Se connecterEu aceitei, não tive escolha. Ou passaria a noite inteira ali… lutando com aquela fantasia ridícula.
Me levantei, sem falar nada.
Não conseguia nem olhar para aquele homem, apertei depressa o botão do elevador, que chegou rápido, para o meu alívio.
Ele seguiu para o outro, com passos largos e apressados, nem olhou para trás. Nem eu.
No elevador, vi meu estado. Passei as mãos nos cabelos, em vão, as patas grandes e fofas não ajudavam em nada.
No térreo, desci e olhei para todos os lados, o saguão estava vazio. Eles tinham ido, respirei aliviada.
Ia saindo com a cabeça do urso sob o braço, mas parei, coloquei a cabeça de volta e caminhei até a saída.
Parei diante da porta giratória, espiando o lado de fora, então vi a garotinha, de novo, cabelos loiros, encaracolados, correndo em direção à porta… à rua.
— Ei!
Corri atrás dela, a agarrei pela cintura antes que alcançasse a saída. Ela se debateu, assustada, mas parou no instante em que me viu de urso.
Alguns homens chegaram logo depois, ofegantes. Pararam ao me ver com ela.
— Me ajuda… Ela sussurrou, se agarrando em mim. — Eles querem me levar, senhor urso…
Apertei-a contra meu corpo, instinto.
— Fica tranquila.
Ela escondeu o rosto no meu pescoço, pequena e fofa demais.
Os homens se aproximaram, apressados, quase em pânico, então...
— Amy.
A voz cortou o ar, grave e fria.
E foi ai que tudo mudou.
— Desça. Já. Ele disse, se aproximando.
Ela se agarrou mais forte.
— Coloque-a no chão. Ele ordenou.
Eu não me movi, por pânico.
— Quem é você? Perguntei, mesmo com a voz falhando.
— O pai dela. Respondeu, seco, direto, sem espaço para dúvida.
Olhei para a menina.
— Pode ir com ele… querida. É seu pai.
— Não! Ela sussurrou, desesperada. — Senhor urso, ele vai me levar para a bruxa…
Meu coração apertou, mas eu não tinha escolha. Ele era o pai e eu… só uma fugitiva.
Então olhei para a rua, sem saber o que fazer, então os vi, o coiote e seus homens, de novo. Me esperando.
Não era mais sobre dinheiro, mesmo que fosse…Eu não tinha mais nada. Eles estavam vindo e, dessa vez…
Era sobre mim, sem saída, respirei fundo. Decidi.
— Vamos, Amy. Apertei-a contra mim.
— Eu vou com você.
Encarei o homem à minha frente, embora ele não pudesse ver meus olhos, graças a Deus.
Inclinei a cabeça, falando baixo no ouvido dela:
— Me diz em que andar você está.
Sem esperar resposta, comecei a caminhar, calma por fora, tremendo por dentro. A fantasia, dessa vez, ajudou.
No elevador, Amy ainda estava agarrada a mim, ela esticou o braço e apertou o botão da cobertura. Claro, aquilo fazia sentido. Aquele homem parecia o tipo que mora acima de tudo… e de todos.
— Você não é um senhor urso… Ela disse, tocando o focinho da fantasia. — Você é uma garota, não é?
— Sou, Amy. Uma garota como você.
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
— Como você é de verdade?
Sorri, mesmo escondida.
— Quer ver?
Ela assentiu, animada. Coloquei-a no chão, tirei a cabeça do urso.
Por um segundo ela só me olhou, como se eu fosse outra pessoa.
— Você é linda… Murmurou, tocando meu rosto.
Aquilo me pegou desprevenida.
— Você é mais. Apertei de leve a bochecha dela.
Plin.
O som do elevador me fez gelar, coloquei a cabeça de volta rápido. As portas se abriram.
E ele já estava ali, parado, esperando.
A expressão fechada, que suavizou no instante em que Amy correu até ele, que se abaixou e a pegou no colo com naturalidade.
Meu olhar estreitou. Como ele chegou antes? Como pode?
— Ela não é um senhor urso, papai! Amy contou animada. — É uma garota!
— Hum. Ele murmurou, sem surpresa, sem reação.
Virou-se para sair.
— Espera! Amy apertou o pescoço dele. — A senhora urso pode ficar comigo hoje?
Ele parou e respirou fundo. Paciente…mas claramente no limite.
— Não, Amy. A senhora urso precisa ir para casa.
— Mas eu queria uma história…
— Amy. O tom mudou, sutil. — Já está tarde.
Dei um passo para fora do elevador, Amy estendeu os bracinhos para mim, os olhos brilhando, marejados.
E, lá embaixo…
Aqueles homens ainda estavam lá, me esperando. Minha bolsa…havia ficado na loja, estava sem dinheiro e sem saída.
Respirei fundo.
— Eu não tenho pressa. Falei. — Posso te contar uma história… se você prometer não fugir mais.
— Eu prometo! Ela disse rápido. — Se você ficar!
— Você já tem babás. Ele disse, agora ele me olhava, olhos frios. Avaliando.
— Não são babás… Amy sussurrou. — São bruxas. Elas comem criancinhas.
Quase ri.
— Amy… Ele a repreendeu.
— Certo. Falei, entrando no jogo. — Eu fico hoje. E amanhã seu pai descobre se elas são bruxas.
Ela sorriu, com um sorriso, daqueles que desmontam qualquer defesa.
Fiz joinha e ela me imitou.
Ele observava, em silêncio, me medindo, calculando. Então olhou para os homens ao fundo.
— Podem ir.
Eles hesitaram, mas foram.
Ele voltou o olhar para mim, senti um frio na espinha.
— Está bem, Amy...— Só hoje.
Entramos, o apartamento era enorme, rico demais, frio.
Amy me puxou.
— Vem!
Ela quase me arrastou, não tive escolha. O quarto dela era branco e rosa, organizado. Bonito, sonho de toda garota.
— Estou com fome. Disse-me. — Vamos tomar banho e depois comer.
— Eu te ajudo. Encostei a porta, tirei a cabeça do urso e a fantasia.
Minha roupa estava encharcada de suor, respirei fundo. Ar, finalmente.
Enquanto ela tomava banho, fui até o espelho. Quase não me reconheci, cansada, desgastada. Sempre alerta.
Lavei o rosto, sequei e arrumei os cabelos, não por mim, por ele, porque eu tinha certeza…
Ele reparava em tudo.
Amy saiu, ajudei com o pijama, ela me olhou.
— Eu não tenho roupa pra você… mas talvez...
E saiu correndo.
— Amy?
Tarde demais, suspirei e fui atrás, sem jeito.
No corredor…
Ele apareceu, vestindo calça preta e camiseta branca, simples, só que não, nada ali era simples.
Meu olhar demorou, no peito dele. Quando percebi, ele já estava me olhando, silencioso.
Sabendo exatemente o que eu estava olhando.
O calor subiu pelo meu rosto.
— Ela saiu… foi buscar alguma coisa. Gaguejei...
Péssimo.
— Eu estava com ela e...Hesitei, foi pior.
— Eu... Qualquer coisa que eu dissesse só piorava. Calei a boca.
Por dentro…
Só conseguia pensar no quanto aquilo estava ridículo.
A personalidade, o nome e o carisma de Samir eram suficientes para que fosse respeitado. No fim, Ada havia sido uma boa escolha. Era uma mulher do povo, bonita, tranquila e sem ambições de poder. Talvez justamente por isso pudesse oferecer ao filho algo que posição alguma seria capaz de lhe dar: um lugar para onde voltar depois de suas batalhas. Um lar.Era assim que deveria ser.O emir soltou uma breve risada depreciativa de si mesmo. Cada vez que pensava na própria casa, sentia menos vontade de voltar para ela.Quando chegaram ao Carmen de los Mártires, ele diminuiu os passos.Não conhecia o lugar e, por alguns instantes, apenas observou.As flores brancas acompanhavam o caminho até o pátio, misturadas às flores de laranjeira. A arquitetura, os jardins, a luz e os desenhos projetados pelas celosías criavam uma atmosfera que lhe era estranhamente familiar. Estavam longe de Dubai, mas havia ali elementos capazes de aproximar os dois mundos.O emir olhou para o filho.Aquilo tinha a ma
Pouco a pouco, porém, as conversas diminuíram.Os convidados tomaram seus lugares. Os fotógrafos se posicionaram. Os jornalistas autorizados permaneceram nas áreas que lhes haviam sido destinadas.A luz começava a mudar.O sol já não incidia diretamente sobre o pátio como algumas horas antes. Descia lentamente, tornando-se mais dourado, atravessando os recortes das celosías e projetando desenhos delicados sobre o chão e as paredes.Um dos responsáveis pelo cerimonial se aproximou de Samir.— Senhor, está na hora.Samir respirou fundo.Youssef tocou seu ombro antes de se afastar.Samir caminhou até o lugar que lhe fora reservado diante do altar.Quando se virou para os convidados, encontrou tantos rostos conhecidos que por um instante apenas os contemplou. Richard e Maycon estavam ali. Youssef ocupava seu lugar. Ali finalmente havia parado de correr de um lado para outro. Seu pai o observava da primeira fileira.Pessoas que haviam atravessado partes diferentes de sua vida estavam reunid
Seu traje estava preparado.A kandura branca caiu impecavelmente sobre seu corpo. Depois vieram a ghutra, o agal e, por último, o bisht escuro com os acabamentos dourados que marcavam não apenas a solenidade daquele dia, mas também sua posição.Do lado de fora, os primeiros convidados começavam a chegar. Os jornalistas autorizados conferiam seus equipamentos e credenciais, enquanto os fotógrafos ajustavam as lentes e voltavam a testar a luz. Funcionários verificavam as flores, alinhavam as cadeiras e conferiam cada detalhe das mesas.O perfume das rosas e das flores de laranjeira continuava espalhado pelo pátio com a ajuda da brisa suave.Samir estava terminando de ajustar uma das mangas quando ouviu a porta abrir.Ao olhar pelo espelho, viu o pai.O emir entrou e fechou a porta atrás de si.Nenhum dos dois falou imediatamente.Samir se virou.Por alguns segundos, apenas se olharam.Havia coisas demais entre os dois para caberem naquele momento: sua mãe, Latifa, as discussões, os anos
Ada deixou escapar uma lágrima. Samir sorriu ao vê-la e, depois de mais um olhar demorado, deixou o quarto.Ela permaneceu parada por alguns instantes antes de caminhar novamente até o vestido. Era tão bonito que não parecia real. Tocou com cuidado os relevos dos bordados, acompanhando com a ponta dos dedos os arabescos formados por fios de seda e pequenos cristais. Depois passou a mão por baixo do véu translúcido, salpicado por minúsculos pontos de brilho que captavam a luz.Sentiu o peito apertar e o coração parecer pequeno demais para tudo o que estava sentindo.Nunca, nem em seus sonhos mais distantes, imaginara algo parecido. Durante grande parte da vida, seus desejos haviam sido simples, limitados ao que conhecia e ao que acreditava ser possível. E agora havia um vestido feito especialmente para ela, um homem que a esperaria diante de um altar e uma vida que ainda parecia grande demais para caber em sua imaginação.Ouviu passos e se virou. Duas das mulheres entraram no quarto.—
As mulheres conduziram Ada para uma sala tranquila, onde uma pequena mesa já estava preparada com chá, frutas e alguns doces delicados. Ela se sentou ainda olhando ao redor, curiosa com tudo aquilo, enquanto uma das mulheres lhe servia o chá.Depois de alguns minutos, mostraram-lhe outro cômodo. Havia uma grande banheira onde a água borbulhava suavemente, perfumada com óleos e flores.— Tire a roupa — disse uma delas com naturalidade.Ada arregalou os olhos.— O quê? — gaguejou, segurando imediatamente a própria roupa.As mulheres sorriram.— Não quer ficar ainda mais linda para seu noivo? Ele pediu que cuidássemos de você como uma joia preciosa. Viemos de Dubai especialmente para isso.— De Dubai? — Ada olhou de uma para a outra. — Por que Samir faria isso?— Porque o sheik está apaixonado. Você é uma mulher de muita sorte. Ele a ama como nunca vi um noivo amar alguém.Ada abaixou os olhos, sem saber o que responder.— Eu não sei...— Nós também cuidamos da sua amiga Amine.Ada levan
Depois do café, os dois saíram. Samir dirigiu sem pressa pelas ruas de Granada e, em determinado ponto do caminho, parou em um mirante.— Venha.Ada desceu do carro e caminhou com ele até a mureta. Dali, o vale se abria diante dos dois, banhado pela luz suave da manhã. O vento tocou o rosto de Ada, movimentando seu véu e as pontas de sua roupa. Ela ficou alguns instantes em silêncio, apenas olhando.Samir se aproximou por trás e passou os braços ao redor dela. Ada recostou-se contra seu peito. O sol da manhã os aquecia suavemente, enquanto o vento continuava soprando sobre o vale.— É lindo — ela murmurou.— É.Mas Samir não estava olhando para a paisagem. Ada percebeu e virou um pouco o rosto.— Você nem está olhando.— Estou olhando para o que me interessa.Ela sorriu e abaixou os olhos, ainda tímida diante de algumas coisas que ele dizia.Pouco depois, voltaram para o carro. Ada seguiu animada durante todo o caminho, observando as ruas, as construções e apontando uma coisa ou outra







