Compartilhar

Capítulo 4

last update Data de publicação: 2025-07-04 18:26:44

A nova edição da Luxury Times estava sobre minha mesa, entregue mais cedo por Sophie com um olhar apreensivo. Não precisei abrir. A capa dizia tudo.

“Redenção” — A nova coleção da Walker & Co.

Lentamente, folheei a revista, cada página exalando a assinatura fria e calculada de Nathaniel Walker. Diamantes em cortes ousados, uma paleta sóbria, modelos com traços familiares demais. Eu reconhecia aquelas estratégias. O que ele estava vendendo… era dor envernizada de arrependimento.

Fechei a revista com calma e a empurrei para a lateral da mesa, como quem descarta um objeto irrelevante.

Então era isso. Um pedido de desculpas disfarçado de publicidade.

Voltei meus olhos ao notebook, à nova proposta de expansão da Bennet Crown para o mercado europeu. Meu tempo valia mais que uma campanha vazia da concorrência.

A porta se abriu sem anúncio. Não precisei levantar os olhos.

— O que você está fazendo aqui? — minha voz saiu firme. — Sua presença nesse prédio é estritamente proibida. Pretendo demitir cada um dos seguranças que falharam em impedir isso.

Nathaniel Walker parou no meio da sala, como se só então percebesse que invadir meu mundo de novo seria mais difícil do que esperava.

— Eliza, eu…

— Não me chame assim. Você não tem intimidade para isso, sou a CEO da Bennet Crown. E você… não é nada além de um invasor.

Ele respirou fundo, tentando manter a compostura. A mesma que costumava me desarmar e que agora só me entediava.

— Eu precisava te ver. — disse.

— Uma ligação, então. Um e-mail. Um agendamento, como qualquer outro fornecedor ou rival. — dei de ombros. — Mas isso? Isso é um ato de desespero. Quase patético.

— Eu vi sua nova campanha.

— E eu vi a sua. — caminhei até a lateral da mesa, os saltos ecoando pelo piso de mármore. — “Redenção”. Um nome apropriado, considerando o que você fez. E o que perdeu.

— Eu errei, Eliza. E estou aqui pra reconhecer isso.

— Reconhecer? — arqueei uma sobrancelha. — Você me ignorou durante dois anos. E agora aparece aqui porque viu meu rosto na capa de uma revista?

— Eu te procurei. Fui atrás de você, tentei te rastrear, mas você sumiu do mapa.

— Claro que sumi. — rebati com frieza. — Foi exatamente isso que eu quis: desaparecer da sua vida da mesma forma que você desapareceu da minha dentro daquele maldito apartamento.

Nathan recuou um passo, e eu percebi. Pela primeira vez, o CEO da Walker & Co. vacilava.

— Eliza, eu me arrependi. Eu não sabia o que sentia…

— Não sabia? — minha risada foi seca. — Você me usou, Nathaniel. Casou comigo pra destruir o legado da minha família. E quando achou que tinha vencido, me descartou como se eu fosse mais uma joia falsa no meio da sua vitrine de poder.

Ele fechou os olhos por um instante, pressionando os dedos contra a ponte do nariz.

— Eu pensei que me casando com você estaria vencendo uma guerra. Mas, no fim, perdi tudo. Inclusive você.

— Engano seu. — rebati. — Você nunca me teve.

Me aproximei, olhando nos olhos dele.

— Tudo que você teve foi uma mulher apaixonada, cega, disposta a abrir mão de um império por amor. E você desperdiçou.

Ele balançou a cabeça, os olhos brilhando como se as palavras o ferissem mais do que qualquer guerra corporativa.

— Eu quero recomeçar. Mesmo que leve anos. Eu quero reconquistar você.

Dei um passo atrás, como se criasse um espaço simbólico entre nós.

— Nathan, isso não é um jogo de recuperação de ativos. Eu não sou uma fusão estratégica. E o amor que um dia eu senti por você… foi enterrado com cada noite em que você me ignorou.

— Você está dizendo que não sente mais nada? Nem um resquício…?

Meus olhos se estreitaram. Meu tom não vacilou.

— Eu sinto.

Ele pareceu acender por um instante.

— Raiva. Frustração. Pena.

Nathan fechou os olhos como se tivesse levado um soco no estômago.

— E se eu disser que te amo?

Inclinei levemente a cabeça.

— Então guarde esse amor. Porque aqui, na presidência da Bennet Crown, não temos espaço para declarações tardias.

E então voltei para minha mesa, abri a pasta de reuniões do dia e disse, sem sequer olhar pra ele:

— A porta está logo atrás de você. Pode usá-la antes que eu chame a segurança pessoal.

Ele hesitou por um segundo. Depois virou-se em silêncio.

O som dos passos dele ecoando na sala me lembrou de tudo que já fui.

E de tudo que nunca mais seria.

Assim que a porta se fechou atrás de Nathaniel Walker, o ar na sala pareceu mudar. Mais leve, mais silencioso… mas também mais denso. Como se algo antigo tivesse sido exorcizado, e ao mesmo tempo, deixado marcas profundas no chão de mármore polido.

Apoiei as mãos na beirada da mesa. Ainda sentia o perfume dele no ar, como um fantasma insolente tentando me lembrar do que fomos ou do que fingimos ser.

“Eu te amo”, ele disse.

Como se amor fosse suficiente para apagar dois anos de abandono. Como se amor justificasse frieza, silêncio e olhares que atravessavam meu corpo como se eu fosse invisível.

Fechei os olhos por um breve momento, permitindo que a dor antiga viesse como um tremor leve, controlado. Não era mais um terremoto. Era apenas memória. Uma cicatriz que já não sangrava.

Peguei a revista novamente e a joguei no lixo com a precisão de quem descarta um acessório fora de moda. A coleção Redenção dele. Que ironia.

Redenção exige sacrifício. Exige coragem. Exige amor verdadeiro e Nathan só conhecia o amor quando sentia que o estava perdendo.

Voltei à minha cadeira de couro, imponente como um trono. Peguei a caneta, abri a pasta da próxima campanha da Bennet Crown e me forcei a voltar ao presente. Minha imagem estampava as capas mais influentes do mundo da moda e dos negócios. Eu era o novo rosto de uma geração que comandavam legados. E, desta vez, eu não estava apenas à frente de uma empresa.

Eu era a Bennet. A herdeira. A CEO. A mulher que sobreviveu ao abandono, e retornou mais valiosa do que qualquer diamante na vitrine de Nathaniel Walker.

Meu interfone tocou.

— Senhora Bennet? A reunião com os investidores internacionais começa em dez minutos.

— Ótimo, estou descendo.

Me levantei, ajeitei o blazer claro sobre os ombros e encarei meu reflexo no espelho lateral. Estava impecável. Não havia mais vestígios da mulher que um dia esperou jantar com o marido até as 23h, num apartamento silencioso demais para o amor.

Agora, o mundo inteiro me escutava.

E quem quisesse me alcançar… teria que brilhar mais do que eu.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Após o divórcio, minha ex se tornou a CEO   Capítulo 9

    Saí do quarto de hóspedes logo cedo, fechando a porta com cuidado atrás de mim. A casa ainda estava envolta naquele silêncio típico das manhãs em Illinois, quando o dia parece pedir licença antes de começar, como se até o tempo soubesse respeitar certos limites. Desci as escadas descalça, sentindo o frio do chão subir pelos pés, despertando o corpo aos poucos. Fui direto para a cozinha. Minha mãe já estava lá, como sempre. O cabelo preso de qualquer jeito, a chaleira no fogo, o cheiro de café recém-passado preenchendo o ambiente e trazendo uma sensação quase automática de conforto. Ela se movia com naturalidade, como se cada gesto fizesse parte de um ritual antigo. Ela adorava acordar cedo. E, apesar de tudo, eu também. — Bom dia, querida — disse, sem se virar, enquanto mexia algo no fogão. — Bom dia — respondi, abrindo o armário e pegando uma caneca. O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi familiar. Denso daquele jeito específico que só existe entre quem s

  • Após o divórcio, minha ex se tornou a CEO   Capítulo 8

    A noite caiu sobre Illinois com uma calma quase familiar, mas dentro da casa a energia ainda estava viva. Depois do jantar, acabamos na sala de estar, todos reunidos ao redor da mesa de centro. Cartas na mão, risadas leves e provocativas preenchiam o espaço. Até os pais da Sophie se divertiam, trocando piadas e comentários gentis sobre as jogadas de cada um. Sophie estava ao meu lado, concentrada, franzindo levemente a testa ao analisar as cartas. Era impossível não reparar nos pequenos gestos dela — a maneira como mordia o lábio ao decidir, a forma delicada com que embaralhava e distribuía as cartas. Eu sentia cada movimento, cada olhar dela, como se cada detalhe carregasse uma promessa silenciosa. — Você está trapaceando — disse Sophie, com aquele tom irônico que sempre me fazia sorrir. — Trapaceando eu? — retruquei, mantendo o tom leve, mas deixando minha mão roçar a dela por acaso. — Jamais. Ela me lançou um olhar desafiador, e por um instante, o barulho das cartas e as vo

  • Após o divórcio, minha ex se tornou a CEO   Capítulo 7

    Depois do almoço, o clima na casa mudou de peso. Não porque as tensões tinham desaparecido elas ainda estavam ali, silenciosas, observando de longe, mas porque algo havia sido assentado à mesa. Dito. Reconhecido. Levei alguns pratos até a pia enquanto Sophie recolhia os copos. Nossos movimentos eram coordenados, quase automáticos, como se já tivéssemos feito aquilo juntos outras vezes. Às vezes nossas mãos se tocavam por acidente, breves, elétricos, e nenhum de nós comentava. — Eu lavo — disse ela, pegando o prato da minha mão. — Eu seco. — respondi, sem discutir. Ela arqueou a sobrancelha, um quase sorriso, e ligou a torneira. O som da água preenchia o silêncio entre nós. Não era desconfortável. Era carregado de coisas não ditas. Foi então que ouvi a voz do pai dela atrás de nós. — E você, Liam… — disse Robert Hart, encostado ao batente da porta da cozinha. — Pretende ficar quanto tempo em Illinois? Me virei para respondê-lo, segurando um pano de prato. — Mais uma noite. —

  • Após o divórcio, minha ex se tornou a CEO   Capítulo 6

    O almoço já estava pronto. O cheiro de comida caseira preenchia a casa inteira, misturado ao som suave da Sophie ajeitando os pratos sobre a mesa. Eu a observava de longe, encostado no batente da porta da cozinha, tentando parecer deslocado o mínimo possível naquele espaço que claramente não me pertencia. Ela se movia com naturalidade ali. Sem tensão. Sem armaduras. Era outra Sophie. Ou talvez fosse a mesma só sem o peso que Nova Iorque sempre colocou sobre ela. A porta da frente se abriu, e a voz veio logo em seguida: — Soph, cheguei. — Na cozinha! — ela respondeu sem nem levantar a voz. Poucos segundos depois, o pai dela apareceu no vão da porta. Não houve surpresa, nem pausa, nem aquela necessidade de se reconhecer depois de tempo demais. Ele simplesmente se aproximou e beijou o rosto da filha, rápido, cotidiano. — Tá com fome? — ele perguntou. — Muita. — ela respondeu. — Lava a mão que já tá tudo pronto. Ele sorriu, passou por ela, mas antes de sair, pousou a mão no omb

  • Após o divórcio, minha ex se tornou a CEO   Capítulo 5

    Fiquei parada, sentindo o peso daquelas palavras descer pelo meu corpo como uma onda lenta demais para ser evitada.Amor.Não era algo que eu esperava ouvir ali. Não daquela forma. Não agora.— Liam… — minha voz saiu instável, quase irreconhecível até para mim. — Você não pode dizer isso como se resolvesse alguma coisa.Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, atento demais, como se qualquer movimento meu fosse decisivo.— Eu não estou dizendo pra resolver — respondeu, por fim. — Estou dizendo porque é a verdade.Desviei o olhar, encarando a pia, a janela, qualquer coisa que não fosse aquele homem que acabara de transformar tudo em algo ainda mais perigoso. Porque ouvir que ele me amava não me tranquilizava. Me apavorava.— Você tem ideia do que está pedindo? — perguntei, enfim, a voz firme apesar do nó no estômago. — Você fez um acordo às escondidas com o homem mais perigoso que eu já conheci. Um homem que controla a própria filha como se fosse um ativo, uma extensão do imp

  • Após o divórcio, minha ex se tornou a CEO   Capítulo 4

    Eu ainda estava ofegante quando empurrei a porta dos fundos. A manhã em Illinois tinha aquele cheiro gelado de grama úmida e vento limpo — o tipo de cheiro que, por semanas, me fez acreditar que aqui eu estava a salvo. Joguei minhas chaves na mesinha da lavanderia, puxei o elástico do cabelo… e congelei. Vozes. Duas. Uma da minha mãe. E uma masculina. Meu pai não estava em casa, ele havia saído cedo. Meu coração acelerou antes mesmo de eu entender por quê. Caminhei pelo corredor, tentando me preparar para o que encontraria. E então virei a esquina da cozinha. Liam. Sentado à mesa da minha mãe, com uma caneca de café nas mãos. Como se fosse normal estar ali. Como se tudo em Nova Iorque, todas as preocupações e segredos, tivessem sido deixados para trás, e ele simplesmente tivesse aparecido. Minha mãe, surpresa com minha chegada, sorriu. — Sophie! — disse. — Amor, olha quem está aqui! Um amigo seu de Nova Iorque. Amigo. Meu estômago deu um nó. Ele se levantou devagar, ma

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status