu com a dor… com a resistência… com tudo que eu precisei suportar.

Naquela noite… Chinara estava diferente.

Eu percebi desde cedo.

Ela andava de um lado pro outro, organizando coisas com cuidado. Coisas simples… mas feitas com carinho.

Quando vi… senti meu coração apertar.

Um bolo.

Pequeno… simples… mas lindo.

— Hoje é um dia importante — ela disse, ajeitando um pano sobre a mesa improvisada. — Você merece lembrar que nasceu… que existe… e que é mais do que tudo isso aqui.

Eu não consegui segurar.

— Ninguém nunca fez isso por mim… — minha voz saiu fraca, com os olhos cheios de lágrimas.

Ela não disse nada.

Mas o olhar dela… disse tudo.

Quando a noite caiu… alguns vieram.

Em silêncio.

Sem festa… sem música alta…

Mas com algo que eu sentia falta.

União.

Verdade.

Chinara colocou o bolo no centro.

— Faça um pedido.

Eu fechei os olhos.

E, por um instante…

Eu não estava ali.

Não havia senzala… nem dor…

Só um desejo.

Liberdade.

Antes que eu abrisse os olhos…

Eu ouvi passos.

Todo mundo ficou tenso.

Meu coração disparou.

Mas quando olhei…

Não era quem eu esperava.

Era Sol.

E atrás dela…

Ele.

Afonso.

Eu senti o ar faltar por um segundo.

Sol entrou sorrindo.

— A gente soube… não dava pra deixar passar.

Eu não sabia o que dizer.

Afonso ficou mais atrás… mas o olhar dele…

Parou em mim.

— Feliz aniversário, Jamila — ele disse.

Meu nome… na voz dele…

Soou diferente.

O silêncio tomou conta por um instante.

Eles ali… na senzala…

Aquilo não era normal.

Sol se aproximou e me entregou um pequeno embrulho.

— É simples… mas eu pensei em você.

Minhas mãos tremeram levemente quando peguei.

Abri devagar.

Um lenço.

Delicado… bonito… raro.

Algo que não pertencia àquele lugar.

— É… lindo… — eu disse. — Muito obrigada, sinhazinha.

— Não me chama assim hoje — ela respondeu, quase brava. — Hoje é seu dia.

Eu sorri… sem saber direito como reagir.

Mas eu sentia.

Algo diferente.

Afonso não tirava os olhos de mim.

— Você mudou muito… — ele disse.

Eu abaixei o olhar.

— O tempo muda todo mundo, senhor.

— Nem tudo — ele respondeu. — Algumas coisas… só ficam mais fortes.

Meu coração acelerou.

Eu não consegui olhar pra ele.

Chinara se aproximou.

Eu senti.

Ela tinha percebido.

— Agradecemos a visita… mas já está tarde.

Ele entendeu.

Sempre entendia.

Sol me abraçou antes de sair.

— Você merece coisas boas… nunca esquece disso.

Eu fiquei ali… parada… segurando o lenço.

Mas não era só o presente que mexia comigo.

Era ele.

O jeito que me olhava.

O que eu sentia… sem entender.

Chinara chegou perto de mim.

— Cuidado, menina…

Eu olhei pra ela.

— Nem todo sentimento pode ser vivido sem dor.

Aquilo ficou em mim.

Fundo.

Depois que tudo acabou… e o silêncio voltou…

Eu não consegui dormir.

Meu coração ainda estava acelerado.

Eu levantei devagar… sem fazer barulho… e saí.

A noite estava bonita.

O céu cheio de estrelas.

O vento leve no meu rosto…

Por um momento… paz.

— Tão longe… — eu murmurei.

— Nem tudo está tão longe assim.

A voz atrás de mim me fez estremecer.

Eu me virei.

Era ele.

Afonso.

— Senhor… o que faz aqui?

Ele se aproximou devagar.

— Eu podia te perguntar o mesmo.

Eu abaixei o olhar.

— Só queria… um pouco de ar.

Ele olhou pro céu.

— Eu vinha aqui quando era mais novo… achava que as estrelas traziam respostas.

— E trazem? — perguntei.

Ele sorriu de leve.

— Ainda estou esperando.

O silêncio veio.

Mas não era ruim.

Era cheio de algo que eu não sabia explicar.

Então ele fez um movimento.

— Eu trouxe uma coisa pra você.

Eu olhei, confusa.

Ele tirou uma pulseira.

Simples… mas bonita.

Delicada.

— Eu vi isso e… pensei em você.

Meu coração disparou.

— Eu não posso aceitar, senhor…

— Não me chama assim — ele disse, baixo.

Eu hesitei.

— Isso não é certo…

Ele deu um passo mais perto.

— Eu sei.

O olhar dele encontrou o meu.

E eu não consegui desviar.

— Mas isso aqui… não é sobre regras.

Ele pegou minha mão.

O toque foi leve.

Mas… mudou tudo.

Devagar… ele colocou a pulseira no meu pulso.

Eu não me mexi.

Nem consegui.

— Pronto…

Eu olhei pra pulseira.

Depois pra ele.

— Por quê?…

Ele demorou… mas respondeu:

— Porque você merece mais do que esse lugar.

Aquilo me atingiu.

Forte.

— O senhor não devia dizer isso…

— Talvez não… — ele disse. — Mas é verdade.

O silêncio ficou mais intenso.

Mais perigoso.

Eu dei um passo pra trás.

— Se alguém vê…

— Eu sei.

Ele respirou fundo.

— Eu só queria te dar isso.

Eu segurei a pulseira com cuidado.

Como se fosse algo precioso demais.

— Obrigada…

Ele assentiu.

Mas não foi embora na hora.

Ficou me olhando.

Como se quisesse dizer mais.

Mas não podia.

Então… ele se virou.

— Boa noite… Jamila.

Meu nome.

Sem distância.

Sem barreira.

Eu fiquei ali.

Parada.

Olhando ele se afastar.

O céu ainda estava cheio de estrelas…

Mas, dentro de mim…

Algo brilhava mais forte.

Algo bonito.

E ao mesmo mais perigoso.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Apaixonado pela escrava    Final

    Às vezes eu ainda acordava cedo.Muito cedo.Antes mesmo do sol nascer.Era um costume que a vida havia deixado em mim.Durante anos, acordar cedo significava trabalho.Significava medo.Significava obedecer ordens.Significava sobreviver.Mas agora era diferente.Agora eu gostava de sentar na varanda da minha casa e assistir o amanhecer.Gostava de ver os primeiros raios de sol iluminando os campos.Gostava de ouvir os pássaros.Gostava de sentir o vento no rosto.Porque cada amanhecer me lembrava uma coisa muito importante.Eu estava livre.Livre.Ainda parecia estranho pensar nisso.Mesmo depois de tantos anos.Porque quem nasce sem liberdade demora para acreditar quando finalmente a conquista.Eu segurava uma xícara de café quando ouvi passos vindo pela estrada.Sorri imediatamente.Eu sabia quem era.Gabriel.Meu filho já não era mais uma criança.O tempo tinha passado depressa.Depressa demais.Agora era um rapaz alto.Os cabelos claros continuavam iguais.Os olhos também.Cada

  • Apaixonado pela escrava    A grande vitoria

    A praça estava lotada.Homens, mulheres, crianças, idosos.Negros livres.Negros escravizados.Brancos favoráveis à causa.Advogados.Padres.Jornalistas.Todos reunidos naquele mesmo lugar.O ar parecia diferente.Carregado de expectativa.De esperança.De medo também.Eu nunca tinha visto tanta gente reunida por um mesmo motivo.Durante anos eu participei de reuniões.Escrevi cartas.Conversei com mães.Lutei para que nossos filhos tivessem o direito de aprender.Lutei para que fossem vistos como seres humanos.Mas agora a luta tinha crescido.Já não era apenas sobre escolas.Era sobre liberdade.Liberdade para todos nós.Naquele dia, eu estava na frente de uma multidão.Algo que jamais imaginei quando ainda era uma menina assustada dentro da senzala.Quando eu abaixava a cabeça diante dos feitores.Quando acreditava que minha vida inteira seria apenas sobreviver.Agora não.Agora eu estava ali.Falando.Representando centenas de mulheres.Representando mães.Representando famílias

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 106

    Os dias que se seguiram foram os mais felizes que eu conseguia lembrar ter vivido.Durante muitos anos, eu havia acreditado que felicidade era conquistar um diploma, construir uma carreira, ser respeitado como médico ou formar uma família ao lado de uma boa mulher.Mas agora eu entendia que felicidade podia ser algo muito mais simples.Às vezes era apenas acordar pela manhã e ouvir uma criança correndo pelo quintal.Era escutar uma gargalhada.Era sentir uma mão pequena segurando a sua.Era olhar para um menino e reconhecer nele um pedaço de si mesmo.Todas as manhãs eu acordava cedo.Mesmo sem precisar.Mesmo sem compromisso algum.O hábito dos estudos e do trabalho ainda existia.Mas agora havia outro motivo.Gabriel.Eu gostava de vê-lo acordar.Gostava de observá-lo saindo da cama com os cabelos bagunçados.Gostava de ouvir as perguntas que ele fazia sobre tudo.Porque Gabriel tinha curiosidade para o mundo inteiro.Queria saber como funcionavam os remédios.Como os cavalos entend

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 105

    Eu não consegui dormir naquela noite.Mesmo depois de sair da casa de Jamila.Mesmo depois de abraçar Gabriel.Mesmo depois de ouvir da boca dela toda a verdade que me foi roubada durante tantos anos.Nada dentro de mim conseguia encontrar paz.Eu caminhava de um lado para o outro no quarto da casa-grande enquanto a madrugada avançava lá fora.Toda vez que fechava os olhos via Gabriel.Via seu rosto.Seu sorriso.Seus cabelos claros.Via seus olhos tão parecidos com os meus.E então vinha a pergunta que não me deixava respirar.Como?Como alguém pôde fazer isso?Como uma mãe pôde olhar para o próprio filho sofrendo e ainda assim esconder uma verdade daquela dimensão?Durante anos eu acreditei que Jamila tinha me abandonado.Durante anos tentei convencê-la de que aquilo havia sido uma escolha dela.Durante anos carreguei uma dor que não precisava existir.E Gabriel...Meu Deus.Gabriel cresceu sem pai.Sem saber quem eu era.Sem saber que eu pensava nele sem sequer conhecer seu rosto.

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 104

    O sol já começava a descer no horizonte quando Afonso permanecia sentado à beira da lagoa.O cavalo pastava alguns metros atrás dele, livre.Mas Afonso não conseguia sentir liberdade alguma.Pela primeira vez em muitos anos, sentia-se completamente perdido.As águas tranquilas refletiam o céu dourado, mas dentro dele existia apenas tempestade.Gabriel.Meu filho.Aquelas palavras não saíam de sua cabeça.Meu filho.Sete anos.Sete anos de vida.Sete anos de sorrisos.De tombos.De aprendizados.De aniversários.E eu não estava lá.Afonso levou as mãos ao rosto.Sentia lágrimas escorrerem novamente.Pensou em Cristiano.No homem que havia criado Gabriel.No homem que estivera presente em todos aqueles momentos que deveriam ter sido dele.Sentiu culpa.Muita culpa.Mas ao mesmo tempo sabia que não fora escolha sua.Jamila também não tinha escolhido aquilo.Os dois haviam sido vítimas da mesma armadilha.Da mesma crueldade.Da mesma mentira.Então pensou em Helena.Sua noiva.A mulher qu

  • Apaixonado pela escrava    Capítulo 103

    A tarde já começava a cair sobre a fazenda quando Helena percebeu que alguma coisa estava muito errada.Desde que Afonso saíra do escritório do pai, montado em seu cavalo e desaparecendo estrada afora sem dizer uma única palavra, o ambiente da casa-grande havia mudado completamente.O silêncio parecia pesado.Difícil.Quase sufocante.Helena estava sentada na varanda observando os empregados passarem de um lado para outro quando viu Sol atravessar o corredor.A jovem também parecia abalada.Os olhos vermelhos denunciavam que ela havia chorado.Helena respirou fundo.Não podia mais fingir que não percebia.Levantou-se devagar e caminhou até ela.— Sol...Sol parou.— Sim?— O que está acontecendo?A pergunta saiu direta.Sem rodeios.Sol abaixou os olhos.— Nada.Helena balançou a cabeça.— Não faça isso comigo.Sol ficou em silêncio.— Eu vi o jeito que Afonso olhou aquela mulher.— Jamila.— Sim.Helena assentiu.— Eu vi o jeito que ela olhou para ele também.Sol continuava quieta.—

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status