FAZER LOGINPOV: SOFIA CAPONE
A tarde corria arrastada e o sol de inverno mal conseguia vencer as cortinas pesadas do meu quarto. Eu estava jogada na cama, perdida nos meus próprios pensamentos, quando a porta se abriu sem cerimônia. Minha mãe entrou com sua postura elegante de sempre, mas trazia uma expressão que misturava dever e impaciência. — Sofia, tire um tempo para escolher algo decente — ela começou, cruzando os braços. — Hoje à noite teremos um jantar formal em família. O seu irmão vai trazer uma garota para apresentar oficialmente a todos nós. Eu me joguei para trás no travesseiro, soltando uma risada irônica. — A senhora só pode estar brincando, dona Aurora — debochei, arqueando uma sobrancelha. — Massimo trazendo uma mulher para um jantar de família? O mesmo Massimo que muda de acompanhante como quem muda de terno? — Você acha que estou brincando, Sofia? — Minha mãe me encarou com aquele olhar severo que não dava margem para contestações. — Esteja pronta às 19:00. E não se atrase. Seu pai não vai tolerar nenhuma falta de modos hoje. — Estarei pronta no horário, dona Aurora — respondi, revirando os olhos com uma falsa submissão. Ela assentiu, dando as costas para sair. No entanto, quando sua mão tocou a maçaneta, ela parou por um instante, olhou por cima do ombro e soltou a informação que fez o meu coração falhar uma batida e o meu sangue congelar nas veias. — Ah, e mais uma coisa: o Matteo também virá para o jantar. Eu me sentei na cama em um sobressalto, os olhos arregalados de surpresa. — O Matteo está na Itália? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora o meu peito já estivesse batendo descompassado. — Sim, ele chegou hoje mais cedo com o seu irmão — ela respondeu de forma simples, saindo logo em seguida e fechando a porta atrás de si. Fiquei estática por alguns segundos, processando a informação. Matteo Volkov estava sob o mesmo teto que eu. Voltei a deitar na cama, mas a ironia de antes havia desaparecido por completo. Peguei o meu celular, coloquei uma música suave para tocar no ambiente e fiquei encarando o teto, sorrindo sozinha, sentindo um calor conhecido se espalhar pelo meu corpo. Eu era completamente apaixonada pelo Matteo desde a minha adolescência. Aquele russo de olhar gélido e presença brutal era tudo o que eu sempre desejei. O grande problema era que ele sempre me tratou como a irmã mais nova do seu melhor amigo, uma garotinha protegida pela máfia italiana que não oferecia perigo. Mas, quem sabe dessa vez as coisas não pudessem ser diferentes? Eu mudei. Eu cresci. Eu tinha vinte anos agora, tinha uma língua afiada e sabia exatamente o poder que a minha beleza exercia. Eu não era mais uma menina indefesa esperando por migalhas de atenção. Mais tarde, quando o relógio começou a se aproximar do horário estipulado, comecei a me arrumar. A minha missão para aquela noite estava muito bem definida: eu iria mostrar para Matteo Volkov, de uma vez por todas, que a garotinha havia ficado no passado. Caminhei até o closet e escolhi um vestido preto extremamente justo, que abraçava cada curva do meu corpo e terminava um pouco acima dos joelhos. Deixei os meus longos cabelos loiros e dourados soltos, caindo em ondas perfeitas pelas minhas costas. Caprichei em uma maquiagem leve, destacando os meus olhos verdes, e passei um batom discreto, mas que deixava os meus lábios desenhados e convidativos. Olhei-me no espelho uma última vez, respirei fundo e adotei a postura de uma verdadeira Capone. Desci as escadas de mármore com passos lentos e calculados, seguindo o som das vozes que vinham da sala de jantar principal. Assim que passei pelos arcos da entrada, avistei o grupo. Massimo estava de pé ao lado de uma mulher de aparência simples, que parecia visivelmente desconfortável sob o olhar avaliador do meu pai. — Olha só quem decidiu sair da promiscuidade e finalmente trouxe uma garota para casa! — anunciei em voz alta, aproximando-me com um sorriso aberto e provocativo no rosto. Antes que o meu irmão pudesse reclamar da minha audácia, passei por ele e puxei a jovem para um abraço rápido, quebrando o gelo da sala. Afastei-me um pouco e passei os olhos pelo corpo dela sem qualquer filtro ou timidez, avaliando-a. — E tenho que admitir, irmão... ela é uma baita de uma gostosona — comentei, sorrindo de lado. A garota corou instantaneamente, as bochechas ficando vermelhas sob o meu comentário. Eu achei graça daquela reação tão inocente. Estendi a mão para ela. — Prazer, sou Sofia Capone, a irmã mais nova do Massimo. — O prazer é meu, Sofia... — ela respondeu com a voz mansa, tentando se recompor. — Sou a Chiara Rossi... namorada do Massimo. As palavras saíram de forma natural da boca dela, mas Massimo interveio no mesmo milésimo de segundo, corrigindo-a com o tom de voz firme e possessivo: — Noiva. — Noivos? — A voz do meu pai ecoou do outro lado da mesa, carregada de um desdém cortante. Vittorio Capone arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Engraçado, eu não estou vendo anel nenhum no dedo da moça para confirmar esse título. Chiara arregalou os olhos, levando a mão ao peito em um gesto de puro pânico cênico. — Ai meu Deus, amor! — ela exclamou, olhando para Massimo com os olhos suplicantes. — Eu tinha tirado o anel no banheiro para lavar as mãos e esqueci completamente de colocar de volta no dedo. Me desculpa, querido. Que cabeça a minha... — Tudo bem, minha querida — Massimo respondeu, embora o seu maxilar estivesse visivelmente trancado. Ele pegou a mão dela, dando um aperto firme. — Só espero que isso não aconteça mais, para não darmos motivos desnecessários para o meu pai questionar a legitimidade do nosso relacionamento diante da família. — É verdade, cunhada. Meu irmão tem toda razão — comentei, segurando o riso diante do teatro instalado. Aproveitei a distração geral e girei o meu corpo na direção do homem que eu realmente queria focar naquela sala. Ele estava um pouco mais afastado, observando a cena com os braços cruzados. — Matteo. Pronunciei o nome dele de forma suave. Ele virou a cabeça lentamente na minha direção, fixando aqueles olhos azuis cortantes em mim. Caminhei em sua direção com passos firmes, exibindo um sorriso caloroso e genuíno que guardava apenas para ele. Matteo se levantou da poltrona onde estava encostado. Ele não disse nada de imediato; apenas me olhou dos pés à cabeça com uma lentidão calculada. Pude notar um lampejo rápido de surpresa passar pelas suas pupilas antes que sua expressão gélida retornasse. O vestido justo e o cabelo solto definitivamente haviam feito o efeito desejado. — Sofia Capone — ele pronunciou meu nome, a voz grossa e rouca vibrando no meu peito. Aproximei-me o suficiente para sentir o aroma do seu perfume importado misturado com o tabaco caro e o abracei de forma apertada, descansando as minhas mãos nas suas costas musculosas por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. — Que bom ver você novamente em solo italiano, Matteo — sussurrei, afastando-me minimamente, mas mantendo o meu corpo perto do dele. Ele inclinou levemente a cabeça, mantendo a postura fria e imponente. — É bom vê-la também, Sofia. Ele deu um pequeno sorriso de canto, aquele jeito de sorrir minimalista e devastador que eu achava a coisa mais linda do mundo e que só Matteo Volkov conseguia fazer.Poucos minutos depois, o som forte da campainha principal anunciou a chegada da segunda família convidada para a noite. As portas duplas se abriram mais uma vez e o mordomo indicou a entrada dos últimos convidados. Tratava-se da família Miller, uma das alianças mais influentes que meu irmão mantinha nos Estados Unidos, com conexões diretas na costa leste americana. Entraram o patriarca, Richard Miller, um homem de cabelos grisalhos e terno elegante, acompanhado por sua esposa, Eleanor. Logo atrás do casal, vinham os dois filhos: Thomas, um rapaz alto e reservado de ombros largos, e a filha mais nova, Chloe. Chloe Miller era a imagem perfeita da alta sociedade nova-iorquina. Usava um vestido justo de cetim vermelho com um fenda ousada, cabelos loiros perfeitamente modelados e uma maquiagem impecável. Mas o que realmente chamou a minha atenção — e me fez semicerrar os olhos no mesmo segundo — foi para onde a atenção dela foi direcionada assim que pisou na
POV: SOFIA CAPONE O ar frio da noite atingiu a minha pele no instante em que cruzamos as portas de vidro que davam acesso ao jardim. O piso de pedra desenhado entre os canteiros de rosas estava iluminado por luminárias baixas, criando uma atmosfera suave e elegante. No entanto, por dentro, eu estava queimando. A mão de Jean-Luc Laurent continuava firme na minha cintura, uma presença invasiva que me fazia querer dar um passo para longe a cada segundo. Caminhamos em silêncio por alguns metros. Eu mantinha a cabeça erguida, o vestido de tweed rosa marcando meus passos, mas meus pensamentos ainda estavam presos no olhar duro que Matteo tinha me lançado antes de eu sair da sala. — O jardim da sua família é impressionante, senhorita Capone — Jean-Luc começou, quebrando o silêncio com a voz mansa e o sotaque francês carregado de formalidade. — Bastante reservado. Um bom lugar para conversas mais profundas. — É apenas um jardim, Je
No entanto, uma onda visceral de raiva e posse subiu pelo meu peito quando vi Jean-Luc dar um passo à frente. O francês estendeu a mão com uma cortesia refinada e, sem pedir licença, colocou a mão dele na cintura de Sofia, conduzindo-a com firmeza e suavidade em direção à porta de saída que dava acesso ao jardim. A imagem da mão daquele sujeito tocando o corpo dela fez meus dedos apertarem o charuto até quase amassá-lo. Assim que os dois sumiram do meu campo de visão, soltei a respiração pausadamente para reprimir o instinto de ir atrás deles. Caminhei a passos firmes até o outro lado da sala, parando ao lado de Massimo, que observava a movimentação com um copo de bebida na mão. — Massimo — chamei em tom baixo, aproximando-me do seu ombro. — Qual é a real intenção de Vittorio nesse jantar? Massimo tomou um gole da bebida, sem desviar os olhos do salão. — Na verdade, ele marcou esse jantar para fechar um grande negócio de ex
POV: MATTEO VOLKOV Eu segurava o meu charuto entre os dedos, mantendo a postura firme ao lado do bar, enquanto o movimento na sala de estar da mansão Capone começava a esquentar. O ar estava pesado com a mistura de perfumes caros, vozes alinhadas e a tensão velada que sempre precedia grandes acordos. Mas, por mais que eu tentasse manter a minha mente focada na segurança e na diplomacia que a noite exigia, meu autocontrole foi posto à prova no exato segundo em que o som de saltos no mármore anunciou a chegada delas. Girei o rosto devagar e travei no lugar. Sofia e Giulia desciam as escadas juntas, e a visão das duas cruzando o hall cortou o meu raciocínio ao meio. Sofia usava um vestido rosa estruturado, curto e provocante, que deixava claro o quanto ela sabia o poder que tinha sobre qualquer homem naquela sala — especialmente depois da audácia que ela tinha demonstrado na madrugada na cozinha. Mas o meu olhar foi inevitavelmente puxado pa
POV: SOFIA CAPONE Passei o dia inteiro repassando cada segundo da noite anterior na minha cabeça. A revelação de que a Giulia tinha tomado a iniciativa de beijar o Matteo no jardim não me provocou um pingo de ciúmes ou raiva. Muito pelo contrário. A ideia de ver a minha amiga nos braços do russo que sempre mexeu com os meus sentidos foi incrivelmente sexy. Pensar nos dois juntos acendeu um fogo novo em mim, uma excitação deliciosa ao me dar conta de que eu não queria escolher entre um e outro — eu queria os dois para mim. Eu já era apaixonada pelo Matteo há muito tempo, acostumada com aquela postura séria e dominante dele. Mas a Giulia tinha chegado para bagunçar tudo de um jeito bom, trazendo um sentimento inédito, doce e fascinante. Enquanto me arrumava no quarto, o burburinho na mansão indicava que a noite seria longa. O meu irmão tinha organizado um jantar importante, reunindo duas famílias influentes para selar negó
Ela não se assustou. Em vez disso, deu uma risada abafada e deliciada, alisando o pulso onde meus dedos estiveram antes. — Você pode fingir que é feito de pedra o quanto quiser, Matteo — ela disse, dando dois passos para trás sem tirar os olhos dos meus. — Mas eu sei reconhecer um homem queimando por dentro quando vejo um. Boa noite, Pakhan. Ela deu meia-volta, a camisola balançando com o movimento do corpo, e desapareceu pelo corredor com a mesma facilidade com que tinha surgido. Soltei o ar pela boca devagar, deixando o copo na pia. Apoiei as duas mãos na bancada de mármore e inclinei a cabeça para baixo, tentando recuperar o controle sobre mim mesmo. Aquela casa estava se tornando um campo minado emocional que eu não tinha planejado atravessar. Deixei a cozinha e segui pelo corredor escuro em direção ao meu quarto. Quando me aproximei da base da escadaria superior, vi uma figura alta surgindo da entrada lateral. Era Serg







