INICIAR SESIÓNJá passava das dez da noite quando finalmente decidi deixar o prédio do meu escritório. O vento noturno de Moscou castigava o rosto, agulhas de gelo que tentavam cortar a pele. Meu motorista correu e abriu a porta da limusine blindada que já aguardava com o motor ligado na garagem subterrânea privada.
— Para a cobertura, senhor Volkov? — ele perguntou pelo retrovisor assim que me acomodei no banco de couro. Balancei a cabeça negativamente, puxando um charuto do maço de prata no painel lateral. — Não. O homem esperou, atento. — Para o Clube Orlov. Não precisei dar maiores explicações. O Orlov era o meu estabelecimento mais exclusivo e lucrativo em toda a capital russa. Um ambiente de alto luxo onde a música eletrônica pulsava nas paredes acústicas, as bebidas eram as mais caras importadas do mundo e as mesas de carteado movimentavam milhões em uma única noite. Mas, acima de tudo, o Orlov era famoso por ter as mulheres mais bonitas e bem pagas da Bratva. Sempre que a pressão do cargo de Pakhan se tornava densa demais, eu ia até lá. Escolhia a mulher da noite, passava algumas horas fodendo de forma dura, fria, e ia embora. Nada além disso. Sem nomes, sem promessas, sem conversas fiadas após o ato. Relacionamentos amorosos apenas complicavam decisões que precisavam ser tomadas com a razão. Sentimentos criavam fraquezas perigosas. E, no meu mundo, fraquezas matavam. Eu havia aprendido essa lição da forma mais dolorosa e cedo demais na minha juventude para cometer o erro de esquecê-la agora. Quando o carro parou na entrada privativa dos fundos do clube, o gerente geral já me esperava de pé, com uma postura curvada de submissão. Caminhamos pelo corredor isolado que dava acesso direto aos andares superiores, longe do barulho da pista de dança principal. — Boa noite, Pakhan — o homem gaguejou levemente, ajeitando o terno. — A suíte presidencial já está totalmente higienizada, preparada com o seu uísque e vodca favoritos e trancada para o seu uso exclusivo. — Ótimo — respondi curto, sem parar de caminhar na direção do elevador privativo. — Estou subindo agora. Envie alguém. — Com certeza, senhor. A garota mais bem avaliada da semana já está sendo enviada para o seu andar imediatamente. Ela já foi instruída sobre as suas preferências. Subi em silêncio. A suíte presidencial era imensa, decorada em tons de preto e dourado, com uma cama king-size de lençóis de seda e uma vista impressionante da cidade iluminada. Tirei o meu sobretudo escuro, joguei-o sobre a poltrona e afrouxei os primeiros botões da camisa, revelando o início das tatuagens que cobriam o meu pescoço. Servi-me de uma dose de vodca russa destilada e esperei. Menos de cinco minutos depois, a porta se abriu com um estalo suave. Uma mulher jovem entrou, vestindo um robe de seda transparente que não escondia quase nada do seu corpo escultural. Ela tinha os cabelos longos e me olhou com uma mistura de excitação e medo contido, sabendo exatamente quem eu era. Ela fechou a porta e caminhou a passos lentos e ensaiados na minha direção, deixando o robe escorregar pelos ombros. — Boa noite, senhor Volkov... — ela sussurrou, a voz carregada de um sotaque ensaiado para seduzir. Ela se aproximou da mesa onde eu estava encostado. — Gostaria que eu fizesse uma dança exclusiva para o senhor antes de começarmos? Posso colocar uma música ou... — Não quero dança nenhuma — cortei a sua fala com a voz grossa e cortante, sem demonstrar o menor pingo de paciência para preliminares teatrais. Dei um gole na minha bebida e apontei com o dedo indicador para o chão de carpete escuro bem diante das minhas botas de couro. — Apenas ajoelhe-se aí e faça o seu trabalho. Ela engoliu em seco, os olhos se arregalando por um breve segundo diante da minha frieza dominadora, mas não hesitou. Ela sabia que desobedecer a uma ordem direta do Pakhan significaria o fim da sua carreira luxuosa — ou algo muito pior. Ajoelhou-se imediatamente aos meus pés, erguendo o olhar submisso enquanto as suas mãos trêmulas começavam a abrir o cinto da minha calça. Duas horas depois, o silêncio havia retornado ao quarto. Deixei a mulher dormindo profundamente do lado esquerdo da imensa cama presidencial. Eu sequer lembrava o seu nome, e para ser sincero, nem tinha o menor interesse em lembrar. Caminhei até a cômoda espelhada, peguei a minha carteira e joguei um maço espesso de notas de cem euros sobre a madeira, um valor três vezes maior do que o cobrado pelo clube. Dinheiro sobre a mesa. Adeus. Era um sistema simples, limpo e eficiente. Sempre fora assim que conduzi a minha vida íntima, e nunca vi motivos para mudar. Voltei para a minha cobertura particular pouco depois da meia-noite, usando o carro reserva para não chamar a atenção dos fotógrafos ou de possíveis olheiros das famílias rivais. Entrei no apartamento amplo e silencioso, sentindo o isolamento térmico cortar o frio da rua. Tirei o pesado sobretudo de lã escura, joguei-o no mancebo da entrada e comecei a desabotoar completamente a camisa com impaciência. Caminhei em direção à bancada de granito preto da cozinha americana com o objetivo de me servir de mais uma dose de uísque para encerrar a noite e finalmente tentar dormir algumas horas. No entanto, antes mesmo que os meus dedos tocassem a garrafa de cristal, o meu celular começou a vibrar de forma insistente sobre a superfície de pedra, o visor iluminando o ambiente escuro. Aproximei-me e olhei para a tela. O nome de Sergei brilhava ali. Um nó tenso se formou instantaneamente na base do meu estômago. Aquilo era extremamente estranho. Sergei era um homem metódico e conhecia a minha rotina; ele raramente ou quase nunca me ligava naquele horário da madrugada, a menos que o mundo estivesse desabando lá fora. E se ele estava quebrando o protocolo a essa hora, só poderia significar uma coisa: problemas graves na organização. Atendi a ligação imediatamente, levando o aparelho ao ouvido enquanto caminhava de volta para o centro da sala. — Fale, Sergei. Aconteceu alguma coisa de errado nos armazéns? — perguntei, a minha voz saindo dura e direta. Do outro lado da linha, a respiração do meu executor estava visivelmente acelerada, algo raro para um homem tão controlado.Poucos minutos depois, o som forte da campainha principal anunciou a chegada da segunda família convidada para a noite. As portas duplas se abriram mais uma vez e o mordomo indicou a entrada dos últimos convidados. Tratava-se da família Miller, uma das alianças mais influentes que meu irmão mantinha nos Estados Unidos, com conexões diretas na costa leste americana. Entraram o patriarca, Richard Miller, um homem de cabelos grisalhos e terno elegante, acompanhado por sua esposa, Eleanor. Logo atrás do casal, vinham os dois filhos: Thomas, um rapaz alto e reservado de ombros largos, e a filha mais nova, Chloe. Chloe Miller era a imagem perfeita da alta sociedade nova-iorquina. Usava um vestido justo de cetim vermelho com um fenda ousada, cabelos loiros perfeitamente modelados e uma maquiagem impecável. Mas o que realmente chamou a minha atenção — e me fez semicerrar os olhos no mesmo segundo — foi para onde a atenção dela foi direcionada assim que pisou na
POV: SOFIA CAPONE O ar frio da noite atingiu a minha pele no instante em que cruzamos as portas de vidro que davam acesso ao jardim. O piso de pedra desenhado entre os canteiros de rosas estava iluminado por luminárias baixas, criando uma atmosfera suave e elegante. No entanto, por dentro, eu estava queimando. A mão de Jean-Luc Laurent continuava firme na minha cintura, uma presença invasiva que me fazia querer dar um passo para longe a cada segundo. Caminhamos em silêncio por alguns metros. Eu mantinha a cabeça erguida, o vestido de tweed rosa marcando meus passos, mas meus pensamentos ainda estavam presos no olhar duro que Matteo tinha me lançado antes de eu sair da sala. — O jardim da sua família é impressionante, senhorita Capone — Jean-Luc começou, quebrando o silêncio com a voz mansa e o sotaque francês carregado de formalidade. — Bastante reservado. Um bom lugar para conversas mais profundas. — É apenas um jardim, Je
No entanto, uma onda visceral de raiva e posse subiu pelo meu peito quando vi Jean-Luc dar um passo à frente. O francês estendeu a mão com uma cortesia refinada e, sem pedir licença, colocou a mão dele na cintura de Sofia, conduzindo-a com firmeza e suavidade em direção à porta de saída que dava acesso ao jardim. A imagem da mão daquele sujeito tocando o corpo dela fez meus dedos apertarem o charuto até quase amassá-lo. Assim que os dois sumiram do meu campo de visão, soltei a respiração pausadamente para reprimir o instinto de ir atrás deles. Caminhei a passos firmes até o outro lado da sala, parando ao lado de Massimo, que observava a movimentação com um copo de bebida na mão. — Massimo — chamei em tom baixo, aproximando-me do seu ombro. — Qual é a real intenção de Vittorio nesse jantar? Massimo tomou um gole da bebida, sem desviar os olhos do salão. — Na verdade, ele marcou esse jantar para fechar um grande negócio de ex
POV: MATTEO VOLKOV Eu segurava o meu charuto entre os dedos, mantendo a postura firme ao lado do bar, enquanto o movimento na sala de estar da mansão Capone começava a esquentar. O ar estava pesado com a mistura de perfumes caros, vozes alinhadas e a tensão velada que sempre precedia grandes acordos. Mas, por mais que eu tentasse manter a minha mente focada na segurança e na diplomacia que a noite exigia, meu autocontrole foi posto à prova no exato segundo em que o som de saltos no mármore anunciou a chegada delas. Girei o rosto devagar e travei no lugar. Sofia e Giulia desciam as escadas juntas, e a visão das duas cruzando o hall cortou o meu raciocínio ao meio. Sofia usava um vestido rosa estruturado, curto e provocante, que deixava claro o quanto ela sabia o poder que tinha sobre qualquer homem naquela sala — especialmente depois da audácia que ela tinha demonstrado na madrugada na cozinha. Mas o meu olhar foi inevitavelmente puxado pa
POV: SOFIA CAPONE Passei o dia inteiro repassando cada segundo da noite anterior na minha cabeça. A revelação de que a Giulia tinha tomado a iniciativa de beijar o Matteo no jardim não me provocou um pingo de ciúmes ou raiva. Muito pelo contrário. A ideia de ver a minha amiga nos braços do russo que sempre mexeu com os meus sentidos foi incrivelmente sexy. Pensar nos dois juntos acendeu um fogo novo em mim, uma excitação deliciosa ao me dar conta de que eu não queria escolher entre um e outro — eu queria os dois para mim. Eu já era apaixonada pelo Matteo há muito tempo, acostumada com aquela postura séria e dominante dele. Mas a Giulia tinha chegado para bagunçar tudo de um jeito bom, trazendo um sentimento inédito, doce e fascinante. Enquanto me arrumava no quarto, o burburinho na mansão indicava que a noite seria longa. O meu irmão tinha organizado um jantar importante, reunindo duas famílias influentes para selar negó
Ela não se assustou. Em vez disso, deu uma risada abafada e deliciada, alisando o pulso onde meus dedos estiveram antes. — Você pode fingir que é feito de pedra o quanto quiser, Matteo — ela disse, dando dois passos para trás sem tirar os olhos dos meus. — Mas eu sei reconhecer um homem queimando por dentro quando vejo um. Boa noite, Pakhan. Ela deu meia-volta, a camisola balançando com o movimento do corpo, e desapareceu pelo corredor com a mesma facilidade com que tinha surgido. Soltei o ar pela boca devagar, deixando o copo na pia. Apoiei as duas mãos na bancada de mármore e inclinei a cabeça para baixo, tentando recuperar o controle sobre mim mesmo. Aquela casa estava se tornando um campo minado emocional que eu não tinha planejado atravessar. Deixei a cozinha e segui pelo corredor escuro em direção ao meu quarto. Quando me aproximei da base da escadaria superior, vi uma figura alta surgindo da entrada lateral. Era Serg







