FAZER LOGINOs dias passaram. Deixei Nova Iorque para trás, como quem fecha uma porta sem tranca, mas com cicatrizes. Eu precisava me recuperar. Precisava lembrar quem eu era quando não estava trancafiada no apartamento com Nathan Walker.
Precisava, acima de tudo, lembrar quem eu era… Mas, afinal, quem eu era? — Você é uma Bennet, Eliza. Herdeira da nossa família. Se recomponha. Sorria. Nós não choramos em público. — disse minha mãe, com sua voz firme e seu visual impecável. Cabelo milimetricamente preso, vestido de linho branco sem um vinco fora do lugar. Eu assenti com a cabeça, tentando absorver a força que ela projetava como um escudo. Havia orgulho no olhar dela, mas também havia dor disfarçada como se, por dentro, ela também tentasse entender como tudo chegou àquele ponto. Meu pai me aceitou de volta sem uma palavra sobre Nathan. Nenhuma acusação, nenhum julgamento. Para ele, eu apenas “retornara de uma temporada no exterior”. Foi assim que ele explicou minha ausência. Foi assim que ele apagou o incêndio que meu divórcio causou em Nova Iorque com silêncio, estratégia… e poder. Para manter as aparências, mandou minha mãe viajar comigo. Não por carinho, mas porque sabia que, com ela ao meu lado, as colunas de fofoca recuariam. E, como sempre, funcionou. Eu não era apenas uma mulher tentando se recompor. Eu era uma Bennet. E estava voltando para o meu império. Minha mãe cruzou os braços diante do espelho do quarto de hotel cinco estrelas em Paris, observando minha expressão com aquele olhar clínico de quem sempre sabia o que dizer e quando dizer. — Você está muito apagadinha. — comentou, com a voz doce, mas firme. — Precisa de uma repaginada. Imagem é poder, Eliza. E poder é tudo. Ela se aproximou e ajeitou uma mecha do meu cabelo, como se quisesse me reconstruir com as próprias mãos. — Seu pai conversou comigo hoje de manhã. — continuou. — Ele tem alguns planos poderosos para a Bennet Crown, e esses planos incluem você. Em destaque. Na vitrine. Como o rosto da nova era da joalheria mais respeitada da América. Seu tom era leve, mas não havia margem para dúvidas: aquela era a oportunidade. De me reposicionar. De brilhar novamente. De mostrar a Nathan, e ao mundo, que quem subestimou uma Bennet, cometeu um erro irreparável. Eu me levantei, ainda com os traços do luto silencioso que meu casamento havia deixado, mas algo dentro de mim estava despertando. Um instinto antigo. Um brilho há tempos apagado. Eu era a princesa do império Bennet. E agora, eu voltaria como rainha. — Então meu pai quer que eu estampe a nova coleção da Bennet Crown? — perguntei, com a voz contida, mas o coração acelerando. Minha mãe sorriu com sutileza, cruzando as pernas com elegância no sofá da suíte. — Não apenas isso. — respondeu. — Ele te quer na presidência. Fiquei em silêncio. O peso da palavra ainda pairava no ar quando ela completou, com um toque de ironia: — Como CEO, filha. Como deveria ter sido, ao invés de você ter… cometido esse pequeno deslize. “Pequeno deslize” foi assim que ela escolheu chamar meu casamento com Nathaniel Walker. Não traição, nem humilhação, nem o abandono emocional que me engoliu por dois anos. Apenas… um desvio de rota. — Ele quer que você mostre ao mercado que continua no controle. Que nenhum Walker vai apagar o brilho de uma Bennet. E, sejamos sinceras, Eliza… — ela disse, levantando-se e pegando uma taça de champanhe. — É a melhor resposta que você pode dar. Abaixei os olhos por um instante. Me perguntei se estava pronta para assumir aquele trono. Mas, no fundo, já sabia a resposta. A verdade era que aquela proposta não era apenas uma tentativa de reposição de imagem. Era uma chance de reconstrução. E eu não a deixaria escapar. Levantei o queixo. — Então está decidido. Se era pra voltar… que fosse do único jeito que uma Bennet voltaria. Em grande estilo. Com a cabeça erguida, o salto alto e o império aos meus pés. — Mas tem uma condição… — minha mãe disse, com aquele olhar contido, que sempre precedia uma notícia indesejada. Na mesma hora, senti meu corpo enrijecer. Porque é claro que havia uma condição. Sempre havia. — Pode falar, mãe. — respondi, cruzando as pernas com elegância, mas com a alma em alerta. Ela inspirou devagar, escolhendo bem as palavras. — Seu pai está agilizando o processo de divórcio. Quer te desvincular completamente do Nathan, tanto jurídica quanto socialmente. E, por isso, decidiu que você vai passar um ano fora de Nova Iorque. Um ano inteiro longe de tudo que te conecta à antiga Eliza. Será um período de reestruturação, de silêncio. E, principalmente, de preparação. Para que, quando voltar… volte pronta para assumir a presidência da Bennet Crown. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Um ano. Um ano inteira afastada da cidade, dos holofotes, de qualquer resquício da minha antiga vida. — Seu pai já providenciou tudo. Locais, segurança, uma nova equipe de imagem. Ele quer que você fique incomunicável nesse período. In-rastreável. Ele mesmo se certificou disso. — Ele apagou meus rastros? — Apagou. Inclusive os que o Nathan possa tentar seguir. Seu pai não quer apenas te proteger… ele quer mostrar quem manda nesse império. E, desta vez, a jóia principal… é você. — O Nathan não vai me procurar mãe. Ele não se importou comigo quando estávamos casados, não vai ser agora que vai fazer. Ela respirou fundo, depois se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos, como fazia quando eu era criança e precisava lembrar quem era. — Eliza… você não faz ideia da preciosidade que é. Você se entregou a um homem que só enxergava poder. Mas agora, você é o poder. E se ele for inteligente — o que sabemos que ele é — vai perceber isso tarde demais. Assenti devagar, sentindo o peso de cada palavra. Por fora, firme. Por dentro, desmoronando em silêncio. Tudo que eu quis, desde o início, era ser vista. Só isso. Ser amada, não pela herança, nem pelos diamantes, mas por quem eu era no escuro despida de joias, títulos e perfeição. Mas Nathan nunca olhou de verdade. E agora, quando ele finalmente olhar, vai ser de longe. Porque eu não pertenço mais a ele. Sou uma Bennet. Sou herdeira de um império que forja mulheres de aço. E agora, diante de tudo que perdi, descobri o que sou: a coroa. E Nathan Walker? Bom… ele pode ser rei no seu próprio castelo. Mas a partir de agora… ele é apenas meu rival.Saí do quarto de hóspedes logo cedo, fechando a porta com cuidado atrás de mim. A casa ainda estava envolta naquele silêncio típico das manhãs em Illinois, quando o dia parece pedir licença antes de começar, como se até o tempo soubesse respeitar certos limites. Desci as escadas descalça, sentindo o frio do chão subir pelos pés, despertando o corpo aos poucos. Fui direto para a cozinha. Minha mãe já estava lá, como sempre. O cabelo preso de qualquer jeito, a chaleira no fogo, o cheiro de café recém-passado preenchendo o ambiente e trazendo uma sensação quase automática de conforto. Ela se movia com naturalidade, como se cada gesto fizesse parte de um ritual antigo. Ela adorava acordar cedo. E, apesar de tudo, eu também. — Bom dia, querida — disse, sem se virar, enquanto mexia algo no fogão. — Bom dia — respondi, abrindo o armário e pegando uma caneca. O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi familiar. Denso daquele jeito específico que só existe entre quem s
A noite caiu sobre Illinois com uma calma quase familiar, mas dentro da casa a energia ainda estava viva. Depois do jantar, acabamos na sala de estar, todos reunidos ao redor da mesa de centro. Cartas na mão, risadas leves e provocativas preenchiam o espaço. Até os pais da Sophie se divertiam, trocando piadas e comentários gentis sobre as jogadas de cada um. Sophie estava ao meu lado, concentrada, franzindo levemente a testa ao analisar as cartas. Era impossível não reparar nos pequenos gestos dela — a maneira como mordia o lábio ao decidir, a forma delicada com que embaralhava e distribuía as cartas. Eu sentia cada movimento, cada olhar dela, como se cada detalhe carregasse uma promessa silenciosa. — Você está trapaceando — disse Sophie, com aquele tom irônico que sempre me fazia sorrir. — Trapaceando eu? — retruquei, mantendo o tom leve, mas deixando minha mão roçar a dela por acaso. — Jamais. Ela me lançou um olhar desafiador, e por um instante, o barulho das cartas e as vo
Depois do almoço, o clima na casa mudou de peso. Não porque as tensões tinham desaparecido elas ainda estavam ali, silenciosas, observando de longe, mas porque algo havia sido assentado à mesa. Dito. Reconhecido. Levei alguns pratos até a pia enquanto Sophie recolhia os copos. Nossos movimentos eram coordenados, quase automáticos, como se já tivéssemos feito aquilo juntos outras vezes. Às vezes nossas mãos se tocavam por acidente, breves, elétricos, e nenhum de nós comentava. — Eu lavo — disse ela, pegando o prato da minha mão. — Eu seco. — respondi, sem discutir. Ela arqueou a sobrancelha, um quase sorriso, e ligou a torneira. O som da água preenchia o silêncio entre nós. Não era desconfortável. Era carregado de coisas não ditas. Foi então que ouvi a voz do pai dela atrás de nós. — E você, Liam… — disse Robert Hart, encostado ao batente da porta da cozinha. — Pretende ficar quanto tempo em Illinois? Me virei para respondê-lo, segurando um pano de prato. — Mais uma noite. —
O almoço já estava pronto. O cheiro de comida caseira preenchia a casa inteira, misturado ao som suave da Sophie ajeitando os pratos sobre a mesa. Eu a observava de longe, encostado no batente da porta da cozinha, tentando parecer deslocado o mínimo possível naquele espaço que claramente não me pertencia. Ela se movia com naturalidade ali. Sem tensão. Sem armaduras. Era outra Sophie. Ou talvez fosse a mesma só sem o peso que Nova Iorque sempre colocou sobre ela. A porta da frente se abriu, e a voz veio logo em seguida: — Soph, cheguei. — Na cozinha! — ela respondeu sem nem levantar a voz. Poucos segundos depois, o pai dela apareceu no vão da porta. Não houve surpresa, nem pausa, nem aquela necessidade de se reconhecer depois de tempo demais. Ele simplesmente se aproximou e beijou o rosto da filha, rápido, cotidiano. — Tá com fome? — ele perguntou. — Muita. — ela respondeu. — Lava a mão que já tá tudo pronto. Ele sorriu, passou por ela, mas antes de sair, pousou a mão no omb
Fiquei parada, sentindo o peso daquelas palavras descer pelo meu corpo como uma onda lenta demais para ser evitada.Amor.Não era algo que eu esperava ouvir ali. Não daquela forma. Não agora.— Liam… — minha voz saiu instável, quase irreconhecível até para mim. — Você não pode dizer isso como se resolvesse alguma coisa.Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, atento demais, como se qualquer movimento meu fosse decisivo.— Eu não estou dizendo pra resolver — respondeu, por fim. — Estou dizendo porque é a verdade.Desviei o olhar, encarando a pia, a janela, qualquer coisa que não fosse aquele homem que acabara de transformar tudo em algo ainda mais perigoso. Porque ouvir que ele me amava não me tranquilizava. Me apavorava.— Você tem ideia do que está pedindo? — perguntei, enfim, a voz firme apesar do nó no estômago. — Você fez um acordo às escondidas com o homem mais perigoso que eu já conheci. Um homem que controla a própria filha como se fosse um ativo, uma extensão do imp
Eu ainda estava ofegante quando empurrei a porta dos fundos. A manhã em Illinois tinha aquele cheiro gelado de grama úmida e vento limpo — o tipo de cheiro que, por semanas, me fez acreditar que aqui eu estava a salvo. Joguei minhas chaves na mesinha da lavanderia, puxei o elástico do cabelo… e congelei. Vozes. Duas. Uma da minha mãe. E uma masculina. Meu pai não estava em casa, ele havia saído cedo. Meu coração acelerou antes mesmo de eu entender por quê. Caminhei pelo corredor, tentando me preparar para o que encontraria. E então virei a esquina da cozinha. Liam. Sentado à mesa da minha mãe, com uma caneca de café nas mãos. Como se fosse normal estar ali. Como se tudo em Nova Iorque, todas as preocupações e segredos, tivessem sido deixados para trás, e ele simplesmente tivesse aparecido. Minha mãe, surpresa com minha chegada, sorriu. — Sophie! — disse. — Amor, olha quem está aqui! Um amigo seu de Nova Iorque. Amigo. Meu estômago deu um nó. Ele se levantou devagar, ma







