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3- Tem um nome?

Autor: luproencio
last update Fecha de publicación: 2026-04-04 03:23:50

Eu estava ali diante dele, me sentindo uma boba que invadira a casa sem convite, uma estranha dentro de uma fantasia ridícula e, tecnicamente… usando a filha dele para me esconder.

Meu estômago apertou, e o coração batia tão rápido que parecia querer sair pela boca.

— Eu não… Comecei, sem saber exatamente o que dizer, então respirei fundo, tentando me manter firme, mas o olhar dele sobre mim não ajudava.

De repente a voz de Amy cortou o corredor.

— Encontrei!

Me senti salva, como se um gongo tivesse soado no momento certo. Ela vinha correndo, com um sorriso lindo, segurando algo que parecia um pijama.

Ele desviou o olhar para a filha e, logo depois… voltou para mim.

— Consegui! Amy disse, ofegante. — Espero que sirva, senhora urso.

— Não precisava, Amy, eu posso...

— Pegue. A voz dele me interrompeu, era calma, mas firme, sem espaço para recusa.

Meu corpo travou, ele me olhou de cima a baixo, não era exatamente julgamento… mas também não era acolhimento. Era uma análise fria, detalhada demais para ser confortável.

Engoli em seco, por um instante, me senti completamente deslocada, como se não pertencesse àquele lugar e, na verdade, não pertencia mesmo.

Amy, na sua inocência, não percebeu nada. Apenas segurou minha mão novamente.

— Vem! Vamos lá, me puxou de volta para o quarto, dei dois passos, mas antes de entrar, olhei por cima do ombro. Ele ainda estava lá, no mesmo lugar, nos observando, em silêncio.

Então segui Amy, a porta se fechou atrás de mim, meu coração ainda batia acelerado.

Tomei um banho e lavei os cabelos. A água quente escorrendo pelo corpo dissolveu um pouco da tensão que eu carregava nos ombros.

Fiquei ali alguns segundos a mais aproveitando o calor, o cheiro do gel de banho… apenas aproveitando aquela sensação tão boa.

Quando saí, Amy já me esperava, animada. Insistiu em me ajudar com o secador. Ela penteava enquanto eu segurava o aparelho, como se estivesse brincando com uma boneca.

Sorri sem perceber.

Ela abriu uma gaveta, escolheu uma presilha e prendeu no meu cabelo com delicadeza.

Depois pegou um brilho labial e passou em mim, sem pedir, de forma tão natural que me pegou desprevenida.

Peguei da mão dela… e passei um pouco nela também, ela sorriu, feliz, daquele jeito puro que não pede nada em troca.

Quando saímos do quarto, passei pelo espelho e parei, o pijama de cetim dourado, com detalhes pretos, caiu melhor do que eu esperava. Era macio, leve… e caro. Muito caro.

O cheiro do sabonete ainda estava na minha pele. Fechei os olhos por um instante, era fácil. Perigosamente fácil… se acostumar com aquilo.

A culpa veio rápido, mas eu a afastei, não estava pegando nada, só… existindo ali, por algumas horas, uma troca doava um pouco de tempo a Amy e em troca escapava dos homens que estavam lá fora.

Amy e eu seguimos pelo corredor, eu descalça, ela de pantufas.

Quando entramos na sala de jantar, o desconforto voltou imediatamente. Ele já estava lá, sentado, olhos sempre em mim.

A sensação era quase física, como se eu estivesse exposta, nua. Como se ele pudesse ler cada pensamento meu.

Endireitei a postura, tentando disfarçar o incômodo, parecer à vontade,  então o olhar dele desceu para meus pés descalços e subiu lentamente pela roupa, avaliando. O pijama estava um pouco largo, mas servia.

Ele soltou o ar devagar, cansado… ou se controlando, não sei dizer, ele não disse nada, apenas se levantou e saiu.

Fiquei tensa, sem saber o que esperar.

Voltou segundos depois com um par de chinelos e os deixou perto dos meus pés, sem me encarar diretamente.

A esta altura Amy já estava sentada à mesa, animada, sorrindo. Percebi que sempre que ele olhava para ela… mudava, suavizava, era quase outra pessoa.

Duas versões no mesmo homem.

Observei em silêncio, ainda em pé, sem saber onde sentar ou o que fazer, mas com os chinelos nos pés.

Ele se sentou à cabeceira, Amy claramente já sabia o lugar dela, sentou-se ao lado dele.

— Não vai se sentar, senhora urso? Disse ele. O tom era leve, mas havia algo ali. Uma ironia sutil, quase provocação.

Assenti,  sem jeito, dei um passo na direção de Amy, mas ele apontou para a cadeira ao lado dele, de frente para ela.

Hesitei, aquele não deveria ser o lugar da esposa? Onde ela estava?

 Me sentei e afastei o pensamento, não era da minha conta, eu só precisava passar aquele tempo… e ir embora. Só isso.

A mesa estava impecável, com talheres e taças demais. Por um instante, lembrei das aulas da senhora americana que conheci quando fugi do abrigo na Rússia. Respirei,  eu sabia o suficiente para não me expor ainda mais.

— Espero que goste do jantar, senhora urso. Disse Amy, animada. — É o meu favorito. Levando uma garfada generosa à boca.

Ele a observava, atento.

Sorri e peguei o garfo também e levei à boca.

E…Meu Deus! Era incrível.

— Hm… Deixei escapar. — Amy, isso está delicioso. Acho que também vai virar o meu prato favorito.

Ela abriu um sorriso orgulhoso, como se tivesse feito aquilo sozinha, soltei um riso leve e mais uma vez por alguns segundos… esqueci tudo. 

Onde estava, quem eu era e o que me esperava lá fora.

Então senti o olhar dele: Direto. Analítico.

Levantei os olhos por um instante, prendendo a respiração, mas sustentei o olhar.

Amy estava feliz e provavelmente, eu nunca mais veria nenhum dos dois, então, se aquelas horas podiam ser leves… eu faria valer a pena. 

Por ela...E, talvez… um pouco por mim também.

O silêncio se instalou, quebrado apenas pelo som dos talheres.

— Acredito que a senhora urso tenha um nome… não é? Ele falou com calma, erguendo a taça e tomando um gole de vinho. Elegante, controlado, até o gesto parecia calculado.

Engoli em seco, minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.

— Irina.

Amy levantou o rosto imediatamente.

— Irina! Repetiu, animada. — É bonito!

Sorri e agradeci.

— Obrigada. 

— Irina… Ele repetiu também.

Mas, diferente dela, não havia leveza. O nome saiu lento, quase soletrado, como se ele pensasse sobre. Os olhos dele permaneceram em mim, fixos. A sobrancelha levemente arqueada, como se já soubesse algo, ou desconfiava.

Meu coração falhou uma batida… e quando voltou, voltou fora do ritmo. Peguei a taça de água e bebi, quase engasgando.

— Nina. Amy disse de repente.

Ele olhou para ela. Eu também.

— Nina? Repeti.

— Sim. Ela assentiu, satisfeita. — Vou te chamar de Nina.

Fiquei surpresa, Nina era mais fácil. Mais leve. Menos perigoso.

— Tudo bem. Concordei sorrindo.

Amy já falava de outra coisa, distraída e eu prestava atenção, mas ainda senti. Mesmo sem olhar para ele, a atenção dele sobre mim não tinha desaparecido.

Só tinha recuado por um instante...Como alguém que espera, paciente, o momento certo. O predador versus a presa.

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Último capítulo

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