FAZER LOGIN— Não deixe aquele asqueroso encostar em você, Eliza. Quero você e a Bennet Crown como a estrela do congresso. — meu pai disse com aquela autoridade que fazia até executivos de meia-idade tremerem.
Respirei fundo, prendendo a respiração por um segundo. Era sempre assim antes de grandes eventos. Só que agora… agora eu era a grande aposta. A Bennet Crown apostava tudo em mim. Congresso Internacional de Joalheria de Alta Luxuosidade, na Itália. Um encontro secreto e seletivo entre os gigantes do setor de magnatas tradicionais a novos impérios do luxo. O tipo de evento onde alianças são formadas em taças de champanhe, e guerras são declaradas com olhares. E eu estaria no centro. Caminhei pelo quarto da casa dos meus pais, ajustando os brincos. Meus cabelos estavam soltos, brilhantes, caindo em ondas polidas sobre os ombros. Jovem, sim. Inexperiente, nunca mais. O vestido de corte minimalista em tom vinho realçava minha pele clara, enquanto os saltos altos ressoavam confiança a cada passo. Eu não parecia intocável. Eu era. — A atenção já vai estar voltada para a Eliza, — disse minha mãe, sentada à poltrona, observando tudo como quem já esperava que a filha se tornasse lenda. — E com a presença do Nathaniel, é claro que a imprensa vai estar em cima. Afinal… vocês já foram casados. Não reagi de imediato. O nome dele ainda provocava algo não era dor, nem saudade. Era algo mais próximo de desprezo controlado. — Que falem. — Respondi, aplicando o batom diante do espelho. — Eles estão prestes a ver uma nova Bennet. Minha mãe sorriu com elegância, mas seus olhos brilhavam com algo mais profundo. Um tipo de orgulho silencioso. — Só lembre-se, filha… quando uma mulher segura a coroa, ela não se curva. Nem para o passado. Nem para um Walker. Sorri de canto. Porque ela estava certa. E se eu ia reencontrar Nathaniel no epicentro do luxo europeu… que fosse. Eu faria isso como Eliza Bennet: herdeira, CEO, e a mulher que ele perdeu. **\** O helicóptero pousou com suavidade sobre a plataforma privada da ilha italiana. Uma semana inteira de eventos exclusivos, com os maiores nomes da alta joalheria mundial. Um santuário do luxo, onde o mar azul-petróleo era pano de fundo para alianças, contratos e vaidades cravejadas de diamantes. Desci com os cabelos soltos dançando ao vento, óculos escuros cobrindo o olhar atento, e um vestido branco de alfaiataria que exalava elegância despretensiosa. Ao meu lado, Sophie minha assistente pessoal digitava freneticamente no celular, alinhando compromissos e acalmando jornalistas por mensagem. — Estamos com uma entrevista confirmada para amanhã de manhã com a Vogue Itália. E o coquetel com os diretores da Joie de Vie está mantido. — ela murmurou, enquanto um assessor me ajudava com a bolsa da Bennet Crown. — Excelente. Quero que as peças cheguem ao showroom antes do final da tarde. Sophie assentiu e seguiu à frente com os demais da equipe, deixando-me por um momento sozinha no terraço de entrada do hotel boutique. Foi aí que eu o vi. De terno escuro impecável, óculos de sol, e com aquele ar blasé que já havia sido o meu vício e também a minha ruína. Nathaniel Walker estava ali, parado com uma taça na mão, como se o mundo não tivesse mudado desde nosso divórcio. Como se ele ainda tivesse o direito de me olhar daquele jeito. E ele olhou. Nossos olhos se cruzaram no instante em que ele removeu os óculos. Um segundo. Longo, elétrico, carregado. Ele não sorriu. Eu, muito menos. Apenas ergui o queixo e continuei andando. Um passo firme após o outro. Meus saltos ecoavam como lembretes do quanto eu havia subido desde que deixei o inferno emocional daquele casamento. Sophie notou, claro. Ela sempre notava. — Quer que eu verifique a lista de convidados do jantar principal? — perguntou com naturalidade. — Não. — respondi. — Se o nome dele estiver lá, ótimo. Ele vai assistir de camarote à nova joia do império Bennet brilhar mais do que qualquer diamante da Walker & Co. Ela sorriu de lado. Eu também. Porque o palco estava armado, e o jogo de poder estava apenas começando. — Temos um coquetel de boas vindas. — Sophie me informou. Subi para o quarto logo após o coquetel de boas-vindas. Estava exausta. A noite tinha sido um espetáculo: luzes, flashes, cumprimentos em quatro idiomas diferentes e todos os olhares sobre mim. Sophie ficou encarregada de lidar com os assessores e finalizar os detalhes com a organização do evento. Ela era eficiente como ninguém, e eu só queria alguns minutos de silêncio, longe do mundo e longe do nome Walker. Soltei os sapatos assim que entrei no quarto. Meus pés reclamavam da pressão do salto alto, e meu corpo ainda vibrava da energia do salão. Soltei o cabelo e vesti o roupão branco de seda da suíte. Caminhei até a varanda para respirar o ar da costa italiana, iluminada pela lua cheia. Foi então que ouvi a porta do quarto se abrir. Não precisei me virar. O cheiro familiar de âmbar e madeira invadiu o ambiente antes que qualquer palavra fosse dita. Devagar, me virei. Nathan estava ali. De terno escuro perfeitamente alinhado ao corpo alto e atlético, o colarinho aberto sem gravata. Os cabelos um pouco desalinhados, como se tivesse passado a mão neles momentos antes de subir. Ele tinha 32 anos e o porte de alguém que sabia comandar um império mas que agora estava parado no meu quarto, me observando como se eu fosse a única coisa que ele precisava. — Preciso muito aprender com sua equipe. — ele disse, com um sorriso quase cínico. — Me deixaram entrar outra vez. — Isso se chama incompetência. E será punida amanhã cedo. — respondi, sem alterar a voz. Ele se aproximou. Passos lentos, cuidadosos. Mas havia urgência nos olhos dele. Algo que eu conhecia e que já não me impressionava. — O coquetel foi um sucesso. — ele comentou, a voz baixa. — Você estava… radiante. Como uma joia rara em meio a zircônias. Sorri de lado. — Poético demais pra alguém que destruiu o brilho da peça que dizia admirar. — Eliza… Ele estava perto demais. Tão perto que o calor do seu corpo alcançava o meu. Eu permaneci firme, impassível. Então, ele se inclinou. O beijo foi leve. No meu pescoço. Um toque súbito, calculado. Um gesto que ele sabia que me arrepiaria, e arrepiou. Mas eu não retribuí. — Sabe o que é isso, Nathan? — murmurei, sem me afastar. — Desespero. Ele ergueu o rosto devagar, os olhos nos meus. Havia algo neles. Arrependimento. Desejo. Dor. — Eu te amei do jeito errado. Mas te amei. — E agora é tarde. — dei um passo para trás, a voz firme. — Aqui não é o seu lugar. E nem eu sou mais aquela mulher que você ignorava em jantares vazios. Ele assentiu lentamente, como se estivesse sendo golpeado com cada palavra. — Então essa é a Eliza Bennet de verdade? — Não. Essa é apenas o começo dela. Nathan olhou uma última vez antes de sair do quarto. Quando a porta se fechou, encostei na parede por um instante. Respirei fundo. Sim, ainda era difícil. Mas agora eu era a CEO da Bennet Crown. E príncipes que viram sapos… não merecem rainhas.Saí do quarto de hóspedes logo cedo, fechando a porta com cuidado atrás de mim. A casa ainda estava envolta naquele silêncio típico das manhãs em Illinois, quando o dia parece pedir licença antes de começar, como se até o tempo soubesse respeitar certos limites. Desci as escadas descalça, sentindo o frio do chão subir pelos pés, despertando o corpo aos poucos. Fui direto para a cozinha. Minha mãe já estava lá, como sempre. O cabelo preso de qualquer jeito, a chaleira no fogo, o cheiro de café recém-passado preenchendo o ambiente e trazendo uma sensação quase automática de conforto. Ela se movia com naturalidade, como se cada gesto fizesse parte de um ritual antigo. Ela adorava acordar cedo. E, apesar de tudo, eu também. — Bom dia, querida — disse, sem se virar, enquanto mexia algo no fogão. — Bom dia — respondi, abrindo o armário e pegando uma caneca. O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi familiar. Denso daquele jeito específico que só existe entre quem s
A noite caiu sobre Illinois com uma calma quase familiar, mas dentro da casa a energia ainda estava viva. Depois do jantar, acabamos na sala de estar, todos reunidos ao redor da mesa de centro. Cartas na mão, risadas leves e provocativas preenchiam o espaço. Até os pais da Sophie se divertiam, trocando piadas e comentários gentis sobre as jogadas de cada um. Sophie estava ao meu lado, concentrada, franzindo levemente a testa ao analisar as cartas. Era impossível não reparar nos pequenos gestos dela — a maneira como mordia o lábio ao decidir, a forma delicada com que embaralhava e distribuía as cartas. Eu sentia cada movimento, cada olhar dela, como se cada detalhe carregasse uma promessa silenciosa. — Você está trapaceando — disse Sophie, com aquele tom irônico que sempre me fazia sorrir. — Trapaceando eu? — retruquei, mantendo o tom leve, mas deixando minha mão roçar a dela por acaso. — Jamais. Ela me lançou um olhar desafiador, e por um instante, o barulho das cartas e as vo
Depois do almoço, o clima na casa mudou de peso. Não porque as tensões tinham desaparecido elas ainda estavam ali, silenciosas, observando de longe, mas porque algo havia sido assentado à mesa. Dito. Reconhecido. Levei alguns pratos até a pia enquanto Sophie recolhia os copos. Nossos movimentos eram coordenados, quase automáticos, como se já tivéssemos feito aquilo juntos outras vezes. Às vezes nossas mãos se tocavam por acidente, breves, elétricos, e nenhum de nós comentava. — Eu lavo — disse ela, pegando o prato da minha mão. — Eu seco. — respondi, sem discutir. Ela arqueou a sobrancelha, um quase sorriso, e ligou a torneira. O som da água preenchia o silêncio entre nós. Não era desconfortável. Era carregado de coisas não ditas. Foi então que ouvi a voz do pai dela atrás de nós. — E você, Liam… — disse Robert Hart, encostado ao batente da porta da cozinha. — Pretende ficar quanto tempo em Illinois? Me virei para respondê-lo, segurando um pano de prato. — Mais uma noite. —
O almoço já estava pronto. O cheiro de comida caseira preenchia a casa inteira, misturado ao som suave da Sophie ajeitando os pratos sobre a mesa. Eu a observava de longe, encostado no batente da porta da cozinha, tentando parecer deslocado o mínimo possível naquele espaço que claramente não me pertencia. Ela se movia com naturalidade ali. Sem tensão. Sem armaduras. Era outra Sophie. Ou talvez fosse a mesma só sem o peso que Nova Iorque sempre colocou sobre ela. A porta da frente se abriu, e a voz veio logo em seguida: — Soph, cheguei. — Na cozinha! — ela respondeu sem nem levantar a voz. Poucos segundos depois, o pai dela apareceu no vão da porta. Não houve surpresa, nem pausa, nem aquela necessidade de se reconhecer depois de tempo demais. Ele simplesmente se aproximou e beijou o rosto da filha, rápido, cotidiano. — Tá com fome? — ele perguntou. — Muita. — ela respondeu. — Lava a mão que já tá tudo pronto. Ele sorriu, passou por ela, mas antes de sair, pousou a mão no omb
Fiquei parada, sentindo o peso daquelas palavras descer pelo meu corpo como uma onda lenta demais para ser evitada.Amor.Não era algo que eu esperava ouvir ali. Não daquela forma. Não agora.— Liam… — minha voz saiu instável, quase irreconhecível até para mim. — Você não pode dizer isso como se resolvesse alguma coisa.Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, atento demais, como se qualquer movimento meu fosse decisivo.— Eu não estou dizendo pra resolver — respondeu, por fim. — Estou dizendo porque é a verdade.Desviei o olhar, encarando a pia, a janela, qualquer coisa que não fosse aquele homem que acabara de transformar tudo em algo ainda mais perigoso. Porque ouvir que ele me amava não me tranquilizava. Me apavorava.— Você tem ideia do que está pedindo? — perguntei, enfim, a voz firme apesar do nó no estômago. — Você fez um acordo às escondidas com o homem mais perigoso que eu já conheci. Um homem que controla a própria filha como se fosse um ativo, uma extensão do imp
Eu ainda estava ofegante quando empurrei a porta dos fundos. A manhã em Illinois tinha aquele cheiro gelado de grama úmida e vento limpo — o tipo de cheiro que, por semanas, me fez acreditar que aqui eu estava a salvo. Joguei minhas chaves na mesinha da lavanderia, puxei o elástico do cabelo… e congelei. Vozes. Duas. Uma da minha mãe. E uma masculina. Meu pai não estava em casa, ele havia saído cedo. Meu coração acelerou antes mesmo de eu entender por quê. Caminhei pelo corredor, tentando me preparar para o que encontraria. E então virei a esquina da cozinha. Liam. Sentado à mesa da minha mãe, com uma caneca de café nas mãos. Como se fosse normal estar ali. Como se tudo em Nova Iorque, todas as preocupações e segredos, tivessem sido deixados para trás, e ele simplesmente tivesse aparecido. Minha mãe, surpresa com minha chegada, sorriu. — Sophie! — disse. — Amor, olha quem está aqui! Um amigo seu de Nova Iorque. Amigo. Meu estômago deu um nó. Ele se levantou devagar, ma







