INICIAR SESIÓNEla olhou para Dorian com um sorriso vitorioso.
— Perdeu a cabeça de vez, senhor anfitrião? — Completamente — ele respondeu, estendendo a mão. Ela aceitou. Dorian cada vez mais curioso. Francine cada vez mais... escorregadia. Ele fazia perguntas sutis. Ela respondia com meia-verdade e um sorriso. — Você é daqui? — Hoje eu sou. — Posso saber seu nome? — Pode tentar adivinhar. Dorian sorria, mas os olhos estavam em alerta. Como se cada passo dela fosse um enigma. Francine, por outro lado, dançava com leveza. Mas por dentro, o pânico já começava a bater. Foi quando, de canto de olho, ela viu Malu, meio escondida entre duas colunas, fazendo um sinal desesperado com as mãos. Francine virou pra Dorian. — Me dá licença? Preciso... ir ao banheiro. Ele assentiu, mas os olhos seguiram ela até desaparecer do salão. No corredor, Malu já a puxava pelo braço. — Mulher, você é louca?! Dançando com ele? Chamando atenção desse jeito? Como você pretende sair dessa festa agora que ele só tem olhos pra você? Francine parou. Congelou. O coração batendo descompassado. — Eu... eu não sei. Não pensei nisso. — É claro que não pensou! Você nunca pensa até estar afundada até o pescoço! — Calma, tá? Eu tenho um plano. — Ai, meu Deus... — Vou fingir um desmaio no salão. Vocês me carregam até aqui, e pronto. Sumida com estilo. — Tá doida?! É óbvio que ele vai vir atrás! E se te reconhece de perto? Francine bufou. — Tá. Então escuta... Vai lá atrás e pega o Duque. Traz ele pela coleira até o corredor. Deixa a porta só encostada. — Francine... — Ele entra, faz a bagunça de sempre, todo mundo vai correr atrás dele. Na confusão, eu sumo. — Você quer usar o cachorro do patrão como distração?! Você definitivamente enlouqueceu! — Ou isso, ou eu fico aqui esperando ele arrancar a máscara da minha cara com os próprios dentes. Malu ficou em silêncio. — Essa casa tem câmera pra todo lado, você lembra disso? Francine já ajeitava o vestido, encarando a porta com decisão. — Então deixa que eu me viro. E sem esperar resposta, voltou pro salão. Malu ficou pra trás, segurando a respiração. — Isso vai dar uma merda inacreditável... Depois que voltou para o salão, mais ansiosa do que antes, Francine bebeu como um Opala. Ela não era exatamente uma boa companhia quando bebia. Não que ficasse inconveniente. Mas ficava... muda. Calada como uma porta. Sonolenta. Lenta. A mente girando como um ventilador velho prestes a pifar. E foi exatamente nesse estado que Dorian a olhou com um pouco mais de preocupação. — Você está bem? Ela só assentiu com a cabeça, forçando um sorriso que saiu meio torto. — Acho que vou buscar uma água. E talvez algo pra você comer. Você parece... um pouco alterada. Francine piscou devagar. Um anjo soprou no ouvido dela: a chance chegou. — Obrigada — ela disse, a voz baixa, quase um sussurro. Assim que ele virou as costas, ela se levantou. Com passos cuidadosos — ou pelo menos achava que estavam cuidadosos — saiu pela porta lateral do salão. Subiu as escadas da mansão. Cada degrau parecia uma montanha. Mas ela tinha um objetivo claro na mente embriagada: Cama. Silêncio. Esconderijo. — Essa mansão tem trinta quartos — murmurou pra si mesma. — Ele desiste de procurar antes de me encontrar. Primeira porta: trancada. Do lado de dentro, gemidos bem audíveis. Francine rolou os olhos. "Nenhuma surpresa. Se tratando de um baile de máscaras do Dorian..." pensou. Segunda porta: também trancada. Terceira: vazia, mas com cheiro forte de cigarro. Ela seguiu cambaleando pelo corredor até a última porta. Girou a maçaneta. Aberta. — Finalmente — murmurou, já tirando os sapatos. Fechou a porta atrás de si, apagou a luz do abajur e se deixou cair na cama com o vestido mesmo. A máscara ainda estava no rosto, o corpo inteiro cansado. Só queria cinco minutos. De paz. De silêncio. De esquecimento. Mas Dorian não teve dificuldade em encontrá-la. A lógica era simples: ela não saiu pelos portões. Não passou por nenhum dos seguranças. Então só restava um lugar: o andar de cima. Subiu as escadas com passos firmes. E, como um cão farejador de mistérios, percorreu o mesmo caminho que ela havia feito. Corredor por corredor. Porta por porta. No último quarto, encontrou. A porta entreaberta. O salto dela largado no chão. A silhueta deitada na cama, ainda com o vestido escarlate e a máscara no rosto. Dorian sorriu de canto. — Sinto muito, senhorita escarlate... Mas no meu baile de máscaras, ninguém dorme. Por um segundo, pensou em se aproximar. Mas não era hora. Ele não era esse tipo de cara. Virou-se, fechou a porta com cuidado e desceu de volta ao salão. Ali, fez um breve discurso de agradecimento aos convidados. Clássico, direto, como se nada estivesse diferente naquela noite. Assim que os últimos pares começaram a sair algumas horas depois, ele voltou para o quarto. Abriu a porta devagar. Francine já estava sentada na cama. Assim que o viu na porta, levou a mão ao rosto, assustada, como se temesse ter tirado a máscara sem perceber. Dorian encostou a porta atrás de si, calmo como nunca. — Não se preocupe. Eu não tirei sua máscara. Ela relaxou a mão devagar, mas manteve a expressão desconfiada. — O que acontece no baile, fica no baile... né? — Exato. Ele se aproximou devagar, sem pressa. Trazia nas mãos uma pequena bandeja com frutas, pães e duas taças de água. — Trouxe comida pra mim? Que gentleman. Não conheço essa face sua. — Então já nos conhecemos? Ela soltou uma risada seca, pegando uma uva da bandeja com uma teatralidade cínica. — Não sei se posso dizer que sim. Colocou a uva na boca, mordeu devagar, os olhos fixos nos dele. Como se dissesse: eu sei jogar esse jogo. — Você parece... familiar — ele disse, sentando-se numa poltrona de frente pra ela.Chegar ao fim dessa história é estranho. Bonito, mas estranho.Foram quase seis meses acompanhando Francine e Dorian, vivendo cada tropeço, cada escolha difícil, cada reconciliação.E, no meio do caminho, Malu e Cássio surgiram quase sem pedir licença, e acabaram tomando um espaço enorme no meu coração e, espero, no de vocês também.Nada disso teria sido possível sem quem esteve aqui capítulo após capítulo, comentando, reagindo, sentindo junto.Cada mensagem, cada teoria, cada carinho ajudou a moldar essa história e deu sentido às horas passadas escrevendo.Encerrar um livro nunca é simples.Sempre dá uma dorzinha no coração, como se estivéssemos nos despedindo de pessoas que fizeram parte da nossa rotina.Mas também existe gratidão, por ter vivido isso até o fim.Espero que essa história tenha inspirado vocês a acreditarem no amor verdadeiro, mesmo quando tudo parece impossível. A confiarem em quem se ama, mas também a manterem os olhos abertos para quem está ao nosso redor, afinal ne
Cássio chegou em casa e largou as chaves sobre a mesa de madeira da entrada.O som ecoou baixo pelo apartamento silencioso.Enquanto soltava a gravata e tirava o paletó com movimentos automáticos, chamou:— Malu?Nenhuma resposta.Ele franziu o cenho, caminhou pelo corredor e empurrou a porta do quarto com cuidado, mas ainda assim, um pouco apressado.— Malu, você…— Shhhhhhh… — Malu levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio, os olhos atentos.Cássio parou imediatamente.A luz suave que atravessava a cortina na janela iluminava a cena com delicadeza.Malu estava sentada na poltrona, o corpo relaxado, a cabeça levemente inclinada enquanto amamentava a bebê.O mundo parecia caber inteiro naquele gesto.Ele se aproximou devagar, como se qualquer passo em falso pudesse quebrar aquele instante.Depositou um beijo calmo na testa de Malu, depois se inclinou um pouco mais, observando a filha.— E como você está, Cassinha? — murmurou, passando os dedos com extremo cuidado pelos fios fininhos,
Na penitenciária o curso de empreendedorismo acontecia duas vezes por semana, sempre no mesmo horário, sempre na mesma sala sem janelas, com paredes bege encardidas e cadeiras de plástico alinhadas em fileiras quase militares.Gaspar sentava-se sempre no fundo, mais por hábito do que por escolha. Não gostava de chamar atenção. Não gostava de falar. Gostava menos ainda de ouvir discursos sobre futuro.Aquele dia não parecia diferente.O educador, um homem jovem demais para estar ali, como Gaspar diria, falava sobre empreendedorismo, gestão moderna, liderança responsável. Palavras grandes para um ambiente pequeno.Ainda assim, Gaspar prestava atenção.Não por interesse real, mas porque aprender rendia dias a menos de pena, e ali dentro o tempo era a única moeda que importava.— Hoje eu trouxe um exemplo atual — disse o educador, levantando uma revista. — Um case real, brasileiro, de crescimento sólido nos últimos cinco anos.Alguns presos se inclinaram para frente. Outros bocejaram.Gas
A casa estava um caos cuidadosamente organizado.Luzes montadas na sala, cabos no chão, um fotógrafo tentando enquadrar a cena perfeita enquanto Francine mudava de posição pela terceira vez, procurando um jeito minimamente confortável de sustentar a barriga já enorme.— Amor, se eu cair pra trás, você segura — ela avisou, sem nenhuma cerimônia.— Eu seguro você, a barriga, o bebê e o fotógrafo se for preciso — Dorian respondeu, ajustando a postura no sofá.Theo, com seus quatro anos recém-completos, não parecia minimamente interessado no conceito de editorial de revista.Estava inquieto no colo do pai, girando o tronco, esticando o pescoço para procurar qualquer coisa que fosse mais interessante do que ficar parado.— Theo, amor… fica quietinho só mais um pouquinho — Francine pediu, tentando manter o sorriso.— Mas eu já fiquei quieto! — ele rebateu, indignado, como se estivesse há horas cumprindo um castigo.No colo de Francine, Matheus, com pouco mais de um ano, dormia profundamente
O impacto veio antes mesmo de atravessarem as portas de desembarque.O ar quente envolveu Francine e Malu como um abraço exagerado, quase teatral, daqueles que fazem a pele lembrar imediatamente onde está.O contraste com o inverno nova-iorquino foi tão brusco que Malu riu sozinha, sentindo o suor surgir antes mesmo de dar três passos.— Meu Deus… — Francine soltou o casaco no braço. — Assim que chegarmos em casa eu quero um banho de piscina. Pra lavar esse frio até da alma.— Você acabou de sair do avião — Malu provocou. — Já quer entrar na água?— Quero — Fran respondeu, sem culpa nenhuma. — E depois quero reclamar do calor. É o ciclo natural da vida.O caminho até a mansão foi silencioso no começo.Não um silêncio pesado, um silêncio confortável, de quem ainda estava se reajustando ao próprio fuso horário e às próprias emoções.Foi Malu quem quebrou primeiro.— Fran… eu tava pensando. — Ela apoiou o braço no vidro, observando a cidade que reaparecia familiar. — Acho que tá na hora
O acesso ao telhado foi mais simples do que Francine imaginava.Nada de tapetes vermelhos, portas escondidas ou seguranças de terno.Apenas uma porta metálica discreta no fim de um corredor pouco iluminado, o rangido suave da maçaneta sendo girada e, logo em seguida, o vento frio batendo no rosto como um aviso claro de que eles estavam muito mais altos do que deveriam.Assim que saíram, a cidade se abriu diante deles.Nova York parecia outra dali de cima.Menos barulhenta, menos agressiva.Um emaranhado de luzes pulsando em silêncio, prédios recortando o céu escuro, ruas que pareciam veias luminosas levando gente de um lado para o outro sem que eles precisassem ouvir o caos.A área coberta ocupava apenas parte do telhado, suficiente para protegê-los da chuva fina que começava a cair, quase tímida.Duas poltronas confortáveis, um sofá compacto encostado na parede, mantas dobradas com cuidado como se alguém tivesse pensado em cada detalhe.Uma mesa pequena com petiscos simples, queijos,







